𝐒𝐄𝐓𝐎𝐑
4 Capítulo 4
4/11/XXXX
Estava abraçada ao travesseiro, sob o edredom quentinho, tendo sonhos delirantes onde viajava sozinha e com muito dinheiro, quando ouvi uma trovoada aguda de algo batendo bem acima da minha cabeça, fazendo o quarto inteiro estremecer. Puxei a coberta que me cobria dos pés à cabeça, abrindo meu campo de visão a tempo de ver o telhado literalmente aberto... às cinco da manhã.
A luz abissal do sol acertou meu olho esquerdo com a precisão de um tapa, me fazendo cambalear enquanto tentava me levantar. Foi então que vi minha mãe, sentada tranquilamente sobre as vigas do telhado, usando um martelo como soquete e batendo pregos com a pontaria de alguém que faz isso toda terça-feira antes do café.
Ela nem parecia perceber o caos que causava.
Demorei alguns segundos pra entender o que, em nome de Jesus Cristo, estava acontecendo. Até lembrar do quanto a estrutura da casa gemia nas madrugadas de vento forte. Me dava calafrios fazia meses. Mas eu jurava que ela iria contratar um profissional ou chamar um vizinho, não montar 90° acima de mim, no alto, como se fosse parte da equipe do Irmãos à Obra. Era mais barato, com certeza. Mas meu relógio biológico odiou.
- É sério? Tipo, é sério mesmo?! — gritei, subindo no colchão e ficando de pé, pra ela me ver melhor. A espuma afundou sob meus pés, e quase escorreguei.
Ela virou o rosto de olhos escuros como breu, e curvou perigosamente as costas para me acenar animadamente.
- Tava com medo de você morrer soterrada. Desculpa qualquer coisa — respondeu, moldando as mãos ao redor da boca como um megafone. Suas pernas longas estavam cobertas por uma calça de flanela xadrez; no tronco, uma camisa velha de time. Com certeza tinha acabado de acordar.. Suspirei e sentei outra vez, jogando as pernas pra fora da cama e ajeitando os lençóis amarrotados. Aquele quarto miúdo precisaria de uma faxina mais tarde.
- Theo disse que iria estudar hoje. Isso não vai atrapalhar ele? — meu irmãozinho mais novo andava tão empenhado nos estudos, a ponto de me constranger. Estava numa fase CDF do nada, como se tivesse feito um pacto com algum espírito de vestibulando já falecido. Ao pensar direitinho nisso, notei não ser tão improvável. Fazia uns 2 meses que ele andava interessado em ocultismo. Mamãe nem sonhava o que ele tanto andava lendo às escondidas.
- Não. Mandei ele pra casa da vó, faz tipo... Meia hora.
Meus dedos branquelos congelaram no ato de ajeitar os travesseiros. Pisquei algumas vezes, tentando absorver o fato de que ela realmente tinha mandado meu irmão pra casa daquela família panaca e desagradável.
Ergui a cabeça e fizemos contato visual por meio segundo, fazendo-a parar. Anos antes, eu brincava que ela podia ler minha mente, por ser tão compreensiva daquele jeito — até no meu silêncio assustado. Foi o que aconteceu ali.
Seu semblante suavizou. O cenho franzido relaxou, e ela girou o martelo na mão, pensativa. E então — quase me fazendo gritar de susto — ela saltou. Num pulo curto e certeiro, aterrissou com os pés descalços bem no meio da minha cama de molas, que por pouco não a lançou de volta pro telhado. As molas gemeram num tom sofrido.
Fiquei observando em silêncio enquanto ela puxava os joelhos até o peito e me dava aquele olhar disfarçado de convite. Quando percebeu minha rigidez, sorriu com aquela calma irritantemente sábia:
- Eu te ensinei que é com silêncio que conflitos se resolvem? Foi?
É, isso aí. Perdi meus argumentos. Caminhei batendo os pés e me joguei ao lado dela. O colchão afundou um pouco mais sob meu peso. Aquele salto dela ia deixar minha coluna doente por dias. Mas tudo bem.
- Aquela mulher é um monstro.
- Elenita, a gente mal conviveu com essa mulher nos últimos anos. Às vezes, as pessoas podem parecer piores do que são, se você só olhar por fora. — ela pressionou o indicador no meu peito e parecia convicta de que sua fala era irrefutável pra mim.
Segurei seu pulso e levei o dedo dela até a própria têmpora.
- O problema é justamente esse: eu não convivi com ela, mesmo morando com você há doze anos. Que tipo de vó visita o neto uma vez por ano? Ela mora a um quilômetro daqui, mãe. Um. Quilômetro.
