1+1

1 1+1 — capítulo único


Notas iniciais
"REN!!! SEU SATÃRADO!!!" Vou dizer para vocês, meus caros leitores, essa foi uma das ideias mais lindas e mais chatas que eu tive ano retrasado! Sério, eu modifiquei ela tantas vezes que do motivo original dela só sobrou o título, que veio de uma música da Beyoncé, mas acabou que outra música me salvou e eu consegui um belo momento doméstico entre esses dois pestinhas que eu tanto adoro escrever sobre...

A tela negra de seu celular acendera sobre a pequena mesa de centro, distraindo sua atenção do televisor, acompanhado de um toque do qual ela não recordava e um ícone saltando no ecrã brilhante. Provavelmente uma mensagem, o que lhe era estranho. Checando o remetente, seus olhos surpresos se voltaram para aquele com quem dividia o sofá na sala de estar naquele fim de tarde, para depois retornarem sua atenção a tela do celular mais uma vez. Curiosa sobre o motivo tão repentino de uma mensagem daquela garota.

Era Yumi Shima.

— Quem é dessa vez?

— Yumi.

A irmã mais nova de Renzo.

— O que ela quer com você?

— Se você me deixar ler a mensagem, vou descobrir.

E passando seus olhos sobre os pequenos balões de cor lilás que saltavam em um plano de fundo estrelado, Izumo notou o motivo da garota ter lhe mandado uma mensagem de texto, ao invés de ter feito uma ligação como normalmente fazia. Nos períodos em que o irmão não estaria na casa, de preferência.

Sentimentos não correspondidos. De novo.

— Desde quando você e a Yumi conversam?

— Desde a última vez que fomos para Kyoto.

Aquilo trouxera uma careta ao rosto dele.

— E por que ela não fala comigo?

— Talvez porque ela saiba o quão idiota o irmão dela consegue ser.

— Muito engraçado Izumo. Sobre o que é a mensagem?

Antes que ele pudesse ler algo, a tela do celular voltara a ser escura com um clique rápido.

— Não te interessa.

— Como você consegue manter segredos com a minha irmã, quando você é uma péssima confidente?

— Eu sou uma ótima confidente, ao menos uma melhor do que você.

— Claro, por que em você as pessoas confiam, né?

— Mais do que em você, com certeza.

Outra notificação soara, tomando a atenção dela e encerrando brevemente a discussão sobre quem era o pior em o quê. Por mais que ela não houvesse conseguido tempo o suficiente em omitir completamente sobre o quê se tratava a conversa, quando uma sombra atrás dela fez com que o brilho adaptável da tela escurecesse, mostrando que Renzo estava lendo avidamente as mensagens.

Depois disso, pode sentir ele colocando todo o seu peso do outro lado do sofá, soltando um suspiro pesado e incomodado.

— Ela não muda.

— Seria bom se você deixasse de vê-la desse jeito.

— E por que você acha isso?

Seus dedos se ocuparam em digitar uma resposta.

— Porque ela já mudou, e muito.

O olhar que Izumo tinha com o celular em mãos era um daqueles que ele via raramente, carregado de um sentimento que ela despejava sobre aqueles de quem gostava, se importava.

Ela dificilmente direcionara aquele olhar para ele.

— Nem pense em roubar a minha irmã.

Mas ela pouco se importara com a declaração.

— Deve ser difícil crescer com irmãos.

Com o polegar deslizando sobre a tela escura Izumo parecia perdida em seus pensamentos, o olhar caridoso persistia mas parecia triste. Como se ela sentisse falta de algo que a muito não tinha e houvesse desaprendido como era ter.

Suas sobrancelhas se juntavam em incômodo e ele não gostava de quando isso acontecia.

Suspirando mais uma vez, enquanto se acomodava melhor no sofá que dividiam, Renzo colocou o corpo dela de costas ao dele, tomando o cuidado de não tirá-la completamente do estado no qual estava — imaginando que em algum momento ela o retalharia pelo ato como era de costume, por mais que parecesse indiferente a ele naquele momento.

Izumo não estava completamente alheia a ele, mas sua mente parecia pregar-lhe peças naquele momento. Imaginando como sua vida poderia ter sido caso ainda possuísse uma família para a qual regressar nas datas comemorativas, nos aniversários. Uma mãe para a qual ligar nos momentos de crise, uma irmã para acolher e abraçar... mesmo não podendo desfrutar de nada disso naquele momento. Caso pudesse ela não estaria ali, e muito provavelmente nunca teria conhecido Renzo de fato, ou todos os outros amigos que fizera.

Poder sentir as mãos dele passando, uma de cada lado, por sua cintura e trazendo seu corpo para perto do dele fora como ter levado um choque depois de colocar o dedo em um fio desencapado. Com arrepios correndo por seu corpo em euforia, conforme seus dedos pareciam se aproveitar daquele momento, a tirando parcialmente do estado ao qual sua mente a impusera.

