1000 Forms of Fear

4 Burn the Pages - Parte 1


Notas iniciais
Esse capítulo foi baseado em "Burn the Pages - Sia": https://www.youtube.com/watch?v=VznorLuugTU

Eu havia dispensado meus seguranças diurnos, não gostava de pessoas me seguindo, ainda que soubesse o risco que corria. A falta de privacidade é algo que o dinheiro traz com ele e que você só precisa aceitar. Decidi ir à academia, a poucos metros de casa, nunca havia ido, mas achei que seria bom me exercitar para tentar esquecer as últimas noites. Talvez fosse bom tentar um novo hobby mais saudável ou um em que eu não me frustrasse, descontasse na garrafa e no dia seguinte tivesse que limpar a cozinha.

Entrei na academia e após a matrícula fui para a sala onde estavam os aparelhos. Assim que entrei vi pessoas lindas e que me fizeram sentir como um grão de poeira. Eu havia entrado no Olimpo sendo uma mera mortal. Meu problema, diferente do de muitos que buscam a academia, não era o peso a mais e sim o peso a menos. Era bastante magra o que havia rendido apelidos na infância, mas nunca tive problemas com isso. Eu gostava da minha aparência, estava satisfeita, mas entrar ali e vê-los me fez sentir inveja.

Me apresentei ao instrutor e ele era tão bonito quanto os alunos. Era do meu tamanho, pois além de magra eu era bastante alta; ele também tinha os cabelos tão negros quanto os meus. Em seguida fui para o primeiro aparelho. Não pretendo contar sobre os exercícios, pois foi o momento mais vergonhoso da minha vida. Ao fim do treino eu tirei as bolsas do armário. Estava exausta e quase prometendo que nunca mais pisaria ali, até que ao sair do banheiro feminino encontrei novamente o instrutor.

— Você tem certeza que nunca malhou antes? — ele disse.

— Sim, certeza! Não deu pra perceber isso nos treinos?

Ele riu. Eu ri de volta.

— É... Você estava um pouco desconfortável.

— Ainda estou, mas deve melhorar nos próximos dias.

— Seu nome é Ophelia não é?

— Sim.

— Você vai fazer alguma coisa mais tarde?

— Ahn... Eu? É... Não — Ele estava me convidando pra sair. Mantenha a calma.

— É que a academia organizou um happy hour num bar aqui perto e seria legal ter você lá com a gente... Pra conhecer as pessoas.

— Ah sim, bem, eu moro aqui perto então... É, vai ser legal.

— Que bom! Espero ver você lá!

Ele apertou minha mão e saiu. De lá fui para casa contando as horas para o evento.

***

Eu já havia ido àquele PUB. Ficava próximo à academia de fato e era bastante frequentado. Quando cheguei, Hal, o instrutor estava em uma das mesas com um casal. Assim que ele me viu, acenou para que eu me sentasse com eles.

— Ophelia, esses são Jonas e Margareth. Ambos são alunos na academia.

— Olá — eu disse e eles me cumprimentaram de volta.

— O Hal nos disse que é a primeira vez que você frequenta uma academia. O que você achou? — Disse Margareth, uma jovem loira com sardas acima do nariz, olhos castanhos e de voz melódica.

— Ah, acho que bem... A princípio fiquei um pouco assustada. As pessoas são lindas ali.

— Fala assim, como se você fosse feia. — disse Hal sorrindo, ele estava interessado em mim, eu sabia!

— E o que você faz Ophelia? — disse Jonas, o acompanhante de Margareth, um jovem um pouco mais velho que ela, de cabelos castanhos, olhos verdes e sorriso torto.

— Bem... Eu sou uma investidora... Bolsa de valores... — Não podia dizer que vivia de uma herança e que não entendia de coisa alguma sobre rendimentos.

— Ah sim — Todos balançaram as cabeças.

— Bem, eu vou pegar algumas bebidas... — disse Jonas.

