- Life
1 - bang
Notas iniciais
• Rukis POV ~
- Você vai ficar assim o dia inteiro?
Suspirei.
- Não se você me deixar em paz Yuu.
- Como espera que isso de certo se ele não dá valor às suas coisas?
Parei de escrever e apenas encarei ele.
- Ele é tapado Taka! Aceite que o descolorante afetou o cérebro dele e que ele é um ignorante e pronto.
Revirei os olhos.
- Não quero mais falar disso.
- Você que sabe... Eu só estou tentando ajudar.
Ele se levantou.
- Sabe, isso realmente é triste, enquanto ele dava orgias na sala da sua casa você tentava acreditar que ele iria voltar...
- YUU!
Ele calou a boca e eu internamente eu agradeci por isso.
Realmente, discutir meu relacionamento com outra pessoa que não fosse meu psiquiatra não estava nos meus planos.
Em pensar que há um mês tudo estava bem.
Eu gostava de me enganar, de pensar que talvez um dia ele acordasse e pensasse que uma relação é feita de duas pessoas que tinham que ceder aos seus caprichos entre si.
Mas isso estava longe de acontecer, ele jamais faria isso.
Afinal pra ele, era ele em primeiro lugar, sempre.
Sem prós ou contras. Só ele existia, só ele que queria, quando e como queria, se quisesse.
Ele, ele, ele.
Sempre ele!
Isso havia me cansado de um jeito descomunal, nunca peguei birra de uma pessoa por ela ser apenas egoísta.
Mas Akira não era só egoísta, ele era um egoísta apaixonado, o que teoricamente me afetava querendo ou não.
Ele podia ser o marido mais romântico do mundo, mandar flores no dia dos namorados, nos aniversários e até sem ter motivo algum.
Mas ele era o marido mais egoísta e cafajeste do mundo, se íamos a algum show tinha que ser das bandas que ele gostava, se iríamos comer tinha que ser num lugar que ele gostasse.
Aquilo, no primeiro ano, não me irritou. Eu achei que ele simplesmente iria melhorar com o casamento ou algo do gênero.
E então veio o dia que eu mais esperava: o meu próprio casamento.
Ele estava lindo com aquele terno preto, realmente um verdadeiro príncipe sem seu cavalo alado branco.
Eu acho que nunca fiquei tão nervoso e excêntrico quanto aquele dia, até andar em volta do jardim sem parar eu fiz só pra ver se o tempo passava mais rápido.
Depois daquilo tudo, veio a compra do apartamento.
Ah sim, aquilo foi um verdadeiro inferno, quase uma terceira guerra mundial.
Nada que eu gostava satisfazia ele, nada que ele gostava era bonito ou arejado o suficiente.
Ali eu me dei conta que talvez o egoísmo dele não sumisse de um dia pro outro como eu cheguei a acreditar.
Mas eu mudei o pensamento. Quem sabe ele não mudasse ao longo dos meses ao meu lado?
Então comecei a me iludir, a ponto de pensar que ele realmente mudaria.
Mas ele nunca mudou e eu comecei com outro péssimo pensamento que acabou se tornando um hábito.
O “eu” havia se transformado em “nós” para mim.
Então tudo que eu fazia eu pensava em nós.
Nós vamos ao cinema, nós gostamos do filme.
Quando na realidade era ele e eu.
Ele foi ao cinema comigo, ele gostou do filme.
Viu só? Ele em primeiro lugar novamente.
Como sempre.
E aquilo ia me desgastando a cada dia, piorando e me corroendo de um jeito que me enlouquecia.
Até que em um ataque de cinco minutos eu decidi mudar.
Então eu comecei a dar meu sangue para que a relação funcionasse, coisas que eu jamais pensei em fazer, eu fazia por ele. Coisas realmente toscas e absurdas.
Eu chegava ao ponto de nem esperar ele me chamar pra ir a algum show de uma das bandas favoritas dele. Eu simplesmente ia, comprava o ingresso e convidava ele.
E ele ia só por uma banda que ele gostasse.
Se fosse uma banda que eu gostasse ele preferia ir pro bar encher a cara com Kouyou e jogar papo fora com ele a noite inteira.
Até que tudo explodiu na minha cabeça.
De uma vez só.
Eu gritei, eu quebrei coisas, eu chorei e eu briguei.
Aquilo sim assustou ele, mas o melhor de tudo foi a cara dele no final quando eu disse o que eu jamais pensei em dizer “Acabou, eu quero o divórcio”.
Ele parecia desolado, mas eu sabia que era só fachada.
Akira poderia levar uma marretada na cabeça com um pedaço de concreto que ele nunca admitiria que estava doendo, mesmo que aquilo quebrasse seu crânio.
E no fundo eu sabia que ele não iria admitir que me perder era ruim, mas mesmo assim eu comecei com outros planos.
Comecei a sair com caras lindos e de excelente aparência, pedia pra eles irem me buscar no apartamento que eu ainda dividia com ele até o corretor achar alguém pra comprar.
E quando chegavam eu pedia para aguardarem no sofá porque eu ainda não estava pronto.
Mentira. Eu sempre me aprontava uma hora antes de qualquer compromisso, mas do que adiantava marcar um encontro com um modelo se Akira não o visse?
Afinal botar ciúmes nele pra ele me dar mais valor se incluía nas minhas metas.
No final das contas eu saí só com dois caras.
O primeiro esperou quieto. Quando eu saí do quarto, ele se levantou e fomos até a porta Akira começou a falar para o cara as coisas que me faziam ir para cama fácil. Como vodca com wisky e coisas do gênero.
E claro eu dei o fora no cara quando chegamos no restaurante, alegando que estava passando mal e que deveria ir pra casa que aquilo não iria dar certo.