Ela não disse uma palavra tão pouco esboçara som algum ao sentir seu corpo tão próximo ao dele.

Era uma sensação única a de se estar tão próxima a alguém, o mínimo movimento resultava em contato, o que fazia da experiência algo estimulante mesmo que por anos ela pensasse o contrário disso.

Aos poucos, como se esperasse por uma cotovelada ou qualquer outro tipo de reação vinda dela, Renzo se pôs a colocar em prática um desejo que guardava consigo mas dificilmente encontrava oportunidades para fazê-lo real. De forma ágil e habilidosa, seus dedos soltaram o elástico que prendia o cabelo de Izumo em um coque mal feito, deixando suas longas madeixas livres de qualquer controle e, antes que ela pudesse formular algo para dizer sobre o gesto inesperado, uma nova mensagem surgira, seguida de mais duas emitindo o apito frenético ao qual ela sempre se esquecia de trocar, ou apenas mutar completamente.

Enquanto digitava uma resposta, ela pode sentir a mecha superior seu cabelo ser separada do resto e dividida em duas, com uma sendo presa pelo elástico de estrelas douradas. Depois disso a delicadeza dos dedos de Renzo se mostrara através das poucas vezes que ela sentira seu couro cabeludo sendo fisgado na concepção de algo que ela desconhecia.

Não que ela desgostasse de ter seu cabelo nas mãos de outra pessoa, mas sendo ele as vezes ela sentia um dedinho de preocupação comendo seu nervosismo na base de sua cabeça.

— O que você está fazendo agora?

— Tranças.

— Não sabia dessa capacidade sua.

— Yumi gostava de tranças, mas nem sempre a Jun conseguia tempo pra fazer, então ela pedia pra mim e eu tive que aprender.

— Mas o cabelo dela não é curto demais para isso?

Ele cessara seus movimentos, soltando um suspiro.

— Ela é minha irmã Izumo, você acha mesmo que o cabelo dela sempre foi curto?

— Sim? Meu cabelo sempre foi longo e eu não cortava muito.

Outro suspiro, então seus fios voltaram a ser trançados, conforme ela os sentia sendo direcionados de um lado a outro.

— Vocês estão conversando, pergunte 'pra ela. Preguiçosa.

— Ei! — e ela continuaria sua reclamação se não fosse por outra mensagem.

Sendo assim, mordendo a parte interna da bochecha, Izumo perguntou a garota apaixonada por mais detalhes sobre uma das habilidades secretas de Renzo que ele pouco se importara em dividir. E era realmente verdade. Ele estava sendo sincero com ela, algo que vinha fazendo muito recentemente, sendo sincero sobre o que tinha em mente. Sem mentiras, nem meias verdades. Apenas honestidade. Não que ele nunca houvesse sido honesto com ela, mas por experiência Izumo sabia que ele nem sempre dizia algo só por dizer. A primeira vista Renzo poderia se passar facilmente por um folgado preguiçoso que detestava obrigações, mas guardava outras intenções além desta — fazendo dele um grande duas caras.

— Ela disse que é verdade. Por que deixou o cabelo curto então?

Se Izumo tivesse olhos atrás da cabeça, poderia ter visto ele fazendo uma careta desgostosa.

— Koneko. Ela cortou pra chamar a atenção dele.

Fora a vez dela fazer uma careta.

— E não funcionou.

— Não mesmo. Depois disso eu deixei de ser necessário para ela.

Seu tom de voz transparecia melancolia em ter perdido a atenção da irmã, enquanto a outra parte de seu cabelo era trabalhada.

Um silêncio inquieto tomara a sala, sendo dissolvido pelas bolhas estouradas a cada nova mensagem que chegava.

— Você gostava de fazer tranças?

— Gostava, era legal ter algo para poder chamar a atenção das garotas.

— Cretino.

— Mas nenhuma chegava perto de mim pela minha personalidade..? É deve ter sido isso, mas era legal fazer algo pela Yumi. Ela era mais fofa do que é hoje, ao menos.

— E você só gosta de garotas fofas...

— Mas você é fofa Izumo! Aqui me empresta seu pulso.

Ela mal teve tempo de resposta, quando notou o toque dele pegando uma das mãos que usava para segurar e digitar pelo celular, tirando em seguida um dos elásticos que carregava no pulso. Depois disso tudo que sentira fora uma leve fisgada nos fios rentes a sua franja, enquanto a mão que ele segurara ficara esquecida em seu colo, a caixa de mensagens deixara de apitar por um momento ou dois e então, um par de pesos fora sentido atrás de sua cabeça, com ele anunciando o fim de seu trabalho manual.

