00 - As Crônicas de Sheeba
2 O Chapéu Seletor
O restante da viagem foi um período de crescente ansiedade para as duas, que começaram a conversar sem parar assim que os quatro garotos saíram da cabine, elas falavam do que haviam sabido de Hogwarts e se surpreenderam ao saber que ambas queriam ficar na Grifnória. Quando apareceu o carrinho de lanches, Sheeba comprou com muita culpa alguns bolinhos e dois sapos de chocolate... ela gastava com muito cuidado o dinheiro de sua bolsa anual de estudante e não sabia se aqueles seis sicles lhe fariam falta.
Elas trocaram suas vestes e viram ansiosas que o trem parava assim que anoiteceu. Uma voz chamou do corredor:– Alunos do primeiro ano! Deixem sua bagagem e venham comigo! – Sheeba saiu e viu um homem muito grande com uma lanterna na mão. Instintivamente ela e Lilian se deram as mãos, ela já falara para Lilian de seu dom e Lilian não tivera medo, o que era muito bom... ela via que Lilian era uma menina boa e doce, e desejou que fossem amigas para sempre. Foram conduzidos para a beira de um lago e entraram em barcos, que não pareciam muito atraentes naquele ambiente noturno, a lua estava minguante e havia muito pouca luz, mas Sheeba julgou ver um bando de corujas cortar o céu... havia muitos alunos, mas não divisou nenhum dos que já havia visto.Estava esfriando rapidamente, ela via a água do lago turva com um certo receio... então apareceu um imenso castelo que ela contemplou boquiaberta. Era a coisa mais fascinante e bela que já vira na vida... muitas torres negras a cortar o céu, cheias de janelas e janelinhas iluminadas...ela amou aquele castelo no primeiro minuto que o viu, e lembrou-se de sua casa e principalmente do lugar onde dormia, uma minúscula água furtada que era quente demais no verão e insuportavelmente fria no inverno... mas era a única menina na casa, portanto, a única que tinha um quarto só seu. Sacudiu a cabeça para espantar os pensamentos sobre a sua casa quando os barcos chegaram ao seu destino.Foi só entrarem no grande saguão iluminado e quente para explodirem comentários baixinhos sobre a escola, risinhos espoucavam daqui e dali quando uma mulher alta e magra, que usava o cabelo preto muito bem preso e uns óculos quadrados apareceu e disse:– Boa noite, eu sou a Professora Minerva McGonnagal. – ela explicou algumas coisas que Sheeba procurou entender repetindo baixinho, então as portas do grande salão abriram-se e eles entraram, os rostos fascinados demais para dizer qualquer coisa. Em poucos minutos, começou a cerimônia de seleção. Sheeba sentia a ansiedade aumentar... olhou para a mesa dos professores e acenou para o professor Dumbledore, sentado bem no centro... era o primeiro ano dele como diretor da escola. Ele sorriu e piscou um olho para ela. O chapéu seletor começou então a cantar e ela prestou atenção na música, que falava dos fundadores e de toda a magia que estava ali... “Venham venham, aprendam, ensinemcomo tantos que aqui passaramdesde os quatro grandesque Hogwarts fundaram.Eu escolhi um por umVi suas personalidadesPorque você pode esconder O que diz ou o que fazMas de mim não escapa o queVocê pode desejarPois eu sou um chapéuQue tem o dom de pensarSerá você um Corvinal?Inteligente como a bela Rovena? Com o olhar do CorvoE a sabedoria da águia?Quem sabe ambicioso Como astucioso SalazarSe sorrateiro como cobra desliza,Sua casa será Sonserina.Se é a paciente como a amiga HelgaSe seu bom humor a todos encantaSaltitante como um texugo Estarás bem na Lufa Lufa...E finalmente se a coragem é seu domSe tem caráter e valentiaComo Godric, o grande LeãoGrifnória é a casa do seu coração.Confiem em mim...Estou pensando há quase mil anosNão é agora que vou me enganar.”O Chapéu seletor calou-se e a seleção começou... ela foi a terceira a ser chamada.