0 The Legend Of a Fighter
3 Capítulo 003: Iniciam-se as demonstrações.
Capítulo 003: Iniciam-se as demonstrações.
Um local está mergulhado em uma profunda escuridão, tão intensa que não é possível distinguir quem está no interior deste lugar. Há apenas cinco presenças e um dos seres começa a erguer a sua voz.
Um dos seres: Parece que a nossa entrada no território brasileiro foi muito bem sucedida!
O silêncio toma conta por alguns breves segundos até que a voz de um outro ser começa a falar.
Outro ser: Sim! Ao que tudo indica, eles não estavam esperando pela nossa chegada.
Alguns risos baixos cruzam a escuridão.
Outro ser: Sim, eles realmente não faziam idéia de que nós chegaríamos! Toda aquela aglomeração não tinha nada a ver com a gente! Entretanto, a partir de agora, deveremos ficar bem atentos!
Um dos seres: Sim! A primeira parte do nosso plano já foi concluída, conseguimos penetrar no Brasil sem que ninguém saiba de nossa identidade! E agora sim, agiremos nas escondidas para que consigamos obter a Armadura de Orymon!
Todos ficam calados por alguns segundos.
Outro ser: Mas como é que nós vamos fazer isso? Quero dizer, como obteremos a armadura nos escondendo totalmente?
Um dos seres: Não se preocupem, eu já pensei em tudo. Garanto que não haverá falhas, eu tenho certeza de que esta armadura será nossa!
Outro ser: E no que você pensou exatamente?
Um dos seres: Hehehe... Hehehehe...
Todos permanecem silenciosos, com a escuridão sendo cortada apenas por esta breve risada.
Um dos seres: Paciência. Na hora certa, todos vocês saberão!
Ryan permanece sentado em um dos sofás vermelhos na ampla sala de entrada da academia The Young Fighter. Seus olhos estão arregalados, observando o panfleto que lhe foi entregue por Maciel.
Ryan (pensando): Armadura... de Orymon?! Eu não acredito nisso! Aqueles seres têm alguma coisa a ver com este torneio de artes marciais?!
O garoto olha rapidamente para os lados. A sala agora está ocupada por algumas pessoas a frente do balcão, atrás do qual os atendentes da academia estão falando com elas. Os olhos de Ryan se voltam para o panfleto, principalmente na região onde está escrito sobre o prêmio do torneio.
Ryan (pensando): É estranho... O Maciel estava lá na praia na hora que aqueles seres estranhos invadiram o show. Entretanto, ele nem falou comigo de que eles estão atrás desta tal armadura. Isso só pode significar que ele não sabe disso, caso contrário, com certeza ele teria comentado comigo ao falar sobre este torneio. Então, talvez apenas uma minoria das pessoas que estavam lá é que sabem o objetivo daqueles invasores. Eu não sei, o que eu faço agora? Eu sei de algo extremamente grave, mas será que eu falo com o Maciel sobre isso ou não?
Passaram-se alguns minutos até que Ryan sente uma mão tocando em seu ombro. O garoto levanta a cabeça rapidamente, como se tivesse tomado um susto.
Ryan: Ah! Oi, Maciel... me desculpe, é que eu estava meio concentrado aqui lendo este anúncio do torneio.
Maciel: Heh! Eu entendo. Bom, eu acho que já está tudo pronto para que as demonstrações dos estilos de luta sejam feitas pra você. E então, vamos lá?
Ryan: Ah, certo, vamos...
Maciel segue pelo corredor ao lado do balcão e Ryan o segue, seus olhos fixos na nuca dele.
Ryan (pensando); Eu acho melhor não falar nada com ele sobre esta armadura. Pelo menos, não agora.
Ambos andam pelo corredor revestido de azulejos brilhantes e ao final dele, viram para a direita e entram no amplo salão onde há os diversos aparelhos de musculação e as esteiras de corrida. Neste momento, muito mais pessoas estão malhando nestes aparelhos e correndo também.
