𝐒𝐄𝐓𝐎𝐑
7 Capítulo 7
Se por fora o prédio parecia uma urna fria e desalmada, por dentro era ainda pior. O ar era espesso, como se estivesse impregnado de décadas mal resolvidas, tornando tudo abafado e sem fluxo. A luz vinha de luminárias embutidas que oscilavam numa frequência incômoda, quase imperceptível, como se estivessem tentando nos hipnotizar.
Meu irmãozinho Theo amaria aquilo. Péssimo gosto.
Nossos passos reverberavam no chão duro e nu, um eco seco que batia nas paredes e voltava deformado, como se o próprio prédio estivesse zombando da nossa presença. A cada metro caminhado, meu corpo parecia mais pesado. Suor descia pelas minhas costas mesmo sem calor aparente, e minha cabeça girava como se alguém a segurasse pelos cabelos e a rodasse lentamente, à força.
Lau Lau seguia firme, me conduzindo com sua costumeira autoridade de quem sempre sabe o que está fazendo. Tinha chegado animada, rindo até da placa de entrada, mas seu cenho sensível e sempre tão expressivo foi se franzindo cada vez mais. Ela parou de falar, o que era raro, e começou a andar mais rápido. Até ela, que costumava rir da minha sensibilidade, enrugou o nariz diante do cheiro abafado de mofo e poeira antiga. O ar parecia envelhecido — denso, como se tivesse ficado preso por anos entre aquelas paredes.
Pelo canto do olho, vi Lau puxar a saia pra baixo com um gesto automático. Quase ri, mesmo me sentindo sufocada. Minha amiga não deixava nem os ácaros encostarem nela sem reagir.
O hall de entrada era imenso e vazio. Só havia banquinhos de madeira estrategicamente posicionados, e as paredes exibiam saliências incomuns: estruturas em forma de pirâmide metálica, como se tivessem sido empurradas de dentro pra fora da parede. Havia cinco em cada lado — vinte ao todo — e cada uma com cerca de quarenta centímetros, posicionadas a dois metros de altura. As pontas estavam voltadas para o centro do cômodo, e pra quem passava também, o que fazia parecer que o prédio nos observava. Uma a uma, essas estruturas nos vigiavam com um silêncio opressor.
De cada pirâmide, a base era fixada diretamente à parede. Era como se tivessem sido empaladas ali, deitadas, esperando. Os banquinhos ficavam logo abaixo, como se alguém achasse normal sentar debaixo de um ferro afiado apontando para a cabeça. Me deu um calafrio só de imaginar. Era quase um cenário de sacrifício. A ideia de estar sendo testada por aquele ambiente me incomodava de formas que eu não sabia nomear.
O balcão de atendimento estava à frente, mas o corredor até ele parecia cada vez maior, como se o caminho esticasse a cada passo. A textura do chão ficou pegajosa de repente, ou talvez minha mente estivesse me pregando peças. Fechei os olhos, deixando Lauanny me guiar. O peso da atmosfera, o cheiro, a cor avermelhada-marrom impregnada nas paredes... eu sentia como se meu corpo inteiro estivesse sendo tingido por ela.
Respirei fundo e tentei controlar o enjoo.
- Você trouxe tudo certinho, não trouxe? — ela sussurrou, e sua voz ainda saiu alta demais.
- Tipo, currículo, identidade...? É, trouxe.
- Boa garota, agora desfaz essa cara.
- Nem dá, essa espelunca parece o... — a frase se dissolveu quando meu estômago bateu na quina de algo. Meus olhos se abriram rápido, e percebi que estávamos ali. Diante do balcão. Bem na frente da atendente também.
O rubor subiu quente e abrupto no meu rosto. Baixei a cabeça depressa e chutei Lauanny por baixo do balcão, quase como se culpasse ela por não ter me avisado. Mas Lau só ajeitou o corpo e permaneceu intacta, com aquela expressão de quem sabe lidar com qualquer ser humano.
E sabia mesmo. Além de vários cursos de relações humanas, ela trabalhava no RH da empresa da mãe. Se alguém era bom o bastante pra me acompanhar ali, era ela.
- Eu e minha amiga, na última semana, ficamos sabendo de vagas diversas abertas aqui. Viemos entregar o currículo dela.
Reuni coragem pra olhar pra atendente. Ela respondeu com um tom sóbrio, porém cortante. Era alta — ou usava salto, não sei — e vestia trajes escuros. Um crachá dizia: "Larry, atendente" Nas mangas da camisa preta, uma estrela vermelha de sete pontas estava bordada com linha brilhante. Aquilo chamou minha atenção. Um detalhe bonito, elegante até, destoando completamente do ambiente.
Acima dela, mais das pirâmides metálicas. E uma placa com letras douradas: "Alta Porcella" Estava tentando entender aquele nome esquisito quando a voz da mulher cortou o ar:
- Lamento, mas as vagas esgotaram ontem. Todas.
