007 Contra o Fim do Mundo
1 Lei e Ordem
Notas iniciais
Gareth Mallory levantou-se da cadeira estofada que ficava de frente à grande mesa do Primeiro Ministro britânico e cruzou a majestosa Sala Silenciosa.
Com as mãos nos bolsos, ele vislumbrou pelos vidros invioláveis das janelas a tempestade que caia em Londres naquela tarde de primavera. O céu cinzento iluminava o cômodo do número 10 da Downing Street.
M sabia muito bem o motivo da reunião marcada em caráter de urgência pelo próprio Ministro e não o culpava por isso. Nos últimos meses, o MI6 fizera conexões perigosas em busca de um fio condutor para a investigação que contava com a maciça participação de todos os seus agentes.
O fato é que por mais que as últimas investigações não os levassem a evidências claras, todos estavam dispostos a aceitar a premissa investigativa, o que contrastara, às vezes, com provas nem sempre concretas e beirava teorias conspiratórias que colocavam a credibilidade do MI6 em cheque. Mais uma vez.
Sem arroubos, o Primeiro Ministro adentrou a sala, desabotoou seu terno e jogara-o em cima de uma cadeira próxima. M, imediatamente, colocou-se de frente ao Ministro, vendo-o arregaçar as mangas e procurar freneticamente por alguma anotação de seu interesse no relatório que o próprio M colocara a sua disposição.
O Ministro continuou folheando o relatório de quase trezentas folhas e, pouco encantado, jogou-o, em seguida, de volta à mesa, encarando M, que a essa altura já sentara-se de volta a sua cadeira.
O Ministro, um homem de aparência insossa, com traços que evidenciavam sua criação aristocrática, não tinha o perfil de trabalhador que buscava passar para os cidadãos que votaram no líder do Partido Conservador e vê-lo encenando a figura do “homem que tudo resolve”, jogando seu paletó de um lado e arregaçando as mangas de sua camisa, foi menos espantoso para M, menos ainda, porém, do que a profunda desconsideração que tivera com seu relatório.
— É esse tipo de relatório, M, onde você e sua equipe se esforçam ao máximo para emular os cacoetes do John le Carré, que me irrita – os olhos muito claros do Ministro pousaram no rosto momentaneamente inerte de M. Não havia uma única lâmpada acessa no ambiente e aos poucos o céu cinza fora se tornando negro, deixando em evidencia as silhuetas dos móveis.
M ajeitou-se em sua cadeira, mais para contemporizar do que necessariamente acomodar-se.
— Confesso que minha equipe, senhor Ministro, às vezes tenta para o lado mais lírico da situação, ainda que nosso objetivo não seja se passar por pomposos, se é que o senhor me entende.
M sorrira sem mostrar seus dentes, o Ministro continuara inflexível, na mesma posição de a cinco minutos atrás. As nuvens formavam sobras nas janelas e a sala ia escurecendo gradativamente, ao passo que do rosto do Ministro só era possível notar seus traços e rugas, acentuadas pela escuridão.
Era um jogo implícito de resistência, onde aquele que aguentasse mais tempo no mais completo breu, ganharia.
— E nesse percurso, pelo que observo, pouco lhe preocupa que a imagem da nossa instituição, aquela por onde tentamos transmitir sua seriedade, vá por água abaixo, levando a credibilidade do MI6 a reboque, não é mesmo, M?
— Muito pelo contrário, Ministro. É justamente por relatórios bem elaborados como esse que a imagem do MI6 se fortalece.
O Ministro levantara-se, ainda observando M, e pouco lhe incomodara o fato de ambos estarem a mercê da claridade do dia. Em alguns minutos, o céu estaria completamente escuro e a chuva continuava caindo torrencialmente pela cidade.
Ele caminhara de um lado para o outro, diante de sua mesa. M sabia que ele não pensava em nada específico, pois seu discurso era bem calculado para situações de enfrentamento como essa: o Ministro seguia bem o roteiro — bastava uma porção de ironia velada para tirá-lo dos trilhos.
— Chega dos seus joguinhos, M — disse, calmamente — Você sabe muito bem que são praticamente nulas as evidencias desse relatório. Mas na falta de uma pauta mais instigante, o seu pessoal passa o tempo criando estorinhas sensacionalistas.
— Concordo que algumas questões levantadas não foram integralmente esclarecidas, Ministro. Mas desconsiderar todo o resto do documento por não aceitar uma visão até que muito válida, apesar da carência de explicações, creio que seja muito míope de sua parte.
M sabia que entrara em um terreno perigoso. O Ministro encarara-o tentando disfarçar a cólera causada pela sua afronta, mas falhava miseravelmente enquanto controlava sua respiração com um improvisado exercício mental.
O Ministro voltara a se sentar em sua cadeira e cruzara os dedos, desconcertado, mas para ele mais valia a dúvida de seu oponente, do que lhe escancarar a certeza.
— Não se sinta intocável, M...
— Não me sinto, Ministro.
— Confesso que eu mesmo lhe dei demasiados privilégios, mas isso não significa que você pode tirar proveito das minhas concessões.
