As mãos de Lauanny — leves, macias e cheirosas do creme caro que ela usava — me conduziram de volta pro banco de cimento gelado, de onde eu tinha levantado segundos antes em puro pânico. Ela mal falava, mas a expressão dela dizia tudo. A testa, normalmente lisinha como papel seda, estava agora enrugada no centro; os lábios se contorciam, tentando formar perguntas que ela parecia não ter coragem expressar.


Me sentei sem resistir, mesmo com as pernas ainda trêmulas. Meus ombros estavam tensionados, os joelhos se encostavam sozinhos, e o frio da sombra projetada sobre o ponto de ônibus se misturava ao suor na minha nuca, deixando tudo molhado e desconfortável.


A ideia de continuar ali, a poucos metros daquele maldito edifício, me fazia sentir como uma mosquinha encurralada numa garrafa transparente de refrigerante. Só que não dava pra fugir. Muito menos desabafar. Eu não conseguiria dizer em voz alta o que tinha visto. Nem queria ouvir aquilo saindo da minha própria boca, pois tornaria ainda mais real.


Tentei improvisar uma desculpa qualquer, dizendo que me assustei com um barulho alto de moto ou algo assim. Mas ela não engoliu. Ela nunca engolia. Já tinha me ouvido mentir vezes suficientes pra não saber distinguir o tom.


Passou um braço por cima dos meus ombros com naturalidade, afagando minhas costas com a ponta dos dedos. O toque dela era suave, tentando reiniciar meu sistema nervoso com a ponta das unhas compridas.


“Eu tô ficando maluca…”, pensei “Alucinando, surtando...” devia ter sido só uma brincadeira de mal gosto.


Mas a imagem daquele homem no alto do prédio não saía da minha cabeça. Aqueles olhos tão distantes e tão presentes. A máscara. O capuz. A mão passando pela própria garganta com aquela calma cruel...


As perguntas batiam uma na outra dentro da minha cabeça, como sinos. Meus pensamentos estavam virando uma gosma espessa e cinza, e eu sabia que precisava fazer alguma coisa. Mudar o foco. Mexer o corpo. Voltar a funcionar pra não ter uma crise ali.


Ergui o rosto devagar e encarei os olhos azuis-acinzentados de Lauanny. Montei um sorrisinho torto, desses que não enganam, mas ela não riu. Só me observou com aquele afeto sereno de quem já sabia que eu estava tentando fingir força.


– Escuta… – murmurei, ajeitando a alça da bolsa transversal – Eu acho melhor a gente ir logo naquela empresa que você comentou. Quanto mais rápido eu resolver isso, melhor. Sério mesmo, cara.


A testa franziu ainda mais, e os olhos arregalaram numa indignação cômica.


– Você é louca – ela rebateu, fazendo cara feia, e antes que eu respondesse, ergueu as mãos e me puxou pra perto com mais firmeza. Colocou a palma da mão na lateral da minha cabeça e começou a me embalar, de leve, igual se faz com um neném depois de uma queda. O calor dos corsete dela pressionava minha têmpora, e por um segundo eu me senti dentro de um abraço do universo.


Eu ri, meio trêmula, mas sincera.


– Lau Lau… para com isso – falei baixinho, ainda colada nela. – Eu já tô bem, tô te falando...


– Caladinha, caladinha... – ela respondeu, cobrindo minha boca com a mão livre e começando a me sacudir no ritmo de uma canção inventada na hora, cantarolando desafinada como quem quer espantar o mal com música. Era tão ridículo, tão patético, tão fofo que uma risada grave escapou da minha boca sem permissão.


Ela me acompanhou no riso, com aquele brilho no olhar de quem sabe que conseguiu salvar o dia, mesmo sem entender exatamente do quê estava salvando.


E eu aceitei.


Porque sabia que, mais tarde, o estresse iria me achar de novo.


E quando achasse... eu teria que estar de pé.


____🍄______🍄____


Eu conheci Lauanny quando tinha 9 anos.


Mamãe sempre gostou de agradar a mim e a Théo. Então, quando entramos num impasse pra decidir se teríamos um gato ou um cachorro — eu queria um cachorrinho mais que tudo no mundo, e Théo já estava quase sequestrando os bichanos da rua pra forçar a convivência —, mamãe tomou a decisão mais sensata possível: fez a vontade dos dois filhos.