Maciel: Você vai ver só, Ryan! Tenho certeza de que você vai adorar as demonstrações das lutas!
Ryan: Sim! Eles devem ser muito fodas mesmo! Eu to bem ansioso também.
Maciel é novamente cumprimentado por várias pessoas da sala até que os dois param diante da parede que dá entrada aos sete corredores.
Maciel: Muito bem. Vejamos...
Os olhos de Maciel vão passando lentamente pelos sete corredores até que eles param e ele aponta com o seu dedo para o corredor do meio.
Maciel: Vamos começar por este estilo de luta aqui! Ele se chama Hao Suao. Eu acho que você vai adorar.
Ryan: Beleza então.
Os dois entram pelo corredor do meio. Ele é formado por azulejos de cor marrom, mas também brilhantes, tanto no chão, como nas paredes e no teto e é relativamente estreito, tanto que Ryan e Maciel quase não cabem lado a lado. Depois de quase dez metros, eles param na frente de uma grande porta de ferro, que dá fim ao corredor.
Maciel: Aguarde só um momento, Ryan, por favor.
Ryan: Sim, claro.
Maciel dá três batidas de leve na porta. Uma voz vinda de dentro da sala responde às batidas.
Voz: Pode entrar.
Maciel abre lentamente a porta e os dois entram. Diante dos olhos de Ryan, revela-se um amplo salão, cujo chão é formado de tábuas de madeira bem escura e, tanto a parede quanto o teto, são pintados de branco e, a parede da esquerda é revestida completamente por um espelho. Pelo chão, estão espalhados diversos tatames de coloração vermelha e diversas pessoas vestindo uma roupa branca estão andando, recolhendo estes tatames. Maciel e Ryan ficam parados por alguns segundos na porta de entrada até que um homem alto, moreno, careca, e relativamente musculoso, vestindo uma roupa branca de lutador, igual à das demais pessoas, chega até eles e aperta a mão de Maciel.
Homem: Desculpe a demora para poder dar a demonstração, Maciel, é que hoje o movimento da aula aqui foi bem intenso, sabe como é.
Maciel: Certo, certo, não se preocupe com isso, Lúcio. Ah! Antes que eu esqueça, deixa eu apresentar vocês dois. Lúcio, este é o garoto que veio para assistir às demonstrações do seu estilo de luta. O nome dele é Ryan.
Ryan: Prazer em conhecê-lo, senhor.
O garoto aperta a mão do homem.
Maciel: E Ryan, este é o professor que ensina o estilo de luta Hao Suao aqui na academia, o nome dele é Lúcio Hernandes.
Lúcio: O prazer é meu em conhecê-lo, Ryan.
Maciel: E então? As demonstrações já podem começar?
Lúcio: Ah, bem... sim, sim. Vamos só esperar um pouco até os alunos saírem, guardarem os tatames e aí eu explico tudo sobre o estilo de luta Hao Suao pra você, Ryan. Está certo?
Ryan: Sim, não se preocupe, não precisa ter pressa.
Lúcio: Ta beleza...
Lúcio vira as costas para os dois e vai ajudando os alunos a guardarem os tatames vermelhos, que vão sendo empilhados a um canto próximo ao espelho. Os minutos vão se passando, os alunos vão saindo, deixando a sala cada vez mais vazia, até que ela fica ocupada apenas por Ryan, Maciel e Lúcio. O salão parece ainda mais amplo com todos os tatames guardados e com apenas três pessoas. Lúcio volta a se aproximar dos dois, que ainda estão relativamente próximos à entrada.
Lúcio: Muito bem. Eu acho que já poderemos começar.
Ryan: Certo.
Lúcio: Antes de te mostrar os principais movimentos e tudo mais, eu vou dar uma breve introdução teórica sobre esse estilo de luta, então...
Ele vai até o canto onde os tatames estão empilhados e retira um, jogando-o no chão à frente dos dois.
