1001 cartas para chegar até você

12 Capítulo 12 – Se não é você, quem?


A corte da Princesa Layla Al-Jamilla aguardava ansiosa o mercador de Zenóbia. Quando este entrou no salão, serviram-no um banquete, do qual não comeu nada que uma mordida e não tomou nada além de um gole e sem mais delongas prosseguiu:

O ferreiro Mannu já esperava por Farhad Al-Naim quando este chegou à oficina. Parou de trabalhar na peça que martelava e girou o corpo para ficar de frente para o recém-chegado. No semblante rude do ferreiro estendia-se um largo sorriso. Era um homem alto, cuja pele estava marcada pelo fogo: várias pintas destacavam-se no tom bronzeado. Os braços eram duas massas musculosas e densas, tão grandes quanto o corpo de uma criança. As pernas também eram grossas e caminhavam sólidas, capazes até de fazer o solo tremer. O corpo todo de Mannu era bastante pesado, como o de um elefante, imponente. Contrastavam na figura os olhos gentis e o sorriso quase infantil. O ferreiro gigante fazia-o lembrar de um carvalho: raízes firmes, tronco grosso a sustentar numerosas galhas de uma copa frondosa, repleta de folhas delicadas e de frutos pequeninos. Uma silhueta impressionante.

Mannu chamou pela esposa para que servisse algo para o convidado. Farhad Al-Naim agradeceu a hospitalidade, refletindo como abordar o assunto. A mulher, comparada ao marido, era pequena e graciosa, ligeira como um pardalzinho. Sorria contente ao trazer para os dois: pão, queijo e vinho. De pronto, arrumou a mesa e indicou ao convidado onde se sentar. Mannu acompanhou-o na refeição, conduzindo a conversa. Farhad mantinha-se tímido.

O anfitrião falava-lhe da carta recebida enquanto servia o vinho. “A Fada Jandira Al-Nour avisou-me de sua visita e pediu-me para fabricar a espada para ti. Para mim, hoje é dia de festa, ela me perdoa. E se estas aqui, é porque saiu bem-sucedido. Que encontro deve ter sido! Não nego a surpresa, duvidei que saísse de lá vivo... Não só sobreviveu como Harb Sayida a te ofereceu um portal!” Ria-se satisfeito com o sucesso inesperado do rapaz.

Farhad Al-Naim tomou um gole do vinho para limpar a boca e falou: “Sobrevivi graças aos presentes mágicos da Fada Jandira Al-Nour. Senão fosse por essa poderosa pele de urso e pela rosa de gelo, não creio que teria sobrevivido ao encontro com a Senhora dos vulcões... Felizmente, a Fada Harb Sayida concedeu-me o benefício de sua confiança...” tirou da bolsa a esfera e o saco de moedas “Venho até vós para pedir que forjais com esta matéria-prima a espada que necessitarei. Também trago o pagamento que a Fada Jandira oferece por vosso serviço.” O ferreiro Mannu sorriu largamente vendo o material para a espada, ignorando o pagamento: “Ser útil para a libertação da Venerada Jandira Al-Nour é pagamento suficiente.” Sentia-se honrado de trabalhar com um elemento tão maravilhoso, ainda mais se em benefício da Fada. Levantou-se e pôs-se a trabalhar de imediato, já que havia um senso de urgência.

A resposta dele deixou Farhad Al-Naim intrigado. Tomando um último gole do vinho, levantou-se e aproximou-se do ferreiro para perguntar-lhe: “Se posso perguntar-vos, o que fizestes para ansiar o perdão da Fada Jandira Al-Nour?” Absorto em sua atividade, o ferreiro tinha consternação nas palavras: “Lembra-te da gaiola? Penso que não. Vieste a mim há tantos séculos, na pele de Said Al-Faruk, que agora é pó. Tu não te recordas, não é mais o mesmo homem que encontrei, mas eu bem me lembro. Como poderia esquecer tamanho arrependimento?” A pausa marcada do ferreiro indicava que naquele instante lembrava-se do que tinha acontecido.