Era tudo uma farsa, no fim das contas eu acabei na rua andando com Yuu e conversando sobre como eu tinha vontade de levar uma arma pra casa.
Afinal de contas ele jamais saberia que eu tinha dado o fora no cara, pra ele eu podia ainda estar no jantar ou, quem sabe, até em outro lugar.
O pior foi chegar em casa e ver que nem lá o infeliz estava.
Tinha ido ao bar encher a cara com o Kouyou pra variar.
Eu decidi dormir, mas tudo que consegui fazer foi pensar a noite inteira em como o meu amor estava ficando cada dia mais fraco.
Eu ainda tentei um segundo encontro com um rapaz realmente lindo e educado.
Mas depois que eu saí do quarto ele me pediu pra esperar que queria terminar de jogar vídeo game com Aki¹.
Eu só não pus o cara pra fora por educação, então sentei e esperei.
Quando ele terminou nós finalmente saímos, mas, já dentro do táxi, eu pedi pro motorista parar.
Eu não agüentava mais ouvir o cara falar em como o “meu colega de quarto” era um cara realmente foda.
Aquilo foi demais pros meus nervos.
Eu fui direto pra casa de Yuu, sentei no sofá dele e assisti tv por quase cinco horas.
Enquanto ele lia o jornal ou ia comer alguma coisa.
Quando finalmente desci do meu elevador ouvi uma música alta, quase no último vindo da porta do meu apartamento.
Eu fingi que não escutei aquilo e abri a porta.
Só pra dar de cara com uma vadia e um viado dançando em cima da mesinha de centro. Seminus.
A luz apagada, e ele sentado no sofá bebendo cerveja.
Aquilo destruiu qualquer vestígio de esperança dentro de mim.
Eu realmente me deparei com o que eu já sabia a séculos, mas, pra variar, não queria acreditar.
Depois daquilo eu fui dormir. Não ligava pra música alta ou pros filhos da puta que estivessem lá dentro fazendo sabe Deus o quê.
Eu só queria realmente era me matar por ser tão burro.
Mas eu me contentei em fechar os olhos e adormecer.
Alguns dias depois daquilo eu notei que tinha parado de falar com ele, não sabia se era porque ele havia realmente acabado internamente comigo ou por ódio mesmo.
Uma semana depois eu recebi um par de ingressos que eu havia comprado pra um show de uma bandinha que ele gostava.
Quando eu vi eles eu tive certeza: aquela era minha última chance.
Minha última chance de provar pra mim mesmo que ele me amava, que ele iria naquele show comigo porque queria tanto voltar comigo quanto eu.
Então eu convidei ele, disse que o ingresso dele estaria na portaria.
No começo ele me perguntou se eu iria, e depois concordou.
Na noite do show eu me arrumei o melhor que pude, toda vez que me olhava no espelho eu pensava que aquela era a noite que ele realmente iria provar que me amava.
Eu cheguei no show mais cedo e deixei o ingresso dele na portaria como prometido, entrei e comprei duas cervejas.
Me sentei no lugar marcado e esperei.
Até que o show começou e ele não apareceu.
Eu me levantei e fui embora, cheguei em casa, fechei a porta do quarto e chorei.
Como não chorava há anos.
Chorei de desgosto de mim mesmo.
Até que ele apareceu. Eu estava sentado perto da cabeceira da cama então me virei de costas pra porta.
Ele não iria me ver daquele jeito.
Era humilhante demais.
Ele entrou pedindo desculpas da forma mais normal possível, disse que havia ido ao bar do Uruha e havia ficado de conversa com ele e perdeu a noção do tempo.
Perguntou quanto eu havia pagado nos ingressos que queria me recompensar.
Ah se ele soubesse o que eu queria de recompensa...
Eu falei que não era nada, mas, com o choro, minha voz saiu horrível e ele notou.
Até que viu que eu chorava e começou a se lamentar, falando que não sabia o quanto aquele show era importante pra mim.
- Me deixa sozinho, por favor.
Foi a única coisa que eu pedi.
Até que ele começou a falar que eu é que havia terminado com ele e que tinha trazido pretendentes pra dentro do apartamento.
Deus, aquilo só fez meu ódio aumentar e meu sangue circular mais rápido.
E quando eu ameacei gritar ele finalmente saiu me deixando sozinho.
Em resumo foi isso.
Esse episódio do meu próprio dorama aconteceu ontem à noite e é só por isso que Yuu não me deixa em paz o dia inteiro.
Como se não bastasse ter que aturar meu chefe e cuidar da galeria de arte dele, ainda tinha que ouvir a opinião de Yuu sobre minha vida catastrófica particular.
Eu realmente não quero mais voltar pra casa, mesmo sabendo que o corretor já vendeu o apartamento e nós temos uma semana pra sair.
Não porque eu não quero assinar os papéis do divorcio ou empacotar minhas coisas.
Mas por simplesmente não querer mais ver Akira.
Nem agora, nem nunca mais.
Mas eu já decidi a minha vida: eu vou viajar.
Vou assinar os papéis, empacotar minhas coisas e procurar outro apartamento.
Depois de tudo resolvido eu vou sair do país por no mínimo três meses.
E, quando eu voltar, eu não quero mais saber dele.
Do egoísmo dele, de ele estar em primeiro.
Não. Depois de tudo isso vou ser eu em primeiro lugar e apenas eu.
~ Fim ~
¹ - Akira realmente joga muito vídeo game, em uma entrevista há alguns anos ele citou isso e eu já vi fotos do apartamento dele em uma revista, ele tem vários consoles desde Nintendo Wii ao Playstation 3.
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