– Amapoulos! – ela foi andando na direção do banquinho, pensando resoluta: “Ele vai me pôr na Grifnória... é a casa do Professor Dumbledore.” Sentou-se procurando sorrir e viu o salão sumir da sua frente, sendo substituído pela escuridão:“Ora ora ora... o que temos aqui... Toque de Prometeu!” – disse uma vozinha dentro da sua cabeça – “Há noventa e oito anos não vejo uma como você, menina...Você quer aprender sobre o futuro?” “Quero, quero!” – Sheeba pensou... era o que ela mais queria, aprender sobre seu dom – “Só as partes alegres ou tudo?” – “Tudo, lógico!” – “Então, você vai para CORVINAL!” anunciou o chapéu deixando-a perplexa. Ela foi andando tão devagar na direção da mesa da Corvinal que quase esbarrou em quem vinha para sentar-se no banquinho:– Ei, anime-se, quem sabe não estudamos juntos na Corvinal? – uma voz de menino chamou sua atenção e ela virou-se para ver o garoto odioso que soltara a bomba no trem rindo antes do chapéu pousar sobre sua cabeça. Ela bufou ao ver que ele ficara na Grifnória e seguiu seu caminho até a mesa, sentando-se onde foi indicado. “Há males que vem para o bem... já pensou estudar com esse moleque chato? Deve ser no mínimo horrível... tomara que esse monstro acabe expulso!” – ela pensou olhando para a mesa da Grifnória onde o garoto fora sentar-se. Uma mulher parou ao lado dela e disse:– Sheeba Amapoulos?– Sim – ela disse olhando para a mulher, que era baixa e magra e tinha um par de luvas nas mãos.– Meu nome é Viviane Lake, eu sou chefe da Corvinal e professora de adivinhação... estas são luvas isolantes, infelizmente você vai ter que usá-las o tempo todo, inclusive durante as aulas... faz parte de seu treinamento. Você não perderá o tato com elas, pode ficar tranqüila.
Sheeba olhou o par de luvas... era muito ruim para um dia só... para completar, Lilian acabara de ser selecionada também para a Grifnória. Ela estava agora completamente só. Pegou o par de luvas sentindo-se mais triste que nunca em sua vida: eram de um couro grosso e acamurçado, e feias como luvas de operário de obras.– Não se preocupe... eu já passei por isso – disse a professora – em breve elas serão suas amigas... essas luvas vão te poupar muitos aborrecimentos. – Sheeba olhou a professora, ela mesma tinha mãos enluvadas, e calçou as luvas, que ficaram largas. Mas assim que ela abootou-as, ajustaram-se perfeitamente, como se fossem uma segunda pele, realmente não perdia totalmente o tato, mas era como ter as mãos forradas por um couro grosso. – experimente as luvas – disse a professora – toque em alguém. Sheeba obedientemente tocou no menino que estava ao seu lado e pela primeira vez na vida, não sentiu nada. Houve um breve lampejo, mas a imagem não chegou a formar-se... não viu nada sobre ele. Era uma bênção. Agora, de certa forma, podia tocar em quem quisesse. E subitamente ficou com medo, porque toda sua vida soubera quem era ou não confiável só por um toque... naquele momento, perdia sua única arma contra o mundo hostil. De forma meio forçada, obrigou-se a rir para a professora. Tornou a prestar atenção na cerimônia, já havia algumas meninas e meninos selecionados para sua casa, mas o garoto que acabara de sentar-se no banquinho, um louro magricelo com cara de tédio chamado Malfoy, foi para a Sonserina... pelo que ela sabia das casas, a Sonserina era a mais perigosa, achou estranho que o menino moreno e tímido que entrara com ela no trem (era Atlantis o nome dele?) tivesse sido selecionado para a Sonserina. Agora, o