007 Contra o Fim do Mundo
17 Armistício
Notas iniciais
Era a primeira vez que M sentia-se satisfeito por estar na Sala Silenciosa do número 10 da Downing Street. Fazia um raro dia ensolarado em Londres e a sensação que ele tinha era que mesmo com os vidros e as paredes a prova de som, o canto dos passarinhos ultrapassavam facilmente essa camada.
A porta abriu-se e M ajeitou-se na cadeira, seguindo com o olhar o trajeto da Primeira Ministra até a sua mesa, onde ele sentava-se de frente.
— Gareth — cumprimentou ela, oferecendo sua mão para M.
— Senhorita May — respondeu M, aceitando a mão que lhe fora oferecida — Creio que daqui para frente deverá me chamar de M. Não pelo formalismo, mais por uma questão de segurança.
A Primeira Ministra sentou-se e M percebera que duas semanas de trabalho acabara com sua aparência. Sua pele parecia seca e os olhos fundos e por mais que ela aprumasse sua coluna, seus ombros insistiam em continuar curvados, tensos.
— Se nosso único problema de segurança fosse devido ao uso inapropriado de nossos codinomes, eu conseguiria dormir ao menos duas horas por noite, M.
M soltara uma risadinha sem graça, quase que irônica.
— Confesso que estou dormindo muito melhor desde o MI6 foi reintegrado, Ministra. Ainda que eu observe certa dificuldade no andamento de nossas solicitações — ponderou.
A Primeira Ministra dera um grande suspiro, encostando suas costas na cadeira.
— A total autonomia do MI6 não depende somente de mim, M. Deverá passar pela análise do Parlamento e, como você sabe, dez por cento das cadeiras foram desocupadas ao ser comprovado o envolvimento dos parlamentes em negócios da Heydrich Corporate Industries e por tráfico de influência — replicou a Ministra.
Ainda com um sorriso no rosto M continuou:
— Prefiro chamar a Heydrich Corporate Industries de SPECTRE, May. Ou seja: a corporação que, em tese, governava o país até duas semanas atrás.
A Primeira Ministra levantou-se com violência, virando o resto contra M, pondo-se a andar pela Sala Silenciosa.
— Seja razoável, M. Vivemos o pior momento de nossa história. Rompemos relações internacionais. Os franceses afastaram o presidente, a União Europeia nos impôs sansões, a Suprema Corte Internacional está nos acusando de milhares de crimes, a nossa própria corte está anavalhando cada membro do Partido Conservador. Literalmente perdemos nosso parlamento, as pessoas estão horrorizadas e prontas para começar uma revolução política e social!
— Por outro lado, Ministra, o ISIS fora enfraquecido e seus líderes identificados, as tropas saíram da Síria e, depois de décadas de conflitos, é a primeira vez que podemos dizer que há algum tipo de paz no Oriente Médio. Na Rússia a população começou um movimento que pode-se chamar de hiperdesnormalização. Estamos presenciando um momento histórico, eles querem a queda de toda a classe política do país.
M parecia ainda mais feliz ao pensar no futuro, o que ainda mais incomodada-a, tendo em conta que ela nem ao menos poderia garantir que terminaria o dia sendo a Primeira Ministra.
— Por outro lado — continuou M —, nos EUA, os republicanos apresentam “fatos alternativos” para verdades absolutas e digamos que a maior democracia do mundo está um tanto quanto... abalada. E se a senhorita quer mesmo minha opinião, creio que um cenário como esse dê margens para que, quem sabe, uma nova contracultura surja, por que não? O lado bom é que a imprensa está fazendo bem o seu trabalho, não é mesmo? Todo dia eles estampam novas crises e denuncias no meio corporativo.
A Primeira Ministra virou-se para M, voltando para seu lugar.
— Fazendo bem o seu trabalho? Todos os dias eles pintam o meu retrato como se eu fosse uma incompetente! — vociferou.
— Eles e toda a população querem algo que a senhora já indicou que não irá ceder, Ministra.
Ela apoiou as mãos na mesa e encarara M, o rosto ríspido, sua boca tremia.
— Não irei colocar em votação uma lei para regulamentar as corporações, M! Isso seria o fim da nossa economia e da essência do livre mercado.
M, sem nenhum constrangimento, encarou de igual para igual os olhos verdes da Ministra.
