100 dias
17 Capítulo 17 - Observações
Notas iniciais
— Que hora ela pretende sair desse banheiro? A comida já esfriou. –Disse Vi com um tom de irritação colocando os objetos da bandeija sobre a cama-
Silêncio.
— Não vai falar nada? O que foi? As palavras da sua amiguinha fizeram com que você desista de mim?
Viollet parecia querer socar Leon até que ele falasse algo.
— Não seja boba, eu adoro você.
— Adora? –Ela o encara- Quando ela sair vá para o refeitório, vou levar essas coisas para lá. –Ela diz enquanto joga as coisas com força de volta na bandeija-
— Mas eu nem sei onde fica.
— Se vira. –Vi sai e bate a porta do quarto-
Leon encara a porta até que ouve uma voz atrás dele.
—Parece que ela não gosta de mim. –Sussurou Mia-
Ele se vira para olhar a garota.
—Nossa, Mia, você pareceu um fantasma agora. –Diz Leon com uma expressão assustada-
Ela estava usando uma calça preta, blusa de frio azul escuro e uma bota preta que ia até a canela. Seu cabelo estava preso em um lindo rabo de cavalo, porém, alguns fios pareciam ter escapado e brincavam no vento que entrava pela janela.
— Quantos anos Viollet tem? –Pergunta Mia com um tom desafiador-
— Por que essa pergunta de repente?
— Apenas responda.
— É mais velha que você.
— Mais velha quanto?
— Um ano.
Ela fixa seu olhar no dele por alguns instantes.
— Gostei da sua roupa. –Ele diz desviando o olhar- Mas é estranho ver você sem a roupa de enfermeira.
— Imagino. –Ela limpa a garganta e coloca as mãos nos bolsos da blusa- Vamos logo antes que sua namoradinha pense que estamos fazendo algo errado.
— Vamos. Não sei como encontrá-la, mas vamos.
— E como pretende chegar lá?
— Você já viu o tamanho disso aqui? Existem guardas espalhados. –Ele diz enquanto abre a porta para ela passar- Se dermos sorte esbarramos com um.
— Se dermos sorte? –Ela repete-
— Apenas vamos.
Eles saem do quarto, andam até o fim do corredor, que parecia nunca acabar, descem uma escada, andam mais alguns corredores até finalmente encontrarem com um guarda e ele os indica a direção correta.
— Uau, conseguiram chegar, parabéns. –Ironiza Vi- Como foi o passeio?
— Viollet, chega, está bem? –Disse Leon em um tom firme-
— Toma –Vi entrega uma bandeija para Mia- É só entrar na fila e pegar a comida.
— É sempre assim? Comida à disposição? –Indaga Mia-
— Não, por ter muitos refugiados, existem dois horários, às 21h e 23h. Bem vinda ao segundo horário. Agora é melhor você entrar logo na fila.
Mia pega a bandeija e vai para a fila.
— Vamos comigo pegar uma mesa? –Diz Vi puxando o braço de Leon-
— Que tal aquela no canto? Preciso conversar com vocês. –Ele respnde sério-
— Está certo. Mas não faça essa cara que você me deixa preocupada, ok?
Eles vão até a mesa e sentam.
Leon observa o local.
Existem diversas mesas com quatro lugares, uma pequena cozinha e um local para servir. A única saída é por um corredor que cabe no máximo duas pessoas. As paredes são mais altas que o normal, tem um tom amarelo pastel, e em seus topos havia pequenos vitrôs. A luz é fraca mas clareia tudo e o piso costumava ser branco.
“Se um infectado entrar aqui, ele contaminaria todos facilmente, com o nervosismo, as pessoas não conseguiriam sair daqui pelo corredor, os vitrôs não são acessíveis para nós, então escapar por ali seria impossível.” Ele pensa.
— Quase não encontrei vocês. –Diz Mia-
— Leon? –Diz Vi- Está tudo bem?
Ele olha para ela e demora alguns segundos para responder.
— Claro, está sim.
— Não é o que parece, estou falando com você e aposto que não ouviu.
— Me desculpe. O que você disse?
Viollet revira os olhos.
— Vamos pegar a comida? Mia guarda a mesa.
— Claro, claro. Vamos.
Ela levanta e fica de pé ao lado dele.
Ele observa os vitrôs.
Ela sai da mesa furiosa.
Ele ainda leva alguns instantes para levantar.
— Realmente está tudo bem? –Pergunta Mia-
— Sim, está. Agora vou atrás da Viollet antes que ela volte com uma arma.