— Que tipo de trança você fez? A maior parte do cabelo ficou solto.

E ela não se sentia fofa, como ele sempre conseguia dizer isso com tanta facilidade?

Como resposta ele apenas deu um sorriso travesso que ela não pode ver, pegando o celular de sua mão em seguida para assim, fora do seu campo de visão o som de uma foto sendo tirada ser ouvido, e pela demora em alguma coisa diferente disso acontecer, ele provavelmente estava aprontando alguma — até que o aparelho voltou para suas mãos e ela pode ver o que ele havia realmente feito.

Talvez dado ao momento que compartilhavam, ele sentira a liberdade de abraçá-la pela cintura.

O par de tranças não prendiam seu cabelo exatamente, eles apenas decoravam sua cabeça caindo em uma cascata muito bem tramada de fios — seus elásticos favoritos deixavam o esforço dele estranhamente bonito de se admirar, por mais que não fosse algo que ela pensasse em usar com frequência. Abaixo da foto, ainda na conversa que ela mantinha com Yumi, seguia um texto dele provocando a irmã.

— Bonito né?

Sua voz parecia tranquila e acomodada ao pé do ouvido, causando uma corrente ingrata de arrepios.

— É, bonito mesmo. Lindo na verdade. Você é bom nisso.

Ele não disse nada em troca, provavelmente não imaginava que ela fosse concordar tão facilmente com o que ele havia dito, mas os braços em torno de sua cintura se apertaram a medida que ele escondia o rosto entre seu pescoço, a ponta do nariz buscando pelo contato com a pele dentre os fios escuros.

Até que a troca de mensagens na tela fosse substituída por uma ligação de Yumi.

Izumo mau atendeu a chamada para a voz estridente da garota ser ouvida claramente, mesmo sem o viva voz ter sido ativado, pegando os dois de surpresa.

"REN!! SEU SATÃRADO!! VOCÊ NUNCA FEZ TRANÇAS ASSIM PRA MIM!!!"

Despois disso ela apenas ativara a opção e o falante de seu celular pareceu voltar a funcionar normalmente.

— Por que você não gostava quando eu fazia assim, Yumi. Dizia que elas ficavam feias, lembra?

"Mas agora eu gosto..."

— Sei, e você é tão de lua quanto a mãe quando gosta de algo.

"Mas Ren... por favor... você é o melhor irmão de todos"

— Não vai ser tão fácil me convencer dessa vez.

"Você só tá fazendo isso 'pra impressionar a Izumo que eu sei, para de ser tão chato!"

— Você que é chata!

Izumo parecia se divertir com a discussão, visto o quanto segurava seu riso enquanto o escutava claramente em seu ombro respondendo a irmã na mesma moeda — uma situação bem diferente da qual estava acostumada a ver quando ele estava em família. Em momentos assim, ou Renzo se excluía de todos, ou era chutado por aquele barulhento.

Como era o nome dele mesmo...?

"EI! YUMI! COM QUEM VOCÊ 'TÁ FALANDO!?"

Uma voz tão estridente quando a da garota surgira ao fundo, impaciente.

"RENZO!? POR QUE VOCÊ 'TÁ FALANDO COM AQUELE FRACOTE MEDROSO!!?"

Ela conhecia aquela voz, era a do Shima barulhento.

Aquele loiro barulhento e mal educado com uma banda de rock que ela não lembrava do nome...

Mas o único show que havia visto da banda tinha sido bom ao menos...

Mas qual era o nome dele mesmo...?

"EI!! RENZO!! QUANDO VOCÊ VAI DEIXAR DE SER IDIOTA E PEDIR A KOZUMO EM CASAMENTO!? VOCÊ É MAIS FRACO QUE O JUN-"

Seus dedos agiram rápido, encerrando a ligação no ato.

— É Izumo, mas você não se importa com isso também.

O celular caíra no espaço que existia entre suas pernas, depois ela se desculparia com a garota, ela entenderia com certeza mas agora, naquele momento... naquele momento Izumo respirava como quando o fazia antes de recitar um sutra longo, que acabaria completamente com sua energia vital no fim do processo.

Talvez não fosse uma má ideia chamar Uke e Mike para ajudá-la naquele momento pois, ao invés de se sentir feliz, contente, ou qualquer outra emoção positiva que alguém poderia sentir a menção de "ser pedida em casamento", ela parecia ter entrado numa pilha de nervos da qual não sabia como sair.

Muito menos como havia caído nela.

Mas uma coisa de cada vez.

— Desde quando você planejava isso, seu verme?

— Eu não planejei nada, o Kin que só vê o que ele quer!

— Desde quando Renzo?

— Izumo, eu não ia dizer nada! Foi só coisa da cabeça dele e-

— Desde. Quando. Renzo?

