𝐒𝐄𝐓𝐎𝐑
5 Capítulo 5
Saí sem dizer nada, só deixei escapar um “tchau” sussurrado, do tipo que a gente fala mais com o coração do que com a boca. Mamãe já tinha descido do meu telhado e agora descansav, todaa tranquila, na velha cadeira de balanço, bem alta, daquelas que fazem um rangidinho suave a cada movimento.
Ela ficou lá, no peitoril da janela, com o rosto precioso apoiado sobre os braços cruzados, como quem assiste à cena de um filme do qual não gosta, mas também não tem forças pra se levantar e dar pause. O olhar dela, mesmo sem me alcançar diretamente, parecia atravessar a parede e me seguir até a calçada.
De costas, ainda assim eu sentia — quase de verdade— os olhos dela encostando na minha nuca num vai e vem silencioso, cheio daquela preocupação que ela nunca dizia em voz alta, mas que morava nos pequenos gestos: no jeito como franzia o cenho devagar, como quem tenta disfarçar, ou como entrelaçava os dedos com força, só pra não dizer nada pra mim.
Sua proporção de preocupação comigo, uma adulta de 19 anos, era maior que a com Théo.
Não perguntou pra onde eu ia. Nem tentou me impedir.
Morávamos numa casinha com a frente voltada pra avenida principal. Assim que fechei a porta de madeira, o vento cortante me atingiu feito um grito agudo. Atravessou o jeans largo e entrou pelo tecido da camiseta fina, me fazendo estremecer feito um pintinho molhado. O ar carregado do movimento constante dos carros invadiu meus ouvidos com sons de pneus, buzinas e motocicletas apressadas.. Os fios dos meus cachos grossos, ainda úmidos do banho rápido, foram bagunçados por uma lufada especialmente atrevida, como se o próprio vento quisesse testar minha personalidade supostamente estóica.
Desci os dois degraus da varanda num pulo só, um hábito antigo. Meu Jordan falsificado — comprado num rolo que fiz com uma amiga – aterrissou em cheio numa pilha de folhas secas que tinham se acumulado ali, sopradas do pomar de trás por algum vendaval. Os últimos dias tinham trago correntes muito fortes de ar, na última sexta, houve até um aviso na rádio pra que ninguém saísse de casa, por precaução.
Claro que ninguém ligou.
Parecia que as lufadas perdidas estavam voltando pra casa, trazendo toda a família e geração passada.
Mais tarde, certamente sobraria pra mim a tarefa de limpar tudo. A menos, é claro, que eu conseguisse subornar Théo com algum episódio extra do podcast de crimes históricos.
Ou ameaçar contar pra mamãe que ele via podcasts de crimes históricos.
Fui caminhando pela calçada com os ombros baixos e a cabeça cheia. O atraso já era óbvio, mas não fiz o menor esforço pra apressar os passos. Tinha algo estranho naquela manhã que me prendia o corpo. Estava deixando minha boca seca, desde que saí do banho. Uma espécie de nostalgia sem motivo. Talvez fosse por causa da caixa de leite com foto de desaparecida que eu vi mais cedo. Fiquei questionando onde estaria, como devia ser horrível não poder voltar pros braços de quem amava... O fato é que minha auto confiança estava virado água rala, e eu desisti de tentar catar ela.
À medida que andava, fui percebendo cada detalhe da rua onde cresci como se estivesse vendo tudo pela primeira vez.
O pai de uniforme levando o filho pela mão até a escola da esquina...
O carteiro sorridente equilibrando cartas numa bicicleta velha de cesta torta...
O casal de idosos regando plantas com uma paz que parecia cinematográfica...
Uma dona de casa batendo um tapete cheio de poeira contra o muro e cantarolando baixinho, fazendo minha própria rinite ficar emocionada.
Tudo parecia absurdamente vivo, embora nada daquilo fosse novo. E, mesmo assim, meus olhos começaram a arder. Não era exatamente tristeza... era uma mistura de saudade do presente com medo do futuro. Um aperto no peito, um calor estranho nos olhos e uma vontade imensa de guardar tudo aquilo pra sempre num potinho de vidro... Surreal.