Lúcio: Sentem-se, por favor.
Maciel e Ryan se sentam no tatame e Lúcio fica de pé diante dos dois.
Lúcio: Esse estilo de luta, o Hao Suao surgiu há muito, muito tempo atrás. É uma luta nativa da China e surgiu há cerca de três ou quatro mil anos atrás.
Ryan: O que?! Três a quatro mil anos atrás?! Isso é tempo pra caramba!
Lúcio: Hehe! Sim, realmente é muito tempo. Hoje, o Hao Suao é bastante conhecido, entretanto, ele demorou muito tempo para conseguir tantos adeptos. Isto porque essa luta começou de uma maneira bem reprimida. Naquela época, a China era controlada pela chamada Dinastia Xia, que se iniciou mais ou menos no ano 2000 a.C. e terminou em torno de 1600 a.C. Essa dinastia contou com o governo de 17 reis que governaram o território por cerca de 14 gerações seguidas. O domínio dessa dinastia se estendia por todas as direções da China, norte, sul, leste e oeste, governando províncias como Henan, Shandong, Hebei, Shanxi e Hubei. Vale ressaltar que, a China, durante esse período, ficou dominada por controles políticos de clãs e famílias aristocráticas, que recebiam o apoio dos reis. Além disso, nesta dinastia, aqueles que iam contra os pensamentos dos reis, ou contra a estes clãs e famílias que dominavam a China... sofriam punições bem duras. E é justamente neste contexto, que surgiu esse estilo de luta Hao Suao. Uma grande família que habitava a província de Henan, ao leste, era extremamente pobre e vivia constantemente prejudicada por clãs aristocráticos daquela região, que cada vez mais roubavam de famílias mais pobres para se enriquecerem. Essa família era a família Suao e ao todo, já contava com cerca de sessenta membros, juntando, idosos, adultos e crianças. Chegou um momento, então, que eles não agüentaram a extrema pobreza e a condição subalterna a qual estavam vivendo e decidiram atacar as forças do rei. Entretanto, por serem extremamente pobres, não tinham dinheiro para nenhum armamento e tudo o que lhes restou foi usar o próprio corpo para combater. O principal membro desta família era o homem mais jovem e forte, que se chamava Hao e foi ele que começou a ensinar a todos os membros dos Suao a combater. Desta maneira, surgiu o estilo de luta que recebeu o nome mais tarde de Hao Suao, em homenagem a este homem.
Ryan: Entendi... cara, que história maneira. Eu me lembro de algo que estudei na escola sobre essa tal Dinastia Xia que dominou a China, mas eu não fazia idéia de que ela fosse tão importante para lutas. Puxa! Mas, eu tenho uma dúvida.
Lúcio: Pode perguntar.
Ryan: O que aconteceu com a família Suao? Você sabe? Quero dizer, esse cara chamado Hao conseguiu desenvolver essas habilidades de luta e as ensinou para toda a família, mas eles chegaram a atacar o governo do rei?
Lúcio: Ah, sim, claro, eu não terminei a história. Eles treinaram bastante e decidiram por atacar o governo, mas... o que era esperado aconteceu.
Ryan: Já imagino.
Lúcio: Exatamente. O poderio do rei era infinitamente maior do que o da família Suao e uma violenta opressão foi lançada contra esses membros. Grande parte deles foi morta pelas forças do rei e apenas alguns poucos sobreviveram e entre esses poucos sobreviventes, estava Hao. Eles foram obrigados a se esconderem, já que não tinham mais nenhuma condição de enfrentarem o rei. Entretanto, quando aproximou-se de 1600 a.C, a China estava sendo governada por um rei extremamente corrupto chamado Jie e ele, por sua vez, foi o último rei desta dinastia. Nesta época, o povo de Shang, localizado também mais ao leste da China, estava revoltado com as ações de Jie e então, o seu líder, o chamado T’ang conseguiu depor o rei, dando início a uma nova era na China. Sabendo da história da família dos Sua, T’ang ajudou Hao e os demais sobreviventes a se recuperarem da guerra que tiveram contra o rei e foi assim que o estilo de luta Hao Suao foi lentamente crescendo. Inicialmente, foi sendo conhecido por todos os habitantes da China, se expandindo para o continente asiático, até alcançar todo o mundo.
