10 Coisas Mais Importantes Que O Bruce
2 A experiência
Dizem que antes de uma tempestade há, obrigatoriamente, a calmaria. Lisa estava provando essa crendice boba naquele exato momento.
O prédio de Lisa era velho e bem retirado, mas a seu favor tinha um aluguel quase absurdo de tão barato. Como a maioria dos médicos, ela não recebia pouco. Mas diferentemente dessa maioria, Lisa era mão de vaca, mão fechada, unha de fome, como preferir.
Seu apartamento era o 13B. No 13A vivia Phil, um pediatra magrelo, com uma testa chamativa e cabelo desgrenhado. Não era um homem visivelmente interessante, mas era gentil o suficiente para oferecer aquela carona amiga para a casa toda tarde.
– Phil, – chamou – seu carro vai cheio hoje?
– Sim, claro. Minhas três esposas árabes vão comigo.
Lisa o encarou, da ultima cadeira, da ultima mesa do refeitório.
– Não, Lisa. – Respondeu por fim. – Mas já aviso, vamos passar na loja de HQs.
– Já parou para pensar que você pode estar solteiro até hoje por isso?
– Na verdade, tenho duas teorias sobre o assunto. – espetou uma azeitona – Primeira teoria: Mulheres preferem brutamontes cheirando a testosterona que não colocam dinheiro em casa. – Lançou-lhe um olhar sarcástico, e o que recebeu de volta? Língua. – Ou a segunda, na qual prefiro acreditar: Meu intelecto superior as afasta.
Lisa colocou sua pior cara de pena, esticou-se e segurou sua mão.
– Eu tenho certeza que são as HQs. – E deu-lhe tapinhas de consolo.
Ambos não tinham mais amigos no hospital. Uma coincidência feliz os colocou como vizinhos de porta e colegas de trabalho. Uma coincidência realmente feliz, pois Phil não encontraria ninguém que aguentasse seu complexo de superioridade tão bem, nem Lisa conseguiria outro amigo que topasse levá-la em casa, mesmo tendo um marido perfeitamente saudável e que sabe dirigir.
Naquele fatídico dia, como em tantos outros, Lisa e Phil voltavam para casa trocando ofencinhas e cutucões, passaram na loja de HQs – Phil passou, Lisa nem desceu do carro – e compraram refrigerantes. Estava nublado, mas naquela época do ano era um tanto comum. Tão comum que nem perceberam.
A vida dos dois, quando juntos, era relativamente boa. Combinavam. Ambos trabalhavam, – apesar de terem funções e salários não muito parecidos – divergiam nas formas de lazer mas isso nunca os impediu de manter uma boa relação. Se conheciam a quase três anos, mas Phil foi o amigo mais próximo que Lisa já teve e vice-versa.
Mas voltando a história, veremos agora o início da avalanche de frustrações que cobriu nossa heroína.
Como de costume, Phil e Lisa subiram as escadas juntos, despediram-se e cada uma foi para a sua respectiva porta. A desagradável surpresa vem agora.
Em cima do confortável sofá-cama marrom, já em sua função de cama, estavam Bruce e uma mulher, ambos trajando apenas roupas íntimas e desacordados. O cheiro de álcool empesteou a casa toda, Lisa observou boquiaberta por alguns segundos, e então soltou:
– O QUE DIABOS?
Bruce remexeu-se de forma atrapalhada e respondeu, ainda bêbado:
– Sheila... Você conhece a Sheila? – Vomito.
– Eu conheço a Sheila! Quero dizer, O QUE DIABOS É ISSO?
– Eu não – balbuciou – lembro não... Sheila trouxe vodca... – Mais vômito.
– Lis? Minha mãe está vindo para a cidade, você sabe que ela vai fazer empada né? Não tem como fazer empada sem azeitonas e eu pensei que talvez você... – a porta se abriu – SANTO DEUS!
Phil também estava pasmo.
– O que aconteceu aqui? – Risada maldosa – Bem, acho que não preciso perguntar.
Lisa virou-se para ele e, forçando um sorriso, disse:
– Sheila!
– Eu sei quem, quero saber o qu-
– Sheila trouxe vodca! – Forçou um sorriso ainda maior e mais assustador.
– Por quê... – Bruce balbuciou – Sheila tá sem roupa? – Vômito.
– Lis... Não gosto de me meter em brigas de casal e tudo mais mas... Você tem que fazer um escândalo.
– Escândalo?
– Sim!
Lisa olhou bem para aqueles dois. Bruce estava muito alcoolizado, só vomitava e repetia coisas sem sentido. A garota parecia estar morta.
Não que a ideia de ser traída por Bruce fosse algo distante da realidade de Lisa. Na verdade, era muito próxima. Mas o nó na garganta e as lágrimas teimosas foram inevitáveis.
