Notas iniciais
À caminho de Aleppo, Bond encontra as profundas marcas da guerra. Um grupo nada amistoso de terroristas dão as boas-vindas ao espião com licença para matar.

Quatro dos oitos tripulantes acompanharam Samir e Bond, ao desembarcarem na província de Lataquia. Aos chegarem à costa de Jableh, outra caminhonete veio ao encontro dos seis. O desafio, agora, era percorrer 182 KM até Aleppo.

Segundo Samir, 182 km de destruição e desgraça. Bond nada respondera àquela afirmação. Mas sentia o cheiro de sangue no ar e conseguiu imaginar os horrores que estaria para presenciar.

Era perceptível que Samir comandava o grupo. Em árabe, ela dava indicação para o motorista e ora ou outra fazia observações para os demais, recebendo em troca assentimento com um movimento com a cabeça. Seu corpo franzino escondia uma determinação espantosa.

Entre escombros e crianças jogadas na rua, que seguiam a caminhonete estendendo as mãos pedindo comida, a viagem seguia. Era assustador a devastação que a guerra trouxera ao país; fora, literalmente, dizimado pelas bombas.

Nas ruas, pessoas se reuniam, carregando pedras pesadíssimas das ruínas, na tentativa de descobrirem alguém debaixo do que sobrou de prédios e casas. A desgraça era visível em seus rostos; eram famílias inteiras perdidas. Estranhos na própria terra, esquecidas pela justificativa de destruir o inimigo a qualquer custo, independente dos meios.

Subitamente, as palavras de Moses surgiram na mente de Bond: “Sim, você é o peão bonzinho lutando bravamente contra as forças do mal! E se não existisse a separação de bem e de mal, Bond? Em que lado você estaria?”.

— Justiça — sussurrou, buscando na palavra um significado oculto, que poderia de alguma forma explicar tudo ao seu redor.

A viagem seguiu até antes do amanhecer. E para Bond pior do que os constantes gemidos e gritos que ouvira no fim de tarde e início da noite, fora o perturbador silêncio que se seguiu por toda a madrugada.

Nas ruas desoladas pela destruição, Bond ainda pôde ver corpos dilacerados, sem membros e desnudos compondo a paisagem. Ele não conseguira dormir; dessa forma, pedira ao motorista, que conduzia desde a partida, que o deixasse dirigir até o fim do percurso.

Com um inglês arcaico, ele explicou para Bond qual seria o trajeto; não havia segredo: se ele deixasse de ver as marcas da guerra pela cidade, chegando a um deserto, então ele fora longe demais; bastava seguir pelo que restava da interestadual, sempre reto, quando visse Aleppo não seria difícil de reconhecer, mesmo para quem nunca a visitou, os estragos causados ali eram imensamente superiores a qualquer outro lugar. A placa de bem-vindo, dizia ele, estava estampada nos olhos das pessoas logo na entrada da cidade, refletindo o estado em que se transformou o lugar.

Eles trocaram de lugar e Bond passou a conduzir. Ficara feliz por se manter ocupado, os corpos que ele desviava no caminho acabavam por se transformar apenas nisso: um obstáculo como qualquer outro.

Na caminhonete todos os passageiros dormiam e ninguém, exceto Bond, vira um grupo de seis mulheres usando burcas negras andando pelo que antes era o acostamento. Elas cantavam alto e suas vozes ecoavam pelo silêncio estonteante, subindo até o céu estrelado, onde, no horizonte, já era possível ver os primeiros rastros da aurora.

Mesmo vários metros depois de passar por elas e o som de suas vozes cessarem, o canto insistia em permanecer nos ouvidos de Bond, que demorou alguns segundos para estabilizar-se na direção após ouvir o barulho de tiro, vindo por detrás da caminhonete.

Ele olhara pelo espelho retrovisor no mesmo instante em que ouvira o ronco do motor de várias motos. Seis, pelo que ele pôde contar, antes de acelerar e perdê-las de vista.

Dois ou três tiros acertara a traseira da caminhonete, despertando os demais passageiros.

— O que está acontecendo? — perguntou Samir, assustada, olhando para trás e tendo a resposta.

As seis motos aproximavam-se velozmente da caminhonete que Bond já não conseguia acelerar.

— Vocês estão armados? — perguntou, tirando de sua cintura a arma que tentava esconder por debaixo de sua camiseta. Todos assustaram-se com a revelação, menos Samir.

O guerrilheiro que ocupava o banco do passageiro tirou de seus pés um saco com cinco espingardas de cano curto e distribuiu entre os demais. Samir foi a primeira a atirar em um dos motoqueiros, acertando-o de raspão, e recebendo vários tiros que passaram por cima de sua cabeça.

Uma troca de tiro incessante teve início em alta velocidade. Bond segurava o volante com uma só mão e atirava por cima de seus ombros, dessa forma acabou por acertar um dos motoqueiros, que trajavam kandoras e usavam gahfiya nas cabeças, derrubando-o da motocicleta, que deslizara para fora da avenida.

Nesse exato instante, um motoqueiro ficara parelho a caminhonete, ao lado do banco de Bond. Ele fazia mira no rosto do espião.

Bond jogou a caminhonete para cima do motoqueiro, fazendo-o perder o equilíbrio e se afastar. Samir continuava atirando para todos os lados, sem acertar qualquer um dos motoqueiros; os demais do grupo tiveram igual insucesso.

