1000 Forms of Fear
2 Chandelier
Notas iniciais

— Thalia?! Thalia?!
Argh! A voz era muito aguda, mas me acordou. À minha volta um bar fétido onde parecia ter ocorrido um tornado e atrás de mim, Mia, a minha atual companhia continuava repetidamente chamando meu nome. Quem era Thalia? Olhei para Mia e ela agora abria um grande sorriso. Estava bêbada e eu exausta... E tão bêbada quanto. Mia balbuciava palavras enquanto me puxava tentando me levantar do balcão. Olhei meu relógio e eram seis e trinta e quatro da manhã. Hoje eu havia me superado, bati os recordes de minhas festas fúteis e por dentro eu estava aplaudindo o meu fracasso e à minha volta Mia ria.
Saímos dali e Mia se despediu de mim. Foi para sabe Deus onde. Louca. Me lembrei quem era Thalia, o nome falso que inventei para sair com Mia e um grupo de amigos seus na noite passada. Eu estava ficando pouco criativa, esse definitivamente era o pior nome que eu havia usado. Nathalia, Amber, Sarah, Tiffany, Brenda, Joyce, Emma, já havia sido todas repetidamente, uma para cada dia da semana. Quando eu era cada uma delas eu era todas, menos Ophelia. Sim, eu mesma.
O semáforo abriu.
Eu nasci aqui há vinte e três anos atrás. Filha de um pequeno empresário e uma dona de casa. Ela morreu quando eu tinha oito anos, acidente de carro. Ele me deixou com minha tia e dizem que foi para a Suíça, Suécia... Não me importa, sinceramente. Aqui estava Ophelia quinze anos depois, atravessando a rua bêbada e sem um dos saltos, o que a fazia andar cambaleando.
Cheguei ao outro lado.
Quando completei... Acho que dezessete anos, me mudei da casa de minha tia. Ela também nunca se importou comigo. Sempre me tratou como empregada na casa e fazia questão de deixar claro que só estava cuidando de mim por que meu pai, seu irmão, havia implorado. Deixá-la foi bom para mim. Na época eu trabalhava como garçonete e fui dividir um apartamento no centro com Mindy Gail, uma amiga da escola. Quando completei vinte e dois, Mindy se mudou de volta para a casa dos pais o que causou uma briga séria com direito a voo de copos. Patéticas.
A minha casa... Acho que fica a dois quarteirões.
Tentei me manter sozinha até achar outra colega de quarto, mas não consegui. No dia em que ia ser despejada pelo meu senhorio, a carta chegou. A carta que mudaria a minha vida. Muitos pedem para ter um parente rico desconhecido que havia deixado uma herança, mas poucos realmente possuem essa sorte. Poucos são como eu. A carta pedia que eu comparecesse para a leitura do testamento da minha avó materna que havia falecido e apenas eu era o parente próximo. Odette Orson morreu em um hospital, a velha era rica e havia deixado tudo para mim. Eu nunca a conheci de fato, apenas ouvia falar de que era uma velha caridosa que mantinha alguns orfanatos na cidade.
Talvez três quarteirões... Ou quatro.
Juro que quando ouvi o advogado lendo o testamento só podia pensar “isso não está acontecendo, não pode ser real”, mas era. Fiquei com todo o dinheiro dela, a mansão, as despesas com os orfanatos foi passada para uma organização associada, não me interessei por saber... Não que eu seja má pessoa, mas eu realmente não me preocupei no momento e depois não me senti bem em procurar o advogado sobre. Antes que o advogado, um velho sisudo e arrogante, terminasse perguntei como minha avó havia falecido. Ele se espantou, pois não sabia que não éramos próximas, mas me disse que havia sido um acidente em uma fábrica que ela costumava visitar. Apenas acatei a resposta. Assinei alguns papéis e pronto, rica.
Cheguei à mansão.
Diferente das mansões que estão no nosso imaginário, a mansão era na verdade um apartamento de luxo na One Tower Bridge. A velha londrina sabia como viver bem. O apartamento possui três quartos e até hoje um dos quartos não tem uso algum, o outro se transformou em um grande armário de entulhos. Me lembro que a primeira coisa que fiz quando entrei pelas portas do apartamento foi me lançar no sofá de cor creme no centro da sala e afundar nas almofadas macias. Das janelas eu tinha uma ampla visão de Londres e era tudo tão claro, tão limpo, como se eu vivesse em um futuro distante. Era um sonho, queria ligar para Mindy e contar a ela o que aconteceu, mas após nossa briga não tivemos mais contato. Sozinha mais uma vez e como sempre.
