10 dias pro amanhã
4 O Aprendizado
“Tive de esperar até o amanhecer pra poder escrever, porque a noite tudo ficou escuro demais. A primeira boa notícia é que o bebê ao meu lado parou de chorar, e a segunda boa notícia é que o cara da cabine da frente parece dormir até tarde, então sem socos na parede. E a má notícia? Estou preso dentro de um trem.
Por incrível que pareça, ninguém deve se importar com isso. A escola deve achar que eu já cheguei em casa, e minha mãe deve estar pensando que eu estou tendo mais um dia normal de aula. É irônico como nós passamos por tantos perrengues, enquanto simultaneamente a pessoa está tendo o melhor dia de sua vida. Eles sequer DESCONFIAM dessa tragédia que está acontecendo comigo. Bem, eu acho que hoje não é um dia muito bom pra falar sobre sentimentos e bla bla bla. Aposto que é mais interessante falar sobre minha desventura, e bem, que assim seja! Depois de uns minutinhos, pediram pra que saíssemos de nossas cabines e fôssemos pro corredor principal. Bem lá na ponta do vagão, um homem alto e sério nos orientou a ficar calmos, e disse daqui a algumas horas iríamos voltar a andar; falou que foi um problema nas engrenagens e que já estava sendo resolvido. Eu fiquei indignado, pois ele não deu uma explicação sobre a comida, e eu estava faminto porque não tinha tomado nada desde ontem. No meio da multidão, fui até o homem e questionei. Ele simplesmente fingiu NÃO OUVIR, e deu de ombros. Não deixei por barato, e fiz questão de instalar o caos no vagão. Gritei de forma bem audível que eles estavam tentando nos matar de fome. Acho que esse foi o meu maior feito até um hoje: Um garoto de 16 anos iniciou um motim dentro de um vagão preso em um túnel.Pois muitos se juntaram a mim no protesto, e meu vagão virou a verdadeira definição de bagunça. Todos gritávamos, quebramos até algumas janelas. Nunca me senti tão livre e rebelde. A situação só foi controlada quando umas duas moças trouxeram algumas rações pra gente. Devoramos feito animais, e na verdade, me senti em meio a uma alcateia. Percebi, na verdade, que eu estava com todo o poder ali, porque todo mundo copiava EXATAMENTE o que eu fazia. Alguns copiavam até os meus passos, e sinceramente, isso estava começando a se tornar assustador. Tudo só piorou quando um idoso um pouco caduca VIU O MEU DIÁRIO, e gritou pra todos no corredor que eu era um profeta e que tinha a resposta no meu caderno. Eu não sei de onde ele tirou isso, mas isso só piorou a minha situação! Simplesmente me atacaram e tentaram tirar o diário de mim a qualquer custo. Caderno, tive que te defender com todas as minhas forças, me agradeça e muito se estou vivo escrevendo esse relato. Bem, depois do ataque, o vagão virou um clássico “salve-se quem puder”. Eu notei que era cada um por si quando o cara da cabine da frente começou a LUTAR com a mãe do bebê que estava ao meu lado. Se atracavam com unhas e garras, e ainda tinha gente ao redor pra assistir. Alguns até apostavam dinheiro. Quando percebi que o caos tinha passado dos limites, resolvi ir pra outro vagão. E quando passei pela porta, fiquei boquiaberto. Tudo tão pacífico, limpo e culto, era simplesmente o oposto do meu! Me escondi na dispensa, e até agora estou aqui, escrevendo nessas páginas. Meu dia foi rápido e confuso, assim como ontem. Hoje eu reparei duas coisas: A primeira é que eu esqueci de falar “Querido Diário” no começo, porque eu realmente estou desesperado. E a segunda coisa que reparei é que atos infelizmente tem consequências. Isso vem acontecendo comigo desde antes de ontem. Foi por conta dos meus próprios atos que Andrew foi sequestrado, que eu fui expulso por um bimestre, que eu iniciei um motim, e que agora estou escondido em uma dispensa. Tudo isso foi culpa minha. Normalmente ninguém dá muita importância quando a mãe diz coisas como “pense antes de seus atos”. Mas não é que isso faz sentido agora? Eu deveria ter pensado, diário, e talvez nada disso estaria acontecendo. Porém sei que não sou culpado pela morte de Rowland, e mesmo assim, sofro até hoje. Se não foi consequência dos meus atos, porque isso acontece? Não consigo entender os planos de Deus, diário. Não consigo entender meus próprios planos, diário. Acho que por um minuto, eu só não queria ser eu. Queria ter outra vida, estar em um lugar diferente, vivendo coisas que eu jamais viverei. Minha vida não é mais perfeita como deveria ser. Eu não me sinto perfeito como me sentia antes. Acho que se eu falasse pra alguém que estou feliz, não seria honesto. Droga, eu disse que hoje não ia falar de sentimentos, e olha só o que acabei de fazer. Esse caderno acaba sendo só um lugar onde eu jogo minhas emoções e pronto. Não deveria, mas bem... acontece. Finalmente! O trem voltou a andar lentamente, e daqui a algumas horas estarei em casa outra vez. Não estou com coragem de voltar pra minha cabine, por enquanto prefiro ficar aqui na dispensa. Embora eu tenha acabado de ser expulso da escola, hoje tive bastante aprendizado. Sei que evoluí como ser humano, e agora eu penso: Se eu realmente vou tirar minha vida, quais serão as consequências depois? Sei que eu não deveria me preocupar com isso, aliás, eu estaria morto. Mas seria um ato egoísta meu, ou estaria só tirando um peso das costas? Independente da resposta, só sei que hoje eu talvez esteja me tornando um novo Edward. E nossa, coitado desse Edward...”
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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