007 Contra o Fim do Mundo
9 Negócios, negócios, guerras, negócios — Parte II
Notas iniciais
M suspirou, colocando seus braços para trás, pensativo.
— Daqui para frente teremos que usar um pouco de nossa imaginação, senhora e senhores. Podemos julgar que tudo isso não passa de comercio, a essência do livre mercado. Mas há um ponto que vai de encontro com nossa investigação.
O porão de Q estava no mais completo silêncio. Ouvia-se apenas a voz de M, que andava de um lado para o outro, raciocinando, e, posteriormente, o eco de sua voz, morrendo aos poucos e surgindo novamente na mesma intensidade, como uma onda. Em suas longas pausas, nenhum ruído era produzido e nem o som da respiração dos demais se podia ouvir ou sentir.
— Vamos acreditar que White não esteja apenas fazendo negócios à luz do dia, que ele realmente esteja tramando um retorno triunfal ou ao menos recuperar seu saldo perdido...
— Então, ele teria que reunir-se com um grupo que tenha os mesmos propósitos que tinha a Quantum, não? — perguntou Tanner, que prosseguiu, tendo a atenção de todos — Pois eles encontrariam um belo aliado na SPECTRE.
— Não duvido — animou-se M.
— Pois é — prosseguiu Tanner — A SPECTRE tem em sua base os moldes de uma corporação. Vários “acionistas” espalhados por todo o mundo, envolvidos em política, agências de Estado, empresas multinacionais, banqueiros. E o modelo de negócio dela não é o que poderíamos chamar de passivo. Eles usam os benefícios que um cargo do alto escalão lhe trás e fazem o terror para alcançar seus interesses, seja na esfera pública ou privada: tráfico de influência, chantagem, ameaças. E tudo isso bem escondido, ela poderia passar anos sem ser associada a essas atividades.
— Poderia até mesmo ser uma das acionistas de uma corporação como a Heydrich Corporate Industries? — perguntou M.
Tanner apenas balançou a cabeça positivamente.
— E se o que sobrou da Quantum decidira se reunir a SPECTRE e agir na surdida através de uma imagem forte como uma grande indústria? — indagou M, quase que retoricamente — Vamos usar nossa imaginação. A SPECTRE controla, portanto parte ou Heydrich por inteiro. Uma vez se utilizando da Warlike Inc. ela poderia fechar negócios secretos com Reino Unido e Rússia, ao mesmo tempo em que passa a controlar o espaço aéreo de praticamente toda a Europa.
— Isso ainda nos deixa com uma lacuna em nossa história — observou Bond.
— Sim, é verdade: A mando de quem a Warlike estaria fornecendo armas para o ISIS?
— Seja pra quem for, a SPECTRE teria em mãos um cenário de extrema instabilidade dos dois lados, permitindo... — Moneypenny hesitou, temerosa — Permitindo o controle da situação.
— Há mais alguma coisa — recomeçou Bond — O Rei Bolacha continua sua busca implacável contra ex-agentes do MI6 e fez questão de incluir os americanos. Ele estaria envolvido com a SPECTRE?
— Pouco provável — respondeu M, ainda andando de um lado para o outro — Acredito que o Primeiro Ministro não tenha a menor ideia que esteja diariamente fechando contratos com a organização que ele também combate. Nesse aspecto há uma peça que não se encaixa...
— Mas concordamos que o fornecimento de armas ao ISIS seria o ponto chave para resolvermos o quebra-cabeça — concluiu Tanner.
— Exato! — emendou M — Uma vez com essa informação o efeito dominó seria inevitável.
— Teremos que entrar na Síria — falou Moneypenny — Mas como?
Q dera uma risadinha nada modesta, voltando ao seu notebook e digitando freneticamente.
— Nesse meio-tempo, entre a conversa de M e C, imaginei que nosso olhar pairaria na Síria e acabei por conseguir alguns contatos...
Todos estavam olhando para Q, sem mostrar qualquer sinal de surpresa. Ele pigarreou e continuou, constrangido.
— Bem, então. Acredito que será possível entrar em Aleppo e descobrir algo.
— Mas não posso acreditar que um de nós sairá do país de avião e será recebido pelo próprio Assad ao chegar lá, não é mesmo? — perguntou Bond.
— “Um de nós”? Ainda tem dúvidas que será você que fará essa viagem? — Q soltara outra risadinha — Trata-se de um grupo rebelde que busca a libertação da Síria, seja das mãos do Assad seja do ISIS. Você se infiltrará no grupo como se fosse algum humanitário querendo enviar alimentos para as vítimas da guerra de forma ilegal, devido à burocracia e etc. Eles com certeza saberão de alguma coisa, qualquer coisa que indique de onde vem as armas.
— Então, está resolvido? — encerrou Bond, observando atentamente cada um dos presentes.
M aproximou-se de Bond e colocara sua mão em seus ombros, como se justificando-se:
— Tudo bem, Bond. Sua recuperação foi mais rápida do que o previsto. Tenho certeza que você já pode praticar atividades lhe exija esforço físico intenso e constante.
Ele dera um tapinha nas costas de Bond e dirigiu-se até os degraus, sem olhar para trás. Instintivamente James não pôde deixar de olhar para Moneypenny que, deixando visíveis suas bochechas ruborizadas, mesmo sob a fraca luz ambiente, apressou-se em subir a escada, abandonando o cheiro ácido do esconderijo de Q.
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