Ela dizia que ter um animal pra cada um evitaria confusão, mas no fundo eu sabia que ela só não queria mais ouvir a gente chorando ou quase entrando na mão um com o outro. .


Romeu era meu amorzinho de pelos castanhos e olhos pidões de ração. Um Yorkshire ansioso e dramático, como eu. Andava com ele pra cima e pra baixo, literalmente, preso a uma coleira cheia de lacinhos que minha mãe comprou em um bazar da cidade vizinha. A sensação da coleira na minha mão me dava uma estranha segurança, a sensação de que eu tinha controle de alguma coisa pela primeira vez.


Mamãe ficava toda feliz com isso. Ver que eu finalmente saía de casa sozinha era quase uma vitória pra ela, já que naquela época eu era introspectiva demais pra fazer amizades na rua. Nossa rua, aliás, ainda era de terra batida, com uns trechos esburacados e poeirentos, onde as casas pareciam afastadas umas das outras por quilômetros. Não havia muito o que fazer por ali, a não ser sonhar. Ninguém nem sonhava com o progresso chegando e mudando tudo.


Théo era o oposto. Mesmo sendo só um bebê gordinho de 3 anos, de cabelo ruivo e riso fácil, já era dono de uma esperteza absurda. Enquanto eu me tornava mais ativa por causa do Romeu, ele se tornava mais pacato com o gatinho no colo. Vivia no sofá, inventando nomes pros bichos da televisão e tentando ensinar o gato a usar a caixa de areia... Pelo menos mamãe tinha paz.


Nossa relação era boa. Mais doce do que quando mamãe me levou pra casa dela pela primeira vez, e o som do choro dele ecoava estranho no meu ouvido — eu me sentia uma humana chegando num planeta alienígena, e ele fosse um dos ET's que tinham deixado lá só pra tirar minha paz. Mas naquela época, tudo já tinha se ajeitado.


Numa tarde de sol, levei meu Romeu pra passear, como de costume. Eu tinha me arrumado especialmente pra isso. Vesti meu melhor moletom com estampa de coração, uma legging azul-marinho e calcei minhas sandálias preferidas,.


O sol dourava os telhados de zinco e a brisa suave fazia cócegas no meu rosto. O cheiro de terra quente misturado com mato cortado era o perfume mais puro da minha infância. Eu me sentia viva, solta, alegre — tangível. Romeu trotava à minha frente com empolgação demais pra aquele corpinho minúsculo, fazendo barulhos de patinhas apressadas contra o chão de cascalho. A coleira esticava no meu pulso, e eu ria, tentando acompanhar, segurando firme com as duas mãos.


Até que, de repente…

Muito de repente...

Ele foi mais rápido que o habitual. Num pulo afoito, a guia escapou dos meus dedos pequenos e suados, e Romeu disparou pela rua como uma bala de pelo.


— Romeu! Ai meu Deus! Volta aqui!


Eu gritei, com a garganta seca e o coração batendo nas têmporas, correndo atrás da peste, mas ele corria feito louco. Voava pela rua de terra batida, as patinhas levantando poeira no ar quente da tarde. Parecia mais leve que o vento, mais rápido que os meus pensamentos assustados.


— ROMEU! — berrei, sentindo a urgência inflar meu peito, os olhos marejando.

Se mamãe descobrisse que eu tinha perdido o cachorro, seria o fim. O fim da minha liberdade recém-conquistada, o fim da minha credibilidade de filha responsável — e, honestamente, talvez o fim do mundo inteiro.


Meu nariz começou a fungar no ritmo da corrida, e o desespero enfiou uma fisgada bem no meio da minha costela. Já dobrando a esquina com os dedos saindo da sandália vi que ele havia entrado numa rua vizinha, menos familiar. O chão era mais liso ali, algumas calçadas de cimento apareciam entre rachaduras e tufos de mato. As casas pareciam mais organizadas, algumas com portões pintados de novo e jardins com flores bem cortadas. Foi aí que a vi...


Uma menina.

Vinha caminhando com a leveza de quem nasceu pra ser observada. Ela parecia ter mais ou menos a minha idade, talvez uns dois anos a mais — mas era visivelmente mais alta, com um corpo mais encorpado, sem minha magreza de espirro de gato.


Tinha o cabelo dourado dividido em duas maria-chiquinhas impecáveis que balançavam a cada passo, moldando o rosto redondo e claro. Usava um vestido branco-alvo, que parecia ter saído direto da casa de uma costureira muito exigente. Bem passado, com rendinhas na manga e uma fita vermelha na cintura. Me senti pequena e feia só de olhar.