Subir o elevador como sempre.
Os dias se passaram. Os primeiros dias no apartamento foram ótimos, pois tudo era novidade. O dinheiro me fez muito feliz naqueles primeiros dias. Eu caçava DJs influentes e pessoas em baladas e promovia as maiores festas no apartamento. No outro dia acordava e a sala estava destruída, com móveis virados, copos e pratos espalhados. Foi assim durante alguns dias até que tudo isso perdeu a graça. Nenhuma daquelas pessoas vazias me impressionava, todas só estavam ali por causa do dinheiro e da festa gratuita e eu sabia disso. Não era como se fossem amigos com quem eu pudesse compartilhar aquela vitória.
As chaves, onde deixei as chaves?
Hoje fazem cerca de sete meses desde que eu ganhei o dinheiro de minha avó. Sim, é recente. Depois dos primeiros dias eu desisti das festas em casa e comecei a frequentar a noite londrina. Eu não sei porque gosto tanto das festas noturnas, acho que é porque me faziam dormir o dia inteiro... Veja bem, eu não preciso mais trabalhar, só preciso me certificar de que o contador de vovó não está me roubando e que continua investindo bem. Falei com ele algumas vezes e tentei parecer interessada, não entendo muito sobre vendas de ações, muitas das vezes eu apenas balançava a cabeça. Ficar o dia inteiro aqui é bem frustrante, então qualquer coisa que me faça dormir por um dia é bem-vinda.
Lar doce lar.
Essa noite eu saí para comemorar. Comemorei meus sete meses de nova vida. Não conhecia Mia, ainda não conheço e provavelmente nunca saberei quem ela era, ou qualquer uma das outras pessoas que esteve conosco e só sabia que agora tomaria um bom banho e dormiria mais uma vez até que fosse a hora de sair novamente para viver, novamente, uma noite de cada vez. Fui dormir, no entanto, com a dúvida: se eu comemorei minha vitória, por que me sentia tão fracassada?
***
“19 horas”, pensei comigo. Hora de me arrumar. Fui até o closet e dentre dúzias de vestidos escolhi um que julgava o melhor. Era feito de um tecido brilhante preto, tinha um decote largo nas costas e não possuía mangas. Escolhi os sapatos, de salto, combinando com o vestido. Meus curtos cabelos negros, joguei para o lado direito. Brincos e colar sutis. Me maquiei e estava pronta apenas esperando o táxi. Hoje alguma coisa não parecia correta, mas não sabia o que era.
O táxi chegou e eu pedi que ele me deixasse na mesma casa de shows da noite anterior. Durante a viagem minha mente divagava. Por que mais uma vez eu me enfiava em uma festa com pessoas rasas que não faziam questão de me conhecer e eu muito menos? Mais uma vez. Será que eu não cansava da mesma rotina? Todos os dias às dezenove eu me arrumava e chegava em torno das vinte e uma. Lá ficava até que o sol raiasse, então saía. Sei que a rotina de casa me cansava, mas será que essa rotina de festas não? Afinal, eu sabia que as pessoas que encontraria eram amizades de uma noite, são pessoas que vêm e vão, nunca seriam os amigos que me ligam para conversar e sim os que me ligam para curtir.
Desci em frente ao local que parecia menos aconchegante do que ontem. Ao entrar, a música já tocava e à minha frente vários jovens dançavam. Alguns homens admiravam os corpos de mulheres que dançavam mais à frente. Outros estavam apenas conversando em frente ao bar. Alguns casais se beijavam pelos cantos e eu sabia que algumas pessoas estavam ali apenas para se divertir e esquecer seus problemas por algum tempo. Esse talvez fosse o meu caso. As garotas de festas parecem não sentir coisa alguma e eu precisava disso. Por algumas horas eu não precisava lidar com a morte de minha mãe ou a fuga do meu pai ou o abandono de minha melhor amiga, nem mesmo com a minha solidão. Quando eu estava ali eu podia ser qualquer uma das sete garotas que criei, mas não precisava ser eu.
