10 minutos longe de você

2 Minha condenação


Maldição. Eu devia ter me escutado, eu deveria saber, eu sabia e não escutei meus próprios instintos! Isso tudo é tão dramático que me dá ânsia. Como pode? Num dia eu estar tão desesperada em querer vê-lo que queria que fosse embora, no outro eu realmente queria que desaparecesse porque subitamente era como se o desejo tivesse desaparecido, e no outro outra coisa, e agora outra coisa.

Ah! Eu estou ficando maluca, meu cérebro não para de trabalhar e tudo tem se tornado imensas pastas com informações demais que eu tenho de processar ao mesmo tempo.

Quando a indecisão sobre quando sairíamos ainda acontecia eu estava tão caída por você, tão sentida que mal me conhecia. Quando a oportunidade surgiu e estava finalmente marcado um dia antes eu entrei em colapso.

Íamos nos encontrar. E falaríamos sobre o que? Que tipo de assunto não iria parecer entediante? Eu com certeza iria gaguejar e você nem sabe que sofro de gagueira e prejudicaria tudo! Nós íamos nos abraçar ou se cumprimentar como velhos amigos? Iamos nos agarrar pelo desespero, pela demora em acontecer ou teríamos um papo cabeça antes?

Quantas vezes vou repetir que eu estava desesperada? Eu podia sentir meu coração bater com tanta força contra o peito que achei que ele sairia de dentro de mim assim mesmo, como arrombando uma porta, destruindo tudo pelo caminho.

Tivemos alguns imprevistos, uns atrasos e uns desencontros, uni todos como um sinal de que deveria ir embora, mas forças místicas me mantiveram sentada enquanto você me xingava no whats por ter de atravessar meio parque.

Um casal de crianças ruivas passou na minha frente e me distraíram por uma fração de segundos. Ainda existem crianças ruivas legitimas! E convenhamos que você foi ruivo por um tempo e eu apressei os dedos no teclado pra passar a noticia.

Você sentou do meu lado no minuto seguinte, eu sabia que era você, o casalzinho talvez também soubesse mas eu tinha de terminar de digitar primeiro. Eu senti a pressão do seu sorriso sobre o meu rosto semi coberto pelo boné, eu senti a pressão que fizeram por eu ainda não ter saído correndo, porque finalmente ali estávamos.

Meu estomago virou varias bolinhas de gude descontroladas, batendo uma nas outras, batendo nas paredes a volta, uma bagunça. Eu sabia que deveria ter te encarado e devolvido o sorriso, mas entenda eu nunca fiz esse tipo de loucura antes, então ao invés de lhe beijar o rosto eu o cumprimentei do jeito mano de ser mesmo.

Você não pareceu surpreso e isso foi um verdadeiro tiro porque eu não sou muito previsível. Você leu a mensagem que eu terminei de digitar e estava tão pacifico quando perguntou onde tais crianças estavam que me fez me sentir um pouco melhor.

Eu descobri que elas já tinham se afastado, mas as encontrei facilmente mais adiante admirando gaiolas vazias, eu apontei e você concordou com algo que meus ouvidos não absorveram com o choque voltando a tomar conta dos meus músculos.

Ok, ali estávamos, eu não podia correr.

Você perguntou pra qual lado iríamos, eu disse tanto faz, porque eu realmente não me importava, aqui ou lá, que diferença iria fazer? Você tomou a frente, mas não pegou na minha mão.

Estávamos andando lado a lado, e você não pegou na minha mão.

MALDITO SEJA. O meu lado romântico estava a flor da pele depois de estar adormecido a uma eternidade, e ele só queria que enquanto estivéssemos caminhando juntos você segurasse na minha mão, só pras pessoas desconhecidas e as crianças ruivas saberem que mesmo chegando separados estávamos ali juntos.

Você não fez a barba, por quê? Pouquíssimas pessoas sabem do meu interesse por barbas, e não vejo nenhuma delas contando isso pra você então tento fingir que estamos tentando parecer naturais, afinal eu não fiz a chapinha no cabelo e ele está uma bagunça de ondas que você não conhece.

Estamos jogando conversa fora, e eu não consigo olha-lo nos olhos, você quer o contato visual, mas não sou capaz de ir tão longe. Você está fazendo perguntas que nunca me fizeram antes e não sei o que me motiva a respondê-las.

Tomamos um caminho diferente e agora as famílias estão sumindo e já não tem mais crianças a nossa hora, sei que está chegando a hora e sei que já gaguejei umas quatro vezes. Você não riu em nenhuma delas, você se quer pareceu notar.

