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1 único
Na mesa de um bar, os amigos do namorado de Nádia riam dela. Era sempre horrível o momento que o namorado parava pra fazer piadinhas sobre ela, tudo só para ter seu ego massageado, como era pedante.
Nádia não sabia por que o namorava... talvez porque no início, ela via pureza em seus olhos, um adolescente ingênuo e sonhador. Agora gostava de tirar vantagens com o curso de medicina e com a namorada gostosa que não se importava com as piadinhas, até ria junto.
Ele costumava cobrir seus ombros com o braço para puxá-la para mais perto e terminar dando um beijinho na sua testa. — É brincadeira. — Dizia com um sorriso idiota e Nádia apenas acenava, engolindo as risadas da forma mais seca.
Naquela noite, ele não bebeu para dirigir em seu carro zero, a última coisa que queria era sofrer um acidente e estragar o para-choque. Nádia se lembrou que ele ganhara o carro de seu pai, já os tênis de marca que usava da sua mãe, era um rapaz de uma família boa. Talvez continuar com ele valeria a pena no futuro, por já ter garantido uma vida mais confortável financeiramente.
O carro parou em frente à casa dela, os dois deram um beijinho seguido de um boa noite. No entanto, assim que o carro sumiu na esquina, Nádia resolveu caminhar pela cidade. Era noite, a lua minguante brilhava timidamente, fazia frio e fechou seu casaco vermelho. Usava saia e meiões pretos. Calçava sapatos de salto alto, o coturno de que tanto gostava, ele não quis que ela usasse mais. Nunca entendeu isso, pois o conheceu usando-os e ele não se importava até as coisas mudarem.
Caminhava olhando para aqueles sapatos que teve que se habituar para usá-los, enquanto tentava parar de pensar nele. Mas foi surpreendida por uma garota de cabelos longos e escuros, uma muito parecida com ela no passado. Estava de moletom e chinelos com meias (sendo uma de cada cor), parecia que procurava por algo, quando espiava por cima de muros ou em arbustos. Será que queria assaltar alguma casa?
— Ei. — Disse Nádia, parada atrás dela. A menina levantou os ombros de tanto susto que levou e Nádia riu, a achou fofa. — Algum problema? — Perguntou, assim que a garota se virou.
— Meu gato sumiu, e estou procurando...
Ela observava a moça à sua frente de cabelos platinados e a achava muito bonita. Era tão estilosa que não conseguiu deixar de se comparar com ela, estava praticamente de pijama e ainda vestia uma meia de cada cor. E a moça era tão magra...
— Está procurando sozinha?
A garota piscou os olhos e voltou a prestar atenção. — Sim, moro sozinha naquela casa ali. — Apontou pra uma casa azul no final da rua.
Era perto de sua casa, pensou Nádia. Só um quarteirão de distância.
— Eu moro há um quarteirão daqui... que coisa, como nunca a vi?
Era o que a moça também pensou, como nunca viu uma moça tão bonita antes?
— Como é o seu gato?
— Ham... — Voltou a prestar atenção e Nádia começava achá-la muito distraída. — Como ele é? Meu gato? — Nádia acenou que sim. — Ele é um frajola.
— Ótimo! E o nome dele?
— Frajola.
Nádia riu com a pouca criatividade da garota, que ficou embaraçada com as risadinhas. — A propósito, como se chama?
— Helen...
— Helen, eu sou Nádia. — Tinha uma mão sobre o peito. — Vou te ajudar nessa procura, pode ser?
— Não!! Não quero dar trabalho!!
— Não está dando, e está muito tarde para você andar sozinha na rua. — Tirou o celular do bolso e se aproximou para mostrar o horário a Helen. Já passava da meia-noite.
Com a aproximação, Helen sentiu um cheiro bom vir dela... deveria ser um perfume bem caro. Por isso deu um passo pra trás, porque não queria que Nádia chegasse tão perto de seu cabelo, ela não havia o lavado naquele dia.
As duas procuraram pelo gato e o acharam debaixo de um carro. Nádia fez um gesto e estava pronta para voltar pra casa, mas Helen fez um pedido.
— Não quer visitar minha casa? Sabe... tenho bebidas.
Nádia sorriu com as mãos nos bolsos do casaco e assentiu.
Helen teve que suspender a maçaneta para conseguir abrir a porta de sua casa. — Ainda vou consertar isso, só preciso de um tempo...
Achava fofo a facilidade que Helen tinha para ficar constrangida. Tirou aquele maldito sapato na entrada e observou ao redor. Helen, ao seu lado, soltou Frajola e o gato cravou imediatamente as unhas no sofá da casa. A dona entrou em desespero e mandava parar, mas Frajola não obedeceu. Helen teve uma vontade de chorar por ninguém no mundo a escutar, inclusive seus alunos.
— Você é professora? — Perguntou Nádia, depois de ver na mesa livros, pautas e provas sendo corrigidas.
— Ham... Por favor, ignore essa bagunça... — Empilhava livros e os guardava na estante logo atrás da mesa. — Acredite... eu sou desorganizada, mas consigo fazer o meu trabalho direitinho.
— Não se preocupe, é porque você é tão jovem...
Helen parou, chocada. — Eu tenho 29 anos.
Nádia abriu os olhos, surpresa. — Nossa, parece que tem 15!!
Coçava a nuca muito constrangida, porque levou aquilo como um elogio. — Talvez seja porque ainda vejo desenhos.
As duas riram e foram beber. A cozinha da casa era ainda mais bagunçada, uma pilha de louça se acumulou e quando Helen estava ocupada com as pautas, Nádia quis lavar as louças. Faziam suas respectivas tarefas bebendo e conversando. Frajola circulava as pernas de Nádia, enquanto ainda lavava a louça, ele parecia ter gostado dela. Pelo menos foi isso que Helen achou.
Nádia vestiu seus sapatos e seu casaco, pretendia voltar pra casa. — Obrigada pela noite, eu me diverti tanto com suas histórias com seus alunos.
— Eu que te agradeço por me ajudar a procurar o Frajola.
Estava chovendo lá fora, mas Nádia não se importava de se molhar e Helen só compreendeu que tinha que emprestar um guarda-chuva, quando viu pela porta da casa aberta que estava tendo um toró. Buscou um que ficava próximo da porta.
— Por favor, leve esse guarda-chuva!
— Não precisa... minha casa é só um quarteirão daqui...
— Mas já é muito! — Rebateu exasperada — E... — Desviou o olhar para o lado, como se estivesse incomodada com algo. Nádia pensou que ela conseguiu ficar ainda mais vermelha do que já mostrara naquela noite. O que será que queria? — E também... também você pode voltar pra cá para me devolver...
Estava tão corada que chegava a tremer o guarda-chuva envolvido nas suas mãos trêmulas. Nádia não conseguiu se segurar, riu alto. Helen se assustou, porque até aquele momento a garota era do tipo de poucas palavras.
— Ai, ai... — Enxugava os olhos e fungava o nariz. — Eu voltaria sem nem mesmo tendo um guarda-chuva.
— S-Sério?! E você gostaria de ser minha amiga? — Ter uma amiga tão estilosa e bonita era algo que Helen pensou que nunca teria. Na verdade, a garota tinha dificuldade para ter amizades, muito por conta do seu jeito destrambelhado. — Mesmo eu sendo desorganizada...
— E destrambelhada. — Completou. — Eu serei sua amiga por causa do seu jeitinho muito peculiar.
— Não preciso mudar?
— Claro que não.
A última coisa que faria seria mudar uma pessoa tão autêntica como era no passado.
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