- Todas as vagas?
- Todas.
Trocamos um olhar automático. Nada fazia sentido. Como esse lugar contrataria tanta gente a ponto de esgotar as vagas?
Apoiei os cotovelos no balcão e cruzei os braços, tentando demonstrar um tédio fingido, ainda que por dentro estivesse alerta como uma gata no cio do pânico.
- Escuta, propaganda enganosa é crime.
- Não estamos...
- Você, seu chefe, seja lá quem for, mandou e-mail dizendo que haveria vagas nessa editora. Agora diz que não tem nada. Isso é crime.
- Código penal, neném — completou Lauanny, copiando minha postura e apoiando os braços no balcão. Nos entreolhamos com cumplicidade antes de voltar a encarar Larry.. Eu me sentia quase... bem. Nenhum vestígio de medo de prédio, ou dos habitantes esquisitos dele. Aquela mulher tinha que compensar meu tempo perdido.
- Lamento, foram ordens do meu chefe. Ele me pediu pra dizer isso. Acho que algo aconteceu...
- Continua sendo crime previsto.
Suspirei e olhei em volta. Que lugar era aquele? Por que aquela mulher estava ali sozinha?
- Ele pelo menos te paga bem?
- O suficiente pra manter eu e meus filhos.
- Isso é o mínimo do mínimo — disse Lauanny sem hesitar.
A expressão da atendente mudou. Os olhos azuis estreitaram, finos como navalha. Percebi tarde demais: Lauanny tinha cruzado uma linha.
Tentei puxá-la discretamente pra longe do balcão, mas Larry já vinha de trás dele, os olhos flamejando. Antes que eu reagisse, ela apontou um dedo acusador bem no nariz da minha amiga:
- Você diz isso porque é rica, branca e metida. Não sabe nada da vida e quer ditar o que meus filhos merecem comer ou não. Vê se acorda, sua...
- Parou! Foi um erro, mil desculpas! Já estamos de saída!
Consegui me interpor entre as duas, sentindo o coração nos olhos. A mulher bufava feito touro pra cima da Lau, que já dava as costas calmamente, equilibrando-se no salto agulha. Com um gesto automático, puxou a minissaia pra cima e ajeitou o corset justo nas costas. E eu já quase corria pra acompanhá-la.
- Nunca mais voltem aqui! Nunca mais!
O berro veio de dentro, de algum lugar rasgado. Quase me deu pena. Quase. Ela era só uma trabalhadora e mãe.
- Você também é branca e metida! Espero que esse trabalho de meia boca garanta o último insulto aplicado a mim!
Olhei pra Lauanny como se ela tivesse perdido completamente o juízo, ficado louca, perdido a noção do perigo.
Foi só ver Larry dar o primeiro passo em nossa direção que comecei a correr. Lauanny abandonou o andar de madame e tropeçou antes mesmo de alcançar a porta. Atravessamos o vidro com um tranco e seguimos correndo até sumir do campo de visão daquela mulher.
Ofegantes, só paramos depois nos afastar do ponto de ônibus. Apoiei as mãos nos joelhos, implorando por ar. Quando olhei, a cretina da Lauanny estava sentada num banco de cimento, desabando. Ainda assim, com aquele sorrisinho debochado de quem adorou o caos.
Peguei minha bolsa e fui até ela com raiva acumulada. Acertei na sua cabeça minha alça de couro.
- O que te deu na cabeça, sua franga maluca?!
- Para! Para!
Ela gritava com sua voz comum e enrolada, se encolhendo toda, me xingando entre dentes... mas em poucos segundos, já estávamos rindo. Aquele tipo de riso que escapa do peito como um espirro — inevitável, desorganizado e libertador. Riso de quem percebe que sobreviveu.
Soava como um pôr do sol às dez da manhã. Inadequado, mas bonito.
- Eu tô desempregada por sua culpa, sua imbecil. Não é assim que se trata a atendente de lugar nenhum!
- Amanhã a gente tenta de novo. E ela mereceu... Quer um sorvete?
- Você paga.
Me aproximei com a maior cara de pau e deixei um beijo estalado, molhado e propositalmente babado bem no meio da testa dela.
- Eca, Nita! — ela gritou, assustando um senhor que passava bem na nossa frente, carregando uma sacola com bacalhau, e esfregou a pele com nojo.
Quase engasguei com o gosto de base que grudou nos meus lábios, mas segurei o riso, me contorcendo. Se levantou e tentou me agarrar pelo cabelo, pronta pra se vingar, mas eu já estava correndo antes que seus dedos me alcançassem.
- Vem me pegar, sua vaca vencida! — gritei por cima do ombro.
Era uma manhã perfeita pra sorvetes. Pra correr. Pra rir.
E pra esquecer o prédio do capeta que a gente deixou pra trás.
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