10 Maneiras de Conquistar a Coral
1 Maneira número 1- Desafie a Coral
Notas iniciais
Ponto de Vista — Drê
Tamborilei os dedos na mesa em uma sequencia irritante até para mim. Outra vez. Outra vez. Ravena fechou a mão em punho e eu tamborilei os dedos outra vez. Ela bateu a mão na mesa do computador e eu tamborilei os dedos e estalei a lingua. Seus olhos me fuzilaram e eu, ainda serio, olhando em seus olhos, tamborilei os dedos outra vez.
—DRÊ!- ela berrou e seus dedos finos agarraram meu pescoço- Para com isso. Agora.
—Certo, certo- forcei sua mão para me soltar; não que ela me apertasse forte, mas as unhas pontudas me machucavam- Eu paro. Basta você dizer que sim.
—Eu já te falei, Drê- ela fechou a janela em que estava pesquisando alguma coisa sobre um colete de couro horroroso e girou a cadeira em minha direção- Ela não quer nada com você.
—Só estou te pedindo pra me arrumar um encontro- coloquei uma mão na nuca, tentando nao tirar o bone do lugar e abri meu melhor sorriso- Quando ela me conhecer, vai gamar.
—Ela não gosta de garotos convencidos, so pra começar- ela colocou a mão no meu rosto e me empurrou para trás, me fazendo desequilibrar e quase cair do banquinho em que estava sentado.
—Tem certeza de que ela gosta de garotos, pra começar?- questionei, apenas por garantia e fiquei de pé quando ela ameaçou sair de perto de mim.
—Claro que sim!- Ravena me encarou como se a resposta fosse obvia e revirou os olhos- Mas você não é o tipo dela.
—Se o que ela gosta é menino, e o que eu gosto é menina, então eu sou o tipo dela- expliquei a questão com naturalidade e juntei as maos na frente dela- Por favor, maninha... Você sabe que eu gosto dessa garota há muito tempo. Me ajuda.
—Ela não vai namorar você- minha irmã riu da minha expressao e separou minhas mãos- Não se humilhe. Ela disse que nunca vai namorar um funkeiro.
—Mas eu não sou funkeiro- expliquei e Ravena caminhou para a porta do quarto, comigo logo atras dela; estava disposto a não deixar ela em paz- Não sou não.
—Você escuta funk, você é funkeiro- Ravena entrou no banheiro e fechou a porta na minha cara- Não tem chance nenhuma, Drê.
—Por favor- eu tamborilei os dedos na porta do banheiro.
Ouvi ela rosnar do outro lado da porta.
—Por favor- repeti e tamborilei os dedos- Por favor, Ravena. Por favor. Por favor...
—TA BEM!- ela abriu a porta de uma vez e me empurrou para trás, com as duas mãos no meu torax- Ta bem, okay? Vou falar. Mas ai, você me deixa em paz. Certo?
—AAAH- eu a peguei no colo e a coloquei sobre os ombros como um saco de farinha, girando e pulando com ela- valeu!
—Me. Poe. No. Chão- Ravena gritou pausadamente, socando minhas costas a cada pausa- Anda logo, Drê, antes que eu mude de ideia.
—Calma, calma- eu a coloco no chão e a aperto em um abraço- obrigada.
—Ei, não comece a contar vitoria antes da hora- ela colocou o dedo indicador na frente do meu nariz- Eu prometi falar com ela. Não prometo que ela vai aceitar sair com você.
—Deixa que do resto eu cuido, maninha- ajeitei o boné na cabeça enquanto ela seguiu na direção das escadas.
***
Ponto de vista – Coral
A melhor parte de estar sozinha em casa é que eu estava no comando do volume do som. Fechada em meu quarto, coloquei o volume na ultima potencia. Pluguei a guitarra no videogame e escolhi a musica. Gostava desse jogo porque eu me sentia uma rockstar, mesmo não tocando guitarra coisa nenhuma. A minha estava ali, pendurada na parede, enfeitando. Mas no videogame, eu mandava bem.