Fora a vez dele respirar profundamente.

E depois fazer com que ela o olhasse nos olhos.

— Desde a última vez que fomos para Kyoto. Eu só estava conversando com ele e ele teve essa ideia brilhante de casamento. Ele também disse que você era a melhor opção 'pra mim, ou algo assim, ele fala muita coisa que não faz sentido junto por isso não levei tão a sério. Eu só não esperava que você fosse ouvir isso um dia afinal, a gente não tem nada mesmo, né?

Aquele dia poderia ter terminado sem a aparição repentina de Kinzo e suas pérolas de sabedoria desbalanceadas nos momentos mais inoportunos. Se não fosse por aquilo, seu dia teria sido incrível. Maravilhoso. Fora de série.

Mas fora de série era o quão descontente a expressão de Izumo conseguia ser naquele momento, o olhando entre a pura ira e algo que ele julgaria adorável em outro momento.

— A gente não tem nada mesmo? Então o que vivemos até agora, até esse momento, não significou nada para você? Seu cretino asqueroso!

— Não foi isso que eu quis dizer e você sabe disso Izumo. Você não sente nada especial por mim, é isso o que nada significa, não tem como eu pedir de você algo que você não pode me dar!

E agora que ele tinha começado, seria difícil contornar e fingir que nada havia acontecido.

"Idiota, você entendeu tudo errado. Sem paixão, você nunca irá impressionar ninguém", ao menos agora as palavras de Kinzo lhe faziam sentido.

Naquele momento, ele não tinha como fingir, como esconder aquilo que sentia por ela.

— Mesmo depois de tudo o que eu fiz 'pra te mostrar que eu posso ser diferente, que o que passou, passou, você ainda insiste em não ver isso. Você não enxerga nada do que eu tenho feito ou você só finge que não vê? Eu gosto de você, Izumo. Eu sou apaixonado por você, mas você ainda me vê do mesmo jeito que via a anos atrás, você pode me chamar de cretino quantas vezes quiser mas isso não vai mudar em nada o que eu sinto, o que eu vejo em você.

Seu corpo deveria estar mais leve, ele deveria se sentir mais leve, mas ainda faltava algo a ser dito.

— Quando você aceitou dividir o apartamento comigo, eu até pensei que estivesse no caminho certo. É por isso que o Kin me disse aquilo, porque isso 'tá na minha cara desde quando te conheci, eu só não queria que você ouvisse isso. Eu não queria te dizer isso porque eu te conheço Izumo.

"Eu te conheço tão bem que sei até onde você consegue ir", ficara implícito no espaço que existia entre os dois.

Mas até mesmo para ele, que tinha um olho além do normal para esses pequenos detalhes da personalidade dela, existiam momentos onde ela o surpreendia. Como naquele momento em especial, quando ela o olhou estarrecida, o cenho franzido e com os olhos mais brilhantes que o normal como se ali houvessem lágrimas prontas para cair a um mero desequilíbrio ou palavras mal mensuradas — mas que seguido de algumas piscadelas mudara novamente para a expressão neutra que ela sempre tinha lidando com os outros.

Então ele não vira mais nada que pudesse lhe dizer algo em sua expressão.

Tudo que seus olhos conseguiam ver era o topo da cabeça dela e as tranças que havia feitos minutos atrás.

Tudo o que rondava seus pensamentos eram claros sinais de alerta, sirenes tocando enquanto sentia os braços dela circundarem seu torso timidamente, tendo o rosto afundado em seu peito, como se aquilo a afastasse de se sentir constrangida.

Era uma sensação tão estranha que ele torcia para que seu corpo e mente tivessem tempo o suficiente para armazenarem aquele momento na memória.

E mesmo que não gostasse de elogios, Izumo era realmente fofa.

Gentil.

Delicada.

E direta como uma fecha

Esta era ela.

Izumo.

Izumo...

Izumo... ...

— Izumo.

Relutante e um tanto incerta, ela mostrara seu rosto, em sinal de que o escutara. As fendas claramente marcadas em sua testa a deixariam adorável se Renzo não detestasse vê-la daquele jeito, seu polegar agindo antes que pudesse realmente pensar no gesto, tentando suavizar a expressão no rosto dela.

Seus olhos apenas viam os dela, mantendo controle sob sua atenção.

— Você quer se casar comigo?

O abraço dela se tornara mais forte, a medida que um sorriso surgia em seu rosto.

— Não.

Então voltara a esconder o rosto em seu peito.

— Era o que eu esperava.

— Casamentos são sérios Renzo e você é tudo, menos sério.

Notas finais
Até eu ter a b r i l h a n t e ideia de colocar um (wild) pedido de casamento no final, afinal, PORQUENÃO?!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!