Ryan: Caaaraca! Que foda! Gostei, esse tal de Hao devia ser bem persistente mesmo, caramba! Puxa, eu nunca imaginei que pudesse ter tanta coisa por trás desse estilo de luta.
Lúcio: Heh! Sim, de fato, é uma história comovente. Bom, mas agora que eu já falei como o Hao Suao surgiu, poderemos começar as demonstrações físicas, certo?
Ryan: Ah, sim, claro.
Lúcio: Eu irei precisar de você, Maciel.
Maciel: Sim.
Maciel se levanta e fica ao lado de Lúcio.
Lúcio: Preste atenção, Ryan. O Hao Suao se baseia principalmente numa rápida movimentação de pernas para enganar e confundir o oponente e o ataque se baseia no uso dos braços. Por isso, pernas e braços fortes são essenciais para se praticar esse estilo de luta, entende?
Ryan: Certo, entendi.
Neste momento, Lúcio flexiona um pouco as duas pernas deixando a esquerda um pouco à frente da direita, ao mesmo tempo que levanta os dois braços, com os punhos fechados, deixando-os quase na altura do rosto, um pouco abaixo dos olhos.
Lúcio: Esta é a postura de ataque, Ryan. Olhe bem para ela e observe que a minha perna esquerda está um pouco a frente da minha perna direita.
Ryan: Sim, eu estou vendo.
Lúcio: Isso é porque eu ataco melhor com o braço direito. Então, essa posição das pernas é favorável para que o meu ataque com o braço direito saia com mais força. Entendeu?
Ryan: Entendi.
Lúcio: Agora analise as posições dos braços. Eles devem sempre ficar levantados assim, mesmo na postura de ataque. Isso permite que o usuário, mesmo estando numa postura de ataque, caso receba algum ataque, possa se defender. E agora... eu vou te mostrar como se ataca nesse estilo de luta.
Ryan: Certo.
Lúcio: Não se preocupe, Maciel, eu não vou atacar com força, irei apenas tocar em você.
Maciel: Ta bem.
Lúcio começa a saltitar rapidamente de um lado para o outro e assim fica durante alguns poucos segundos até que ele dá um grande salto para o alto e vai para trás de Maciel numa grande velocidade. Em menos de um segundo depois, Lúcio dá um forte impulso com sua perna esquerda e encosta o punho direito na nuca de Maciel. O garoto está de olhos arregalados.
Ryan (pensando): Mas... o que foi isso?! Eu nunca vi ninguém se mexer desse jeito! É incrível! A velocidade dele é assustadora!
Lúcio: Viu isso, Ryan? É desse jeito que luta um praticante do Hao Suao. Como eu disse no início, é um estilo de luta que se baseia numa rápida movimentação de pernas e o ataque dos braços. Além disso, o jeito que eu fiz de dar um impulso com a perna esquerda e atacar com o punho direito é um dos ataques mais tradicionais do Hao Suao. Aquele impulso que eu dei com a perna esquerda foi fundamental para dar ainda mais força ao meu soco com o braço direito. Se o Maciel tivesse levado esse golpe em cheio na nuca, ele certamente estaria desacordado agora.
Ryan (ainda de olhos arregalados): Que foda...
Lúcio: Bom, Ryan, esse é o básico que você precisa saber de início para praticar o Hao Suao. A postura, o impulso que deve ser dado, como se ataca, a posição dos braços para se defender... ainda há muitos outros ensinamentos, técnicas bem fortes e tal mas isso só se aprende quando você já tem algum tempinho de treinamento.