Eu não sei em que ponto da musica estava quando a porta do meu quarto se abriu em um baque e eu me assustei. A guitarra de brinquedo foi para o chão e a musica parou de ser tocada, apenas o som de fundo do jogo saindo pelas caixas de som. Encaro a garota negra de cabelos cacheados jogados para cima e de expressão nervosa, com os braços cruzados. Oh-oh... Esqueci que Ravena viria.
—Eu estou te chamando a horas na porta- ela veio na minha direção, ainda nervosa e desligou o console; não a impedi.
—Eu não ouvi... Como foi que você entrou aqui?
—Fiz uma copia da chave da sua casa- ela disse, com a maior naturalidade enquanto meu queixo encosta no chão.
—Com a permissão de quem?- ergui uma sobrancelha e agora foi a minha vez de ficar de braços cruzados.
—Com a minha propria permissão e ainda bem que fiz. Ou teria de ficar horas esperando você abrir a porta- ela se jogou na minha cama e eu me sentei ao seu lado- E depois, eu praticamente já moro aqui desde que tinhamos, o que? Cinco anos?
—Mas você mora logo ali e...- resolvi deixar isso para lá- Conseguiu o seu colete?- perguntei, mudando de assunto; as vezes, Ravena podia ser abusada demais.
—Ah, eu nem consegui pesquisar direito- ela girou os olhos e se jogou para trás, caindo deitada na minha cama- Meu irmão não me deixou em paz um minuto hoje.
—Seu irmão parece ser a pessoa mais insuportavel da face da terra.
—Apenas quando ele quer algo- ela explicou e voltou a se sentar- A proposito, eu preciso te dizer uma coisa sobre ele.
—Temos mesmo que falar do seu irmão?- balancei os braços e peguei o controle da TV, pensando em procurar um clipe para assistirmos e desviar desse assunto desagradável.
—Temos, se preciso fazer isso pra que ele me deixe em paz- Ravena pegou o controle da minha mão, como que para desviar minha atenção para ela, e me encarou com seus grandes olhos marrons- Ele quer sair com você.
Minha gargalhada saiu antes que eu pudesse pensar em controla-la. Minha barriga doeu e eu precisei segura-la como se ela fosse cair. Mas Ravena não riu e, aos poucos, eu fui voltando ao normal.
—Você não pode estar falando sério- ainda tentando não rir, prendi o cabelo para trás, para tirá-lo do meu rosto- Está?
—É, eu estou- ela levantou uma sobrancelha para mim e balançou os ombros- Eu não acho engraçado.
—Mas...- não encontrei palavras para ela. Meu queixo caiu novamente e eu me levantei da cama para ficar de pé- Mas você... Seu irmão...
—Ele gosta de você há muito tempo- ela explicou e balançou os ombros outra vez, em sinal de indiferença- Você devia dar a ele uma chance de conversar.
—Ei, Ravena, estamos falando do seu irmão- estalo os dedos na frente dela, os olhos revirando em desdem- Você sabe... Aquele que gosta de funk... Sabe? Taca, taca, taca...
Ravena riu. Mas eu não achei graça dessa vez.
—Qual é, Coral... Ele não escuta isso.
—Ele não escuta funk?- ergui a sobrancelha e cruzei os braços, a desafiando.
—Ele não escuta essa musica- Ravena apoiou o corpo nos braços atras de si, afundando mais no meu colchao e virou o rosto para olhar para outro lado.
— Alem disso, seu irmão é 3 anos mais velho- já desesperada, comecei a andar pelo quarto, de um lado para o outro- E se eu sair com ele, e ele começar a me chamar de novinha?
—Então você está considerando sair?
—NÃO!- eu disse, alto demais, minhas mãos fechando em punhos- Não vou namorar um garoto funkeiro- minhas mãos cortaram o ar em negação- Nunca! Jamais. Em hipotese alguma. De maneira nenh...