Ele vai em direção a fila.
— Eu achei que você fosse mais madura. Porque está toda irritada? –Ele pergunta enquanto tenta abraçá-la-
— Eu não estou irritada.
— Bom, talvez o problema não seja a Mia, seja o seu ex. Por que mentiu para mim, Viollet?
— Do que você está falando? Eu nunca menti para você.
— Você nunca mencionou nenhum namorado. Disse que sempre foi sozinha.
— Escute. Não há nada de errado sobre o Herick estar aqui. Eu não me importo. E ele foi um namorado que tive durante meu tempo de exército.
— Vocês serviram juntos?
— Quase isso. Somos os próximos, pegue a bandeija.
Eles colocam a comida em seus pratos sem trocar uma palavra.
Vão até a mesa e comem em pleno silêncio.
— Nossa, o que houve? Vocês voltaram tão sérios. –Diz Mia-
— Não houve nada. É difícil falar com a boca cheia sabia? –Responde Viollet-
— Você pode tentar ser mais agradável? –Pergunta Leon enquanto a encara- Não aconteceu nada, Mia. Você não acha que comeu muito rápido?
— Não, na verdade eu peguei pouca comida.
— Ah, entendi. –Ele limpa a garganta- E então, como está a Any?
— Morta. –Ela responde friamente-
Viollet e Leon se entreolham supresos com a maneira da resposta.
— Desculpe, o que você disse? –Questiona Leon, impressionado-
— É isso mesmo. Ela saiu comigo para te procurar. Mas sofremos uma acidente e ela não conseguiu sair do carro antes que ele se estraçalhasse.
— Nossa, eu sinto muito, Mia, vocês eram tão grudadas. Any te admirava muito. Eu entendo sua dor. –Fala Leon quase sem voz-
— Eu também sinto muito, de verdade. –Diz Viollet-
— Acredito. Sabe o que mais me incomoda? Any cuidou de mim por anos, me amou veradeiramente, eu devia ter dado uma chance para ela ao invés de ter me apaixonado por você. –Diz Mia triste-
— Do jeito que você fala, parece que a culpa foi minha, eu nunca disse que queria namorar você. –Impõe Leon-
— Então você é sempre assim? Troca carícias e faz sexo com enfermeiras por fazer? –Mia questiona-
Viollet limpa a garganta como um lembrete de que ela também está ali.
— Droga, Mia. Porque você não esquece isso?
— Calem a boca os dois!
Vi não percebe o quão alto gritou até que olha em volta e todos no refeitório pararam o que estavam fazendo para a encarar.
— Ora, nós não mandamos nos nosso sentimentos. Any era uma pessoa inteligente, ela sabia disso, não se torture pensando nessas coisas. –Diz Leon pegando na mão de Mia para dar apoio-
— Any era apaixonada por você? –Indaga Vi-
— Sim, era. Você sabia, Leon?
— Não, mas a maneira como ela te tratava era suspeita. –Ele responde-
Viollet observa os dois conversando.
“Gostaria de ter conhecido vocês antes e ter passado por tudo isso juntos. Agora me sinto tão deslocada.” Ela pensa.
— Eu provavelmente estaria no hospital com ela, ouvindo sua voz doce e vendo seu lindo sorriso enquanto contava qualquer ocorrido engraçado com algum paciente.
— Você está me confundindo, você gostava dela então? –Pergunta Viollet-
Mia ignora e continua.
— Mas como eu fui cega, estou sentada numa mesa no meio do nada, com gente desconhecida, tendo que olhar para a sua atual namorada e sendo testemunha da felicidade de vocês.
— Você gostaria de fazer um enterro para Any? –Pergunta Leon-
— Claro.
— Sabe voltar no local do acidente? –Indaga Vi-
— Eu não tenho certeza, desmaiei e acordei em outro lugar.
— Como assim? – Pergunta Leon surpreso-
— Não sei, mas alguém ou alguma coisa me carregou para uma cavena.
— Está certo, preciso falar com vocês e tem que ser agora.
Ele se cala por alguns minutos.
Elas se entreolham depois o encaram.
— Então diga, não nos deixe no escuro, fale algo. –Pressiona Mia-
— Acontece que eu não sei como começar.
— Que tal pelo começo? –Caçoou Viollet-
— Vocês sabem sobre o meteoro, correto?
Ambas fazem sinal positivo com a cabeça.