Prosseguiu: “Um dia veio para me pedir uma gaiola grande. Convenceu-me de que era para um pássaro lendário. Tolo, cai na armadilha. Por um deslize, Said Al-Faruk admitiu que seria para uma Fada. Tentei dissuadi-lo, mas ele argumentou que se a poderosa Fada Jandira Al-Nour não quisesse ser presa na armadilha, ela jamais cairia... Ouvi em suas palavras a voz de Muhtal Al-Jinni e dei-me conta de que se não fosse por minhas mãos, encontrariam outra forma de aprisioná-la. Cobrei-lhe um preço que pagasse com sacrifícioe exigisse tempo para reflexão. Ele cumpriu a parte dele no acordo, então cumpri a minha. O resto já sabes... E aqui estou contente em ajudar-te, pois é para mim também a redenção.”

Depois de escutar atento e absorver palavras do ferreiro, Farhad Al-Naim pôde apenas responder-lhe com um sorriso singelo e envergonhado: “Em nome de Said Al-Faruk, peço-vos perdão. Ainda que eu não me recorde dos erros do passado, isso não os torna menos graves. Envergonha-me que tenha vos envolvido em um esquema atroz. Serei eternamente grato a vós por me ajudar a libertar a Fada Jandira Al-Nour. Ao menos me consola que já conquistastes o merecido perdão.” O ferreiro virou o rosto para o rapaz e sorriu satisfeito com suas palavras, voltando prontamente para o serviço.

Enquanto trabalhava o material que a Fada Harb Sayida lhe dera, Mannu procurava entender o rapaz: “Posso ver que não é mais aquele que veio até mim pedir com um esquema vil. Considero-te mais sábio e honrado, por isso quero-te amigo. Diga-me com sinceridade: por que está seguindo uma viagem tão perigosa?” A pergunta direta do gigante o fez hesitar, refletindo sobre o que responder. Por fim, disse: “Porque, além da redenção, busco livrar a Fada Jandira Al-Nour do mal causado. Assombra-me a dor que ela suportou pelos séculos em razão do feitiço de um inconsequente. Não me parece justo deixá-la sofrer mais uma vida ou a eternidade por uma escolha infeliz...”

Sem olhá-lo, Mannu indagou, com a voz grave e pesada: “Então és movido pelo remorso?” Novamente, Farhad Al-Naim sentiu-se sem palavras. Replicou firme: “Não, senhor, não me deixo guiar pela culpa, pois ela não tem a força de me impulsionar nesta viagem longa. Quero merecer o amor da fada Jandira Al-Nour.” A tréplica de Mannu foi instantânea: “Desejas agora ser o herói salvador e conquistar dela o afeto por meio da gratidão? Motivam-te os louros da vitória?” A resposta de Farhad soou melancólica: “Não serei jamais o herói da história onde comecei como um vilão. Não me orgulho de ter que consertar um erro que não precisava existir. Principalmente porque ele fizera vítima a Fada que amo... O que me motiva é a esperança. Ao vê-la livre, comemorei como o senhor um dia de festa. E serei mais feliz se ela me supor merecedor de seu amor...” Comovido pelo sentimento singelo e honesto do rapaz, o ferreiro trabalhou com afinco.

Das mãos de Mannu, surgia uma espada magnífica, de um tom prateado bastante claro, com rajadas de cinzas que se mesclavam harmoniosamente. Leve como uma pluma, cortava o ar com uma lâmina afiada. Tinha o corpo fino, mas a aparência frágil da arma enganava quanto ao seu potencial mortífero. Para aprender a empunhá-la, Farhad Al-Naim treinou sob os comandos de Mannu, mas supreendentemente o sapateiro de Girah era naturalmente bom. A espada e ele complementavam-se perfeitamente. Como poderia ele ser excelente se manuseava tal arma pela primeira vez na vida? “Porque ela era mágica”, dizia com um sorriso modesto a qualquer um que perguntasse. Antes de partir, pediu a Mannu que lhe indicasse o caminho até o alazão voador. Explicou-lhe que o animal estava na região de Shankrir, sendo possível ainda naquela noite acompanhar uma caravana que viajava para lá. Farhad agradeceu profusamente e pôs-se a caminho da cidade.

