Subi até sentir meus pés fazer e estourarem bolhas.

Subi tanto e tão depressa que, quando dei por mim, os andares haviam acabado e eu não tinha para onde ir.

Constando que eu não iria mais descer, a única opção era o terraço.

Abri a porta sentindo o vento bater contra meu rosto suado.

“Meu reinado por um banho” Pensei em voz alta enquanto sentia o vento bater bruscamente contra meu rosto.

Caminhei até a borda do edifício.

É só de ver a vista eu já entendia o porque era chamado de arranha céu.

Sentei no chão.

Eu precisava de uma saída rápida e eficaz.

Me levantei e olhei para a porta.

Descer por ali realmente não constava nos meus planos.

Dei alguns passos e olhei para baixo vendo carros passando em alta velocidade e pessoas andando pelas ruas.

- Yeap, eu to fudido.

Abaixei minha cabeça cansado, eu só queria que tudo aquilo acabasse.

Era tão difícil para ele entender que eu não estava preparado?

Nem agora e provavelmente nunca estaria, mas isso não vinha ao caso.

Eu havia praticamente sido obrigado a me casar.

“- O bacalhau está ótimo você deveria experimentar. – Eu disse já cortando outro pedaço do peixe e enfiando na boca.

Ele nem se mexia, muito menos havia tocado na comida.

Pensei em perguntar se havia alguma coisa errada, mas mudei de idéia ao ver o garçom trazendo nossas bebidas.

E desde daquele momento ele não falara mais nada, muito menos comia.

- Akira.

Levantei o olhar, o garfo sendo segurado entre meus dedos a milímetros de distância de minha boca.

Um pressentimento ruim surgindo junto com um frio na minha barriga.

- Sim Taka? – Disse colocando o garfo do lado do prato e encarando ele.

Ele alternou o olhar entre o lado esquerdo e abaixar ele.

Até que segurou meu pulso por cima de mesa e sorriu.

E aquele sorriso me dava mais medo do que qualquer outra coisa no mundo.

- Você não acha que falta algo?

Olhei ele confuso.

- Você quer pedir mais vinho?

Ele riu.

- Não, seu bobo. Eu digo conosco.

Meu sangue abaixou a menos zero grau.

- Defina “conosco” Taka.

Ele suspirou.

- Acho que a gente deveria subir mais um degrau.

Senhor ,tenha compaixão de minha pessoa, prometo que se ele não fizer o que eu espero que ele faça eu ajoelharei aos seus pés e o servirei a eternidade.

- Eu descoloro o cabelo há anos, não acha que ele afetou meu cérebro e me deixou mais lerdo do que eu já era? – Eu perguntei pegando o garfo e voltando a comer.

Ele riu e voltou a me encarou sério.

- Eu quero me casar.

Segurei a respiração

Senti minha saliva descer cortando minha garganta.

Eu não conseguia olhar, o medo não deixava.

- Que bom Taka, eu também, quem sabe um dia isso aconteça não é?

Quando tentei cortar mais um pedaço do peixe ele segurou meu pulso com força.

Senhor porque me abandonastes?

- É serio Akira – Seu tom de voz mortífero fez meu estomago afundar.

Fechei os olhos, tentando controlar minha respiração.

Inpirei e expirei, levantando o olhar.

- Você tem certeza? Olha, eu não sei cozinhar, quebro a maioria das coisas que tem em casa, não lavo louça e não tenho a mínima idéia de como se lava roupa. Eu não sou lá um bom partido sabe?

Ele sorriu, apertando ainda mais meu pulso.

Se eu tivesse alguma corrente de sangue passando por ali a essa altura ela já estava se auto coagulando.

- Eu amo você e isso me basta. – Ele disse calmo.

- Basta mesmo? Porque eu conheci um cara que... – Não consegui terminar a frase quando senti suas unhas entrarem e rasgarem minha carne fazendo sangrar.

Respirei fundo abaixando um pouco a cabeça.

Depois eu iria me bater muito por ter feito aquilo.

- Matsumoto Takanori, quer casar comigo?”

E só de lembrar do pior jantar da minha vida, eu podia jurar que o sangue em volta do meu pulso voltava a coagular.

Era nessa horas que eu me perguntava se os escravos haviam mesmo sido libertados, porque se houvessem eu não estaria passando por esse tipo de coisa.

Eu apostava tudo o que tinha que se Taka fosse uma fêmea ele tinha engravidado.

Ou pelo menos arranjado uma barriga ou um teste de gravidez falso, só para me fazer casar.

Como ele não era, aquele provavelmente havia sido o melhor jeito de me arrastar.

Suspirei, passei as mãos nos meus cabelos e cocei meus olhos.

Eu já estava farto dessa historia de casamento, eu só queria que tudo acabasse e que eu pudesse ter minha vida de volta.

Minha vida com ele, claro. Não iria abandoná-lo só porque ele me odiava e queria me matar.

- Aki?! – E aquela voz fez um frio subir pela minha espinha.

