1000 anos pós-Armagedom
4 Sangue Sacro
DANIEL
Daniel Haze abriu a porta do seu carro-nave e desceu para a calçada azul de Machu Picchu. O dia estava frio e a população agasalhada, uma mãe latina com seu filho branco atravessava a rua falando ao celular (celulares neste tempo nada mais eram do que uma fina placa de vidro que reproduzia painéis) e um senhor parava num poste para o seu cão urinar, atrapalhando as pessoas na calçada, que andavam apressadas e quase correndo.
Daniel foi em direção a uma cafeteria iluminada que visitava toda manhã antes de ir para o departamento da polícia. Ele era o chefe do tal departamento e passar o dia como ele passava seria impossível para ele sem tomar pelo menos uma xícara.
Ele entrou no estabelecimento e pediu para Alessandra, a garçonete que sempre o atendia pela manhã, um café expresso.
Sentou numa mesa de cedro da cafeteria e ficou olhando para o nada enquanto ela fazia o café.
Alessandra trouxe a bebida quente e negra para ele e Daniel agradeceu com um sorriso amarelo.
Bebericou e fez uma cara de desgosto quando ela já não estava por perto.
Começou a pensar em sua esposa, Rosa, naquele horário, provavelmente estaria fazendo o próprio café (que era muito melhor do que a da cafeteria) e logo acordando as crianças para a escola, Caleb, de 10, e Maria, de 7.
Rosa era linda, tinha a pele dourada, cachos escuros e grandes e o sorriso mais bonito que já havia visto. Ela fazia 43 anos na semana que vem, ele faria 47 em março.
O café da cafeteria não era o de Rosa mas ainda era café.
Terminou sua xícara, pagou e pegou o carro.
Dirigiu em direção ao departamento.
Era uma unidade enorme, cheia de computadores, câmeras, setores, laboratórios e escritórios.
Passou pelo corredor principal é abriu a porta do seu escritório. Sentou na cadeira por 5 segundos, sua secretária eletrônica tocou e anunciou.
"Senhor, o investigador Manson ligou agora pouco, ele chamou o senhor para ver um caso na rua "57, do bairro '62."
"E assim começa meu dia", pensou o homem.
Pegou o carro novamente e foi para a rua.
O trânsito estava até bom neste dia.
Passou pelo bairro '59, entrou na avenida "55, passou pela movimentada rua "56 e entrou na "57, viu uma grande fita cobrindo toda uma área, vários outros veículos policiais e um homem alto e loiro conversando com uma mulher negra e baixa.
Esse homem era Manson.
Quando saiu do carro e ele o viu, estava com uma expressão pálida e foi até ele. A mulher foi conversar com outros policiais.
—Senhor, antes de falar qualquer coisa, preciso te mostrar a cena, não há nada que eu diga que vá se comparar com a sua visão. — Ele disse nervosamente.
Abriram caminho entre os policiais e quaisquer outras pessoas que estavam lá.
O que Daniel viu não foi de longe a melhor visão da sua vida.
Um corpo de um homem negro semi-esfolado amarrado numa estaca quase podre, sua carne estava escura e vários moscas estavam por cima dela, estava todo sujo, sem dentes, com metade do crânio exposto e havia uma vela branca derretida na sua cabeça e velas vermelhas formando um círculo próximas aos seus pés, tanto o direito quanto o esquerdo quebrados, provavelmente por um martelo.
A figura não passava só medo, era uma sensação pior, Daniel suou frio.
Era o horror materializado.
— Seria uma espécie de sacrifício de alguma seita? — ele perguntou de vez.
—Provavelmente, senhor, — Manson respondeu — mas não é só isso. — em seguida circulou a estaca, o chefe seguiu.
Lá estava uma tábua de madeira com um símbolo de uma pomba transpassada por uma cruz dentro de um círculo.
Estavam escritos 3 parágrafos na tábua.
3 mandamentos.
"I — A criatura superior há de subjugar a inferior, pelo nome de Gaar.
II — A criatura superior possui o sangue da inferior, pelo nome de Gaar.
III — A criatura superior deve sacrificar a inferior, pelo nome de Gaar."
E no final, o símbolo da pomba aparecia de novo.
Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos.
— Parece que encontramos um caso peculiar de fanatismo religioso, sacrifício humano e racismo. — Daniel disse, por fim.
— Puta que me pariu, Haze, isso é a coisa mais sinistra eu vejo nos 19 anos que estou nesse cargo.
Daniel não respondeu, concordava silenciosamente com o que ele afirmou.
Havia visto muita coisa em toda sua carreira, pais matando filhos, filhos matando pais, velhos estuprando crianças, homens assassinos de mulheres, mas nada se comparava com aquilo.
Não era só loucura e maldade, era a loucura e maldade organizada.
Olhou para sua mão, a cor da sua pele era como a do homem morto.
"Criatura inferior".
Aquilo era nojento.
— Não é o único caso assim recente. — Manson afirmou, arrancando uma unha enquanto falava.
Aquilo era assustador.
— Me mostre os outros. — teve de dizer.
O homem pegou o celular e um painel se materializa no ar, mostrando fotos de um homem negro forte com um tiro na testa no chão de uma estação de metrô, com a parede atrás pichada com o símbolo da pomba transpassada pela cruz.
Depois, um jovem negro relatando um ataque durante a madrugada por um grupo com um símbolo de uma pomba em suas roupas.
Mais adiante, uma mãe falando emocionada do desaparecimento do filho...
— Já chega. — o chefe da polícia falou, alterado.
Manson desliga o painel.
— Eu quero o nome, rede social e identificação de qualquer integrante de grupo racista ou fanático de Machu Picchu, até daqui a dois dias, Manson.
Se retirou da cena e foi para o seu carro, ligou-o e quando fez isso percebeu que sua mão tremia.
Voltou ao departamento.
Passou o dia quieto, resolveu algumas pendências, analisou alguns casos e ficou na unidade até às 23h.
Não conseguia parar de pensar no corpo do homem que vira pela manhã. Sua pele esfolada, sua carne podre e sua vida esvaída.
Era impossível não se imaginar assim, era impossível não imaginar Rosa, Caleb e Maria assim...
Foi para casa.
A casa de Daniel Haze era pequena, com um jardim florido na frente e um portão branco que sua mulher gostava de pintar de vez em quando.
Quando abriu a porta, lá estava ela, na sala, com os filhos dormindo em cada um dos seus ombros no sofá.
Ela também dormia.
Deu um suave beijo em sua testa e foi dormir também.
Se deitou no sofá também, olhou para ela e as crianças e pensou o quanto eles eram a coisa mais importante de sua vida.
Logo adormeceu, em meio a pensamentos, bons e ruins.
A família Haze descansava.
A sala estava escura, havia poucos móveis além do sofá. Uma pequena mesa de centro, um painel e um vaso bonito que a tia de Rosa havia lhe dado antes de falecer.
O vaso era bege, esmaltado e dentro dele havia uma samambaia bem cuidada.
Mas o mais interessante de todo esse contexto não era a planta ou o vaso, era o que havia na parede por detrás dela.
Uma minúscula câmera, que vigiava todos os passos de Haze e sua família.
E do outro lado dessa visão, havia um homem branco, magro e molhado do próprio suor num apartamento escuro do centro da cidade, com um painel ligado e assistindo tudo isso há mais de 24 horas.
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