— As fábricas estão paradas, os trabalhadores estão na rua. Eles querem a parte do bolo deles, Ministra. Agora eles sabem que os dinheiros dos seus impostos estão armando terroristas no oriente médio...
A Ministra projetou seu maxilar para frente, por um segundo, M acreditou que ela atacaria suas veias. Ela sibilou, incapaz de formar uma palavra.
M levantara, deixando-a naquela mesma posição. Só voltou a se virar quando colocara a mão na maçaneta da porta.
— Não falo isso apenas pela senhorita ser do Partido Conservador, o Trabalhista também nos entregou um cheque sem fundo. Mas não podemos engolir seu “contrato social”, May.
Antes de M colocar o pé para fora, a Ministra gritou:
— Vai entregar o seu cargo?
M dera outra risadinha, a mais sem graça possível.
— Não. Ainda me verá muito aqui, Ministra. E diria mais: até o fim do seu mandato essa sala deixará de ser chamada de “silenciosa”. Precisará de bem mais do que meia dúzia de mercenários para derrubar o MI6, agora.
Ele fizera um gesto com a cabeça, despedindo-se. Em seguida, batera a porta o mais forte que conseguira.
***
Três enfermeiras mimavam um Bond destruído fisicamente, porém seu senso de humor continuava tão corrosivo como antes. Segundo o médico, ele não teria sequelas, mas seu corpo nunca voltaria ter a mesma forma de antigamente.
Após um bom almoço, servido na boca por uma das enfermeiras mais jovens e belas que Bond teve o prazer de conhecer, M e Moneypenny entraram no quarto e sentaram em uma cadeira, ao redor de sua cama.
— Q me contou que você deixou de ser político por uma noite e finalmente apertara o gatilho — falou Bond para M. Seus olhos já estavam bem melhores e sua mão e o abdômen foram devidamente costurados, assim como sua perna engessada e o braço colocado no lugar.
— Duas vezes, na verdade — vangloriou-se M — Espero que isso os faça lembrar que eu sou um agente treinado como qualquer um de vocês.
Os três riram e Bond dirigiu-se à Moneypenny.
— Onde está Tunner?
— Nesse exato momento apresentando os tentáculos da SPECTRE para o Parlamento, na University of London Union. É possível que mais envolvidos sejam descobertos até o fim do dia.
Bond olhara para M, curioso.
— Sim, promovi Tunner. Abaixo de mim somente ele, agora — anunciou M.
— E o Blofeld?
— Morto. Estava no palácio no momento da explosão. Conseguimos fugir minutos antes. Creio que eles facilitaram para nós. Já estávamos desacreditados àquela altura... — um tom amargo reverberara na voz de M, dessa vez.
— Mas não pense que a SPECTRE está morta. Há muito o que escavar, ainda.
M, as sobrancelhas erguidas, voltou-se para Moneypenny.
— Você poderia escavar esse túnel comigo, não fosse essa ideia patética de acompanhar Bond pelo Mediterrâneo. Dizem que ele vai pescar o resto da vida dele.
Moneypenny riu, tirando um sorriso de Bond.
— Tem razão, M e ficarei te esperando no próximo verão. Sei muito bem que você tem uma queda pelo alto-mar.
M levantou-se e ajeitara seu paletó, indo para a porta.
— Não negarei, mas prefiro não confirmar — falou, por cima dos ombros, deixando Moneypenny e Bond sozinhos no quarto.
Ela levantou-se e sentara ao lado de Bond na cama, afagando seus cabelos.
— É isso mesmo que quer? — perguntou ele — passar o resto da sua vida vivendo com um pescador.
— Pescador, feirante, jornaleiro... Fazendo algo que me dê garantias que você voltar sã e salvo para casa.
E dizendo isso ela beijara seus lábios, um tanto quanto inchados, ainda.
— Espero que esteja preparada para o caminho mais difícil. Não entrarei em um avião por muito tempo.
Moneypenny, sorrindo, lhe respondeu:
— Não vamos precisar correr. Não mais.
Bond fechara seus olhos e até já conseguia sentir a brisa morna do fim de tarde cortando seu rosto enquanto dirigiam pela estrada à caminho do mediterrâneo.
Aquela seria sua nova vida, uma vida não mais do que normal. Uma vida onde ele seria chamado de James. Apenas James.
You'll never understand it all
Read the writing on the wall
See the world and be what you wanna be
Don't be afraid to dream
Live a life and live it free
The rest's all make believe to me
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