Engoli em seco, encolhendo os ombros.


Romeu corria direto na direção dela, feito um míssil marrom. E, pra meu total desespero, ela nem parecia ligar.


Na verdade, quando nossos olhares se encontraram, ela sorriu e acenou.


Acenou mesmo.


A vontade que me deu foi de gritar “CORRE!”, mas nem isso eu consegui. A menina, toda pacífica, se agachou na calçada com as mãos abertinhas, como quem recebe um anjinho enviado do céu. Um anjinho... O próprio projeto de desgraça: Romeu.


A cena parecia em câmera lenta: o sol batendo nas paredes avermelhadas da casa atrás dela, o vestido esvoaçando como uma pétala, o céu limpo acima. Um quadro perfeito. Até que Romeu pulou com tudo, direto na cara dela.


Foi um segundo só.

O olhar dela congelou. Eu gritei. Ela gritou. Romeu rosnou alto, afundando os dentes na bochecha esquerda da pobre menina.


Um grito agudo escapou da garganta dela, e um espirro de sangue explodiu no ar, respingando no vestido branco, na calçada, nas pernas dela, em mim. Eu paralisei de novo, dessa vez por completo. Vi os dentinhos de Romeu mastigando a carne dela, e o barulho molhado me deu ânsia de vômito.


As cenas seguintes ficaram pra sempre embaçadas no meu cérebro. O choque cobriu o trauma com uma névoa grossa e impossível de transpor.


Mas lembro que consegui afastar o Romeu dali, puxando-o com força enquanto chorava alto, a voz engasgando de pavor. Gritei por ajuda. Meus pulmões queimaram no processo.


Minha vó ficaria muito chateada com aquilo, e lembrar dela naquela cena sangrenta rasgava-me em ainda mais em soluços.


Um homem de meia-idade, de camiseta social e mochila nas costas, apareceu correndo pela rua. Tinha expressão de pânico.


Ele foi direto pra garota caída. Ligou pra uma ambulância enquanto me perguntava algo que eu nem ouvi. Eu só sabia chorar. Meus olhos estavam cheios, meu nariz escorria aquele conhecido e pegajoso líquido. A minha boca não formava um "a"


As pessoas começaram a se aproximar, formando uma roda cada vez maior ao redor da cena. Vozes surgiam por todos os lados, como ecos em caverna:


— O que aconteceu?


— Foi um cachorro?


— Meu Deus, tá sangrando muito!


— Ela desmaiou?


— Que irresponsável deixou esse bicho solto por aqui?


Ninguém olhava pra mim de verdade.

Ninguém me perguntava se eu tava bem, se eu precisava de alguma coisa, se Romeu era meu mesmo.

Alguns me encaravam com uma mistura de julgamento e curiosidade, me nomeando autora do espetáculo bizarro da tarde.

Eu me sentia invisível e culpada. Uma mancha no cenário agradável daquela rua chique.


Romeu, livre mais uma vez, escorregou do meu colo e fugiu pra trás de mim, correndo com o mesmo entusiasmo inconsequente de sempre.


Mas eu não fui atrás.

Não consegui.


Eu só podia olhar pra menina caída, desacordada agora, o sangue escorrendo lentamente pela curva da mandíbula, manchando a gola do vestido impecável.


E ela, aquela garota tão bonita, tão estranha e perfeita, estava assim por minha causa.


Foi quando uma mulher apareceu.

Loira, alta, de saia longa e sapatos baixos. Os cabelos presos num coque que revelava os fios prateados, mesmo com o rosto ainda jovem.


Tinha um olhar quieto, calmo, incrivelmente sereno, que me paralisou mais do que o sangue.


Ela se aproximou devagar, sem drama, com ar de quem já previa aquela cena. Ajoelhou-se ao lado da menina, a envolveu com os braços e a ergueu; uma soldado carregando o seu bem mais precioso do mundo.

Não gritou, não chorou, não me culpou.


— Com licença, por favor… — ela disse, com uma voz firme e doce, abrindo caminho no meio da multidão.

E as pessoas... deram espaço.


Eu fiquei parada. Assistindo a mãe se afastar com a filha ensanguentada nos braços, com passos firmes e decididos, como se aquele fosse o caminho certo a seguir e não houvesse mais nada a ser feito ali.

A saia dela arrastava levemente no chão. O vestido branco da menina escurecia a cada passo.


