Entrei na sala vendo ele encostado no parapeito da sacada tragando um cigarro.

Às vezes eu parava e pensava em como tudo aquilo havia acontecido tão rápido.

Não rápido a ponto de me fazer perder a cabeça ou nos separar, mas rápido o bastante para me deixar assustado.

Era estranho pensar que nem há sete anos atrás eu estava na casa dos meus pais, discutindo com o velho sobre o mesmo motivo.

Sempre o mesmo motivo.

“Você que jogar fora o seu futuro? Porque é isso que você vai fazer!” Ele me dizia todos os dias.

Quando as brigas se tornaram algo insuportável eu comecei a fugir, pulava a janela do meu quarto e ia para a casa conhecida mais próxima.

E é claro que era sempre a mesma.

Chegava ao ponto de eu nem precisar bater na porta desesperado e chorando. Akira, na maioria das vezes, já estava sentado do lado de fora só me esperando.

E era como se ele tivesse meu manual de instruções, ele simplesmente se levantava e me abraçava falando pra entrar, que tudo ficaria bem.

E eu, do jeito que sempre fui, jamais duvidei de sua palavra. Não precisava, ele nunca havia me dado indícios do contrário.

Porém, o tempo foi passando e fomos ficando mais velhos como era de se esperar. Mas as brigas continuavam e pode até se dizer que pioraram.

Minha mãe, que antes me defendia e protegia, começava a parar de fazê-lo, provavelmente porque eu estava ficando mais velho e precisava aprender a me defender sozinho.

Acho que por ela ter começado a ficar cada vez mais quieta perante as brigas entre meu pai e eu, ele tenha decidido avançar mais um nível.

Quase como um vídeo game. Enquanto ele não vencesse em todos os níveis e limites possíveis nada estava bom.

Ele precisava me derrotar e me humilhar para se sentir bem. Talvez sua consciência gritasse que era culpa sua eu querer me tornar músico.

Era a única explicação lógica que eu achava pra aquela situação, não que eu quisesse uma mesmo.

E conforme os níveis de seu vídeo game foram aumentando, minha depressão e tristeza também iam.

Eu fugia mais, às vezes nem voltava para casa.

Simplesmente ficava na casa de Aki por três dias seguidos. E um dia, quando seus pais começavam a se preocupar com os meus eu voltava.

E foi numa dessas voltas contrariadas que Akira me surpreendeu.

Eu já tinha plena consciência de minha escolha sexual e a aceitava bem, mas me admirei quando ele falou que suspeitava ser gay também.

Aquele dia fora um dos melhores que tivemos, de tanto que eu ri quando ele me contou.

Coitado, tinha ficado mais vermelho que um tomate de tanta vergonha e raiva, mas eu simplesmente não conseguia parar de rir.

Acho que pela sua pose de sempre querer parecer um punk delinqüente ou pelo seu jeito sempre másculo, fosse nas pequenas coisas ou nas grandes.

Ainda lembro que, de tão irritado, ele começou a fazer o caminho de volta pra sua casa e eu comecei a andar atrás dele, pedindo desculpas.

Afinal, não era minha intenção deixar ele magoado, muito menos minha culpa o ataque de risos que me deu.

Até que consegui parar de rir e ficar sério.

E só com aquilo ele voltava a corar de novo. Um sorriso me escapou pois ele realmente ficava uma graça tímido do jeito que sempre fora.

Lembro de ele abaixar a cabeça e perguntar como eu descobrira que eu era.

Eu só olhei pro sol que já estava quase se pondo e suspirei, disse que sabia que era porque desconfiava de minhas próprias atitudes.

Ele não levantava o olhar e eu ficava pensando em todas as vezes que sentia vontade de tomá-lo quando o via em alguma posição sexy ou sem camisa.

E em todas as vezes que só queria beijá-lo, só pra sentir o gosto de seus lábios tão finos.

E também pensava em todos os meninos os quais já tinha ficado, desde o primeiro e como nosso primeiro beijo aconteceu.

Foi com a cabeça borbulhando que ele ficou me olhando por pelo menos uns dez minutos.

Enquanto eu olhava o nada e pensava em mil coisas.

Ele me olhou sério e disse que queria descobrir se era ou não.

Eu apenas saí do meu pequeno transe e dei de ombros, dando alguns passos em sua direção e roubando um selinho.

Ele estremeceu diante do toque, eu simplesmente o encarei e continuei andando, pois não queria ficar na rua até muito tarde.

Perguntei o que ele achava e ele me parou puxando contra si e me roubou um beijo sôfrego.

E aquele sim foi o nosso primeiro beijo.

Realmente não havia sido do jeito que eu sempre pensara ou quisera, mas havia sido com paixão e por parte dele.

E só por esses pequenos motivos eu já me alegrava.

- Você vai ficar aí a tarde toda pensando na morte do Kakashi²?

O encarei, piscando algumas vezes seguidas.

- O Kakashi morreu? Eu sempre achei que o Naruto ia morrer primeiro!

Ele me encarou de volta e riu.

- Depois eu que leio muito manga

Eu sorri.

- Só tava pensando na nossa adolescência, você não sente saudades?

Ele apagou o cigarro e jogou ele da sacada.

- Não. Você e seu pai eram insuportáveis, prefiro nós atualmente bem longe dele.

Eu ri.

- Ah, ele só queria o meu bem.

Me levantei e fui até a varanda o abraçando e encostando minha cabeça em seu ombro.

- E eu também, fique bem longe do telefone, por favor.

Eu ri ainda mais.

E era isso que fazia minha vida tão fantástica.

O simples fato de ele não deixar que o medo tomasse conta de mim, novamente.

~ Fim ~

P s; A fic é inspirada na música [não na letra] da musica The Fear da cantora Lily Allen.

¹ - O Ruki conta nas entrevistas que o pai e ele nunca se deram bem por conta de ele querer ser músico e ter ficado famoso como queria, sonhava e batalhava.

² - Spoiler do Naruto de verdade, pra quem não sabe o Kakashi teoricamente não morreu viu? Ele só foi escondido pela Tsunade pelo que me contaram ;)

• Acredite Reviews tem poder, o poder de fazer uma escritora escrever uma nova história D: /fikdik

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