Viajou com a caravana por três noites. Nas portas da cidade topou com um homem que lhe ofereceu as respostas que buscava: Zyan, o corcel que era veloz como vento, era o terror de Shankrir; como um tufão que tudo arrasta, pisoteou casas, comércios, pessoas e animais. Não poupou nada que estivessem em seu caminho. Era selvagem e violento como uma força natural deve ser. Há alguns dias, o salvador de Shankrir conseguiu capturá-lo e agora estava preso nos estábulos do rei, sem ninguém conseguir domá-lo.

Diante do rei de Shankrir, Farhad Al-Naim ajoelhou-se humilde pedindo a oportunidade de domar o alazão. A corte toda gargalhou como se fosse ele um palhaço. Julgavam-no fraco, jovem e tolo demais para a tarefa. O rei declarou absoluto: “De que me serve uma montaria que não posso usar? Se conseguires domá-lo, é para mim vantagem. Pois então tente a sorte. Contudo, rapaz presunçoso, duvido que terás mais sorte do que os cem homens que vieram antes de ti.” Aceitado o desafio, o rei ordenou a um servo que o conduzisse até o estábulo. Lá encontrou o corcel amarrado de tal forma castigada.

Zyan tinha a pelagem branca, tão pálida que devia sumir quando ele passava veloz, tornando-o invisível. O corpo era alto e esguio, as patas, compridas e finas. De pé, Zyan e Farhad Al-Naim tinham quase a mesma altura, os olhos do rapaz encontravam os do cavalo na mesma linha. Encarando-se, percebeu no olhar do animal tristeza e raiva. Suas quatro patas estavam amarradas por correntes pesadas, cujas pontas eram presas a bolas de chumbo fundido. Apesar de veloz, não parecia ser um animal forte, como seria um touro. Não saía do lugar. Vestia uma mordaça para não causar mais acidente algum, já que mordia como um cão raivoso. O menino do estábulo que o acompanhava na inspeção disse também que Zyan não comia, que devia viver alimentado pelo próprio ódio. Farhad sentiu pesar.

Ignorando os avisos do menino, tirou a mordaça incômoda do animal. Acariciando levemente sua cabeça, pediu-o que ao menos o escutasse. Zyan encarava-o com raiva, mas curioso. O rapaz tirou da bolsa uma das maçãs de rubi. Os olhos do corcel brilharam e ele abocanhou a fruta de imediato. Enquanto mastigava, Farhad Al-Naim dizia-lhe como se sussurrasse: “Pobre animal, não respeitam tua natureza livre, te amordaçam para que sucumbas aos desejos deles... Esperava encontrar-te livre, Zyan... Gostaria de te fazer apenas um pedido antes de libertá-lo: preciso chegar ao Extremo Sul e somente tu serás capaz de me levar até lá. Imploro que me ajude. Confio que entendes minhas palavras e que cumprirá sua parte do acordo.” Zyan fechou os olhos concordando.

O menino do estábulo chamou-o de louco e desesperou-se quando o viu desfazendo as amarras que prendiam o corcel. “Não se pode confiar em um animal selvagem nem na força da natureza. Esse animal caprichoso vai te trair assim que estiver solto, vai correr como o vento e nada nem ninguém mais o alcançará.” Farhad Al-Naim não hesitou. Só cabia a Zyan cumprir com sua parte do acordo, já que ele fazia a sua. O menino correu para a saída, indo buscar ajuda e fechar a porta. Vendo-se livre das amarras, o cavalo primeiro arrumou as patas, trotando inseguro, depois correu livre pelo estábulo, rondando-o em busca de saída. Sentiu-se traído quando viu a porta fechada. Farhad correu em sua direção, não para tentar subjugá-lo ou montá-lo, apenas abriu a porta. Zyan aproveitou a oportunidade para fugir sem olhar para trás. O menino vinha com mais dois homens que gritavam com Farhad, repreendendo por ter libertado a fera, condenando-o por ser tolo. Vinham prendê-lo para ser julgado pelo rei.

Reagindo sem muito pensar, Farhad começou a correr. Implorava pela ajuda do animal, chamando por seu nome a plenos pulmões. Tirou da bolsa a segunda maçã de rubi e assoviou para o cavalo. Como uma lufada de vento Zyan mordeu a maçã que Farhad erguia por cima de sua cabeça. Tão logo que apareceu, fugiu. O sentimento de decepção invadiu o rapaz, mas não durou muito. O cavalo parou de frente para si, interrompendo seu caminho. Abaixou-se o suficiente para que Farhad pudesse montá-lo facilmente e assim fugiram antes que a guarda real pudesse alcançá-los.