Maldição você está tão tranquilo que quero xinga-lo, mas não tenho uma justificativa boa pra quando você perguntar porque então fico na minha.

— Aqui ou lá? – Você pergunta.

Aqui não tem mesas, e lá tem.

— Lá.

Caminhamos mais um pouco e descubro que uma das minhas amigas contou sobre uma paixonite minha e você quer confirmar. EU NEGO, não vai arrancar tanta coisa de mim hoje eu espero.

— Aqui ou lá?

Aqui tem mesas, ainda que sejam de pedra assim como os bancos, não deixando conforto algum, lá é a mesma coisa.

— Aqui.

Eu tomo a frente pela primeira vez e caminho na direção de uma delas.

Sozinhos as piadas cretinas estão soltas, somos nós agora e não conhecidos, não somos amigos de sala, e eu estou completamente exposta. Você pede um chega pra lá e eu dou espaço pra você sentar do meu lado.

VOCÊ ESTÁ ABSURDAMENTE CALMO.

O assunto sumiu e eu estou explodindo por dentro, comemorando minha coragem, comemorando por não ter desmarcado, comemorando por chegar tão longe, comemorando que finalmente sentamos, mas também estou louca, louca porque não consigo olhar pra você, louca porque as folhas mais adiante são incrivelmente mais interessantes, louca porque você está olhando pra mim.

— Por que você está olhando pra lá?

Girar o corpo na sua direção é praticamente um sacrifício e você tira sarro da minha cara e depois encara o nada, poha eu finalmente estou virada na sua direção não me faça perder a cabeça.

Você ri e eu dou risada de volta, ainda que não seja verdadeira porque não sei do que estamos rindo. Eu bato as duas mãos nas cochas e pergunto “E agora?” e você avança 90%.

90%.

Eu encaro o meu próprio tremor com repulsa e penso porque não partiu logo pros 100%? Mas sei que você está me respeitando, e que eu pelo alguma coisa tinha de partir de mim, e devagar eu acabo com a distância entre nós dois.

Você me puxa pra mais perto ainda que eu não tenha exatamente saído do lugar, sei o que você quer fazer, mas não sou capaz de me mover sozinha, duvido até de que sou capaz de ficar de pé sozinha, na terceira vez você já se acomodou melhor e me ergue com facilidade pra me colocar em cima de uma de suas coxas.

Minhas pernas nuas estão esticadas sobre a outra e espero que provavelmente o mundo esteja rodando pra você como está pra mim. E ah, tudo está tão certo, está tão bem que não quero tirar os braços que enrolei em seu pescoço pra respirar melhor, como não quero que você desfaça a firmeza das mãos sobre minhas costas, que vez ou outra me puxam para mais perto ainda que seja impossível porque estamos colados.

Não sei em que velocidade o tempo esta passando a nossa volta, mas vozes surgem de vez em quando e eu não me incomodo, como você também não diz nada fico feliz por isso.

Nas primeiras horas depois que você se foi me considero adulta, estou controlada e agindo normalmente, mas tudo se desfaz quando chego em casa, três horas depois de você porque o carro quebrou, é como se eu tivesse me escondido atrás de uma cortina fina e estou tão internamente feliz e satisfeita que queria que tivesse uma maneira de você saber, só pra ter noção do prejuízo que me causou.

É quase como se eu pudesse ver estrelas atrás das nuvens que me prometem uma chuva pesada o resto da noite. Conto pros meus melhores amigos o que aconteceu e eles me acusam de paixão, eu nego, mas é inevitável sorrir pra escuridão do teto do meu quarto quando finalmente coloco a cabeça no travesseiro.

O colchão não está incomodando minha coluna hoje, então fecho os olhos sentindo seus dentes passarem por meus lábios em um gesto obsessivo porem libertador. Não sonhei com você, tive um sonho louco de ver meus livros bagunçados e jogados fora da ordem que tanto prezo, mas assim que meus olhos se abrem e a consciência começa a funcionar é a primeira pessoa em quem penso.

Conversamos um pouco quando eu cheguei em casa ontem por questões de segurança um do outro, mas você não me mandou bom dia ainda. Está na hora do almoço, e você ainda não disse nada.

Estou agonizando, minha garganta está se fechando enquanto eu caio num poço fundo que so me promete dores quando eu chegar no final, mas você está la em cima e dentro de mim tem a promessa de me ajudar, então espera que tudo fique bem.