Minha bolsa transversal vibrou sobre meu quadril estreito. Olhei de canto sem nem abrir, mas já imaginei, sem nem tirar o celular do lugar, que fosse Lauanny — provavelmente reclamando do meu atraso com aquela voz doce dela que a mordida de cachorro não conseguiu apagar, graças às consultas na fonoaudióloga.
Não atendi não.
Eu precisava daquele silêncio mais do que qualquer bronca dela. Se eu não arrumasse um trabalho naquele dia, tudo bem. Bastava voltar no dia seguinte.
Continuei andando devagar, como se o mundo tivesse começado a girar um pouquinho mais devagar só pra me deixar respirar...
E foi aí, bem no meio do meu transe emocional, que meu rosto colidiu diretamente com algo brutalmente sólido. O impacto seco foi direto no meu nariz sensível. Fiquei feliz por ter saído sem óculos, mas não foi dolorido — só inesperado o suficiente pra minha alma querer sair correndo do corpo.
Senti as bochechas pegarem fogo antes mesmo de olhar pra cima.
Era uma pessoa.
Mais precisamente, um homem. Um homem atrapalhando meu momento de crise existencial.
Viva o feminismo
O sangue gelou nas minhas pernas antes que meu cérebro conseguisse formular qualquer pensamento lógico. Tudo aconteceu rápido, mas parecia que o tempo tinha diminuído a velocidade só pra me fazer prestar atenção naquele instante.
Mãos gentis — grandes, mornas e cuidadosas — seguraram meus ombros com firmeza.
A voz dele veio como trovão abafado:
– Você tá bem?
Meu Deus do céu, era grave mesmo.
Não o tom de voz dele. Era grave a situação.
Quando levantei o rosto e encontrei os olhos do meu incômodo — digo, do meu salvador de reflexões —, vi o universo.
Senti meu corpo inteiro vibrar como se fosse feito de água colocada direto num micro-ondas. Meu rosto esquentou, o estômago afundou e a respiração falhou. Tudo ao mesmo tempo. Devia ser mais ou menos assim a sensação de morrer afogado.
Me afastei um passo, ainda sem conseguir articular nadinha de nada.
Ele continuava me encarando, confuso — talvez tentando entender se eu tinha engolido a língua ou se era só uma doida varrida.
Pensei em perguntar se ele queria ser meu namorado pelos próximos oitenta anos.
Mas não fiz isso, claro. Só porque a minha língua tava colada na boca.
As maçãs do rosto dele eram altas e bem desenhadas, com uma delicadeza quase irritante. A pele era clara, quase translúcida, contrastando com a minha cor morena de café com pouco leite. O rosto tinha um formato em V perfeito, meio que moldado com alguma mão sábia. Os lábios eram carnudos, com o arco do cupido definido. Os olhos… escuros. Quase negros.
Tão escuros quanto os da minha mãe.
Mas havia algo diferente ali: sob as pálpebras duplas, ele tinha uma profundidade antiga, como se tivesse visto coisas demais pra alguém com cara de vinte e cinco anos ou menos.
Notei uma cicatriz fina partindo da ponta da orelha até perto da sobrancelha esquerda. Curada, sarada.. Mas viva. Um detalhe que deveria quebrar a perfeição — mas, de algum jeito, deixava tudo ainda melhor. Mais real. Ninguém podia ser totalmente perfeito, afinal.
O maxilar dele estava travado, mesmo com o semblante calmo e pacífico. Braços cruzados no peito largo, postura impecável. O cabelo escuro, penteado pro lado, tinha um leve brilho de gel ou algo assim — mas eu apostaria que fosse naturalmente liso, talvez até longuinho. Do tipo que, se ele sacudisse a cabeça, pareceria uma propaganda de xampu feita em câmera lenta.
Roupa toda preta. Social, limpa, alinhada. Jeito de quem vive em reuniões todo dia. E ali estava aquele homem: No meu bairro. No meu caminho.
A única explicação possível, era que estivesse perdido.
Minha mãe, que vivia dizendo aceitar minha suposta homossexualidade com ar de complacência — mesmo depois de mil vezes eu gritar que não era lésbica —, com certeza ficaria orgulhosa ao me ver completamente entregue a um homem assim.
Pena que ela nunca saberia.