—Não precisa namorar, Coraline... É só pra sair com ele. So uma pizza, um jantar... Só sair com ele e ele me deixa em paz.
—E quem me garante que saindo com ele, ele não vai começar a correr atrás de mim como se eu estivesse interessada?- cruzei os braços e Ravena deu uma risadinha que me constrangeu.
—E quem te garante que, saindo com ele, você não vai gostar?- ela cruzou os braços tambem e ficamos cara a cara, uma encarando a outra.
—Eu? Gostar do seu irmão? Eu preferia comer cocô.
—Então isso é um desafio?- Ravena sorriu de lado e estreitou os olhos para mim; essa não...
—Ahn... O que?- desviei o olhar e descruzei os braços, voltando a atençao para o carpete.
—Um desafio- ela entrou na minha frente antes que eu andasse e segurou meu rosto para que eu olhasse para ela- E, se no fim, você não mudar de opinião sobre ele, nunca mais falamos no assunto.
—Isso não vai acontecer...
—Coral- ela sorriu outra vez e, dessa vez, eu fiquei com medo- Você da a ele uma semana. Só uma semana. Se, por fim, ainda não gostar dele, então ele vai te deixar em paz.
—Quem garante?- perfuntei, tentando ao maximo fugir da forca em que me meti.
—É a minha palavra, certo? Sua melhor amiga.
—Mas seu irmão é...
—Eu sei, já sei- Ravena estalou a lingua e me soltou finalmente- Mas esqueça isso. Você aceita o desafio ou foge?
—E se eu não aceitar?- apoiei as maos no batente da janela do quarto e inclinei o corpo para trás, tentando parecer indiferente.
—Então você já está me dando certeza de que está com medo de gostar dele.
—Eu já disse- revirei os olhos para Ravena e não me atrevi a encará-la- Não há nenhuma chance de...
—Claro, claro, já entendi- ela voltou a se sentar na minha cama e pegou seu celular- Vou dizer a ele que você aceita sair hoje a noite.
—O que? Eu não me lembro de ter dito...
—Vai fazer ou vai correr?- Ravena parecia uma criança. E eu não teria para onde correr, mesmo se o fosse fazer.
—E se ele passar dos limites?
—Ele não vai- ela sorriu e digitou algo no celular, sem me olhar- Vou marcar um cinema no shopping.
—Não vou para um cinema no shopping com seu irmão funkeiro abusado.
—Porque não?- ela afastou o celular com as mãos para me olhar; eu continuei imovel. Não acredito que estou fazendo mesmo isso.
—Cinema. Escuro. Seu irmão funkeiro abusado. O que mais eu preciso dizer?
—Você está dando desculpas, Coral...
—Não estou não- pensei um pouco em uma saida para isso- Porque vocês dois não vem pra cá hoje? Assistimos um filme na sala, com guloseimas e com meu pai de olho nele. Que tal?
—Isso nem de longe é um encontro romantico, Coraline- Ravena desviou os olhos outra vez para o telefone.
—Você não disse que teria que ser romantico- retruquei e ela me olhou mais uma vez, mais seria agora- Ao menos esteja presente dessa vez... Pra eu ter certeza de que ele não vai me agarrar.
—Ele não vai te agarrar, Coral.
—Ele escuta “taca taca”...
—Ele não escuta isso!- ela parecia impaciente e eu não consegui controlar um sorriso- Okay, Coral. Você venceu. Viremos hoje e você não pode ignorar ele.
—Obrigada...
—Não me agradeça ainda- ela riu de forma meio malefica e digitou algo rapidamente antes de guardar o celular no bolso- Mandei a mensagem para ele.
—Não acredito que me convenceu a fazer isso- cubro a testa com a mão; eu devo estar ficando insana.
—Eu volto mais tarde- ela se levantou e me deu um abraço antes de caminhar para a porta de saida do meu quarto- Espera só até ver onde foi que você se meteu.
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