Me virei, tirando as mãos dos olhos.

Aquilo era um pesadelo, só podia.

- Taka, eu... – Não conseguia responder, o medo de não saber o que falar não me deixava.

E a angustia de ver ele chorando também não.

- Você me odeia, né?! – Ele perguntou me encarando com aqueles olhos profundos.

- Não pequeno, eu não te odeio. — Respondi dando alguns passos a fim de abraçar ele.

- Não mente! Eu sei que você não queria fazer aquilo, só fez porque eu te obriguei!

Suspirei.

Ele deu alguns passos correndo e me abraçou forte.

- Me perdoa, eu juro que não fiz por mal.

Apertei ele em meus braços.

- Eu sei que não fez, não tem problema.

Ele levantou a cabeça me encarando com um sorriso mínimo nos lábios.

- Que bom.

Ele me deu um selinho ainda sorrindo.

- Porque agora quem não quer mais casamento sou eu.

E depois disso eu só senti um forte empurrão e o chão faltar aos meus pés.

-

Acordei suando frio e respirando ao máximo.

Olhei para os lados tentando ver alguma coisa, apertei meu rosto e meus braços.

Aquele, sem dúvida, havia sido o pior pesadelo de minha vida.

Me sentei com calma na beirada da cama, abaixando a cabeça e pousando minhas mãos sobre meus olhos.

Aquilo realmente não iria dar certo.

- Taka? – Ouvi sua voz fraca atrás de mim e me assustei.

Ele acendeu a luz do quarto e se sentou na cama.

- Taka, amor, tá tudo bem? – Ele perguntou pousando uma mão em minhas costas.

- Tá tudo ótimo. – Respondi depressa, com medo. – Foi só um pesadelo, eu vou tomar um banho já volto.

Não esperei a resposta dele, me levantei correndo e me tranquei no banheiro me encarando no espelho.

O que eu havia feito?

Eu praticamente fiz Akika me pedir em casamento, e agora, a duas noites da cerimônia, eu havia me tocado finalmente que aquilo tudo não estava certo.

Começando pelo fato de só eu querer fazer aquilo tudo, o coitado nem havia tido saída quando eu tinha apertado minhas unhas em sua carne no jantar há cinco meses atrás.

E só com o passar do tempo que eu realmente comecei a reparar que talvez ele estivesse certo, afinal de contas ele era realmente um péssimo partido.

E não era como se eu estivesse desclassificando ele, eu simplesmente havia me dado conta disso, visto em conta que eu também não sabia cuidar de uma casa direito.

Como eu realmente poderia querer casar se nenhum dos dois sabia nem cozinhar?

Então quando eu ficasse doente e ele não soubesse o que fazer, iríamos esperar por um milagre?

E só com o meu último real pesadelo eu havia me dado conta que talvez isso acabassse e não tivesse volta.

Eu estava me precipitando tanto. E se em dois meses nos divorciássemos?

Eu não saberia mais o que fazer da minha vida sem ele, sabendo que ainda teria que conviver quase que o ano todo ao seu lado sem poder nem ao menos beijá-lo.

Fora o fato de ele sair magoado e triste caso acontecesse, isso sim me mataria.

Acabar tudo e ainda saber que era minha culpa e magoar Akira por causa de uma besteira minha.

Ele era o tipo de pessoa que só parecia forte, porque até sua saúde era algo frágil.

Seu sentimentos, então, eram o triplo de sensíveis, ele sempre fora a pessoa mais dócil e reservada que eu já conhecera.

E com o passar do tempo eu comecei a notar que isso era para sua própria proteção, pois quase todas as vezes que ele se apaixonava, a relação acabava e ele era o que mais sofria, sendo culpa dele ou não.

E acho que foi isso que fez com que eu me apaixonasse realmente por ele, o famoso efeito “enfermeira e paciente”, de tanto ver a dor e o sofrimento de alguém, eu acabei me apaixonando e assumindo para mim mesmo que não deixaria mais ele sentir dor alguma ou sofrer por qualquer pessoa que fosse.

E era exatamente isso que eu havia feito, o protegido de todas as pessoas más que nos cercavam direta ou indiretamente.

- Taka? – Sua voz preocupada só me fez sorrir. – Amor, você tá se sentindo bem?

E meu sorriso só se alargou mais ainda com o apelido.

- Eu to sim, saio em dez minutos.

- Tudo bem então.

Ouvi seus passos se afastarem e sorri entrando finalmente no banho com a decisão final em minha cabeça.

Eu não iria obrigar ele a fazer nada nem forçar mais a situação, iria acabar realmente com o casamento e esperar.

Se eu tivesse que esperar mais dez anos pra ele realmente ter coragem de me pedir em casamento, eu esperaria.

Afinal, passar dez anos ao seu lado não seria nada, pois eu seria feliz com nossas desavenças e diferenças.

Mesmo que elas fossem gigantescas.

~ Fim ~

Ps; Obrigada a todos que leram e deixaram reviews ♥

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!