— Nunca tomei uma só decisão sem pensar se minha conduta seria ou não bem vista pelo senhor, Ministro.
— Isso me surpreende, M. Quando diz isso, faz com que o incidente com o agente 007 seja não mais do que um... incidente.
O que sobrara da luz que vinha do lado de fora e iluminava fracamente a Sala Silenciosa resplandeceu nos lábios do Ministro, que abriu-se em um sorriso. A expressão de M, na tentativa de velar seu descompasso, se assemelhava a de um lutador que acabara de levar um cruzado no meio do rosto.
Na véspera, no último estágio da investigação antes dela ser interrompida, M dera autorização para que o agente 007 fosse buscar mais informações acerca de oito suspeitos que reuniam-se regularmente nas obscuras casas de dança nos arredores de West End. M sabia que nem sempre onde há fumaça há fogo, mas também era de seu conhecimento que com 007 toda fagulha tem potencial para tornar-se um incêndio de grandes proporções.
E o que era para ser apenas uma atividade para se familiarizar com o ambiente e monitorar uma possível rotina nas tais reuniões, transformou-se em uma batalha campal. A casa noturna fora desmantelada, descobrindo-se uma complexa rede de prostituição. A troca de tiro com os chefões dessa máfia – seguida pelo desabamento do local – afugentou os suspeitos que passaram a cuidar-se para não criar hábitos fáceis de serem monitorados.
— Levanto em conta, Ministro, que nosso serviço escancarou uma vasta rede de prostituição na região da West End, creio que não há motivos para lamentar as perdas materiais... – M cruzara as pernas e encarou o Ministro com o mesmo sorriso canastra que desaparecia aos poucos da boca do mandatário.
— Sabe o que quero dizer. Para um agente secreto, James Bond não mede esforços para aparecer na primeira capa do The Guardian.
Os dois homens se encaravam. As luzes dos postes na rua adentraram os grandes vidros das janelas e marcara o chão e os móveis com seu reflexo. Se uma bomba de grandes proporções explodisse embaixo desses vidros, nem M, nem o Ministro, ouviriam seu estrondo ou veriam seus fragmentos voarem telhado acima. Os olhos claros do Ministro fincavam-se nas pupilas cinzas de M, que respondia o olhar da forma menos amistosa possível.
— E quem ler o The Guardian, Ministro? — O sorriso de M durara pouco em seus lábios.
— Estou dissolvendo o MI6 nesse exato momento, M.
M engoliu em seco a notícia, mas um segundo depois não pôde deixar de rir, tamanho o absurdo de tal ameaça.
— O Serviço de Inteligência Britânico, Ministro?
O Ministro dá as costas para M e vai até a cadeira em que jogou seu paletó e passa a vesti-lo, não sem antes arrumar suas mangas e lhe devolver o ar aristocrático de suas vestimentas.
— Convoquei o Conselho e decidimos que iremos remodelar nossa central de inteligência, M. Dessa forma, poderemos incorporar o serviço secreto americano; efetivando, assim, o acordo de Segurança Internacional que assinamos para conter o terrorismo em escala global.
M levantou-se em um salto, apontando para o relatório abandonado na mesa do Ministro, que vestia seu paletó.
— É exatamente nisso que se baseia o nosso relatório, Ministro. As organizações terroristas estão ampliando suas articulações nos países europeus. São provas inegáveis. Há fortes indícios que eles estão agindo bem debaixo de nossos narizes.
— Seu nariz, M. Se havia algo tão claro nessas investigações, imaginei que soltando os cães ferozes, que você chama apaixonadamente de agentes, já teríamos resolvido esse impasse.
M volta a rir, mas sem emoção alguma.
— Chama de impasse uma possível relação de organizações terroristas com a Spectre?
O Ministro vira-se, olhando para M. Em seu rosto há um sorriso sórdido, causado pelo que M imaginou ser um derrame ou uma má formação nos músculos de seu rosto.
— Possível, M. Uma possível relação, disse bem.
M voltara a se sentar, frustrado. O Ministro, sabia ele, tinha méritos no assunto “tampar o sol com a peneira”, mas até o momento nada chegara naquele nível de tamanha cegueira.
Perdido no silêncio de sua mente, M sobressaltou-se ao ouvir a voz do Ministro, que continuava parado bem ali na sua frente.
— Não pense que seus serviços acabam aqui. Você integrará a equipe norte-americana na nova sessão.
— Norte-americanos no serviço secreto britânico — replicou, amargo, quase para si mesmo — E onde fica a hegemonia de nossa nação?
O Ministro dá uma risadinha forçada e vira-se, abrindo a porta. A luz do corredor ilumina o ambiente e pela primeira vez M ouve o barulho da chuva batendo contra o telhado.
— O caso é que... — diz o Ministro, segurando a porta — a definição de hegemonia, nação, terra ou geografia, o que seja, mudou, M. É necessário fortalece-se como um bloco. O problema é que o MI6 não reconhece que há profundas mudanças ocorrendo no mundo.
Dizendo isso, o Ministro bateu a porta, deixando M na escuridão.
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