“O que ela espera que eu faça?” Pensava Phil. “Certamente não quer que eu bata em seu marido e... Eu também não quero brigar com um bêbado, a ignorância os proporciona uma força sobre-humana. Mas não posso deixá-la aqui- “
Seus pensamentos foram interrompidos por um súbito e choroso pedido.
– Me empresta o seu sofá? – Lisa pediu.
Em muitos casos, essa seria uma pergunta normal. Mas naquele caso em especial, não passava de uma pergunta retórica. Phil passou um braço pelos seus ombros e a levou até seu apartamento.
Quando um amigo sofre é natural oferecer-lhe conforto e toda a assistência possível. O primeiro passo é oferecer ao amigo algo para acalmá-lo. Geralmente usamos um copo grande de água com açúcar.
– Toma – Disse Phil, jogando uma barra enorme de chocolate em direção ao sofá, onde Lisa lambuzava as almofadas com lágrimas. – Minha mãe ia fazer trufas caseiras para mim com isso. R$ 10, 50. Vou cobrar.
– Tudo bem. – Soltou uma risadinha.
– Então... – Sentou ao lado de Lisa – Olha, eu não sei lidar com emoções. Vamos expor os fatos e solucioná-los com ciência, OK?
– Pelo menos você tem chocolate e não tem nenhuma Sheila no seu apartamento. Vamos lá.
– Digamos que o seu marido tenha praticado relações sexuais com uma fêmea, que não é você.
Lisa abriu o bocão.
– DIGAMOS! É uma suposição... Não chore mulher! – Cascudo.
Engoliu o choro.
– Continuando. Essa é, provavelmente, uma atitude inaceitável, certo?
Mais choro. Mais um cascudo.
– Você não consegue aceitar porque nunca imaginou seu macho fecundando outra fêmea. Mas pense bem, você ainda não procriou, ou seja, seu marido vem, biologicamente, desperdiçando sêmen com você. Talvez essa mulher seja unicamente uma progenitora e-
Dessa vez o cascudo partiu de Lisa.
– Eu não quero saber se biologicamente eu não fui útil! Tem outra mulher ali, isso é uma traição!
– Veja, esse é o seu emocional. Valores nos são dados para conseguir viver em sociedade, cientificamente falando eles não contribue-
Outro cascudo.
– OK, sabichona! Não ouça seu cérebro. O que as suas tripas querem fazer?
– Arrancar os olhos daquela vadia!
– Lis! Você sabe que isso é uma péssima ideia! Pode ser classificado como agressão e dependendo de como feito é crime hediondo! Vai mesmo arriscar sua carrei-
Cascudo.
– Você é um péssimo conselheiro. Calado.
– Tem razão, nunca fui bom na área das humanas. MAS... – Colocou-se de pé – Tenho um diploma em neurobiologia que me torna perfeitamente capacitado para resolver seu problema. É isso!
– Sei que seria melhor não perguntar mas – suspirou – como, Phil?
– Uma experiência!
– Eu não sou um rato de laboratório Phil.
– Claro que não, você é muito melhor! Eu posso ver suas emoções!
Phil parecia uma criança que acabou de ganhar um daqueles brinquedos caros e famosos que aparecem nos comerciais dos canais infantis. Ele entrou para o quarto, passou cerca de três minutos revirando alguma coisa e enfim saiu, com uma revista em mãos.
– Aqui! – Abriu a revista em uma página amarela, com imagens utópicas de mulheres saudáveis e sorrindo – Essa matéria foi escrita a três meses. Foi feita para mulheres tabagistas. Seu nome é “10 coisas mais importantes que o tabaco”. A ideia é bem simples. São apresentados outros dez prazeres da vida que não envolvem o tabagismo, e o objetivo é que a mulher o substitua por essas outras atividades! É brilhante!
– É interessante, mas eu não fumo. Bem, sou fumante passiva porque Bruce fuma. Na verdade era...
Choro. Cascudo.
– Isso vale para qualquer vício! O seu vício é o esperma do Bruce!
Cascudo.
– Não tem como um nerd como você entender o que eu estou passando, devia ter desconfiado.
– Escuta – segurou seus braços e elevou o tom de voz – Você tem que descobrir outras vertentes da sua vida! Há três anos que eu te conheço, e nesses três anos esse cara não contribuiu em nada em casa! Nas festas para funcionários do hospital, ele nunca te acompanhou. Esse homem passa o dia inteiro em casa de perna para cima, e no fim de semana corre para um bar sujo qualquer. Eu não sei se ele cheira a álcool ou se o álcool cheira a ele. E o que você recebe? Sexo selvagem. Se você acha que isso vale todo esse tempo carente que você passa, então até o nerdão aqui sabe mais sobre relacionamentos que você!
Lisa arregalou os olhos.
–Ei, Phil... Isso foi inesperadamente legal!
– Mas é claro – sorriu – Treinei por três anos.
Cascudo.
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