— E acreditam que ele foi a causa de tudo que estamos passando, certo?
Elas repetem o sinal.
— Você se lembra do que o Sidney disse, Vi? –Ele pergunta-
— Vagamente.
— Espera. O Sidney falou com vocês? Achei que ele não saísse do hospital. Como ele achou vocês? Ele sempre soube da sua localização?
— Não, claro que não. Não tenho ideia de como ele me achou.
Ela lança um olhar desconfiado.
— Acredite ou não, é a verdade. Agora vou explicar o que eu estou tentando dizer. Há alguns anos eu estava fazendo testes em pessoas de uma pequena cidade, que contraíram um vírus estranho. Mas todos que tiveram a substância injetada... Morreram.
— Você estava usando as pessoas como cobaias? –Mia perguntou indignada-
— Não. Elas estavam doentes, eu apenas queria ajudar.
Silêncio.
Ele continua.
— Os corpos começaram a sumir juntamente com algumas pessoas. Quando a situação estava saindo do controle eu decidi viajar atrás de uma planta medicinal, usaria ela para o meu último teste. Caso não funcionasse, eu entregaria para outro a responsabilidade de fazer a vacina. Entretanto, numa noite, Sidney entrou em contato comigo dizendo que havia visto uma criatura não humana andando pela cidade, ele estava assustado porque tinha certeza que era o resultado do que eu estava fazendo. Na mesma noite, marcamos de nos encontrar no meu laboratório, ele queria me mostrar algo. Quando finalmente encontrei com ele, havia um coelho quase sem pêlo dentro de um pote de vidro. Sua pele parecia estar em decomposição, mas mesmo assim ele estava vivo. Sidney disse que havia injetado a substância no animal e aquilo, assim como o que ele havia avistado, eram resultados dos testes. Decidimos partir na manhã seguinte para procurar a planta. Chegando lá, vocês já sabem do acidente.
— Ei, muita calma nessa hora. Você está me dizendo que eu estou sentada jantando com o responsável de um apocalipse zumbi? –Perguntou Mia nervosa-
— Mas, porque o coelho sobreviveu e atualmente nós não vemos animais zumbis? –Perguntou Vi-
— Isso varia de organismo para organismo, se o animal vai aguentar o substância ou não. Caso um organismo, tanto animal quanto humano, não suporte, a pessoa morre normalmente, não se tornar um zumbi.
— E o meteoro? Onde entra em tudo isso? –Indaga Mia-
— De acordo com a previsão, faltavam algumas semanas para que ele caísse. A cidade era afastada, não infectariam uma grande quantia nesse tempo. Assim que ele caiu, colocamos a culpa nele.
— Isso é loucura. Por que Sidney não deu continuidade a vacina? Por que teve que esperar por você? Se ele tivesse tentado reverter a situação naquela época, nada disso estaria acontecendo, droga! –Diz Mia extremamente irritada-
— Ele não poderia, a fórmula está escondida.
— Como não poderia? Caramba, vocês são cientistas, ele é ou era seu amigo, devia saber o que era necessário para fazê-la! Poderia ter tentado. –Mia levanta irritada, atira a bandeija no chão e sai correndo do refeitório-
— Você não vai falar nada? –Ele pergunta encarando Viollet-
Ela parecia não estar ali. Seus olhos fixos na mesa.
Silêncio.
— Viollet, eu prefiro que você me xingue ou me bata do que fique em silêncio.
Ela não responde.
— Olha, tudo bem, eu vou entender se você me odiar a partir daqui, eu só quero que saiba...
Ela o interrompe.
— Eu não odeio.
Ele olha para a parede, passa a mão no cabelo e voltar o olhar para ela.
Uma lágrima no rosto da garota.
— Vi?
Ele tenta abraçá-la.
— É melhor levarmos essas coisas de volta para a cozinha, já fizemos shows demais por hoje. E provavelmente vamos levantar cedo amanhã caso Mia queira ir tentar achar o corpo da Any. –Ela diz calmamente-
— Desde quando você se importa com isso?
Ela sai do seu banco, agacha ao lado da mesa, recolhe as coisas da bandeija da Mia, pega a sua e se direciona para a cozinha. Depois vai em direção ao corredor, anda devagar até seu quarto. Assim que para em frente a porta, consegue ouvir Mia chorando lá dentro.
“Pobre garota, já está na hora de se tornar mais forte. Pessoas fracas acabam não sobrevivendo a este mundo.” Ela pensa enquanto abre a porta.
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