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1 Epílogo
As folhas avermelhadas, caindo conforme a brisa de fim de tarde, anunciavam o outono. Diversas árvores caducifólias que rodeavam o quarteirão da Brackett High School, no grande pátio interno e na boulevard afrente, faziam o colégio público parecer menor do que realmente era. Aos fundos ficava o enorme campo de futebol americano, lar dos bravos Leopardos, e sua arquibancada prateada.
O sinal de fim das aulas tocou ecoando pelos dois grandes edifícios de tijolos vermelhos, conectados por um corredor espelhado. Alunos do ensino fundamental saíram as pressas de um edifício e do outro, os colegiais.
Os estudantes entravam nos carros dos pais, outros iam para casa à pé, mas alguns ficaram esperando o ônibus escolar chegar.
Na frente da cafeteria do colégio, cinco meninas do terceiro colegial conversavam segurando cappuccinos e livros em suas mãos.
Pouco a pouco o grupo foi dissipando-se, com a chegada da carona de uma, de outra e no fim o resto se despediu entrando no ônibus amarelo lotado.
- Você não vem, Kat? – uma baixinha loira perguntou, na porta do ônibus.
Katherine, ou Kat, respondeu com um sorriso:
- Não, ainda não, meu pai não chegou ainda.
- E você não vai poder mesmo sair com a gente amanhã?
- Não, desculpa Chelsea, vou ficar ocupada na oficina.
- Ah, tudo bem então. Tenho que ir, beijos.
E entrou no ônibus, para satisfação do motorista impaciente.
Kat sorriu desanimada e esperou até o ônibus desaparecer totalmente no meio das sombras das árvores vermelhas que acortinavam a rua. Um dos poucos raios de sol que escapavam irradiava bem em cima dela, fazendo sua tez iluminar-se, assim como a jaqueta de couro preta envernizar-se.
No meio daqueles adolescentes todos da Brackett High School, ela se misturava completamente, com seus all star surrados que vestia e jeans pretos ao invés de azuis, mas a maioria mal a notava pelos corredores. Até seus poucos amigos mal a conheciam direito. E isso era exatamente o que queria. No entanto, quem perdia alguns instantes para olhá-la de verdade, descobria a beleza escondida em seus cabelos perfeitamente ondulados de uma cor entre o chocolate escuro e vermelho-sangue, e os grandes olhos negros, que nunca transmitiam suas verdadeiras emoções.
A entrada tinha ficado silenciosa depois que os ônibus partiram, e quando se deu por satisfeita com o fim do dia escolar, começou a andar. Finalmente. De volta ao trabalho.
Com passos largos, ela cruzou a esquina e checou discretamente se alguém a seguia. Ninguém. Então entrou novamente pelo gramado da escola e andou escondida por detrás da arquibancada, dirigindo-se para os vestiários.
O edifício estava deserto, e o silêncio era quebrado apenas pelos passos de Kat subindo as escadas e cortando o corredor da enfermaria, até chegar aos vestiários femininos. Puxou de seu pescoço uma corrente de onde pendia duas plaquinhas de metal com inscrições gravadas.
Não era essa a que procurava.
Devolveu a corrente para dentro da camiseta e puxou a outra, onde havia somente uma chave. Ao invés de abrir o armário 176, usado nas aulas de ginástica, ela destrancou o 258 ao fim do corredor, que aparentemente não tinha dono.
Tirou de dentro uma grande mala preta de lona e a colocou em cima do banco, e imediatamente começou a se trocar. Arrancando seus tênis e sua jaqueta, checou o conteúdo. Havia luvas de kickboxing reservas, uma toalha, uma variação de seu uniforme padrão e algumas pistolas 9mm portáteis, além de vários cartuchos de munição.
Enfaixou seu busto com camadas de bandagem e prendeu uma fina faixa a prova de balas antes de vestir o top feito inteiramente de fios de spandex, preservando a resistência e a elasticidade dos movimentos. Depois veio a hot pant, as meias que subiam até acima do joelho, tudo feito com o mesmo material. As luvas seriam a mesma coisa, se não fosse pelo toque tecnológico nas pontas dos dedos que não deixavam digitais, contudo tinham a capacidade de reproduzir as de qualquer outra pessoa.
Pegou sua caixinha de lentes de contato e colocou-as, transformando seus olhos marrom-escuros em azuis claros, as únicas íris sem reconhecimento digital nos bancos de dados policiais. Prendeu firme sua pistola Taurus na fita liga na coxa direita, e afivelou o cinto que continha munição, mini-granadas e uma adaga com o cabo roxo, sua favorita.
As luzes estavam apagadas, e a fraca luz que transpassava pelas pequenas janelas já não eram muito eficientes em iluminá-la, mas apenas a camuflava quase inteiramente dentro da escuridão crescente.
Só precisava de uma coisa para torná-la invisível.
Levou ao rosto uma máscara preta, que escondia seu rosto por completo, exceto por sua bochecha esquerda. Em sua homenagem, Erik, pensa, lembrando-se do seu romance favorito, O Fantasma da Ópera.
Por fim jogou a bolsa dentro do armário e trancou-o, saindo dos vestiários em direção as escadas do subsolo, onde o colégio mantinha um estacionamento privado.
À aquela hora, o lugar estava vazio exceto por um veículo estacionado bem aos fundos, praticamente imperceptível. Kat andou até lá e, com satisfação nos lábios, puxou a lona que cobria uma Ducati 1198 preta lustrosa. Meu bebê.
Pisando no acelerador, saiu do estacionamento cantando pneus até se ver na via expressa que conectava os subúrbios à imponente e misteriosa Battery City.
Ela conseguia sentir o frio metálico das plaquinhas presas ao pescoço, pressionadas pelas bandagens em seu busto. Uma delas reconhecia o possuidor como integrante do serviço militar, tendo concluído com sucesso as formações especiais na Academia Militar de West Point. A outra, adquirida não muito tempo depois, identificava Katherine Stuart, estudante na Brackett High School, como:
Agente Secreto McVeith, 00904
20.02.1995, New York- Battery City
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