— Eu vou com você — disse Margareth, me deixando sozinha com Hal.

Era engraçado ver aquilo acontecendo, pois eu havia caído direitinho na armação dele. Ele parecia se divertir com a situação. Sabia que eu sabia que tudo havia sido arquitetado para isso.

— Então Ophelia, vai querer comer alguma coisa? — disse ele olhando o cardápio.

— Bom, você conhece o lugar — eu também — por que não me indica?

— Eles tem o melhor hambúrguer da cidade, o que acha?

— Hamburguer? Achei que você era um personal trainer...

— Hoje nós podemos sair da dieta.

Rimos os dois.

***

A noite passou. Comemos e rimos bastante. Margareth e Jonas tiveram que sair por conta de seus trabalhos no dia seguinte. Eu e Hal, porém, ficamos ali. Conversamos sobre as expectativas de nossas vidas, hobbies e festas. Descobri que ele sempre quis ser um chef e que tem uma queda por sobremesas, gosta de cães e de correr no parque todas as manhãs, não frequenta muitas festas, mas não dispensa bebidas no happy hour. Hal era uma pessoa incrível e dentro de mim eu sentia que algo podia dar certo entre nós mesmo sendo um primeiro encontro totalmente não oficial.

Estava tarde e eu precisava ir para casa. Hal se ofereceu para me levar, mas preferi que ele apenas me deixasse no táxi. Ainda que achasse Hal um cara muito legal, tinha medo que fosse algum interesseiro, afinal nós não nos conhecíamos. Quando o táxi chegou, Hal pediu meu número de telefone. Eu sorri e cocei a nuca. Nunca tinha me ocorrido de pessoas interesseiras se aproximarem de mim romanticamente, geralmente os interesseiros queriam participar das festas no meu apartamento ou entrar gratuitamente em boates. Eu nunca fui uma pessoa muito aberta socialmente. Nas festas que eu promovia geralmente só queria dançar ou beber, nunca consegui me envolver de fato com aquelas pessoas. Eu gostava de me divertir e não de me prender a pessoas que amanhã poderiam não estar mais ali, mas foi algo no olhar de Hal que me fez deixar a razão de lado e entregar o número. Ele tinha olhos confortáveis, de alguma forma eu me sentia segura quando ele me olhava.

Assim que entrei no táxi a solicitação de mensagem fez meu celular vibrar. Uma piada interna... Quem diria que já tínhamos piadas internas. Sorri sozinha no táxi. Passamos a noite conversando e eu não consegui levantar cedo para ir à academia no dia seguinte.

***

A semana se passou e após ela, um mês.

Hal e eu nos comunicávamos por mensagens e nos víamos frequentemente na academia e no PUB. Quanto mais conversava com ele, mais parecia para mim que nos conhecíamos há tempos. Ele era divertido, estava sempre de bom humor e fazia de tudo para me botar para cima também. Ele era o oposto de mim e ele começava a perceber isso a medida que nos conhecíamos melhor.

Estávamos chegando ao quinto encontro e eu, por mais que o achasse uma pessoa segura aparentemente, não conseguia me ver comprometida com ele. Não tinha nada a perder, estava solteira e até então ele não sabia da minha história ou da minha fortuna e continuava interessado, eu não sabia o que havia de errado comigo e sempre que ele tentava levar a conversa para um nível mais profundo eu travava o assunto ou desconversava.

Eu costumava sentar na varanda do meu quarto para pensar. Ali olhava a cidade e minha mente parecia divagar. Eu procurava contras e não encontrava. Hal era tudo o que eu precisava e o que eu queria. Ele era o meu primeiro amigo desde que Mindy havia me deixado e seria o primeiro namorado em um longo tempo. Ele me fazia rir e quando eu estava com ele não queria estar em outro lugar, havia até mesmo deixado de frequentar as festas na última semana porque estaria com ele. Ele me fazia bem.