Ryan: Mas, Lúcio, só uma coisa, essa velocidade toda que você usou... você conseguiu se mexer todo rápido assim apenas com treinamento?!
Lúcio: Sim. Eu treino há anos o estilo Hao Suao. Mas não é só isso. Pra ter uma velocidade dessas é muito importante treinar bastante corrida para o ganho de resistência e intensa musculação para que as suas pernas tenham força física, além dos braços é claro, para que os golpes saiam mais fortes também. Entretanto, além disso, é muito importante que você seja capaz de desenvolver uma outra coisa dentro de você.
Ryan: Sério? E o que é?!
Maciel: Ah, bem, eu acho que não é necessário falarmos sobre isso agora, Lúcio! Eu acho melhor que o Ryan vá conhecer os demais estilos de luta, ainda tem seis, afinal de contas.
Lúcio: Hehe! Certo, certo! A demonstração do Hao Suao termina por aqui, Ryan. Eu espero que você tenha gostado e... bem, caso você queira entrar para a nossa academia, eu irei ficar muito honrado de lhe ensinar esse estilo de luta caso você opte por ele. Mais uma vez, prazer em conhecer você.
Ryan: Ah, certo, muito obrigado.
O garoto se levanta do tatame e aperta a mão de Lúcio com um sorriso no rosto. Ele e Maciel saem lentamente do amplo salão, fechando a porta ao sair.
Maciel: Bem vamos lá, Ryan. Venha conhecer o próximo estilo de luta.
Os dois começam a andar, saindo do corredor.
Ryan: Maciel, eu queria te perguntar uma coisa.
Maciel: E o que foi?
Ryan: Por que você interrompeu o Lúcio? Ele estava dizendo que era importante que eu despertasse algo dentro de mim pra conseguir bastante força e velocidade, mas...
Maciel: Eu o interrompi porque não é necessário que você saiba disso agora, Ryan. Caso você decida entrar para a nossa academia e começar a treinar em um de nossos estilos de luta, aí sim, a gente fala mais sobre este assunto.
Ryan: Então ta, se você ta dizendo, né.
Os dois saem do corredor e ficam de frente para a parede que dá entrada às demais salas para os outros estilos de luta.
Ryan: E agora, Maciel? Qual vai ser o próximo estilo que a gente vai conhecer?
Maciel: Bem, bem... vamos por aqui.
Maciel aponta para o corredor mais à esquerda e eles entram. Em poucos segundos já estão dentro de um outro amplo salão, praticamente igual ao anterior, exceto pelo fato de que as paredes são um pouco mais decoradas com alguns quadros e ornamentos. Um homem de cabelos loiros um pouco longos, relativamente alto, robusto e de olhos azuis é quem abre a porta para os dois. Ele veste uma roupa toda preta, com uma camiseta e uma calça esporte.
Homem: Olá, Maciel.
Maciel: Oi, como vai? Ryan, deixe-me apresentá-lo, este é Roberto, ele ensina o estilo de luta conhecido como Combat au Couteau.
Ryan: Muito prazer.
Roberto: O prazer é todo meu.
Roberto se apressa a pegar um tatame, também vermelho, e o coloca no chão, no centro do salão. Ryan e Maciel se sentam.
Roberto: Bem, Ryan, como o Maciel acabou de dizer, o estilo de luta que eu ensino aqui é o Combat au Couteau. Você, por acaso, sabe o que isso significa?
Uma expressão de dúvida toma conta da face do garoto.
Ryan: Bem, pelo que parece, é um nome francês, certo?
Roberto: Sim.
Ryan: Mas eu... bem desculpe, eu não sou muito bom em francês, eu não sei o que significa isso em nossa língua.
Roberto: Heh! Não se preocupe, eu irei explicar pra você. Combat au Couteau significa “Combate com faca” em português. Eu acho que isso resume muito bem no que se baseia esse estilo de luta, certo?
Ryan: Sim, então esse é um tipo de luta armada, não é?
