Sabe aquele ditado "não comemore antes da vitória"?
Pois é, eu deveria tê-lo seguido.
No sábado de manhã, minha avó me chamou na cozinha, junto à megera/tia, para conversarmos.
— Então, que comecem as especulações. — Indaguei.
— Ahn... Querida, sabe quando você disse que queria mudar de escola?
Aquele lugar já não passava um átomo.
— Seeei... — Fingi não estar nervosa e com medo como estava por dentro.
— Eu e sua tia encontramos uma ótima escola. No Arizona.
Eu fiz uma expressão de surpresa, como se eu não tivesse escutado elas planejando aquilo.
— O quê? Nem fodendo.
As duas fizeram uma expressão de espanto ao me ouvir falar um palavrão. Como se eu fosse a única no mundo a falar. A diferentona. A exclusiva. A que despertaria a força. A maçã que matou a Branca de Neve. A pedra filosofal. A que matou um dos deuses do Olimpo.
— Se você ainda não percebeu, você não tem 18 anos. Você não se manda. Você mora na casa da sua avó. — Tia Annie contestou, gritando. — Portanto, vai fazer o que ela mandar. Vai ir pro Arizona, sim.
Bufei e saí batendo os pés, irritada e frustrada.
Entrei no quarto e bati a porta com força.
Respirei, me acalmei e deitei na cama, de novo.
Talvez essa seja a oportunidade de me afastar do Castiel, pensei.
Pensei por alguns minutos, tentando organizar um plano na minha cabeça. Um plano pra fazer dar tudo certo, mesmo indo pra outra escola, em outra cidade, em outro estado.
Dei um sorriso irônico, porque eu já tinha tudo planejado, e eu iria executá-lo. O plano, não o Castiel. Mas se fosse necessário, o Castiel também.
...
De tarde eu saí, fui para o Shopping Rivergate de táxi.
O mais legal de ser bruxa, é que você pode fazer suas compras e sair da loja, sem pagar, e sem que ninguém perceba. Anote isso como 12 na lista de coisas que vou fazer/já fiz enquanto sou uma... bruxa.
Okay, pode me julgar à vontade, me chamar do que quiser. Ladra, vândala, mão leve, feiticeira, bandida, assaltante... Mas atire a primeira pedra quem nunca quis fazer isso. Aliás, só é roubo quando alguém vê.
Comprei — sim, desta vez eu paguei mesmo — um café expresso gelado de morango com chocolate branco (meu preferido) e dei algumas voltas pelas lojas. Aqui e acolá eu fazia alguma coisa ou outra aparecer na minha bolsa, o lance da mágica.
Passeei pelo parque de Nashville e voltei pra casa de táxi.
Eu odiava morar afastada da cidade, porque sempre que quisesse ir ao centro, tinha que ir de táxi. Gostaria que junto com a magia, tivesse ganhado asas também. Bom, aí eu seria uma fada.
...
Quando cheguei em casa e consegui conexão WiFi, chegou uma mensagem da Daisy, me convidando para ir à uma festa, na casa de um amigo dela. Sorte dela que eu tinha feito compras.
— O que é isso nessas sacolas? — Minha avó perguntou.
— São... Compras. — Respondi.
— E as comprou com que dinheiro? — Ela deveria estar achando que eu comprei com o dinheiro dela.
— Com minhas economias. — Balbuciei. — Eu guardo dinheiro, sabia? Ah, e comprei um presente pra você. Toma. — Entreguei uma sacola pra ela. Era um vestido de senhora preto e branco listrado.
Ela semicerrou os cílios.
— Tá bom... Obrigada. — E me deu um beijo na testa.
Subi para o quarto e guardei o conteúdo das sacolas, separando a roupa que ia usar de noite. Uma calça com a barra dobrada de cintura alta e um top preto com galões. E um salto de bico fino amarelo.
À noite eu tinha uma festa para ir.
...