A velocidade que o animal imprimia era sobrenatural. A paisagem distorcia-se em longos rasgos indecifráveis. Agarrando-se a Zyan, Farhad Al-Naim tentava ao máximo não cair dele. Para conseguir mais segurança, enroscou os braços em torno do pescoço do animal.

Pisaram em terra firme depois do equivalente a dois dias. No Extremo Sul, o cavalo parecia não ter a destreza para se guiar pelo terreno. Pararam em uma ilhota de gelo, onde Farhad Al-Naim desmontou do cavalo. A crina branca e brilhante de Zyan ondulava revoltosa ao vento gélido. A respiração tanto do rapaz quanto do corcel condensava-se em nuvens de vapor bem visíveis e seus corpos tremiam incomodados pelo frio. O branco do chão e a névoa se misturavam a ponto de não se saber distingui-las. A escuridão cinzenta transmitia tristeza à solidão inóspita. Antes de despedir-se, Farhad agradeceu profusamente Zyan pela ajuda. Deu a ele a terceira maçã de rubi e recomendou: “Toma bastante cuidado, amigo. Espero reencontrá-lo novamente, vitorioso...Que os ventos o carreguem pelos caminhos da liberdade e felicidade...” Sua voz foi como um sussurro trêmulo carregado por uma brisa paralisante. O cavalo relinchou como se concordasse com as palavras gentis do rapaz. Fungou com violência, balançou a crina de um lado para o outro para tirar a neve e voou para longe.

E as palavras de Halam Al-Hakim dissolveram-se com o ar ao comando da ampulheta esvaziada.

***

Depois de ler a 12ª carta, Mônica ficou observando-a. Não tinha nenhuma pista quanto às intenções do remetente. Nas suas mãos, apenas um conto. Realmente nada indicava que DC era o único capaz de tê-lo escrito. Tirando as circunstâncias peculiares do correio secreto, nada no conteúdo parecia ser algo exclusivo do garoto. A investigação superficial da garagem foi inútil, e a conversa com Nimbus não foi nada esclarecedora. Será que valeria a pena mostrar a ele só para ter uma segunda opinião? E se descobrisse que não era DC o remetente, o que isso mudaria? A decepção inundou-a. Pensar nisso era pior, e não levava a nada.

As cartas deveriam dizer a ela alguma coisa, mas o quê? Relia-as todas por alto, passando as páginas da pasta: procurava pistas, informações. Nada. Sem remetente, sem propósito, sem pistas. Halam Al-Hakim não terminou seu conto para a Princesa Layla Al-Jamilla. Até quando estenderá sua história? No conto, Farhad Al-Naim enfrentava os desafios por amor. Será que vai conseguir? Perguntam-no por que pretende mexer nas linhas do destino se ele já tem exatamente o que ele quer... Quais são as indiretas?

Na vida real, não há meios de manipular o destino, não como na história. A vida de Mônica, por exemplo, estava toda escrita em pedra, como uma sentença. Ela sempre soube que seu futuro era ao lado do garoto que amava: Cebola. E quem, em sã consciência, agiria contra seus próprios desejos? Quem lutaria para perder o que lhe é mais valioso? DC. Sua filosofia de vida o obrigaria a contrariar a lógica e por isso ele faria o mesmo que Farhad. A exemplo disso, se uma carta tinha que ter data, hora e endereço do remetente, não era o Do Contra que obedeceria a estas regras. E por ser tão óbvio que o remetente seja ele, então é por isso mesmo que não deveria ser? Um impostor, de acordo com Nimbus. Confusão é hereditária naquela família, só podia ser.

Se a carta era construída e enviada pra emular algo que DC faria, qual era o intuito? Disfarce. O anônimo quer que outro leve a fama, tornando-se ainda mais secreto... Será que ele pensou nisso tudo? O encaixe é tão engendrado, parece planejado em cada detalhe... E se realmente não for o DC? E se for outro? E se fosse o Cebola? Seu coração bateu mais forte. Afinal, planos infalíveis são sua marca registrada. Por que ele faria isso? Lembrou-se do MIT: assim que ele passar na prova, vai se mudar para o exterior... Talvez mandar essas cartas anônimas seja o modo dele de distraí-la da inevitável partida, suavizar a perda. Quanto ao texto, ele pode estar usando alguma inteligência artificial pra escrevê-lo, já que Literatura não é o seu forte.

