Depois que já estava bastante tarde, eu estava lá deitada sobre aquele monte de almofadas com os pensamentos longes, não pensava mais em meus pais, em minha tia, em minha prima, em nada, apenas uns pontos específicos de lembranças vinham a minha mente, como o kit de pincéis de segunda mão que meu tio me deu de aniversário, além de ser o objeto que eu mais gostava, representava algo muito especial, pois ele gastou mais ou menos uns três meses procurando-os para me dar de presente, quando cantávamos na chuva, ele, Angy e eu com o quintal todo enlameado, era uma das coisas mais divertidas que acontecia na minha vida.

De repente me lembrei a última vez que falei com ele, no dia do meu aniversário há uns meses atrás, no ano passado, era a única ocasião que eu ouvia a voz dele e era por telefone, ele dizia que eu podia falar quanto tempo quisesse, mas minha tia mandava desligar porque a conta iria vir cara lá, todas as vezes que ele dizia que sentia saudades de mim, lágrimas escorriam pelos meus olhos, mas eu nunca deixei ele perceber, são lembranças definitivamente fortes, mas que me trazia uma incrível nostalgia, algo que parecia que eu havia sonhado, é difícil pensar que já foi feliz sendo tão triste.

A chuva já caía há um tempo, mas meus pensamentos estavam tão altos que só percebi quando me levantei e as lágrimas nas bordas dos olhos me impediam de saber se o embaçado na janela eram elas ou se era realmente chuva, eu olhei pela janela e já se formavam pequenas poças na rua que não era completamente nivelada, eu queria dormi, esquecer o que se passou quem sabe sonhar com mais lembranças alegres, mas eu não estava com sono, eu me sentia frágil, mas lúcida, pequena, mas inteira, talvez não fizesse sentindo nenhum, mas as lembranças dos meus pais, do meu tio faziam-me buscar forças para parar de chorar e continuar.

Eu permaneci encostada a janela vendo a chuva cair, as poças se formando, já não queria chorar mais, mas me lembrar de que meus pais me amavam muito e que no dia daquele acidente, na hora em que aquele avião caía à última coisa que eles pensaram pode ter sido: Deus cuide de nossa filha.

Pouco instante depois Rover, o cão de pelagem escura que pertencia a George corre para a rua molhada e atrás dele seu dono, com os cabelos bagunçados e uma blusa cinza que agora estava encharcada.

– Vamos Rover entre! – George o chamava em meio à chuva. O cão parecia não obedecer – Se eu ficar doente por sua causa você vai dormi na casinha de cachorro pelo resto da sua vida. – Ele insistia, mas o cão ladrava em forma de brincadeira.

Eu sorri sem nem saber o motivo, mas é engraçado você perceber que até mesmo as pessoas que parecem ter a vida perfeita têm problemas, nem que seja com seu cachorro desobediente. Sem querer eu deixo uma risada escapar e fico imóvel ao perceber que ele notou.

– Ah, você está rindo né?! – Perguntou ele com os olhos entreabertos.

Eu continuei imóvel, querendo sair da janela, mas sem conseguir.

– Oi? Ruoni, não é isso? – Pergunta ele, então percebo que sua frase anterior tinha sido em tom de brincadeira, mas minha boca ficara seca e as palavras não queriam sair, é a primeira vez que converso com ele.

– Sim... Ruoni. – Digo num tom baixo e pálido. Então ele acena para mim.

– Gosta de cães? Estou dando esse... – Ele suspira – Rover você venceu, eu te dou almondega... – E se aproxima do animal devagar. – Te peguei! – Ele coloca as duas mãos sobre o dorso do cachorro e depois o pega no colo, Rover lambe seu rosto, era tudo uma brincadeira para ele.

George anda até o portão de sua casa, mas antes de entrar ele se vira em minha direção.

– Então, boa noite! – Ele sorri e entra em casa, ainda resmungando com o cachorro.

– Boa... Noite. – Sussurro após ele entrar e eu voltar à realidade. George Ohio falou comigo.

Aquela noite parecia ser parte paralela da minha vida, não que as brigas da minha tia não fossem constantes, mas as lembranças que viam fortemente, o momento que tive com Angy que me lembrara de muito minha mãe e eu e agora George Ohio falou comigo, eu sempre achei que ele se casaria e ainda assim não nos falaríamos, ele tinha um tom tão doce, não imaginava nenhum popular sendo assim amável com quem quer que seja, mas sempre soube que George era diferente – Qual é Ruoni, ele é uma pessoa normal como você e ele só disse boa noite por educação... – Pensei comigo mesma, talvez realmente devesse dormir, mas mesmo assim aquela pequena frase por educação melhorou e tanto meu ânimo.