Roberto: Exatamente. Como o próprio nome sugere, todos os movimentos desse estilo de luta incluem o uso de facas.
Em um rápido movimento, Roberto retira duas grandes facas dos bolsos de sua calça.
Roberto: É importante deixar bem claro de início, que, no Combat au Couteau, as facas não são importantes apenas para o ataque, mas elas têm um papel bem importante na defesa também.
Ryan: Certo... mas, Roberto. Se o nome desse estilo de luta é francês, isso significa que ele nasceu na França, certo? Ou pelo menos recebeu algum tipo de influência dos franceses...
Roberto: Ah, sim, naturalmente. Esse estilo de luta ainda não é muito conhecido sabe. Isso porque ele surgiu numa data... digamos que numa data relativamente recente.
Ryan: Sério?! Quando que surgiu?!
Roberto: Mais especificamente no período da Segunda Guerra Mundial. Como você já deve saber, Ryan, essa guerra eclodiu no período aproximado de 1939 até 1945, e atingiu principalmente a Europa.
Ryan: Sim, eu já estudei sobre isso na escola...
Roberto: Então... O uso das facas como combate pelos franceses foi importante durante esse período. Quando a Alemanha, controlada pelo Hitler invadiu a Polônia em 1939, o conflito mundial teve início. Os países do Eixo começaram a guerrear contra os chamados países Aliados, que desejavam deter o avanço das tropas nazistas de Hitler. Neste contexto em que a Europa é mergulhada em profundas guerrilhas, a França também foi invadida pela Alemanha em meados de 1940. Depois de cerca de quarenta dias de combates, os franceses acabaram se rendendo, mais especificamente em Compiégne, e, muitos deles, sobretudo os mais pobres, foram levados para os campos de concentração nazistas, principalmente os da Polônia. Nesses campos de concentração, como você bem deve saber, as condições dos prisioneiros eram completamente miseráveis e insalubres. É justamente aí que começa a surgir o que mais tarde seria chamado de Combat au Couteau. Para sobreviverem às duras condições ao qual estavam sendo submetidos, os prisioneiros de alguns campos de concentração entravam em constantes conflitos entre si pela comida principalmente, mas também pelas melhores... ou melhor, menos piores condições.
Ryan: Entendo. E parece que foi nesses conflitos que...
Roberto: Isso mesmo. Dentro desses conflitos, os prisioneiros franceses faziam um grande uso de facas para derrotarem os seus oponentes. Até mesmo aqueles que não sabiam lutar eram ensinados pelos que tinham um pouco mais de habilidade. O resultado disso foi que, após o término da Segunda Guerra Mundial em 1945, uma grande parte dos sobreviventes franceses já havia desenvolvido habilidades de combate envolvendo facas. Durante o contexto da reconstrução européia, essas habilidades se desenvolveram bastante entre os franceses e dessa maneira surgiu o tipo de luta conhecido como Combat au Couteau.
Ryan: Saquei. Então, quer dizer que a ocorrência da Segunda Guerra Mundial também foi importante para o surgimento de estilos de luta...
Roberto: Sim, exatamente. Eu sou descendente de uma família francesa, sabe. Muitos dos meus antepassados lutavam com as facas e eu acabei me interessando. Bem, nem preciso dizer que eu comecei a treinar até que eu consegui dominar as técnicas do Combat au Couteau.
Ryan: Mas pelo seu nome, você é brasileiro, não é?
Roberto: Ah, sim, sim. Apenas os meus familiares mais antigos que os meus avós é que são franceses.
Ryan: Sei.
Roberto: Bom, agora eu irei te dar uma breve demonstração de como os franceses lutavam naquela época. Preste bem atenção.
Ryan: Sim.
Roberto: Bom, então, vamos lá. Levante-se, Ryan.
O garoto se ergue rapidamente e fica parado diante de Roberto.
Roberto: Agora, eu quero que você me bata.
Ryan: Como é que é?!
