SIARA

A luz entrava forte no quarto, Siara, ainda sonolenta, tratou de fechar melhor a cortina.
Era hora de ir ao trabalho, tomou um banho quente e prendeu seu cabelo grande e crespo. Vestiu um vestido preto e um blazer cinza e saiu da casa, nunca tomava café da manhã, no máximo comia uma fruta.
Fora de sua pequena casa, lá estava sua nave-carro prata na garagem. Entrou nele.
Siara tinha 32 anos, era esguia, negra, bonita, trabalhava como pesquisadora num importante instituto de estudos genéticos e morava sozinha ganhando um salário razoavelmente bom. E não menos importante, Siara era uma mulher transsexual.
Naquele dia seria apresentado um novo projeto no GÊNESIS, o instituto em que trabalhava em Cairo.
O trânsito naquele dia estava bom e ela não teve dificuldades em chegar ao trabalho, estacionou num vasto jardim perto do campus do instituto, quando saiu do seu veículo parou um pouco para observar a estrutura daquele lugar.
Eram dois prédios altos ligados entre si por um longo corredor, logo atrás havia gigantescas vegetações e ambientes artificiais criados separadamente com o objetivo de se analisar os trabalhos do centro nas espécies de plantas e animais.
Siara respirou fundo e seguiu adentro do prédio 1, a temperatura lá era mais fria, na frente dele havia um painel mostrando bastante publicidade do instituto.
Pegou um elevador lotado, havia dois homens negros mas de pele clara de terno preto acompanhados também de um homem velho e de aspecto nobre, no elevador também estavam duas mulheres usando turbantes cochichavam sobre um incidente no trabalho onde um colega derrubou café em cima de alguns reprodutores de painéis-hologramas, uma das mulheres ria da situação e a outra se compadecia com o colega, embora soltasse alguns risinhos. Os homens de preto as encaravam quando riam muito alto.
Elas saíram no 3° andar, eles no 4° e Siara no 20°. Não gostava de altura e suas mãos suavam muito todo dia quando precisava fazer isso.
Soltou um suspiro de alívio quando saiu. Passou por um corredor ainda no prédio 1 e seguiu para o auditório de reuniões de nível 1, outros pesquisadores superiores a ela iriam apresentar naquele dia um projeto inédito, não só os funcionários participariam dessa reunião, empresários e até estrangeiros estariam lá hoje.
Assim como se esperava, o auditório estava cheio.
"Espero achar um lugar no meio pelo menos, das últimas duas vezes assisti de pé as reuniões", Siara pensou.
Ela conseguiu realizar esse desejo, se sentou lá e esperou.
Eram 7:15, a reunião começaria 7:30, ela tirou o celular do bolso e ficou olhando seu WhereBe, uma rede social bem comum da atualidade.
Publicações falando das coisas de sempre: política e entretenimento.
Uma postagem sobre uma cantora de Tóquio baleada num show chamou sua atenção.
"Tudo parece estar mais violento hoje em dia, é o mesmo ciclo que destruiu o Velho Mundo se repetindo na humanidade ou no que restou dela", Siara falava consigo mesma mentalmente.
Atenção, senhores, a reunião se inicia em cinco minutos. Repito. A reunião se inicia em cinco minutos. Uma voz feminina ressoou no auditório, um murmurinho entre os quase 300 participantes começou.
Siara não possuía muitos amigos no trabalho, então não estava falando com ninguém.
Algumas pessoas conversavam com ela, outras a encaravam de forma estranha, como se o lugar dela não fosse lá, como se o lugar de uma transsexual não fosse lá.
Ela toma hormônios desde os 16 anos porém nunca fez a cirurgia de transgenitalização, ela estava juntando dinheiro para fazer ainda esse semestre. Além da "simples" cirurgia, ela também tinha um desejo difícil, o de ser mãe.
Havia economizado por meses uma quantia de 2500 coinz (moeda de Cairo e de todas as metrópoles), precisava de mais 2500 para fazer a cirurgia e a transferência de um útero.
Esse era um dinheiro que não possuía agora.
Os 15 minutos passaram voando e a voz feminina ressoou novamente no auditório.
A reunião se inicia agora, senhores, acomodem-se.
Siara desligou o celular. 10 homens subiram ao palco.
Eram os pesquisadores superiores, viu um homem magro e muito alto que devia ter 50 anos começar a falar.
Era Zola Xinavane, pesquisador renomado que estava no instituto há mais de 20 anos.
"Bom dia, funcionários, empresários e amigos do Instituto GÊNESIS, é com muita satisfação e orgulho que lhes apresento nosso mais novo projeto que promete mudar a indústria alimentícia, NOVA GÊNESIS."
Um painel-holograma se fez no ar mostrando fotos de animais nunca vistos, eram espécies criadas. Havia um tipo de porco de tamanho grotesco com asas de frango porém sem penas, uma vaca do tamanho de um contêiner com dez tetas, um animal aquático que mais se assemelhava a uns monstro num aquário, imenso e gordo.