Após pensar e ponderar, decidi que esse encontro seria diferente, eu precisava tomar uma atitude extrema para vencer o medo que sentia por esse possível compromisso. Eu precisava vencer as barreiras que eu mesma estava impondo. Liguei para Hal e ele atendeu. Pedi que nos encontrássemos na frente da academia e de lá eu o levaria a um lugar especial.

***

Lá estava ele. Usava uma camisa abotoada azul, jeans e seu tênis típico de quem acabara de trabalhar na academia. Chuviscava e ele estava lá, do outro lado da calçada, me esperando. Abri a porta do táxi e pedi que ele entrasse. Ele correu e se sentou ao meu lado no banco do carona.

— Não se espante. — disse eu.

— Onde vamos?

— É surpresa.

Pedi que o taxista me deixasse na porta do meu prédio.

— Por que estamos aqui? — perguntou Hal.

— Eu quis te trazer em casa.

Hal arregalou os olhos e eu cerrei meus lábios como se dissesse “sim, é isso mesmo, eu sou rica”. Quando saímos do táxi e entramos no saguão, tive de gritar o nome dele para que parasse de admirar o piso brilhante, as altas paredes brancas e a arquitetura do local. No elevador ele parecia uma criança que acabara de sair de um brinquedo no parque de diversões e que agora estava ansioso, pois conheceria outro ainda melhor.

Quando o elevador se abriu entramos em casa.

— Bem vindo à minha casa Hal.

— Nossa! Ela é tão... Uau! — disse ele olhando todo o interior, as paredes brancas, luzes embutidas, piso brilhante e os móveis modernos com olhos brilhantes.

— É, eu sei, também fiquei assim na primeira vez em que vim aqui.

— Me desculpe, mas eu preciso me jogar no sofá.

— À vontade.

Ele literalmente pulou e se jogou no sofá. Eu ri daquela bobagem.

— Eu pensei em cozinhar também, mas vi que seria surpresa demais pra uma noite. Como você sempre quis ser um chef, eu comprei os ingredientes e vou deixar você preparar o que quiser! — disse do balcão da cozinha enquanto pegava um copo de água.

— Tudo bem senhorita Ophelia — disse ele em tom irônico.

***

— Você nunca havia me convidado para entrar na sua casa.

Mantive o silêncio enquanto recolhia os pratos.

— Ophelia... Por que eu estou aqui hoje?

— Bem... — disse fechando a torneira — eu não sei...

— Você não sabe? — ele se levantou da mesa.

— Hal... Eu estive pensando...

— No que?

— Em nós e bem, sei que estamos nos vendo há algum tempo e tem sido divertido, mas eu não sei se estou pronta pra me relacionar com alguém.

— Você me trouxe à sua casa pra dizer que não quer se comprometer? — ele riu — O que te impede?

— Essa é a questão! Eu não sei... Eu só, não sinto que seja certo.

— Ophelia, você é uma mulher incrível e eu adoro estar ao seu lado.

— Você também é um cara maravilhoso Hal, mas...

— Por que não experimenta desabafar? — ele se sentou no sofá e com um balançar da cabeça me convidava para sentar ao seu lado.

— Eu não quero... — disse relutante.

— Você sabe que quer, você quer se abrir desde o primeiro dia, não tenha medo. Eu estou aqui.

Me sentei ao lado dele e agarrei uma almofada. Ficamos em silêncio por algum tempo. Hal me observava paciente e eu desviava o olhar para todas as direções possíveis.

— Eu não acho que você vá ficar. Eu tenho certeza de que você não vai ficar. Todos, absolutamente todos, foram embora. Não existe uma pessoa que fique próxima a mim por muito tempo.

— Você não está sendo dramática demais? — disse ele sorrindo.

— Não. — minha seriedade parecia ter quebrado os dentes do rapaz — todos. Minha mãe morreu, meu pai me abandonou, minha melhor amiga também. Os motivos sempre foram estranhos e ninguém se aproxima de mim por um longo tempo. Tem algo errado.