Entrei na pista de dança e deixei me guiar pelo som alto. Um rapaz ao meu lado começou a se aproximar, “por que não?” pensei. Dançamos juntos por algum momento até que ele se ofereceu para buscar algumas bebidas no bar. Fiz que sim com a cabeça e continuei dançando. Ele não me disse seu nome, mas seu sorriso era encantador. Quando ele voltou perguntou meu nome. Amber foi minha resposta. Bebemos e continuamos conversando, fingindo dançar. Ao longo da noite me desinteressei e foi recíproco, ambos nos perdemos na pista de dança.
Me sentei ao bar por volta de onze da noite.
— duas de sempre. — Tequila.
— Você aqui de novo? É Nathalia não é?
— Sim — respondi ao barman.
— Você vem aqui todos os dias, essas são por conta da casa.
— Obrigado, mas eu faço questão de pagar.
— Deixe disso, é cortesia.
— Eu insisto.
— Bem, se insiste.
Eu gosto de pagar por elas. Eu gosto da sensação de poder e controle que o dinheiro me dá, mas sabia que não tinha poder algum, pois nem mesmo o dinheiro que eu tinha era meu. Novamente os casos da minha vida tentavam voltar à cena, logo estaria pensando em meus problemas novamente. Antes de o barman me trazer as bebidas, acrescentei uma terceira. Da maneira como meus pensamentos estavam surgindo seria uma noite longa. Quando as bebidas chegaram só pude pensar em bebê-las o mais rápido possível, eu enfrentaria minha mente mais tarde.
Um, dois, três, bebi. Pedi mais. E mais. E mais. Até perder a conta.
E dancei. Céus! Como eu dancei.
Eu via as pessoas na boate em borrões, o lustre e as luzes do ambiente pareciam tão perto. As cores e as formas giravam e eu acompanhava seus movimentos quase que religiosamente. A música tocava e a batida me contagiava. Naquele momento só pensava em dançar e ouvir a música tocando, o amanhã já não me importava mais, não havia mais casos para me atormentar ou questões para resolver. Amber estava dançando e assim permaneceria.
E assim permaneceu.
***
Os olhos se abriram.
Estava novamente no balcão, caída.
Levantei rápido demais e ao olhar em volta tudo chacoalhou. Meu estômago estava nauseado e ao fundo eu podia ver o barman passando com um esfregão. Eu chamava essa cena patética de segundas-feiras. Passei as mãos pelo rosto na tentativa de me recompor, mal sabia que nada mudaria. Olhei para o relógio no topo das prateleiras de bebida: quatro da manhã. Ainda havia algumas pessoas espalhadas na boate. No máximo trinta. Eu precisava sair.
Chamei o táxi e me dirigi para a porta. Olhei para trás e vi a boate e os rostos daquelas pessoas, algumas delas eu já havia encontrado em noites anteriores. Não havia alegria em seus rostos, havia distração, ou talvez eu olhasse para os rostos deles e visse o meu, pois sabia que no meu não havia alegria e sim a tal distração. O enjoo era forte, não mais que as lágrimas que eu segurava.
O táxi chegou e me deixou na portaria do prédio. Entrei cambaleando e corri para o elevador. Subi. Assim que abri a porta de meu apartamento, corri para a cozinha e me debrucei sobre a pia. As lágrimas começavam a cair. A minha mente se desligou por alguns instantes e meu choro acontecia quase que independente da minha vontade. Quando voltei a mim, abri o armário em cima e alcancei uma das garrafas de tequila.
Me sentei ao chão da cozinha, encostada em um dos armários. Continuava bebendo e chorando. “Só beba, só beba, mantenha o copo cheio até amanhã” eu dizia internamente. E eu só bebi. A garrafa acabou. Atirei-a contra a parede e pude ouvi-la quebrando. Ergui a cabeça e fechei meus olhos. Minha vida deveria ser diferente. Acredito que todos que conheceram a minha história pensaram que seria. Deveria ser uma história de superação: a menina que saiu de uma família disfuncional, da pobreza, da solidão ao ganhar uma herança e então investir em causas para lutar ou em dons que tem. Bobagem. É difícil lutar contra a solidão quando ela é tudo que você sempre conheceu. É duro me motivar a ser melhor quando esse sempre foi o meu melhor... Mas eu só estou pensando nisso pelas próximas horas. Eu aguento. Eu estou aguentando firme hoje à noite. Pendurada como o lustre da boate, mas continuo aguentando. Em breve vou dormir e acordar e perceber que aguentei mais um dia.
Continuo aguentando firme.
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