Tentei organizar minhas ideias e recuperar a voz, porém, minha garganta parecia entupida com algodão e acetona. Quando finalmente falei, saiu suave, quase um miado:
– Você tá perdido… ou precisa de alguma coisa..?
Ele abriu um sorriso.
Dentes alvos. Usava aparelho — azul metálico. Algo ali me pareceu adolescente, de um jeito ímpar.
– Não, não – respondeu com sotaque indefinido e voz rouca de novo – Eu moro aqui. Cheguei há uns dias.
Paralisei, olhando pra ele, depois convulsionei
– Você mora aqui?! COMO?!
Minha reação foi tão alta que um cachorro latiu em alerta. Uns vizinhos olharam discretamente. Outros nem disfarçaram. A mulher que batia o tapete no muro, riu.
Usei as mãos suadas pra cobrir a boca, arrependida, e balancei a cabeça feito quem leva bronca.
Ele deu uma risadinha sem graça, evitando contato visual com a vizinhança em que caiu.
– Fica perto dos meus pais. Eles são idosos. É mais prático, sabe?
Comecei a reparar que ele falava normal, mas estava ficando tenso, talvez pela minha animação exagerada. Ou porque meus pés estavam dobrando automaticamente pra dentro, e eu provavelmente parecia estar em desespero.
Quis perguntar seu nome. O nome dos pais. CPF. O número da casa. O signo.
Mas engoli tudinho, como alguém de juízo. Não era assim que as coisas funcionavam.
Se ele me visse outra vez, fingiria que eu era o anticristo. Fato consumado.
Cocei a nuca e murmurei, tentando agir como alguém normal, sorrindo igual a ele:
– Entendi. Aqui é bom bairro pra gente velhinha.
Ah, mas que boca de sacola inútil, essa minha...
Sua expressão constrangida foi pior que tudo.
– É. Prazer em conhecer.
Ele se curvou com uma reverência sutil, educada, e virou de costas rapidamente.
Foi embora com a leveza de quem tem pressa, mas não se dispõe a mostrar pro público. Os ombros retos, as mãos nos bolsos da calça social. Sumiu dobrando a esquina como se fosse um personagem de filme que entra em câmera lenta. Talvez ele esbarrasse em alguém de novo, e a mulher, ou homem, em questão teria a mesma reação que eu.
Quando ele estava longe o suficiente, contei até 3, depois comecei a pular. Literalmente. Dei uns três pulinhos no lugar, mordi a mão e fiz força pra não soltar um gritinho.
Lauanny iria morrer quando eu contasse.
Já estava 20 minutos atrasada, mas segui o caminho com passinhos apaixonados. Sonhando em praias quentes e beijos com gosto de areia. Meu corpo leve naqueles belos e harmoniosos braços.
— Ai, papai...
🍄.🍄.🍄.🍄.🍄.🍄.🍄.🍄.🍄.
Minha mente flutuava em asas quase transparentes, carregada pela leveza da conversa anterior — ou pela vertigem de ter colidido com o sinônimo de "gatinho" usando terno preto. Delirava em silêncio, mas ainda lembrava, com o estômago apertado, que estava a caminho de procurar um trabalho. Era como viver duas realidades ao mesmo tempo: uma cheia de possibilidades, e outra cheia da realidade dura da minha história.
As pernas curtas seguiam no mesmo compasso cansado de quem já conhece cada rachadura da calçada. Cruzei três esquinas, desci e subi o meio-fio mais desgastado da cidade, atravessei faixas de pedestre apagadas pelo tempo e pela indiferença do governo municipal..
Finalmente cheguei ao meu destino: o ponto de ônibus da pracinha central. Lotado, como sempre. Muita gente, pouco espaço, um zunido constante de fofocas dançando paralelas, motores ligados e buzinas berrantes.
Mas aí, entre um senhor com sacolas de feira e uma moça com fones de ouvido, eu vi o segundo milagre do dia: Um espacinho vazio no banco de cimento rachado, como se o universo tivesse guardado pra mim.
"Sente-se, filha não agraciada pela prata e pelo ouro"
Minha lombar até cantou um hino quando minhas coxas tocaram o assento gelado. Me ajeitei com um suspiro aliviado e estiquei as pernas à frente, balançando os pés com a alegria de uma criança sobre um trono de 10 cadeiras. Por um lado, trabalhar num escritório qualquer não seria de mau tom.
