Luna foi realocada para trabalhar em um subsetor do Governo no Distrito 2, mais precisamente, no setor de Distribuição. Como o Governo estava acima até mesmo dos humanos Classe 1, eles não interagiam com as outras pessoas, apenas mandavam ordens de como deveriam ser as coisas dentro de cada distrito via carta eletrônica e hologramas para o superior do Centro de Governo de cada distrito.

Luna achava o trabalho simples, o Setor de Distribuição tinha como função distribuir igualmente aos moradores aquilo que o Governo lhe enviava, os nutrientes chegados do Setor de Desalimentação, onde transformavam a comida em tubos de líquidos incolores que denominavam vitrum, lá estava tudo que um ser humano precisaria receber adequado ao corpo que venho sendo moldado desde o desastre dos Valsares.

Dentre outras coisas que o Setor de Distribuição distribuía, ele também ficava encarregado dos Centros de Conhecimento. O que foi um espanto para Luna, pois ela acreditava que, mesmo não os utilizando muito, os Centros de Conhecimento eram iguais para todos os humanos da Classe 2. Mas descobriu que não, os Centros de Conhecimento, assim como as Quasas tinha um reconhecimento biométrico, e sabiam quais informações eram possíveis disponibilizar para quais pessoas. E, algo ainda mais chocante, foi saber que algumas informações, tinha um prazo de validade. Depois de um certo tempo, desapareceriam da cabeça de quem as houvesse obtido.

Ao descobrir isso conectada ao seu Centro de Conhecimento de iniciação ao emprego, sabia que essa mesma informação agora sendo baixada na sua cabeça, seria deletada no final do seu expediente, para se realocada no dia seguinte, e assim dia após dia, até que ela alcançasse finalmente a idade estipulada pelo governo para receber a sua aposentadoria.

E foi assim que Luna seguiu pelos próximos anos de sua vida, sabendo de algo durante o trabalho, em que todos não pareciam se importar com, e esquecendo-o no final do dia.

Nunca perdera o seu hábito de leitura, até porque tinha alcançado o incrível resultado de conseguir ler metade de todos os exemplares que repousavam abaixo da sua casa, e sonhava com o dia que leria todos eles.

Lia após o trabalho, e ainda mais nos finais de semana. Seu tempo livro havia diminuído muito desde que era criança, mas aumentara do que o que era quando era uma adolescente, e ela era grata por isso sempre que estava lendo, mas não quando estava trabalhando.

Passou anos pensando em um jeito de tirar aquela informação de dentro do Setor de Distribuição, porque se fosse algo que ela adquirisse por si própria, o Governo não havia como remover das suas lembranças, assim esperava. Mas não tinha muito tempo para pensar em estratégias ou coisas elaboradas enquanto trabalhava, pois, mesmo que parecesse fácil, o trabalho ainda era exaustivo.

Houve uma noite então, em que Luna estava procurando um novo volume sobre algo que ela ainda não soubesse na sessão mais escura da biblioteca, e, por um acaso, atrás de um livro sobre aviões, gigantes máquinas de metal que cortavam o céu no século XXI, encontrou um velho livreto, gasto, sujo e colado.

Luna se perguntou como poderia ter esquecido desse livreto até o dia de hoje, era seu xodó, simplesmente porque era um segredo, nunca soube, e acreditava que nunca saberia o que estava escrito nele. Mas ainda assim o pegou, guardou no bolso, para que pudesse apreciá-lo mais tarde, e se dirigiu ao centro da biblioteca com o volume sobre aviões de baixo do braço para conhecer aquelas máquinas que lhe encantaram, e lhe renderam também uma grande resposta no Mude o Mundo ao saber que o primeiro deles foi denominado 14-bis.

Naquela noite, adormeceu com o volume aberto sobre o peito na página em que havia parado, e acordara assustada com o despertador no andar de cima anunciando que deveria estar indo para o trabalho ao invés de deitada em um porão com um livro sobre objetos voadores que deixaram de existir cerca de 400 anos atrás.

E foi assim, exasperada e apressada que ela saiu para trabalhar naquele dia, que recebeu a informação que vinha atormentando seus dias de trabalho a mais de 20 anos todos os dias, e que ela vinha ignorando a partir do momento em que deixava o local.

Porém, aquele foi um dia diferente, porque Luna não foi trabalhar como tinha ido os últimos 20 anos de sua vida. Naquele dia, Luna tinha seus 40 anos, era uma mulher vivida dentro da sua sociedade, conhecia seus direitos e deveres segundo o governo, e enquanto ela era reconectada ao Centro de Conhecimento do Setor de Distribuição, um livreto leve e gasto repousava em seu bolso.

Quando Luna chegou em casa depois daquele dia de trabalho distribuindo coisas, ela agradeceu por ninguém ter reparado no seu livreto durante o dia, tirou ele do bolso e estava como sempre esteve, exceto por uma coisa. Estava aberto na metade, como se tivesse apenas uma folha, grande e grossa, negra. E nela, em letras garrafais estava escrito “O GOVERNO MENTE”.