100 coisas para fazer quando se é uma bruxa
13 Desinimiga? Talvez
Abri os olhos com certa dificuldade, e estava tudo embaçado. Levei alguns segundos pra conseguir enxergar tudo claramente. Vovó e Tia Annie estavam ao meu lado, foi o que vi. Um barulho de pi repetido vinha de alguma máquina.
— Onde estou? – Perguntei com a voz meio grogue.
— No hospital. Você estava na festa e houve um incêndio. Você ficou sufocada pela fumaça e acabou desmaiando. – Vovó me explicou. Não se lembra, querida?
“Na verdade não é bem isso que eu me lembro”, pensei.
— Mais ou menos. E a Daisy, ela está bem? – Tentei me levantar e sentar, mas fui impedida pela minha tia.
— Ela está bem, mas você precisa ficar deitada pra se recuperar.
Nunca vi Annie tão preocupada comigo desde que minha mãe morreu.
— Eu estou bem, sério. Só estou com dor de cabeça.
— Você tem visita. – Uma enfermeira anunciou da porta, e logo saiu.
As duas saíram, me deixando sozinha no quarto, onde praticamente tudo era branco, me dando mais dor de cabeça ainda.
Alguém se encostou no vão da porta. Eu não consegui identificar muito bem quem era, por causa da tontura, mas quando foi chegando mais perto, ficou nítido. Castiel.
— Hey. – Ele disse, com um sorriso.
— Oi.
— Que susto que você deu na gente, menina. – Ele chegou mais perto, ficando ao lado da maca.
— Mas estou aqui. Viva.
— E espero que fique por um bom tempo.
— Achei que se nós não... Ficássemos, você não seria nem meu amigo.
— As coisas mudam. As pessoas mudam. E os sentimentos mudam.
— Você tem toda razão. E você é a prova viva disso. – Desviei o olhar e fitei o nada.
— Bom, não vim aqui pra brigar nem nada, só para ver como você está e desejar melhoras. E boa viagem.
— Ah, então já está sabendo.
— Sim, e até estranhei no início.
— Obrigada. – Eu não queria falar com ninguém, apenas ficar quieta, na minha.
Ele andou até a porta, me deu uma última olhada, e saiu, me deixando sozinha, e dei-me por entregue. Havia muito tempo que eu não chorava. E não era dor física. Essa dor é passageira. Você chora na hora. Mas quando você chora por está machucado por dentro, a dor pode durar a vida inteira.
•••
Recebi alta no meio-dia do domingo. Tia Annie veio me buscar com seu carro.
— Rebecca! – Alguém gritou enquanto saíamos do hospital.
Olhei para trás, e era Daisy.
Parei de andar para esperá-lá, no hall do hospital.
— Que bom que está bem. — Ela disse.
— Você também. Ninguém se machucou? – Indaguei.
— Não, parece que não. Quando chegamos lá, encontramos você caída no chão e o fogo já havia apagado. Que sorte, não precisamos nem bombeiros.
— E encontraram a causa do incêndio?
— Dizem que foi porque o casal que estava no quarto derrubou um cigarro ainda aceso no chão, e assim foi. Como os dois estavam bêbados, não sentiram o cheiro, e nem viram quando derrubaram.
— Ainda bem que ninguém se feriu.
— Realmente. Por que está usando óculos escuros? – Ela apontou pros meus óculos. – Não tem sol e está frio.
— É que eu estou com uma cara horrível e com dor de cabeça. Deve ter sido a bebida alcoólica.
— Entendo. Mas eu me diverti, naqueles 15 minutos que ficamos na festa.
— E o garoto? Vocês se falaram? – Dei um sorriso malicioso.
— Sim, o nome dele é Vincent. Ele é bem legal. Trocamos número de celular e tal.
— Que boooom! Espero que dê certo.
— Vamos, Rebecca! Não tenho o dia todo. — Tia Annie gritou pra nós irmos.
— Mas enfim, tenho que ir. Quer ir almoçar lá em casa? Assim conversamos mais.
— Claro, vamos.
Nós fomos pro carro.
— Espera, o carro da sua tia não era um... – Ela murmurou.
— Entra logo. – Ela balbuciei, fazendo-a entrar no carro e mudando de assunto.
•••
Eu contei pra Daisy que eu ia me mudar pro Arizona, na escola nova, e ela surtou. No sentido de que não queria, claro.
— Mas como assim? Não acredito! Elas não podem fazer isso! Como você vai se virar lá? Elas enlouqueceram?
— É exatamente assim que estou me sentindo. Mas a escola é interna, então vou ficar a semana toda lá. Provavelmente nos finais de semana eu volte.
— E você está de acordo com isso?
— De acordo totalmente, não. Mas vai servir pra eu pôr a cabeça no lugar e ficar longe do... De tudo.
— De mim também. – Ela fez cara de cãozinho sem dono.
— De você não, claro.
— Me liga SEMPRE! E vem me visitar.
— Calma, eu não vou amanhã. Eu vou fazer um acordo com minha vó. De ela esperar pelo menos um mês antes de viajar, pra me acostumar com a ideia e me despedir.
— Então você vai no começo do ano que vem? Por que estamos em dezembro quase em dezembro já...
— Verdade, nem me dei conta de que o ano já está acabando. E as provas de fim de semestre estão chegando¹...
Nós conversamos mais um pouco até ela ir embora.
Me desloquei até a sala de estar, onde minha vó assistia TV.
— Vó, preciso conversar com você.
— O que foi? – Ela pegou o controle e abaixou o volume.
— Sobre o Arizona. Eu posso até ir, mas no ano que vem. Tenho coisas pra fazer em Nashville ainda.
— Tudo bem, ano que vem você vai então. Olha, você tem que entender que eu não quero que você vá, filha...
— Não, não precisa dizer nada. O que está feito, está feito.
Deixei-a e fui pro quarto tentar dormir.
•••
No outro dia na escola, evitei todo mundo o máximo que pude. Tentei deixar aquilo o menos chato possível.
Nas aulas, eu tentei prestar atenção, pra não ter mais problemas do que eu já tinha.
Depois da escola, eu fui andar de bicicleta pelo parque, ouvindo música, pra me distrair, quando esbarrei em alguém, sem querer.
— Ai! Cuidado!
— Descul... – Parei de falar quando vi quem era. Kathleen. Deus, isso é perseguição? – Ah, Kathleen.
— Rebecca. Oi.
Nunca a vi tão educada. Essa garota mudou mesmo.
— Oi. O que aconteceu com você? Você está...
— Desarrumada? Com cara de doente? Eu sei, é que andaram acontecendo coisas na minha vida, enfim... Preciso ir. Até mais.
— Tchau.
O que será que houve com ela? Ela tá muito estranha, nem parece a mesma Kathleen.
Voltei pra casa e comecei a estudar pra prova de biologia. Aliás, precisaria estudar todas as matérias se quisesse me dar bem. Com os últimos acontecimentos, digamos que não tenha estudado muito.
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