Uma rajada de tiros acertara o carro, acertando a lateral da caminhonete, quebrando os espelhos retrovisores e acertando um dos guerrilheiros, que sentava-se ao lado de Samir, bem no rosto.

Após o ataque, o mesmo motoqueiro voltou a ficar parelho à porta do motorista. Bond tomara a espingarda de cano curto das mãos do guerrilheiro. Ele atirou no motoqueiro, que desviara por muito pouco. Bond jogara mais uma vez o carro sobre ele, que ziguezagueou e voltou a se estabilizar ao seu lado.

— Pegue! — gritou Bond para o guerrilheiro, lhe entregando a arma.

Bond, então, com as mãos livre, evitara o pior. Antes de levar um tiro à queima roupa, disparado pelo rebelde que o seguiam, ele segurara suas mãos, levantando a mira da arma em direção aos céus. O guerrilheiro sentado ao seu lado segurara o volante e passou a dirigir do banco do passageiro, enquanto Bond segurava o motoqueiro pelas mãos e acelerava a caminhonete.

Os demais motoqueiros praticamente cercavam o carro, desviando das balas. Bond levantou-se do banco, obrigando ao guerrilheiro a levar seu pé para o acelerador, para não perderem a velocidade.

— Me deem cobertura! — gritou, segurando o motoqueiro pelos pulsos, fazendo a arma cair no chão, ficando para trás.

Aos poucos o guerrilheiro fora assumindo o lugar de Bond na direção, enquanto ele tentava subir na moto. O motoqueiro retorcia-se, tentando resistir à investida, mas pouco pôde fazer quando Bond sentou em sua garupa, apertando seu pescoço e, em seguida, jogando-o da moto. O guerrilheiro passara para ele sua espingarda de cano curto e Bond acelerou, fazendo os quatros motoqueiros remanescentes seguirem-no.

James Bond saíra da estrada, dirigindo na área repleta de terra que cercava a interestadual, levantando poeira em direção aos seus perseguidores. Ele distanciara-se, formando um grande arco com a moto, correndo paralelamente aos motoqueiros, que aproximavam, agora.

Bond recebera-os com tiros, fazendo-os mudarem de direção, afastando-se do perigo. Bond, então, dirigia como se estivesse em sucessivas curvas, para esquerda ou para direita. Dessa forma, os perseguidores passaram a ameaça-lo tentando a aproximação, mas logo eram repelidos por tiros.

A troca de tiros à distância não obtivera êxito; não havia forma segura de investirem contra Bond a não ser correndo o risco de serem abatidos. Era sua hora de atacar, decidiu James.

Ele pendera a moto para a esquerda e com a curva seu joelho encostara no chão. Era Bond, agora, que perseguia-os, colocando-se por detrás das quatro motos. Eles aceleraram, espalhando-se, tornando o trabalho mais fácil para o espião.

O mais próximo de Bond levara um tiro exatamente no peito, caindo da moto e acertando outro companheiro que tentava se afastar. Foram dois, restava a outra dupla.

O outro que presenciara a cena tratou-se de se resguardar de Bond, atirando por cima do ombro a todo custo, inclusive jogando a arma contra James quando já não havia mais bala alguma.

Bond, por seu lado, flutuava na moto, ficando parelho ao indefeso e assustado motoqueiro. Com um único gesto, Bond derrubara-o da moto, girando freneticamente até o chão de terra. Restava apenas um.

Esse Bond fora encontra-lo já de volta à estrada. Sua moto perdia vertiginosamente a velocidade e quando Bond apresentou-se a cem metros dele, simplesmente descera e levantou as mãos acima da cabeça, aguardando seu algoz.

Bond largara sua moto e aproximou-se dele, andando e apontando sua espingarda de cano curto contra ele, que tremia excessivamente, fazendo suas pernas movimentarem-se de forma quase cômica.

— Quem é você!? — perguntara em árabe.

Bond parou, a um metro de distância, ainda com a mira em sua cabeça e foi sorrindo que ele lhe respondeu:

— Meu nome é James. James Bond.

O tiro acertara o crânio do motoqueiro, despencando para trás com o corpo estendendo-se no chão em seguida.

Bond assoprara o cano fumegante da arma e afastou-se, subindo na moto.

***

Bond fora encontrar a caminhonete a mais de um quilômetro de distância de onde estava. Ela encontrava-se parada no meio da estrada deserta; enquanto dirigia em sua direção, ele pôde analisar a cena.

Os corpos de dois dos guerrilheiros estavam no meio da rodovia, os outros dois cercavam-nos, com as mãos nas cinturas.

Bond descera da moto mais uma vez, olhando de um lado para o outro, pousando seus olhos no guerrilheiro que assumira o volante após sua fuga.

— Onde está ela? — perguntou Bond, suando e respirando rapidamente.

O guerrilheiro lamentou e olhou para o corpo de seus amigos no chão.

— Havia mais dois. Mais dois motoqueiros — falou — Nos atacaram... e levaram ela. Levaram ela para longe.

O desespero tomara conta dos dois sobreviventes. Bond engoliu em seco, sentindo a dor que seu joelho cortado lhe trazia. Como ele bem imaginou tudo estava apenas começando.