Fuck Normality
6 Cicatrizes
Notas iniciais
Depois de um beijo, o que todos gostariam seria de ler aquele fatídico final, "e foram felizes para sempre...", mas no mundo real, não existe o "para sempre". Afinal, o que é o para sempre de um ser humano? Quando se existe a morte para nos ditar sempre, um final...
E eu gostaria de falar que depois daquele beijo elas ficaram mais próximas e finalmente entenderam o que estava acontecendo, que se beijaram ainda mais apaixonadamente depois de sorrirem uma para a outra. Que elas se encontraram escondido muitas outras vezes depois disso e quando se deram conta estavam falando que amavam uma a outra, que o que aconteceu foi mais bonito e romântico e elas nunca ouviram passos. E que tudo o que aconteceu no ato seguinte, foi um clima perturbador, com Bianca indo para sua casa e Clarice fazendo o que ela fazia de melhor, sorrindo e sendo doce, como se nada tivesse acontecido.
Mas eu estaria mentindo, se não falasse que foi exatamente isso o que aconteceu, os passos foram ouvidos e as duas se afastaram sem se olhar, Clarice entrou novamente em seu próprio mundo que Bianca às vezes acreditava que deviam existir fadas e Bianca, ela não foi vista desde então.
Na semana seguinte, Clarice olhou pela janela do seu quarto todos os dias, sempre que podia, ansiando por ver a morena colocar ao menos o pé para fora de sua casa, na verdade ela achava que talvez isso fosse muito, ela esperava ver ao menos o rosto dela na janela, uma sombra na cortina durante a noite, qualquer coisa. Ou resposta de um SMS, que ela atendesse seu celular.
Isso pode parecer desesperado da parte da loira e realmente era. Não porque ela temia que algo de ruim havia acontecido com Bianca. Todos os dias, desde que elas se conheceram, ela sempre sentira que havia algo na morena e não sabia exatamente o que. Ela nunca pedia que aquilo mudasse, ou que ela pudesse ajudar, ela sabia que era incapaz de fazer isso, tudo o que ela sempre desejava era ver algo na morena, que não fosse aquele silêncio perturbador, aquela atitude insuportavelmente silenciosa era o que a matava por dentro todos os dias.
Por que a morena parecia sempre aceitar o que quer que fosse?
Por que nunca se sentava fora de casa nesses dias, porque ela não gritava e chorava?
Por que não pedia desesperadamente por ajuda? A loira naquele momento, até sentia que podia estar um pouco louca, mas ela sabia que não era normal aquelas semanas que ela passava presa dentro de casa, que os gritos e as brigas que ela podia ouvir às vezes durante a noite, não eram coisas da sua cabeça e que não eram vindos de uma família normal, todos aquele desespero não podia ser natural e coisa da sua cabeça, as caras que todos faziam quando percebiam que mais uma vez a morena estava trancada em seu próprio mundo dentro daquela casa, não era cara de quem acreditava que aquilo era normal tão pouco, havia algo além daquilo, havia sentimento de culpa em cada um daqueles rostos, havia dor.
Clarice se deitou em forma de concha em sua cama, puxando seu peito contra si, sentindo seu corpo ser tomado por dor depois de não ver nada na casa de Bianca, só as sombras do seu pai e da sua mãe na cozinha. A mãe de Clarice, que tinha os cabelos loiros, como os dela, e longos, olhou para a filha parada em pé na porta.
– O jantar já está na mesa.
Clarice se juntou a ela, deu a mão para a mãe e desceu rumo à mesa de jantar falando sobre bobagens que haviam acontecido no seu dia. Deu um beijo no rosto das tias, que vez ou outra, vinham para a sua casa jantar, só para não perderem o hábito de manterem a família unida. Clarice olhou como as tias se tratavam e sorriu, ela olhou para os seus pais e ela só sabia que um dia ela queria aquilo para ela também, ver alguém colocar algo no seu prato e rir com bobagens que essa pessoa falasse, com as coisas que ela falasse pra pessoa, um casamento com amor, não perfeito e sem brigas, mas com carinho e amor.
A família começou o jantar, falando sobre a escola de Clarice e dos estudos de seu irmão, mas o silêncio e a harmonia se quebrou quando a família pôde escutar gritos vindos da casa em frente a deles. O pai de Clarice pigarreou e tomou um pouco de água.
–As aulas de canto como estão indo? Perguntou segurando a mão de Clarice, ele só queria tirar a filha dos próprios pensamentos, seu rosto era sério, escondendo a angústia que correu dentro do seu peito naquele instante, ela mordeu as mandíbulas sentido raiva correr em suas veias, apertou a mão do pai instantaneamente e então a menina sorriu, todos sorriram também com o vislumbre dos seus lábios, ao ver o seu rosto se aliviar.
–Estão indo muito bem... Mas eu gosto mais das aulas de piano, estou começando a achar que devo realmente fazer aulas com uma professora de verdade. A loira sorriu e cortou um tomate que havia em seu prato, para então o levar diretamente para sua boca, tentou abafar os gritos, que ouvia, do seu pensamento, afastar o desespero que lhe causava a cada grito que podia escutar.
Um grito de desespero se fez escutar mais uma vez e dessa vez, era vindo da boca de Bianca. Junto a ele puderam ouvir alguns pedidos de súplica para que ela fosse solta e um grito pela mãe, a porta se ouviu e todos sabiam que a mulher havia saído para fora da casa. Clarice apertou o garfo enquanto o silêncio ainda dominava na mesa e todos disfarçavam o incômodo, ela queria desaparecer dali. E se lembrou de uma vez, em que ela e Bianca ainda eram novas e foram para a igreja, elas se ajoelharam, Bianca disse que queria rezar e Bianca observou a amiga ficar com os olhos marejados e balbuciar baixinho "perdão Deus, por todos os meus pecados", ela tinha 13 anos nessa época e Bianca lembra que naquele dia, ela se virou e, mentalmente, pediu para Deus fazer com que ela pudesse ajudar a amiga, no que quer que fosse e desde então, ela deixou de acreditar em Deus.
Fale com o autor