Hal ainda me olhava como se eu estivesse louca.

— Hal, meus seguranças. De tempos em tempos eles pedem demissão. Só durante esses meses em que estou aqui já passaram cerca de quatro guarda-costas diferentes. Eu não sei o que é, mas não pode ser coincidência! E eu não estou me vitimizando por isso, são escolhas das pessoas, mas me afetam...

— Ophelia, talvez você esteja imaginando... Talvez por conta do seu abandono na infância e...

— Hal, você não sabe o que eu vivi... Não fale como se soubesse, por favor. Eu já fiz terapia o suficiente para saber que não é algum ressentimento do passado. — disse em tom levemente alterado.

— Me desculpe.

Assenti com a cabeça.

— O meu pai não deu satisfação nenhuma quando fugiu de casa, mas isso não me impediu de fazer amizades. Eu tive uma melhor amiga, ela era uma irmã para mim. Eu comecei a pensar na possibilidade de as pessoas estarem fugindo de mim depois que nós brigamos... Mindy havia me dito que voltaria para a casa dos pais. Eu perguntei o porquê, não estava pedindo para que ela ficasse, apenas gostaria de saber. Ela me disse simplesmente que precisava. Mindy não era o tipo de pessoa que me contava meias histórias, nós sabíamos tudo sobre a vida da outra e quando ela tentou esconder o que estava acontecendo, eu a pressionei. Ela relutando disse que seus pais tinham implorado e que ela não poderia ficar ali de jeito algum.

Levei a mão à boca. O clima na sala estava pesado.

— Eu tenho motivos Hal. Pode ser só uma coincidência, mas eu tenho motivos para pensar que não é... Eu sou alcoólatra... Droga, eu não acredito que estou falando isso para você.

Hal se curvou em minha direção e segurou minha mão.

— Depois de tudo o que aconteceu eu precisava de alguém... Tentei fazer amizade com diversas pessoas, mas sempre em vão. Eu precisava me distrair e a bebida preencheu aquele vazio... Nossa... — respirei fundo — Eu não sei, eu só precisava parar de pensar em como a minha vida tinha sido uma droga do início ao fim.

— Calma Ophelia...

— Eu queria ficar calma, mas eu não consigo. Quando penso em nós dois eu só...

— Talvez você não devesse pensar tanto. Nós estamos aqui, eu permaneci até agora. Você carrega esse medo e tristeza por aí e essa preocupação tem sido a sua vida. Quanto mais você se preocupar, mais aprisionada vai ficar.

— Eu sei... — disse ainda deixando que ele segurasse minha mão.

— Então me deixe fazer parte do seu presente... Eu estou do seu lado.

Os olhos de Hal me fitavam.

— Não é tão fácil assim Hal... — puxei minha mão de volta.

— Deixe que seja fácil. Só hoje, por uma noite. Essa noite você está se libertando.

Ele se aproximou e me beijou. Tentei resistir, mas estar ali era tudo o que eu queria, ainda que meu medo não permitisse. Eu queria sentir seus lábios tocando os meus e suas mãos segurando meus braços. E na minha resistência um brilho de esperança surgiu na minha mente. “Apenas deixe. O ontem passou, apenas queime as páginas dessa história horrível e viva esse momento”, dizia eu mentalmente. Eu não podia deixar que esse minuto com Hal se tornasse uma página passada e que sequer experimentasse estar com ele. Então o beijei de volta.

Continuamos a nos beijar. Ele beijou meu pescoço e tirou sua camisa. Ali consumamos nossa relação e ainda que não estivesse totalmente segura sobre a permanência de Hal, eu agora estava deitada sobre o seu peito, ouvindo seu coração bater e me sentia bem, me sentia guardada, ainda que ele fosse embora algum dia, hoje ele estava do meu lado.

Notas finais
Obrigado por ter lido esse capítulo! :D Se você gostou deixe um comentário, uma crítica, indique ou favorite a história!