100 coisas para fazer quando se é uma bruxa
9 Quem sou eu?
Notas iniciais
Parei no primeiro posto de gasolina que encontrei. Era meio estilo aqueles postos de gasolina de filmes, que são abandonados. Mas poderia ser o único posto aberto que encontraria.
Peguei minha mochila e saí do carro.
Eu devia ter uns 70 dólares, o que dava pra abastecer e comprar alguma coisa pra comer. Com sorte, encontrar um lugar pra dormir, caso contrário, teria que me acomodar naquele Corvette com cheiro de cigarro e fragrância masculina.
Começo a encher o tanque e, de relance, ouço meu nome. Mas não dei bola, devia ser coisa da minha cabeça.
Ouço de novo, dessa vez mais alto, e tive certeza que alguém me chamava. Me virei pra ver quem era, e olha só, seria ironia do destino ou coincidência? Sim, ele mesmo, Castiel.
– Só o que me faltava...
– O que faz aqui essas horas, e sozinha?
– Pensei que minha cota diária de você já tinha se esgotado.
– Ou talvez o universo conspire a nosso favor.
– O universo não seria tão filho da puta.
– Ai, essa doeu...
Paguei a gasolina e guardei o que sobrou no bolso.
– E então, o que faz aqui? — Ele sabia ser insistente.
– O que VOCÊ faz aqui?
– Bom, minha mãe mora por aqui e vou dormir na casa dela. Sua vez de responder.
– Eu estou... Com... Um cara.
– Ah, tá. Me engana que eu gosto.
– V-Verdade. Ele está dentro daquele Corvette. — Apontei pra carroça que eu havia "pegado emprestada". É, eu poderia ter arrumado coisa melhor.
Ele colocou a mão em cima das vistas e forçou os olhos pra enxergar o que, aparentemente, não podia ver, porque eu inventei.
– Qual é, quem você quer enganar? Sabemos que você está aqui sozinha. Por enquanto.
– Por enquanto? Não acho que você conseguiria mudar essa situação.
– Ah, então você está mesmo sozinha.
– É, Castiel, estou. Agora dá licença, preciso ir.
Castiel segurou meu braço e me virou pra ele novamente.
– Posso te acompanhar, se quiser, claro.
– É, acho que você não seria mesmo capaz de me obrigar, não é mesmo?
– Bom, agora que vou mesmo. — Ele me segurou pelo braço e me levou até o carro DELE.
– Ai, me solta! Está me machucando! — Não estava.
Ele abriu a porta do carona, pôs-me lá dentro e colocou o cinto, com um sorrisinho no rosto. Deus, como podia ser tão lindo?
Por que não usei meus poderes naquele momento? Seria simples demais.
Talvez porque eu soubesse a resposta: eu não queria usar.
Ele fechou a porta, deu a volta e entrou no carro.
– Onde estava indo? Pra casa? Posso te levar. — Ele ligou o carro.
– NÃO! Pra casa não.
– Como não? Onde ia?
– Pra... Sei lá... Qualquer lugar.
Eu olhava além da janela. Nem sabia o que estava encarando, só estava evitando seu olhar. O que não consegui, pois o vidro refletia-o, olhando pra mim.
– Qualquer lugar não é resposta. Vem, vou te levar pra minha casa.
Virei pra ele, no mesmo instante.
– Que? Não! Sua mãe vai pensar que sou sua namoradinha.
– Só não é porque não quer, Becca.
Nunca gostei muito do meu apelido, mas com ele falando, eu gostaria de ouvir qualquer coisa.
– Exatamente.
Voltei a fitar o nada.
– Ok, você não quer ir pra casa, não quer ir pra minha casa. — Ele desligou o motor. — Quer ir pra onde?
Aquela pergunta foi difícil. Pra onde eu iria? Na verdade, eu poderia ficar a noite inteira acordada.
– Nós podemos ficar aqui, se você quiser.
– Seria muito desconfortável.