Roberto: É isso mesmo que você ouviu. Venha me atacar e eu irei me defender.
Os olhos do garoto se fixam momentaneamente nas mãos de Roberto, que seguram as facas.
Roberto: Ah, vai, Ryan. Não fique com medo. Eu com certeza não irei machucar você, acha que sou maluco? Olhe isso.
Ele lança rapidamente a faca, que segurava em sua mão direita, na direção do garoto, que a apanha rapidamente com as mãos, meio sem jeito. Logo em seguida, Ryan apalpa a faca por alguns segundos e se volta para Roberto.
Ryan: Ela é...
Roberto: Sim. Nós não realizamos os nossos treinamentos com facas comuns. Essas daí são específicas para aulas, por isso são feitas de plástico, para evitar ferimentos.
Ryan: Ah, então está certo.
Roberto se aproxima de Ryan e pega a faca de volta.
Roberto: Muito bem. Pode me atacar.
Ryan: Ta certo. Eu posso atacar do jeito que eu quiser?
Roberto: Claro. Com socos, chutes, cabeçadas, cotoveladas, da maneira que você desejar!
Neste momento, Roberto coloca os braços um pouco a frente do peitoral, um por cima do outro, formando um tipo de figura parecida com um “V”. Ambos os braços erguendo as facas em uma posição vertical.
Ryan: Entendo. Então deve ser essa a postura do Combat au Couteau, certo?
Roberto: Sim...
Ryan: Beleza então. Eu vou atacar com tudo!
O garoto parte pra cima de Roberto em grande velocidade e começa a desferir vários socos consecutivos muito rápidos, entretanto, o professor bloqueia todos os golpes com as facas de plástico. Maciel examina com o olhar os movimentos de Ryan e de Roberto.
Maciel (pensando): Para quem nunca treinou lutas, o Ryan realmente é bom. O fôlego dele, a força... definitivamente, se ele decidir se dedicar a um treinamento de combate, ele terá um grande potencial para se tornar um grande lutador!
Ryan continua atacando ferozmente, mas todos os seus golpes continuam atingindo apenas as armas de plástico.
Ryan (pensando enquanto ataca): Caramba! A defesa dele é perfeita! Além disso, parece que ele não está nem um pouco cansado, mesmo eu tentando atingi-lo com a minha velocidade máxima! Mas que merda...
Neste momento, a velocidade dos golpes do garoto começa a diminuir e vários pingos de suor começam a escorrer pelo seu rosto. Um pequeno sorriso se abre no rosto de Roberto e ele dá um rápido e pequeno pulo para trás. Em menos de um segundo depois ele flexiona rapidamente os joelhos e atinge em cheio a barriga de Ryan com a ponta da faca de plástico da mão esquerda. O local fica em silêncio por alguns segundos e depois, Roberto, volta a ficar de pé em posição normal na frente de Ryan.
Ryan: Po... Porra. Eu não imaginava que você também fosse tão rápido, Roberto! Eu não consegui tocar um dedo sequer em você!
Roberto: Heh! Esse papo de velocidade e força é algo que se adquire com o tempo, Ryan. Entretanto, o meu objetivo com essa demonstração não era testar a sua velocidade, força, tampouco as suas técnicas de lutador.
Ryan: Bom, e então? Qual foi o objetivo?
Roberto: Conforme eu te falei no início, as facas são importantíssimas para a defesa também. Você percebeu que eu me defendi de todos os seus ataques apenas com essas duas facas, certo?
O professor balança as facas de plástico jeitosamente em suas mãos.
Ryan: Sim. Todos os meus socos atingiram apenas as facas e não você.
Roberto: Exatamente. Eu costumo dizer que a defesa no Combat au Couteau é uma das melhores entre os diversos estilos de luta que existem. Você já imaginou como estariam as suas mãos caso essas facas fossem de verdade?
Ryan abre um pouco mais os olhos por alguns segundos, mas eles rapidamente voltam ao normal.