A brisa fria da manhã já estava sendo vencida por um calorzinho mais preguiçoso. Então esperei Lau Lau, que tinha me me ligado várias vezes no caminho e levado um vácuo.
Tadinha.
Puxei o cardigan pela cabeça e depois enfiei na bolsa de pano com um movimento pouco suave, amassando os cachos já bagunçados.
Minha regata de algodão era suficientemente boa para aquele clima, mas assim que eu trabalhasse no meu eventual escritório usaria roupas mais longuinhas. Ainda de olhos fechados, amarrei o cabelo com uma mão só, torcendo os fios como se estivesse domando pensamentos bagunçados, e sacudi a outra atrás da nuca suada.
O zunido contínuo de cidade, buzinas, pneus, passos, risadas, preenchia os meus tímpanos como se fosse música ambiente de um lugar onde ninguém queria estar, mas todo mundo precisava. Era o tipo de ruído que só se nota quando para, porque na correria, parece ser parte natural das ruas.
E então ele, o som, parou.
Do nada.
E nesse mesmo instante, de repente, algo me atravessou.
Como se o próprio ar tivesse sido arrancado dos meus pulmões por um dementador cruel, um arrepio súbito e cortante me percorreu a espinha, fazendo meu corpo se curvar todo pra frente. O susto não foi físico. Foi instintivo. Como quando o animal, mesmo sem ver nada, sabe que tem algo na mata observando-o e se esconde dele.
A rua, normalmente cheia de vida e ruído, entrou num estado estranho de suspensão. As folhas secas que rodopiavam ao vento pararam de se mover. Um cachorro, que latia feito doido, ficou mudo. Até o rangido metálico da placa velha da floricultura sumiu.
Era o tipo de silêncio que só existe em pesadelos.
Devia ser coisa da minha cabeça.
Sem fazer alarde, ergui as mãos até o rosto e as senti frias como gelo, embora estivesse suando pelas costas um minuto atrás. Esfreguei-as nos joelhos da calça jeans, tentando voltar ao controle. Vovó riria daquilo e com certeza me acusaria de estar ficando "de idade" antes do tempo. Lembrar dela e de suas gracinhas normalmente me acalmava, mas não deu certo naquela hora.
Ajeitei a postura, pois não podia ficar curvada por muito tempo. Respirei fundo. Forcei os músculos do rosto pra fingir alguma serenidade, mas meus olhos se moveram por conta própria, fazendo meu pescoço estralar de modo dolorido — e pararam bem na direção de um prédio estranho, cinzento, alto e deslocado.
Era um prédio alto, de concreto envelhecido, quase todo coberto por placas metálicas cinza fosco. Tinha algo de esquisito nele, como se fosse mais alto do que deveria, do tipo que projeta sombra demais pra uma construção só. Não havia letreiros, nem identificação visível. Nenhuma janela decorada, só uma portinha de metal grafitada com palavras desconexas. Era o único edifício daquela quadra que não tinha uma alma viva passando por perto. Nenhum entregador, nenhum funcionário fumando na calçada.
Um péssimo agouro. Quis passar a mão no pescoço pra me assegurar no meu colar de crucifixo, presente antigo, mas quando baixei os olhos na direção dele, vi sua ausência e lembrei que tinha deixado na pia do banheiro.
Meu coração começou a bater num ritmo torto, me dando alguma pista que minha mente ainda não conseguia entender. Peguei o celular com dedos trêmulos e abri o contato da Lauanny, com a garganta já fechando e mal distinguindo a tela... Quase implorando pra ela vir logo, dirigir aquela porcaria de carro mais rápido. Mas, quando olhei pra tela, algo me travou.
Eu nunca chorava, muito menos implorava.
Meus amigos deviam achar que eu nasci num circo, uma mini palhacinha sem canais lacrimais.
O quê que eu ia dizer?
"Oi, amiga, tem um prédio me olhando"
Não ia decair assim. Desisti de ligar e joguei o celular na bolsa com raiva. Raiva aquece o corpo e destrava músculos, a adrenalina nos tira do torpor. Eu me sentia mas congelada ainda, mesmo com os dois sentimentos latejando na minha cabeça.
