A Ducati 1198 volta a circular pelo centro de Battery City, porém sem correr a 200km/h. Seu uniforme preto havia sido trocado por uma camiseta larga do Pink Floyd, calça de moletom surrada e um par de tênis all star. A máscara havia sido retirada, e seus cachos estavam presos num rabo de cavalo desleixado. Sem as lentes de contato azuis vibrantes, seus olhos voltaram a ser marrom-escuros, que agora transmitiam um certo cansaço.

Em um canto mais afastado do centro, onde o rio Dixon margeava e refletia as luzes da enorme ponte que ligava Battery City ao estado de Nova Iorque, a moto estacionou em um dos becos desertos àquela hora. Ela recolheu o capacete e pegou a bolsa que trazia, dirigindo-se a entrada de um prédio de tijolos vermelhos aparentes e concreto. Subiu as escadarias e sacou suas chaves para abrir a porta de vidro da entrada, parando apenas para recolher sua correspondência no vestíbulo desabitado.

Checando as cartas, ela abriu as portas de ferro dobráveis do elevador e fechou-as logo depois de entrar, apertando o botão que indicava “Penthouse.” O elevador era tão antigo quanto o prédio em si, e o som do metal semi-enferrujado rangia com a irrequieta movimentação dos cabos de sustentação.

- Vamos ver.... conta de luz, conta de água, um cartão de “Parabéns pela centésima missão” de Julie... pff ela podia ser mais melosa? – dizia para si mesma enquanto passava os dedos por entre as cartas. — ....uma carta da diretoria, acho que vou ter que inventar outra desculpa. Talvez eu até inclua Melbourne, depois daquela trapaça no poker hoje....

Com um forte solavanco, o elevador parou no último andar, e ela empurrou as grades para o lado, adentrando o espaçoso apartamento escuro. Além do ruído abafado do trânsito na ponte, as persianas das janelas deixavam passar vestígios de luz que iluminava o perfil de um sofá de veludo vermelho, o chão de carpete claro, e as bancadas de granito da cozinha. Ela nem se importou em ligar as luzes, cruzando rapidamente a sala até chegar a porta de seu quarto.

Seu quarto reservava o maior pedaço do apartamento, e a única janela ao fundo estava aberta com a visão perfeita da magnífica ponte de metal fundido e do rio Dixon, iluminado como petróleo líquido abaixo. O chão estava coberto por inúmeros tapetes persas que não combinavam, e diversos pôsteres de bandas e bandeiras de países estavam grudados por cima do papel de parede verde listrado, que havia sido mantido desde os primeiros dias do prédio em si. Ela alcançou o interruptor, iluminando um lustre redondo que havia perdido diversos cristais com o passar do tempo, mas que ainda esbanjava um certo brilho dourado quando acesso. Jogou sua bolsa num canto, quase derrubando uma pilha de CDs mal arrumada.

Ela caminhou por entre fileiras e mais fileiras de livros apoiados nas paredes, cuja diversidade era espantadora. Sem nenhuma ordem definida, títulos de livros de Shakespeare e Jane Austen misturavam-se com os desenhos rebuscados de mangás japoneses; trilogias de ficção científica e ação com livros de História sérios e mais HQs. A cabeceira de uma enorme cama, trabalhada detalhadamente em madeira, e cuja tinta branca desbotava em algumas partes, estava encostada na parede ao lado do armário de madeira. Em cima do colchão, uma confusão de lençóis brancos, mantas xadrez e travesseiros amarrotados.

Havia algumas prateleiras na parede ao lado da janela, repleta de LPs muito bem guardados em sua capas. Ela retirou um da coleção, e o repousou com cuidado na moderna vitrola de vidro. Virando-se para uma penteadeira antiga, cujo estilo provençal combinava com a cama, ela sentou-se e abriu o laptop.


Agente McVeith, código 00904

Número da missão: 0100


Enquanto escrevia o relatório da missão, o som de White Lies invadia todo o ambiente, que já há muito havia se acostumado a se embebedar com os reflexos de Battery City à noite. Era uma embriaguez reconfortante, os solos calmos e de certo modo melancólicos das canções pareciam ser absorvidos pelas paredes e tapetes.

Quando terminou de escrever, o horário no relógio digital marcava duas da manhã. Repousando logo ao lado, havia uma réplica de sua máscara preta de trabalho, apenas que esta era revestida de cetim branco. Ela pegou e a aproximou de seu rosto, distraindo-se um pouco no espelho.

Então, ela percebeu o reflexo de algo que não havia notado antes.

Virou o olhar para o criado-mudo ao lado da cama onde, repousando misteriosamente entre as sombras do quarto, um vaso de cerâmica sustentava inúmeras rosas vermelhas de cabo longo.

Ela levantou-se, estranhando a situação, e aproximou-se do vaso. A sua sombra mergulhou as rosas na escuridão profunda, transformando a sua cor de vermelho carmim para sangue. O perfume das pétalas era intenso e fresco, e nem todos os botões haviam aberto ainda. Eram muitas, e nem precisou fazer uma estimativa. Sabia que somavam 100.

Ela tomou uma das rosas em sua mão, e sem perceber cortou a ponta de seu dedo no espinho. Uma gota de sangue quente, tão vermelho e vivo quanto as rosas, pingou.

– Merda.... – ela disse, chupando o dedo. Notou o pequeno cartão que repousava ao lado, e pegou-o. Abriu-o, virou-o, mas tudo o que achou escrito foi, em uma refinada escrita de mão e em tinta preta, a letra M.

Melbourne. Ele é duro que nem pedra por fora, mas mole igual gelatina por dentro. Deu-se por satisfeita com a explicação de que Mel tinha mandado entregar as rosas no seu apartamento, ainda mais porque ninguém mais conhecia aquele endereço, e foi tomar um banho.

Ao som de Jack White, ela adormeceu.

Notas finais
Sinto falta de reviews.....