Mônica cogitou perguntar diretamente ao seu melhor amigo de infância, mas desistiu. E se também não fosse ele? Geraria mais confusão desnecessária... Além do mais, tinha a música de DC: “Passa comigo mil e uma noites de amor...” É sua forma de dar a ela pistas indiretas para que ela complete o quebra-cabeça mais torto do mundo. Seria tudo uma forma de conquistá-la? Pensando na missão de Farhad, ela percebeu as intenções: independente da decisão do destino ou de uma maldição secular, a escolha de amor cabe aos dois. Ele pediu à Fada que decida depois, porque assim não terá nada obrigando-a a escolher...

Mas e ela? Quem Mônica quer escolher? Olhou para o relógio. Ainda marcava um pouco depois das 14h. Pensou no ensaio que marcaram para às 16h. Magali trabalhou na música para Joaquim e a banda vai ajudá-la com a melodia naquela tarde. Encontraria DC novamente e pensar nisso fazia-a estremecer. Agora que entendia as indiretas dele, Mônica não sabia como reagir. Não estava certa se correspondia aos sentimentos do rapaz, mas também não era totalmente indiferente a eles. O melhor seria considerar outra pessoa que escrevia para ela.

Mas e se Nimbus estiver certo? Se não for DC o remetente, alguém tinha que ser! Uma boa estratégia seria apelar para o ego. Como ele reagiria se ela tivesse uma lista de suspeitos? Talvez o orgulho ferido falasse mais alto e ele admitiria que escreveu as cartas. Ou ainda poderia arrancar dele uma boa razão para elas... Como eles se encontrarão mais tarde, a melhor coisa a fazer é chegar mais cedo para confrontá-lo...

Brincar com os ciúmes era perigoso, ainda mais considerando que ela nem sabia dos seus próprios sentimentos. Por que ela quer que DC admita ser o autor das cartas? O coração de Mônica batia forte demais em seu peito... Por quê? A verdade vos libertará! Porque ela precisa saber o que DC quer dela... Já que uma parte dela quer dar a ele o que ele pedir. Balança a cabeça. Nada disso. Ela só quer a verdade. E mudar a estratégia não era uma má ideia. Talvez a terceira alternativa funcionasse melhor, já que as duas primeiras de nada serviram. Se DC queria que ela acreditasse que não era ele, então devia ajudá-la a descobrir quem a escrevia e quais eram as intenções para com ela... Mônica então escreveu rapidamente uma lista de “suspeitos” no caderninho, dando a cada um deles um motivo plausível para escrevê-las. Não conseguiu evitar de sentir-se decepcionada com a possibilidade de realmente ser outro. Talvez tenha se acostumado à ideia de que fora DC quem lhe escrevia e até gostava disso...

Assim que terminou, Mônica foi para a garagem do rapaz, levando o caderno e a pasta: supondo que fosse a primeira vez que DC visse todas as cartas, pretendia mostrá-lo como formavam um livro. Daria a ele uma ideia do objeto com o qual estão lidando, como se ele não soubesse... Também queria jogar na cara dele que guardou todas com carinho, e talvez demonstrar seu apreço. Ninguém tinha chegado ainda para o ensaio de sexta-feira, como ela havia previsto. DC tocava o violão, distraído, pensando na nova canção. Um som parecido com o que ouviu no áudio. Chamou-o:

— Oi, DC. Espero não estar te atrapalhando. – disse com um sorriso amigável. Os olhos dele brilhavam para ela.

— Nunca atrapalha, Mônica. Mas acho que você chegou bem mais cedo. – elevou uma sobrancelha, intrigado.

— É, queria pedir sua ajuda antes de começar o ensaio. Acho que você pode me tirar umas dúvidas. – Mônica então tirou da bolsa a pasta com as cartas e entregou nas mãos do rapaz.