Cai no sono de forma profunda não lembrara mais de nada especificamente, apenas uma imagem de meus pais que não sei dizer qual era, talvez uma comemoração de algum aniversário meu, e o rosto de George Ohio com Rover. Então ouço um barulho que me desperta, como algo caindo, levantei rapidamente passei a mão pelo meu rosto e senti ainda molhado em volta dos meus cílios. Sentada na cama fiquei um tempo observando para fora da janela, tentando descobrir que horas eram a chuva havia passado, mas os pingos permaneciam na janela, no entanto o sol brilhava forte, e já havia muita movimentação do lado de fora.

– Acorda! – Minha tia invade meu quarto gritando.

Eu levanto rapidamente passando a mão pelo rosto.

– Hoje é o dia de arrumar as coisas da festa, se você acha que vai ficar o dia todo no seu quarto curtindo preguiça com essas suas coisas inúteis aqui pode esquecer.

Eu abaixei os olhos para não vê-la perambulando pelo cômodo.

– Você ouviu Ruoni? – Ela gritou me fazendo pular na cama.

– Ouvi. – Respondi baixo levantando os olhos.

– Então é melhor você começar logo, já está todo mundo da rua ajudando, só você aqui dormindo o dia todo... – Ela dá uma pausa e abaixa o tom de voz – Vou levar a Angy ao médico e depois ao correio, quero todas as roupas sujas no cesto, esse seu lixeiro que você chama de quarto limpo e nada de coisas espalhadas pelo chão, como hoje é dia de arrumação pode aparecer gente em casa.

Apenas concordei com a cabeça, não sabia se ela tinha visto, mas não me importava, só queria que ela saísse do meu quarto. Logo após ela fez um som de desagrado e desceu as escadas. Eu suspirei passando a mão no rosto, só queria que isso acabasse, mas a boa notícia é que ela passaria o dia fora, a má é que eu também teria. Desci até o banheiro e olhei meu reflexo no espelho, meus olhos estavam inchados e fundos, estava com as piores olheiras que já tive, fui tomar um banho, mas só conseguia ficar embaixo do chuveiro imaginando o que minha tia ia fazer no correio, talvez mandar uma carta para meu tio para ele não ligar mais, para ele não mandar mais presentes ou pior.

Eu queria muito que ele estivesse aqui, porque quando ele estava por perto eu não era obrigada a comer o que eu não queria, ou fazer algo que eu não queria como ajudar nessa festa sem sentido para o prefeito. Terminei meu banho e joguei a camisola surrada que era da minha mãe sobre o corpo, como eu amava aquela camisola, minha tia que sentia uma apatia por ela, sempre falava que não a lavaria mais, que se visse no cesto de roupas sujas iria joga-la no lixo, mas nunca o fez, também seria uma crueldade jogar fora a camisola velha da mãe falecida.

A camisola era longa rosa claro, tinha rendinhas brancas ao redor das alças e da barra, como também na gola em formato pouco decotado, mas era uma rendinha macia por isso não incomodava, nem causava coceira como aquelas rendas grossa. Ela ficava cada vez mais desbotada a partir dos anos e eu me apegava mais a ela, eu não queria deixar aquele pequeno pedaço de lembrança rasgar, queria que durasse tanto quanto eu, mas naquele momento eu não queria durar muito.

Quando subi as escadas estreitas que levava ao meu quarto, fui até o pequeno guarda roupa escolher a roupa que não havia separado antes, eu pouco me importava o que estaria usando hoje, mas não queria me senti ainda mais desconfortável perto das pessoas do bairro que eu mal tinha contato, mas já sabia que me achavam estranha.

Então erguendo a mão toquei no botão da minha jardineira, era velha, há bastante tempo não comprava roupa nova, mas eu gostava muito daquela roupa, peguei-a dobrada na prateleira e a soltei em frente ao corpo, na parte de baixo um pouco acima da barra se vira que estava manchada de tinta roxa, laranja e um pouquinho de azul-céu, eu lembrei-me imediatamente quando que aconteceu.

Era feriado e o dia estava bonito, sol, céu azul, calor moderado, eu e meu tio Lean estávamos à porta da sala com Angy, eu estava pintando, ele e Andy faziam uma pose e pediam para eu pintar, mas eles não ficavam quietos acabou que a pintura ficou totalmente abstrata, para falar a verdade se vê dois rostos em meio a um monte de pinceladas sem destino.