menino gordo ia para a Grifnória, e atrás dele o menino de óculos. Engraçado, os quatro que haviam estado na cabine mais cedo estavam todos na Grifnória. O menino do cabelo oleoso sentou-se no banquinho (Snape... quase é Snake, esse garoto deve ser mesmo uma cobra) e foi para a Sonserina. Seguiu–o uma garota chamada Trelawney, desengonçada e de óculos e um garoto muito bonito louro de olhos azuis de sobrenome Valmont, que foram selecionados para a Corvinal. A garota sentou-se ao seu lado e começou a tagarelar sobre vidência perguntando como era ter o Toque de Prometeu... era a pergunta mágica que deixava Sheeba extremamente mal humorada:– É chato. Se pudesse escolher, não saberia de nada – ela disse, cortando o assunto.Naquele instante o último aluno foi selecionado e o diretor da escola, que por acaso era Dumbledore, começou a falar sobre o ano letivo sério. Ele fez um breve discurso e em seguida ela viu maravilhada os pratos encherem-se de comida... nunca vira tanta comida, e o que era melhor: não precisava pagar por ela, era tão pobre que se acostumara a ter um grande amor por coisas gratuitas. Comendo até esqueceu da garota magrela que continuava tagarelando ao seu lado sobre vidência. Em seguida, a monitora chefe da Corvinal alinhou os alunos do primeiro ano e conduziu-os à sala comunal da casa, que ficava no andar térreo, atrás de uma escada. Ela fugiu brevemente e deu boa noite a Lilian, que ia subindo as escadas.– Amanhã a gente se fala! – ela acenou para Lilian, que acenou de volta sorrindo. Voltou ao fim da fila da Corvinal e viu que a monitora parara em frente a uma armadura reluzente e prateada.– Aprendam a senha para nunca ficarem presos – disse a monitora – Esse é Sir Astolphus – a armadura fez uma reverência, para espanto de Sheeba – ele é o guardião de nossa sala comunal. A senha deste semestre é Alma de águia. “Alma de águia” – repetiu Sheeba para si mesma baixinho. A armadura deu um passo para o lado e empurrou uma porta escondida na pedra, que abriu-se para que os alunos passassem. A sala comunal da Corvinal era circular e cheirava a madeira, tinha uma grande lareira e nenhuma janela, porém suas paredes eram cobertas de quadros, todos retratando bruxos e bruxas. A monitora prosseguiu:– Meu nome é Clara... estes quadros todos foram pintados pela bela Rowena, eles retratam os primeiros discípulos da casa Corvinal, – ela estancou diante do quadro de uma mulher de cabelos negros e olhos azuis, vestida de azul com as mãos enluvadas. Sheeba viu com espanto que ela tinha próximo ao pescoço uma marca em forma de foice como a dela – esta é nossa fundadora, Rowena Ravenclaw. – a mulher mexeu-se e sorriu no quadro.Haviam dois corredores que saíam do fundo dos salão, e a monitora disse: Rapazes, sigam à direita com Milo – um rapaz ruivo do sétimo ano acenou para eles – e meninas, venham comigo. Sheeba seguiu pelo corredor com as outras, chegaram a um quarto com uma inscrição na porta: “Alunas do primeiro ano” – elas entraram e Sheeba viu sua bagagem depositada ao pé de uma cama alta e grande, que fazia a cama de sua casa parecer um catre, uma cama de grades de ferro próxima à janela. Sheeba chegou perto da janela e viu que ela dava para um campo largo, que acabava numa floresta. A Floresta proibida, à beira dela havia uma cabana, tudo iluminado pela fraca lua minguante. Sem falar uma palavra com suas companheiras de quarto, ela trocou de roupa e deitou-se depois de depositar as luvas ao lado da cama, na mesa de cabeceira. Encolheu-se ao sentir seus pés gelados sob a coberta, como acontecia quando estava nervosa.
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