Aquilo tudo era grotesco.
"Esses animais renderão carne, leite e ovos em proporções gigantescas para o mercado, alimentará famílias pobres, deixará o mercado mais acessível. É totalmente a nossa melhor invenção até agora, pretendo até apresentar ao senhor governador em algumas semanas."
Um silêncio e logo em seguida murmurinhos tomaram o local.
Uma mulher robusta de cabelo raspado que se sentava na frente cochichou com dois homens que se sentavam ao seu lado.
Ela se levantou. Era Azalee Mafra, a diretora do GÊNESIS.
—O instituto não vai confraternizar com esse claro abuso de animais, senhor Xinavane, essas atividades que o senhor fez dentro do instituto também serão analisadas pois não houve nossa permissão, isso compromete até o seu trabalho nesse centro, que tem o objetivo de pesquisar e criar, e não ser um cativeiro, criadouro e abatedor de animais, ainda mais criados em laboratório de forma hedionda. Isso é de teor criminoso, senhor, estaria preocupada se fosse você.
Se notou um claro olhar de choque no rosto do homem. Se propôs a gritar:
— MAS A NOVA GÊNESIS MUDARÁ TUDO, ELA IRÁ GERAR EMPREGOS, IRÁ ELEVAR NOSSA INSTITUIÇÃO, NOSSA METRÓPOLE, NOSSO MUN...
— Cale-se pelo próprio bem, senhor, a reunião está acabada, as ideias do senhor Xinavane são loucuras impertinentes e o próprio será investigado. Um bom dia a todos. — Um dos homens que se sentava junto de Azalee se levantou e interrompeu o cientista pesquisador.
— VOCÊ NÃO PODE, EU TENHO REFERÊNCIAS, ANOS DE TRABALHO, EU GERO ESSE LUGAR...
— O senhor tem 24 horas para retirar suas coisas daqui, isso é claro, depois de serem investigadas e verificadas.
O pesquisador derruba uma cadeira que havia no palco com a ponta do pé e amaldiçoa o lugar, sai às pressas do auditório e bate a porta por onde sai.
O instituto está de volta à programação normal. A voz feminina anunciou.
Aos poucos e com muito barulho, as pessoas saíam do lugar.
O resto do dia foi bastante tenso, Siara teve de montar alguns relatórios e enviar para superiores.
Passou o dia pensativa também, chegou a imaginar o que fariam com o Xinavane e os seus experimentos, incluindo seus animais criados em laboratório.
Deu 23h.
Arrumou suas coisas no seu pequeno escritório e foi caminhando para fora.
O prédio já estava meio vazio e escuro.
Passou pelo corredor, ele estava particularmente assombroso hoje. Chegou perto do elevador, apertou seus botões mas percebeu que ele não estava funcionando.
De repente, ouviu um barulho brusco de uma cadeira caindo no chão e um calafrio correu por sua espinha.
Logo em seguida se ouviu um choramingo de um homem.
Estava vindo de uma sala fechada a sua direita. Se odiaria pelo resto da vida por ter feito isso, mas se aproximou dela para escutar melhor.
Era a voz do homem que se sentava com Azalee nesta manhã, ele pedia misericórdia.
— Cale-se, seu filho da puta covarde, você me irrita! Quando me humilhou hoje em frente à todo instituto, não choramingava tanto.
Era a voz de Xinavane.
Percebeu que havia uma gretinha na porta, pôs seu olho negro lá.
Houve um barulho de tiro.
Viu o homem morto com um tiro na cabeça encharcado de sangue amarrado numa cadeira, Xinavane em pé com um bastão e atrás dele estava o homem velho com os dois homem que havia visto hoje no elevador!
— Já brincou o suficiente com o homem, lembre-se de quem está no controle aqui, doutor. — O velho falou.
Xinavane jogou o bastão no chão. — Nos mostre o que eu quero, antes que eu faça com você algo que vai fazer o que você fez com este coordenador carinho.
Xinavane pegou um caixote, abriu, e lá estava uma caixa de alumínio cúbica.
— Ótimo, o Instituto é seu se quiser, matamos a vadia Mafra também, a porra desse lugar não tem mais utilidade para nós, pode ficar com essa sua caçamba, doutor.
A diretora estava morta.
Nessa hora, Siara tentou se aproximar melhor da porta. Um erro fatal.
Ela caiu e abriu ela.
Os quatro homens a olharam assustados.
— Eu te vi hoje na palestra, sua abominação! Que porra esse traveco faz aqui?! — Xinavane exclamou.
— Não importa, matem ele.
Os dois homens do velho sacaram cada um uma espécie de revólver, porém não disparavam balas de metal e sim um tipo de carga elétrica que derretia qualquer coisa.
Ela correu.
Atravessou o corredor e eles correram atrás dela. A pressão estava a mil.
Viu uma sala aberta e entrou, estava escura e se escondeu debaixo de uma mesa.