DC manteve o violão no colo, apoiando os cotovelos nele enquanto folheava a pasta. O olhar dele transparecia surpresa, mas a garota não sabia dizer se ele reconhecia as cartas ou não. Ele a encarou confuso:

— Então, em que posso ajudar? Dever de Literatura? – riu brincalhão.

— Estas são as cartas que ando recebendo. Mas não sei de quem. Os envelopes são todos do mesmo jeito, como este aqui. – colocou em cima da pasta aberta um envelope rasgado, onde só estava escrito o nome: “Mônica Souza” – Minha mãe acha que é trabalho de escola; se for, eu faltei no dia que combinaram. Você recebeu alguma carta dessa?

— Não, você deve ser especial. – ele estendeu um sorriso atrevido. Ela corou e desviou o olhar.

— Bem, é por isso que gostaria da sua ajuda. Quem você acha que anda me mandando isso? – Mônica encarou-o com o coração na boca. DC desviou o olhar, tornando a folhear a pasta. Depois olhou para ela:

— Não sei te dizer quem. – ele continuou a folhear a pasta, com um olhar curioso e satisfeito.

— No começo, pensei que fosse você, já que a situação é estranha demais para ser outra pessoa: um envelope sem remetente, uma história sem fim... Mas aí pensei bem, talvez isso fosse muito óbvio, então cheguei à conclusão de que tem alguém roubando sua identidade. – DC riu, mas Mônica manteve-se séria.

— Ok, mas por quê? – ele pareceu se divertir, como em um jogo.

— Essas cartas são exatamente algo que você faria, mas não fez, correto? – ele não respondeu, então Mônica continuou – Bem, então só pode ser alguém imitando seu estilo... Até pensei em alguns “suspeitos”. – remexeu na bolsa em busca de seu caderninho.

— Hipótese interessante. Mas por que alguém faria isso? – o olhar divertido a encarava, procurando respostas no rosto dela, porém sem encontrar. DC espichou os olhos curioso para ler o que ela escreveu, porém Mônica não o deixou ler – Além disso, você está me avisando que tem alguém cometendo fraude identitária, porque...

— Achei que você poderia me ajudar a pensar num bom motivo para o “crime”. – ele abriu um lindo sorriso que a fez perder o ar.

— Gostei! Quero ajudar sim. – ele esticou a mão para pegar o caderno das mãos dela.

— Ótimo! – Mônica afastou-se de leve – O primeiro da lista é Toni: com a mania de galã. E não devemos esquecer que ele já quis ser meu par romântico na peça da escola. Motivação: vingança, quer que eu me apaixone por ele perdidamente.

— Excelente escolha, motivação plausível, mas acho que ele é narcisista demais para dedicar horas escrevendo folhas e mais folhas que não falam sobre dele.

— Que tal o Fabinho?

— Não acho que você seja o tipo dele... Mas não fica chateada, não é pessoal. Ele não sente atração pelo seu gênero.

— Ok... Pensei também em Luca, já que ele é tão gracioso, tímido... Tem jeito de ser romântico. Consigo imaginá-lo escrevendo essas cartas, até para aprimorar suas habilidades literárias também...

—Sim, verossímil. No entanto, ele tem atividades extracurriculares demais para ter tempo de sentar na máquina de escrever. Entre as aulas, o curso de inglês, o grêmio estudantil... Quando ele acharia tempo?

— Em questão de tempo livre, ninguém melhor que o Xaveco. Ele está sempre procurando algum protagonismo nas histórias. Eu sei que ele ainda gosta da Denise, então a explicação lógica é que ele não sabe o endereço certo dela e tem me mandado essas cartas por engano.

— Justo, mas sua ideia cai por terra, já que o nome no envelope é o seu.

— E que tal o Titi? Ele quer sempre ser o centro das atenções, como o Xaveco e o Toni... Pela sua cara... Você não acha que seria ele, né? – Mônica perguntou com um ar divertido.

— Talvez não, porque você não faz o tipo dele... A não ser que ele está fazendo isso tudo como uma brincadeira de mal gosto... Sabe quando um cara faz aposta com os amigos para fazer a garota se apaixonar por ele?

— Que cruel! Daria muito trabalho só para ele se divertir com a minha cara, não acha?