Minha boca tremeu, como sempre acontecia nesses momentos de falar sobre famílias e os quadrados pra cima. Minha garganta parecia sempre fechar com cacos miúdos de vidro. O peito apertou ao ver os olhos dela ficarem um pouco mais opacos, como se ela já soubesse aonde eu queria chegar. Não continuei minha linha de raciocínio. Em vez disso, apenas ajeitei seus cabelos — ainda com aquela cor de abacaxi no ponto — atrás da orelha e mordi o lábio inferior. Não queria ser dura de novo.
Aquela mulher era minha mãe. Só isso já era apaixonante de se perceber. Mas nos últimos dias, eu estava exausta demais para me render aos encantos e à magia da maternidade. Era como se tudo ao meu redor estivesse embaçado e só ela mantivesse alguma nitidez.
Eu sabia, no fundo, que a avó do Théo era má. Porque quem ama, procura. E minha avó... minha avó jamais me tratava assim. Ela seria, pra sempre, meu maior referencial do que era amar de verdade. Sem fronteiras ou desculpinhas esfarrapadas.
Inclinei-me devagar e beijei sua testa. Ela tentou balbuciar alguma coisa, mas não deixei. Me levantei, calcei os chinelos e virei as costas.
Quando fechei a porta, permaneci ali, parada, do lado de fora. Meu coração estava acelerado e, talvez por isso, por um segundo, pensei ter ouvido um soluço abafado lá dentro. Encostei o ouvido na madeira pintada de marrom, mas só pude distinguir o som das molas do colchão cedendo novamente... Ela devia estar pulando de volta pro telhado pra continuar sua carpintaria amadora, como se fosse a Super-Mãe-Gata ou a Mulher Maravilha.
Sorri, chutando levemente a parede na frente do cômodo. Um sorriso discreto, mas bem genuíno.
Ela era maravilhosa mesmo. Pra sempre eu a veria assim.
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Corri pra cozinha assim que vi o horário no relógio da parede. Já passava das oito. O ponteiro parecia se divertir às custas da minha lerdeza. Eu tinha marcado de encontrar Lauanny no centro pra procurar um emprego, e estava claramente atrasada.
Minha barriga roncava, então fui direto até a prateleira onde sempre deixávamos a massa pra tapioca. Nada no plástico. Nem uma grama. Abri a geladeira com a esperança de compensar no leite, mas tudo o que encontrei foi uma caixa murcha e quase vazia. Aquelas com a foto de uma pessoa desaparecida, seu nome e a projeção de como ela estaria atualmente. Soltei um suspiro leve, mais conformado do que irritado. Pelo menos eu estava em casa. E ainda era minha casa.
O dinheiro estava contado aquele mês, bem contado. Só tinha o suficiente pra garantir o básico da semana, se tivéssemos sorte e comêssemos no estilo cutting de academia. Mesmo assim, algo em mim insistia que aquele dia poderia marcar uma virada. Talvez uma boa notícia. Uma chance de mudar tudo. Fiquei feliz pela primeira vez por Théo ter ido pra casa da vó, pois lá saciaria sua fome. Aos 13 anos, as crianças comem mais que um adulto.
Quando meu cérebro me atingiu com a possibilidade de mamãe ter mandado ele pra lá com esse intuito altruísta, senti que o mundo ficou silencioso por meio segundo. Como quando a luz pisca, mas ninguém comenta.
Fechei a geladeira com cuidado, como se fosse minha forma de agradecer o pouco que ainda restava lá dentro, e deixei o que tinha pra ela. Minha mãe precisava mais do que eu. Ela sempre dizia que força de manhã vinha do café e da coragem. Eu só precisava da coragem.
Fui direto pro banho. A água, embora gelada e boa pra gripar alguém com imunidade baixa, parecia me acordar mais do que qualquer xícara de café conseguiria. Fiquei ali por uns minutos, tentando organizar meus pensamentos e planos. Me imaginei chegando nos estabelecimentos, fingindo confiança, sorrindo educadamente para rostos que não se importariam comigo. Mas mesmo assim, eu iria.
Na frente do espelho, escovando os dentes, olhei bem pra mim mesma. Meus cabelos escuros ainda desgrenhados da água, as olheiras discretas e aquela minúscula imperfeição que eu tinha no interior do olho esquerdo... tudo parecia mais notável. Mas ali também havia algo novo: vontade. Um brilho que não vinha de fora.
Enxuguei a boca com a toalha pequena do lado da pia, ergui o queixo e apontei o indicador e o polegar pro meu próprio reflexo, como uma arminha carregada de pólvora cintilante. Cheguei mais pertinho e sussurrei meu mantra:
- Vai que é tua, gatona — dei um beijão no espelho e saí sem limpar. Talvez ele ainda estivesse lá quando eu voltasse.
Na realidade, eu estava insegura, mas não podia realmente fazer algo a respeito. Nada a não ser tentar.
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