– Quer me contar por que não quer ir pra casa?
Eu demorei a responder. Fiquei pensando se queria ou não responder, o que iria responder.
– É complicado. Minha tia não me quer mais em casa e está convencendo minha vó de me mandar pro Arizona.
Ele ergueu as sobrancelhas, surpreso.
– E, obviamente, você não quer ir, por isso não quer voltar pra casa.
– Aquela não é minha casa. Não de verdade. Sabe, é difícil não ter um lar pra chamar de seu.
Eu queria chorar, mas as lágrimas não vinham.
– Eu entendo. Quer dizer, não entendo, mas entendo.
Eu ri. Não só dele, mas daquela situação. Nós dois longe da cidade no carro dele, em um posto semi abandonado.
– Podemos ir pra sua casa, então.
– Tem certeza?
– Tenho. — Sorri pra ele. — Obrigada.
Nós seguimos pra casa da mãe dele. Era mais ou menos meio quilômetro do posto.
A casa era bonita. Uma típica casa americana: de madeira branca, com varanda e um belo gramado na fachada.
Ele deixou o carro na garagem, e nós entramos.
A mãe dele estava na sala, assistindo TV.
– Hã, mãe. — Ele chamou.
Sua mãe era bonita, era loira, usava óculos, era magra e um pouco mais baixa que ele. Não parecia ser sua mãe, talvez uma irmã mais velha. Provavelmente o teve cedo.
– Mãe, essa é a Rebecca. — Ela se aproximou, e estava com uma expressão surpresa, mas pelo lado positivo. — Uma amiga. Ela vai dormir aqui por essa noite, tudo bem?
– Claro. Prazer, Rebecca. Beth. — Ela me deu a mão.
– Prazer. Obrigada por me deixar dormir aqui, não sei o que faria.
Ela sorriu.
– Bom, eu vou subir pra dormir. Fiquem à vontade. Boa noite.
– Vem, Rebecca, vamos subir. — Castiel disse.
Eu o segui.
Nós subimos as escadas e fomos até seu quarto.
Era bem espaçoso. Tinha uma cama de casal no centro, uma escrivaninha no canto esquerdo, com uma janela em cima, vários pôsteres de super-herói por todo lado e uma porta, que deveria ser o armário.
– Belo quarto.
– Valeu. Pode sentar.
Eu sentei na cama, e fiquei olhando os pôsteres.
– Não sabia que gostava de super-heróis.
– Eu gosto. Eu tenho um lado nerd, ao contrário do que as pessoas pensam. — Ele puxou uma cadeira e sentou. — Tá com fome? Porque eu tô.
Foi quando parei pra pensar que sim, porque a última refeição que tive foi o almoço.
– É, eu tô. — Dei uma risada.
– Na cozinha tem muita comida, acho que você vai gostar.
Nós descemos e ele preparou um lanche que envolvia pão, maionese, presunto e queijo. Ele esquentou no micro-ondas.
– Prefere café, suco, água, refrigerante...?
– Café.
Eu tinha uma imagem totalmente errada dele. Quem era Castiel Daves? O garanhão fútil que pega todas, ou aquele que colecionava pôsteres de super-heróis, que era atencioso e gostava realmente de mim? O que estragava era o fato de ele ter beijado a Kathleen. Eu nunca esqueceria aquilo...
Mas... Quem era Rebecca Loreen? A adolescente apaixonada por Castiel, que tinha problemas com a tia e que, provavelmente, iria morar no Arizona, ou a bruxa que queria vingança? Eu já nem sabia mais quem era...
Ele pôs café em duas xícaras, pegou os sanduíches e os colocou sobre a mesa para comermos.
Nós comemos em silêncio. Talvez porque não havia nada pra falar.
Talvez porque nem precisasse.
Depois de comer, lavamos a louça e subimos para dormir. Ele arrumou o quarto de visitas, que era aconchegante, para mim, e voltou para o seu.
Demorei horas pra conseguir pegar no sono.
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