Fechei os olhos com força, respirei pelo nariz e soltei pela boca. Só por curiosidade — ou por pura loucura masoquista — olhei de novo pra lá, tendo dificuldade sob minha miopia e falta de óculos. A luz escaldante do Sol também não ajudava. Trêmula, fiz uma concha sobre os dois olhos, me protegendo.
Foi então que uma janela se abriu.
Quase no topo. Tipo no décimo quarto andar. Um estalo suave, discreto, mas que cortou o silêncio com a força de um grito. Todas as outras janelas continuavam fechadas e estranhas, refletindo o céu pálido, e aquela, só aquela, se abriu.
Arfei.
Lá estava uma pessoa, visível até a cintura. Não dava de distinguir nada atrás dela, pela altitude.
Parada, imóvel, como uma mancha preta no retângulo de luz. Rosto parcialmente coberto por uma máscara. Capuz puxado até a testa. Ombros debaixo de um moletom pesadão e escuro. Braços longos, corpo firme e... parado. Como uma escultura viva e mórbida. A maldita escultura estava me olhando, como se soubesse há tempos que eu estava sentada ali, metros abaixo, e só estivesse esperando uma olhada minha pra dar as caras.
"Quando você olha pro abismo, o abismo olha de volta pra você"
Mas o que me fez perder o equilíbrio das pernas não foi o fato de ele estar me olhando. Foi o gesto.
Devagar, ele ergueu o braço. A mão direita surgiu do escuro. O dedo indicador apontou pra própria garganta... e riscou a linha do pescoço com um movimento seco, de um lado pro outro.
"Você tá tão ferrada"
Depois, pôs o indicador encima da máscara num gesto universal de silêncio, enquanto eu já estava lutando pra dar as costas e fugir.
"Quietinha"
Minha visão escureceu nos cantos, como quando minha pressão caía, e o som do país inteiro voltou de uma vez só e socou meus ouvidos, como se alguém tivesse apertado “play” no mundo novamente. Gritos de criança, buzina de moto, passos apressados. Tudo voltou. Mas nada estava igual antes.
Num impulso descoordenado, corri, tropeçando nos próprios pés, derrubando a bolsa. A respiração entrecortada virou um soluço desesperado, onde eu tinha 7 anos de novo, e minha mãe me olhava com ódio, antes de vir pra cima de mim e me bater até eu desmaiar.
Sem destino, sem rota, me movi como se minha vida dependesse da distância entre mim e aquele prédio, aquele homem ou que tipo de coisa assustadora fosse aquilo.
E foi aí que bati de novo em alguém e quase gritei. Tudo estava acontecendo em loop naquele dia, com personagens diferentes. Minha cabeça estava pra explodir. Sentia que meus miolos caíriam a qualquer segundo.
Dessa vez, não era um homem misterioso de terno. Era o colo quente e macio da Lauanny, num corset de renda vermelha, um bem conhecido e que mal fechava.
Os peitos dela me acolheram com o impacto de um travesseiro. Me agarrei ao rosto suave dela, aos cabelos compridos... À marca de mordida de um Yorkshire. Tudo estava realmente sólido ao meu redor, e eu parecia a única lama mole ali.
– Nita?! Que foi isso?! Assalto?!
Ela olhava por cima do meu ombro, já revirando a bolsa em busca de alguma arma invisível, enquanto eu me agarrava a ela com força. Será que ela não percebia o quanto eu estava a beira de um colapso?
– Não. Não olha – fazia anos que ninguém de fora me via chorando a rios quentes, mas naquele momento eu falava soluçando, ofegante, com a voz rouca e falhada.
– Não olha. Só... não olha pra lá, por favor
Fechei os olhos dela com a palma da mão, pressionando gentilmente suas pálpebras enquanto a abraçava. Senti sua respiração acelerar, o coração dela batendo contra o meu. Seus braços me rodearam com confusão e medo.
Por mais distante que o prédio estivesse, por mais alto que fosse aquele andar, eu sabia. Eu sabia que estava sendo vigiada de novo, mais cedo ou mais tarde iriam me achar.
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