— Sem contar que as notas dele em Literatura são medianas. Se eu bem me lembro, ele ficou de recuperação no ano passado, não?

— Bem lembrado. Suspeito descartado. – ela riscou o nome no caderninho.

— E você considerou meu irmão? – DC disse enquanto focava nas folhas da pasta – a gente tem uma máquina de escrever e se eu não me engano, os tipos dela são bem parecidos com estes.

— Nimbus? – a audácia do caçula... – Não acho que foi ele. Mesmo que seria fácil para ele te imitar, já que te conhece melhor do que qualquer um... Duvido que a faculdade deixe ele com tanto tempo livre assim... Além do mais, por que ele faria isso? – Mônica aproximou-se de DC, sem ar.

— É, ele não tem motivo... O Jeremias, entretanto, é o candidato perfeito: ele tira notas altas em Literatura, é o típico romântico, quer escrever livros quando crescer... – DC sugeriu com um ar travesso.

— É, mas tem o fato de eu não ser a Denise, o que invalida sua hipótese. – ela revidou sorrindo.

— E a própria Denise? – DC perguntou com o ar cínico, Mônica soltou uma gargalhada.

— Não, ela tem o blog onde pode escrever para milhões de seguidores avaliarem seus contos. E ela não é do tipo que quer se esconder no anonimato. Se for para ter esse trabalho todo, Denise com certeza iria quer seu nome estampado em todas as páginas.

— Está certo... Mas por que a sua lista só tem garotos? Não poderia ser uma menina?

— Duvido, garotas não escrevem cartas de amor, só respondem a elas. Quando tem um remetente, claro. – Mônica provocou o rapaz, que reagiu com um risinho.

— Então isso são cartas de amor? – a provocação era nítida.

— Os contos falam sobre amor, um herói que luta para ter o coração de sua amada Fada. Suponho que a história do conto sirva de paralelo para...

— Cascão! Escreveu anônimo para obter uma opinião imparcial sobre a história que ele escreveu e quis confiar em uma amiga, mas não quis que isso contaminasse sua crítica.

— É, mas ele não tem disciplina para fazer diariamente nada que não esteja relacionado a futebol. – voltou a olhar o caderno – O restante dos garotos tem namorada e nenhuma aspiração literária... Portanto, seria pouco provável que algum deles me mandasse... – verificava distraída suas anotações.

— E o Cebola? – DC perguntou direto, com um tom indecifrável.

O rosto de Mônica tomou uma coloração rubra bastante forte. É claro que ela cogitou aquele nome, mas falar em voz alta o nome do Cebola para DC soava como uma brincadeira de mal gosto e o ar ficou preso na garganta. Manteve o olhar baixo, focando nas anotações.

— Planos infalíveis são a cara dele... – DC continuou, como uma provocação.

— É, diferente de Literatura. – Ambos ficaram em silêncio por uma longa pausa até que Mônica falou: – Sabe, é como a professora de Literatura diz: para ter respostas, é preciso olhar para o texto. Ao ler, o texto parece uma homenagem aos contos das Mil e uma noites. As cartas me indicam que o autor é um tanto antiquado e gosta de escrever de forma rebuscada. Ele tem uma máquina de datilografia e muito tempo livre, mas não tem muita prática. Considerando que recebo cartas diariamente, sem selos oficiais do correio, então suponho que o autor mora perto o suficiente para entregá-las pessoalmente... – Ela sabia que não adiantava perguntar para ele diretamente, tinha que participar desse jogo indireto – As respostas estão nas cartas, né? Quando Farhad Al-Naim declara que quer ser amado por quem ele é, recusando as amarras do destino, o que o autor quer dizer? – os olhos dela o encaravam fundo, sem ar nos pulmões.

Antes que DC pudesse respondê-la, Magali chegou. Ainda não era a hora do ensaio, e ela chegou mais cedo para mexer com a música antes do restante da turma chegar. Estava ansiosa demais. Mônica teve cuidado de esconder a pasta, para que a amiga não a visse. Queria ter mais sorte na próxima conversa, mas já não sentia mais tão corajosa para confrontá-lo. Não era o Do Contra que precisava responder sobre seus sentimentos, era a própria Mônica que tinha que decidir se aceitaria o convite atrevido ou não.