Ryan: Sei. Elas estariam bem ferradas agora.
Roberto: Exatamente. Apenas se defendendo, já é possível ferir o oponente numa batalha, por isso que eu digo que essa é uma das melhores defesas. É por este motivo que, ao enfrentar um usuário do Combat au Couteau, deve-se sempre realizar um ataque rápido, forte e principalmente, estratégico, para que não se saia ferido. Entendeu?
Ryan: Certo, eu entendo. Mas também, se você não fosse capaz de se mexer nessa velocidade toda em que você se mexeu... essa defesa também não adiantaria de nada caso você enfrentasse um oponente mais ágil, certo?
Roberto: Ah, sim, sem dúvidas. A velocidade e a força física dos braços para resistir aos ataques também são fundamentais. Mas uma vez tendo considerável velocidade e força, e dominando a técnica, essa se torna uma defesa quase que imbatível. Não concorda comigo, Ryan?
Ryan: Sim, de fato, é uma defesa bem eficiente. Mas eu tenho uma dúvida. O uso de armas é permitido em competições?
Roberto: É permitido desde que este uso seja justificado pelo estilo de luta que você usa. Sempre que um lutador se inscreve em alguma competição, seja ela qual for, ele sempre registra o estilo de luta que ele pratica. Então, se esse estilo de luta usar armas, então este uso será permitido para esse determinado lutador.
Ryan: Entendi.
Roberto: Bom, eu acho que isso é o básico do Combat au Couteau. Eu espero que você tenha gostado.
Maciel se ergue lentamente do tatame e vai para o lado do garoto.
Ryan: Muito obrigado, Roberto. Muito foda esse estilo de luta, eu gostei muito!
Roberto: Haha! Valeu! Ah, antes de você ir, eu gostaria de te dizer uma coisa, Ryan.
Ryan: O que foi?
Roberto: Eu observei bem você enquanto me atacava e... bem, você tem futuro, cara! Se quiser se dedicar a alguma luta, tenho certeza de que você irá se sair muito bem!
Ryan: Heh, muito obrigado, Roberto! Valeu mesmo!
Roberto: Até mais pra vocês.
Maciel e Ryan apertam a mão de Roberto, os dois saem do salão e vão percorrendo o caminho de volta do corredor.
Ryan: É, eu to gostando bastante, Maciel! Essas lutas devem ser muito, muito fodas mesmo de treinar, eu nunca imaginaria que existe tanta técnica por trás dos golpes de luta.
Maciel: É, eu sabia que você iria gostar, Ryan.
Ryan: Mas eu só quero saber mesmo é o que eu preciso de verdade.
Maciel: O que você quer dizer com isso?
Ryan: Esse Roberto também tem uma velocidade incrível e uma força física bem evoluída. Isso com certeza tem alguma coisa a ver com aquilo que o Lúcio ia me falar mas você interrompeu.
Maciel: Vamos lá, Ryan, tenha calma. O que o Lúcio ia te dizer é muito importante, caso você decida entrara para alguma luta, essa será a primeira coisa que você vai saber. Fique tranqüilo.
Ryan: Ta bom, ta bom, você já me disse isso.
Depois de mais alguns segundos, os dois já estão do lado de fora e se vêem diante dos sete corredores.
Ryan: Beleza, Maciel. E agora, pro qual estilo você vai me levar hein?
A expressão de Maciel fica bastante pensativa.
Maciel: Vamos por aqui.
Ele aponta para o corredor ao lado do qual eles acabaram de sair.
Ryan: Certo, vamos lá.
Os dois entram e vão caminhando lentamente para mais uma grande porta de ferro.
Ryan (pensando): Eu to adorando conhecer todas essas lutas, elas são boas de verdade. Hum, eu só estou curioso em saber qual delas e a que o Leo pratica...
Ambos param diante da porta.
Maciel: E então? Vamos conhecer mais um?
Ryan: Sim.
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