Uma ambulância chegou depois, tarde demais. As sirenes cortaram o silêncio da minha mente, mas não fizeram diferença.


As pessoas também começaram a se dispersar. Uma a uma, voltando à rotina, comentando baixinho, tirando fotos, se distanciando.

Ninguém veio falar comigo.

Ninguém.


Fiquei ali, sozinha. Com o peito explodindo de tanta vergonha, medo e tristeza. As lágrimas escorriam com menos força, mas pareciam mais quentes.

E por algum motivo, o silêncio que restou doeu mais do que tudo... Foi aí que ssenti uma mão firme pousar nos meus ombros fracos.


Ergui a cabeça, mas meus olhos estavam tão embaçados de lágrimas que só percebi quem era quando senti o cheiro familiar de lavanda e suor doce.


Minha mãe.


Ela não disse nada de imediato. Apenas ficou ali, me olhando de cima com os olhos calmos e profundos. A expressão era serena, mas escondia uma chateação que ela não parecia disposta a despejar sobre mim.


Mas se abaixou e me puxou pra cima, me erguendo nos braços com a força que só as mães têm quando precisam proteger o que é delas.


Mesmo com meus nove anos, minha altura e meu peso, ela me pegou com facilidade e me aninhou no colo como quem embala um bebê cansado depois de um sonho ruim.


— Pensei que eu tinha dito pra você não se afastar, Elenita... — resmungou baixinho, com a voz pesada de decepção e carinho. Ela nunca me chamava pelo nome todo.


Seu tom doía mais do que um grito.

Ela me levou nos braços pela rua, afagando meus cabelos molhados de suor e lágrimas, enquanto eu desejava desaparecer no calor do peito dela.


A única coisa que ecoava dentro de mim era a pergunta que não queria calar: "Será que aquela menina vai ficar bem...?"


Nos dias seguintes, a culpa foi minha companheira inseparável.


Perdi Romeu. Ele desapareceu naquela tarde e nunca mais voltou. Mamãe até tentou me consolar, dizendo que talvez ele tivesse encontrado outra família, mas no fundo, eu sabia que ele tinha ido embora por minha causa.


Uma semana depois, ela me vestiu com minha jardineira jeans preferida, prendeu meu cabelo num coque meio torto e me levou até a casa da menina. Disse que era importante. Disse que conhecia a mãe dela.

Disse que eu precisava ser corajosa.


Meu estômago se revirava todo o caminho. Passei pelo local do acidente sem ter coragem de olhar pra marca cor de vinho no mesmo lugar onde tudo aconteceu.


Chegando lá, a casa era linda. Branca, alta, cheia de vasos com flores nas janelas e cheiro de pão fresco saindo da cozinha.

Eu me sentia um peso morto dentro daquele paraíso. Um ruído estranho.


Fui recebida com olhos atentos e expressão séria. A mãe dela estava sentada na sala, num sofá enorme, e me olhou com um silêncio que falava por si. Era uma mulher realmente muito elegante e educada.


Minha mãe me incentivou com um aperto de mão. Eu andei até ela, devagar, e abaixei a cabeça, soltando as palavras com dificuldade, quase num sussurro embargado:


— Eu... Eu sinto muito mesmo, de verdade. Fui tonta de deixar meu cachorro fugir de mim. Prometo recompensar da forma que a senhorita preferir.


Minha voz falhou no fim. O silêncio foi denso por alguns segundos. Até que ouvi passos atrás de mim e me virei, lentamente. Minha mãe sumiu, a mulher do sofá também, pois eu só vi uma coisa:


Ela.


A menina apareceu sem ser chamada. Estava com o rosto calmo, a expressão levemente inchada e a bochecha esquerda coberta por um curativo branco, grosso, colado com esparadrapos delicados.


Ouvi murmúrios atrás de mim, da mãe da menina pra minha mãe:


Cicatriz permanente.

Fonoaudiólogo.

Reabilitação.


Palavras que pareciam grandes demais pra minha cabecinha infantil e burra.


Mas ela não parecia triste. Nem zangada. Nem assustada.

Ela sorriu.


De novo.


Aquele mesmo sorriso que ela deu antes do ataque; só que agora mais sereno, mais maduro... entendendo que alguma coisa grande havia acontecido.

Ela andou até mim com passos leves. Estendeu a mão pra mim e eu congelei.