Ainda no corredor, eles batiam nas portas esperando alguma reação.
"Eu vou morrer", pensou subitamente.
— Não vai se esconder por muito tempo, gracinha. — um deles disse dando um chute em alguma porta.
Ela prendeu a respiração.
Eles entraram na sala que ela estava.
Ela prendeu ainda mais.
— Aqui está escuro demais, liga o celular. — um deles falou.
"É agora ou nunca", Siara pensou. Ela teria que chutar a mão dele no momento que ele ligasse o aparelho, pegar a arma, atirar nele e depois no outro. Ou morrer. Essa era a única chance dela.
Ele ligou.
Ela fez um estrondo e se levantou, chutou o celular e a cara do homem, sentiu o sapato e a pele se molharem com o sangue da boca dele.
Ele caiu no chão, ele tentou levantar, ela tateou no chão a arma. Achou ela.
De repente, ele subiu em cima dela.
— Você é difícil de matar né, baitola? Vou dar uma aproveitada com você antes de estourar seus miolos. — Ele sussurrou no ouvido dela.
Siara sentiu o membro dele rígido e roçando na sua bunda através do vestido.
— Lembre-se de deixar um pouco pra mim também, a bunda dessa coisa é aproveitável demais pra acabarmos assim tão rápido. — O outro disse e foi para o corredor, provavelmente para vigiar.
Ele iria estuprar ela. A arma estava debaixo da sua barriga.
Ele rasgou todo o vestido, a desnudou e penetrou ela. Siara chorou e ele riu.
Deu um tapa na sua cara e disse para ficar quieta. Começou a socar o pau dentro dela como um animal.
Tapava a boca dela e as lágrimas escorriam pela mão dele. O homem continuava a socar, socar e socar, ela sentia dor, para ela dor, para ele prazer.
— Eu vou gozar. — disse, mordendo a orelha dela.
Uma força súbita tomou conta dela. Era hora.
Conseguiu alcançar a arma quando ele fez menos pressão no corpo pelo cansaço após violentar ela.
Ela mordeu a mão dele até sangrar. Ele graniu.
Ela conseguiu tirar ele de cima dela e olhou para ele, com o pênis mole e molhado para fora e completamente indefeso.
Atirou uma vez.
Atirou duas.
Atirou três.
Desgraçado.
Desgraçado.
Desgraçado.
O outro veio correndo.
— Mas que porr...
Ele nem teve tempo de completar a frase, ela atirou na testa dele.
Olhou foda aquela bagunça, o sangue dos dois. E também, o sangue dela, escorrendo por entre as pernas.
Não importava agora.
Pegou a arma do outro homem e seguiu o corredor a passos lentos.
Nua, ensanguentada, com uma expressão impassível e imóvel e duas armas em suas mãos, Siara era uma visão chocante.
No final do corredor, avistou o velho segurando o cubo de alumínio e Xinavane tentando pegar o elevador.
Estavam de costas pra ela, mas ouviram seus passos e se viraram.
A expressão de choque tomou seus rostos.
— Espere...
Siara atirou nos dois.
Chegou perto do elevador, Xinavane já estava morto, o velho se afogava no próprio sangue.
Olhou bem para ele e depois para o cubo de alumínio. Pegou aquele objeto em seu colo e foi aí que os olhos do velho quase morto se esbugalharam.
— Você vai encontrar problemas com o governo, com aqueles que trabalho, com...
— Não importa, agora é meu. — Siara disse, com uma calma quase insana.
Ela apertou os botões do elevador e ele, desta vez, funcionou.
Ela desceu, saiu daquele lugar amaldiçoado, ainda nua e ensanguentada.
Pegou o carro, colocou o cubo no banco de trás e foi para casa.
Foi apenas para pegar algumas coisas, roupas e dinheiro.
Não poderia viver mais ali no centro da metrópole.
Não poderia talvez nem mais viver, sabia que viriam atrás dela por causa da caixa.
Não sabia o que havia dentro daquilo, mas se ela foi estuprada e quase morta por um cubo de alumínio devia ter seu certo valor.
Lá para às 4 horas da manhã, estava na estrada, indo para o interior.
Começaria uma nova vida.
Talvez estivesse um pouco desequilibrada.
No meio da viagem, parou o carro pois ouviu um barulho no banco de trás. Saiu do carro e foi olhar o que era, o cubo tremia.
Pegou ele e colocou no chão da estrada.
Começou a tremer mais, percebeu que algo estava errado.
O cubo foi rasgado por dentro.
Sentiu medo.
Foi rasgado por uma garra animal.
E de dentro dele, saiu uma espécie de réptil verde e de olhos enormes.
Era um filhote.

Notas finais
Demorou bastante tempo para escrever este capítulo e eu, como autor, gostei muito dele. Espero que vocês também, quero que um dia 1000 anos pós-Armagedom seja algo grande e estou me esforçando muito para isso. Agradeço qualquer comentário, divulgação e recomendação da história k
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.