Eu peguei um carro "emprestado" — dessa vez um mais dirigível — e fui na casa da Daisy para buscá-la.
— De quem é esse carro? — Ela perguntou logo quando entrou.
— É... Ahn... Da minha tia. – Menti. Girei a chave e arranquei. Ela foi me dizendo o caminho quando chegamos no centro, que é onde seria a festa.
Nós andamos alguns quarteirões, viramos algumas ruas, passamos por avenidas, até que chegamos no prédio. Entrei com o carro no estacionamento e fomos na portaria, onde um homem de uns 40 anos estava lendo um jornal.
— Com licença. – Daisy murmurou.
O homem fechou o jornal e ajeitou os óculos pendurados no nariz em sua face.
— Sim?
— Viemos para a festa no apartamento do Elliot Lancey.
— Ahn... – Ele deu uma olhada no monitor do computador. – Sim, claro, senhor Lancey. Apartamento 51. 13° andar.
— Obrigada. – Ela agradeceu.
Nós pegamos o elevador e eu apertei o botão 13.
A cabine do elevador era toda espelhada, e nós aproveitamos para tirar algumas fotos. Chegamos no 13, a porta abriu, e nós saímos.
— Para onde será o apartamento dele?
Eu fechei os olhos, sem que ela percebesse e tentei rastrear. Esquerda.
Abri os olhos.
— Deve ser por aqui. – Apontei para a nossa esquerda.
— Tudo bem, vamos.
Nós caminhamos pelos corredores do edifício. Era tudo chique. Tapetes lustrusos por todo o piso, paredes cor camurça e volta-e-meia tinha uma mesa com um espelho.
48. 49. 50.
51.
Notamos que era aquele o lugar só pelo barulho que exalava da porta.
Elliot devia ter bastante crédito para poder fazer uma festa naquele prédio.
Tocamos a campainha, e um homem alto e loiro, de no máximo 23 anos atendeu.
— Daisy! – Ele deu um abraço nela.
— E aí, Elliot? Essa é minha amiga, Rebecca. – Ela me apresentou.
Ele me deu um beijo no rosto como cumprimento.
— Entrem, meninas. – Ele nos convidou.
À primeira vista, pela porta, parecia ser uma rave, onde ninguém é de ninguém, todo mundo fuma maconha e o cheiro de drogas é forte. Mas não, era mais ou menos uma balada. Muitos estavam bêbados, óbvio, dançando, alguns se beijavam e tinha um DJ que animava a galera. A música era bem agradável.
Fomos pegar bebidas, e Elliot foi falar com os amigos dele.
— Pra vocês? – O “bartender” perguntou.
— Um drink com limão. – Daisy pediu.
— Um whisky. – Eu pedi.
Ele demorou uns 2 minutos até nos trazer.
— Aqui está.
— Aquele garoto só tá olhando pra você. – Eu sussurrei para ela.
— Que garoto? – Ela perguntou.
Eu indiquei-o com o queixo enquanto ele desviou o olhar. O garoto era bonito. Tinha cabelos cacheados escuros, era alto, magro.
— Ah. Ele é bonitinho. – Ela sorriu e deu um gole no drink.
— Vai lá falar com ele. – Eu sugeri.
— Eu não. Vou esperar ele vir.
— Tá bom. Vou ao banheiro.
Quando cheguei na porta banheiro, senti um cheiro de... Fumaça. Olhei para todos os lados, e procurei sinal de fogo. Fui abrindo de porta em porta, até que achei as chamas. Vinha de um quarto. Estava tudo pegando fogo. E tinha um casal lá, gritando por socorro.
Fechei os olhos pra tentar apagar o fogo, antes que alguém viesse. Apaga. Me concentrei. Apaga. Eles gritavam por socorro. Apaga. As chamas se espalhavam rapidamente. Apaga. Pessoas vieram para ver o que acontecia. Apagou.
E eu caí no chão.
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