Me surpreendi com sua ousadia e destemor. De onde vinha o desejo de querer me tocar?


Mas ela não disse nada. Só olhou fundo nos meus olhos com uma ternura quase mágica. E então falou.

Com a voz mais doce e suave que já ouvi, mesmo um pouco arrastada, meio embolada... lutando pra pronunciar cada sílaba. Minha culpa de novo.


— Oi... eu sou a Lauanny.


O som da voz dela me atravessou feito raio.

Eu soube, naquele instante, com a certeza mais absoluta do mundo, que a gente tinha se conectado pra sempre e sempre.


Daquele dia em diante, ela virou minha melhor amiga.

Com o tempo, vivemos mais perrengues, mas até os momentos mais horríveis, ao lado dela, podiam se transformar em algo bonito.


____🍄_______🍄___


Voltando à nossa realidade, Lauanny finalmente me deixou afastar do colo dela, ainda que a contragosto. Seus dedos demoraram a soltar e, quando soltaram, migraram para o meu cabelo.

Tirou um vidro da bolsa da Gucci – que, aliás, parecia não ter fundo algum — e abriu com um estalinho o frasco de óleo capilar. Antes que eu pudesse protestar, já estava espalhando nos dedos e enluvando meus fios arrepiados com todo o cuidado do mundo.


— Você não vai entrar numa empresa pedindo emprego com o cabelo parecendo uma cerca elétrica. Nem com essa cara lavada, sem um pó de banana sequer


— Que racismo — fiz uma careta dramática, fingindo mágoa, mesmo que por dentro já estivesse me sentindo mais feliz. Ainda havia nuvens traiçoeiras pairando sobre meu peito, mas as mãos perfumadas dela afastavam-nas.


Ela me ignorou e comentou uma frase absurdamente pejorativa que só fazia sentido no nosso dicionário pessoal de piadas idiotas, então prosseguiu com a maquiagem improvisada. Passou um pouco de pó no meu rosto com batidinhas leves, me fazendo fechar os olhos e conter um espirro, depois ajeitou minha franja com os dedos, me analisando.


— Essa regata não combina. Coloca o cardigan.


Levantou e deu a ordem, querendo ser minha mãe. Eu olhei com ar debochado para o look dela — corset vermelho colado, peito avantajado gritando liberdade, saia curtinha...


Ergui as sobrancelhas, sugerindo algo com os olhos.


Ganhei um tapão na cabeça e ergui um punho em resposta. Ela batia tanto na minha cabeça, que eu estava ganhando um buraco lá.


– Escuta aqui: Quem tá indo procurar emprego é você, não eu. A desempregada aqui é você – sua voz mudou de tom, enquanto ela se curvava, a fim de desviar de um possível tapa que fosse bagunçar sua maquiagem.


— Cala a boca, criatura — respondi rindo, desistindo da minha vingança por traumatismo craniano.


Entrelaçamos os dedos como de costume. Eu tentava não pensar muito, mas engoli em seco ao perceber a direção onde estávamos indo: A rua do prédio.


Aquele prédio.


Meu estômago deu um nó.


Eu olhei discretamente para o lado oposto, fingindo estar distraída com a avenida e que a paisagem urbana de caixas d’água e fios embolados fosse o que me interessava. Mas meu corpo já começava a enrijecer outra vez, a ansiedade antecipando algo.


Até que paramos.


Ela largou minha mão e apontou com o indicador.


Para ele


O prédio.


O mesmo. Aquele cinza, deslocado, com ares de estar vivo, vigiando, pulsando em silêncio.

Por um segundo, me perguntei se não era coisa da minha cabeça. Se talvez minha memória tivesse misturado as ruas. Mas não. Era ele. A estrutura vertical, o hall escuro, as janelas simétricas. O mesmo que me marcou.


— A entrevista é aqui! — disse ela, sorrindo, com aquele brilho nos olhos que me fazia querer amar e pegar no pescoço dela ao mesmo tempo.


— Mas que… — segurei um palavrão, o ar se esvaindo do meu pulmão como um balão furado.


Ela nem ouviu. Já me puxava pela mão com pressa, os saltos clicando contra o piso da entrada.

Meu coração batia nas têmporas. Meu corpo, que antes tremia de medo, agora estava em transe, forçado a entrar no mesmo lugar que tinha sido a fonte de todos os meus pesadelos recentes. Quis correr.


O destino estava zombando de mim, e Lauanny nem fazia ideia que estava contando a piada.