Quando Angy pulou do colo do meu tio e começou a correr em volta de mim para ele a pegar meu pincel passou por completo correndo pelo tecido jeans, quando meu tio foi pegar nós duas de uma vez onde nós três caímos no chão à folha com tinha ainda molhada caiu por cima de mim deixando os outros tons no tecido. Foi um dia maravilhoso, talvez porque eu sentia verdadeiramente que alguém gostava de mim, até Andy era diferente nessa época, mais alegre, mais obediente e sorria a todo o momento, eu sei que ela não sente a mesma coisa que eu, mas no fundo ela sente que perdeu um pai.

Voltando das lembranças eu joguei a jardineira na cama e peguei uma blusa branca, mas aquele branco de fundo amarelado era roupas velhas que eu gostava. Olhei em volta pelo chão e vi meu tênis branco bem surrado que eu ia para a escola no ano passado, ele arranjou um furo na parte do tecido e minha tia disse que agora era obrigada a comprar algo descente para eu usar para ir à escola, pois eu que deixava as coisas estragarem e falariam mal era dela. Eu não falei nada esse dia ia com meu tênis velho sem problema, mas se ela achava que isso seria ruim pra ela que fizesse o que achasse melhor, tinha bastante tempo que eu não o usava desde que ela comprou o outro calçado.

Quase pronta, olhei cautelosamente pela janela, eles começavam a colocar as mesas e protege-la com papel e plástico para fazer cartazes, como a minha rua era fechada sendo a minha casa a última, eles fecharam ali mesmo, pois não era passagem de carro, nesse momento me deu um nó, fiquei ainda mais nervosa tudo isso era bem em frente a minha casa e já temia algo dá errado. Fui para frente da penteadeira e me sentei lá, soltei meus cabelos que antes estavam presos frouxamente e os alisei com a mão, fiquei olhando-me, notando-me.

Meus cabelos me madeixas palhadas que iam até aquela marquinha de vacina que se possuí no braço direito, de cor castanho-médio a claro, com variações de tons, possuía uma semi-franja que a usava mais para o lado, meus olhos castanhos cor de madeira luminosa, não aquela madeira de móvel que você acaba de passar um produto para as visitas notarem, mas como um tronco de uma floresta vívida que está sendo iluminada pelo sol. Pele morena que possuía muitas poucas manchas, como eu quase não saía não tomava muito sol, por isso estava notavelmente pálida, quase não tinha aquelas marquinhas de arranhões já que eu quase não brincava fora quando era menor, corpo com poucas curvas e também não possuía muita altura. Eu tinha a aparência de uma menina que viveu a vida inteira num mosteiro e que estava se socializando pela primeira vez.

Peguei o pente de dentes largos e comecei a desembaraçar meus cabelos, jogando os fios para trás, depois comecei passar o pente da nuca para cima como se fosse prender, mas desisti voltei a passar o pente de cima para baixo. Em seguida deixei o pente em cima do móvel com o grande espelho e passei a penteá-los com o dedo, meus cabelos não eram lisos, nem cacheados, apenas palhados, sem saber o que realmente estava fazendo, coloquei a quase-franja para o lado como de costume e puxei todo o resto para o mesmo lado, ajeitando uma trança que caía sobre o ombro direito.

Abri uma gavetinha e peguei um prendedor de cabelo fininho branco que pertencia a Andy quando ela esqueceu no meu quarto há algum tempo já, só me lembro de a ter achado e guardado, amarrei-o no fim da trança e fiquei a fitar-me no espelho. Meu rosto para mim era comum nada de mais nada de menos, nada de especial, fora as olheiras, observei então minhas sobrancelhas eram mais grossas do que as das meninas da escola, mas nunca me incomodei, apenas passei o dedo até ficarem igualmente acertadas, senti outro nó, estava pronta tinha de sair de casa.

Eu sei que isso soa estranho, mas tente ser a garota odiada do lar, invisível a sociedade, até hoje, e não ter ninguém que realmente conhecesse durante todos esses anos, eu fiquei pensando que talvez quando George Ohio me visse me caçoaria perto dos outros populares ou que eu fizesse algo tão constrangedor que meu status de invisível passasse para zoada, eu sentia falta de tanta coisa, e a principal delas naquele momento era o conforto. Aquele me abandonara como as pessoas que eu amava.

Notas finais
Desculpa a demora, mas está aí bom ou ruim, mais um capítulo postado. :]
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.