犬の花嫁 Inu no Hanayome [Re-up]
11 十一 りん Rin
O cheiro de arroz recém-cozido preenchia a casa antes mesmo de Rin atravessar a porta.
Era um cheiro quente. Simples. Familiar.
Ela parou por um instante na entrada, como fazia sempre, limpando levemente os pés antes de entrar. O som de algo sendo cortado em ritmo constante vinha da parte interna, acompanhado por uma voz que ela já conhecia bem.
— Pode trazer mais água por favor, Rin?
Rin entrou.
— Posso sim, Sango-sama.
Sango estava ajoelhada próxima ao fogareiro, os movimentos firmes e precisos enquanto cortava legumes sobre uma tábua de madeira já marcada pelo uso. Ao lado, uma panela soltava vapor constante, e o crepitar do fogo preenchia os intervalos entre os sons.
Hisui estava ali também, sentado perto da parede, com um pequeno objeto nas mãos — provavelmente algo que ele mesmo havia tentado consertar ou montar — a concentração total no rosto ainda jovem, mas já sério de um jeito que lembrava a mãe.
— Boa tarde, Rin-san! — disse ele, sem tirar completamente os olhos do que fazia.
— Boa tarde, Hisui-kun.
Rin pegou o balde próximo à porta e saiu novamente por um instante, voltando pouco depois com água fresca. Colocou-o ao lado de Sango, que assentiu em agradecimento sem interromper o movimento das mãos.
— Pode me ajudar com isso? — perguntou, empurrando levemente alguns ingredientes na direção dela.
— Claro.
Rin se ajoelhou ao lado. Seus movimentos eram mais lentos que os de Sango, mas cuidadosos. Ela já havia aprendido o suficiente para não cometer erros básicos — como cortar irregular demais ou desperdiçar partes úteis —, mas ainda não tinha a mesma naturalidade.
O som das duas trabalhando juntas preencheu o espaço por alguns minutos.
— Não assim — disse Sango, com suavidade. — Mais fino.
Rin ajustou.
— Assim?
— Melhor.
Silêncio novamente, mas não desconfortável. Era o tipo de silêncio que existia quando havia coisas a serem feitas. Hisui levantou-se depois de um tempo, aproximando-se.
— Posso ajudar?
— Pode levar isso para a mesa — disse Sango, apontando para uma pequena travessa.
Ele assentiu, pegando o objeto com cuidado. Rin observou. Os movimentos dele eram organizados. Práticos, sem hesitação. Ele não era mais uma criança pequena e isso era... Um pouco estranho. O tempo parecia ter passado sem qualquer aviso.
— Você cresceu bastante, Hisui-kun — comentou Rin, quase sem pensar.
Hisui deu de ombros.
— Mamãe diz que isso é normal.
Rin deixou escapar um pequeno sorriso.
— Acho que sim.
Ele voltou para o lugar, e Sango soltou um pequeno suspiro, quase imperceptível.
— Ele ajuda muito mais do que atrapalha agora — disse ela.
— Ele sempre ajudou — respondeu Rin.
Sango inclinou levemente a cabeça.
— Sempre ajudou, mas agora entende o que está fazendo.
Rin assentiu.
— E as gêmeas?
— Estão com o pai. Foram aprender um pouco de espiritualidade.
— Então elas serão monjas?
— Talvez — disse Sango, com um rápido piscar de um dos olhos — Não tenho tanta certeza disso, mas elas parecem se interessar.
Isso fazia sentido.
O fogo crepitou mais forte por um instante. Sango ajustou a panela.
— Miroku deve chegar logo — disse.
Rin não perguntou mais, mas pensou:
“Ele vai voltar...”
A certeza das palavras de Sango-sama era fácil, simples e natural, como se não houvesse outra possibilidade.
Ela continuou cortando os legumes. Os movimentos repetitivos ajudavam a manter os pensamentos organizados. Ou, pelo menos, tentavam fazer isso. O ambiente era… Cheio. Não de pessoas, mas de presença, de continuidade. De algo que se mantinha. Sango-sama se movia com segurança. Hisui-kun ajudava. E Miroku-sama logo voltaria com Gin’u-chan e Gyokuto-chan.
Tudo tinha um lugar. Tudo tinha um ritmo.
Rin olhou para as próprias mãos, depois para a faca, depois para os ingredientes. E então... Um pensamento novo veio, sem aviso, sem preparação:
“Eu…”
Ela parou o movimento por um instante, a faca suspensa no ar.
“Eu faria isso…?”
Casamento. Casa. Comida. Família. Filhos.
As imagens existiam. Ela as via todos os dias. Mas, quando tentava colocá-las dentro de si... Não acontecia nada. Não havia rejeição, nem havia medo, mas também não havia… Desejo. Era como tentar imaginar algo que não tinha forma.
— Rin?
Ela piscou.
— Sim...?
— Você parou.
Rin olhou para as mãos.
— Perdão.
E ela voltou a cortar, dessa vez mais rápido, como se o movimento pudesse apagar o pensamento. Sango não comentou, mas observou.
— Você não precisa pensar tanto — disse, depois de um tempo.
Rin hesitou.
— Eu não estava…
— Sim, estava — respondeu Sango, com uma delicadeza quase inacreditável. — Só não precisa decidir tudo agora.
Rin assentiu. Mas não respondeu. Porque não era sobre decidir, era sobre… Não sentir. E isso era mais difícil de explicar.
O som de passos do lado de fora quebrou o momento.
— Sango!
A voz de Miroku veio antes dele.
— Já estou aqui!
Hisui levantou-se imediatamente. Sango apenas suspirou, mas havia um leve sorriso em seu rosto.
— Mamãe!! — disseram as gêmeas, Gin’u e Gyokuto, assim que adentraram a casa e foram para perto da mãe.
Rin não olhou diretamente, mas percebeu. Miroku entrou com o mesmo ar tranquilo de sempre, aproximando-se como se nunca tivesse saído.
— O cheiro está ótimo — disse.
— Ainda não está pronto — respondeu Sango.
— Se cheira bem antes de estar pronto, é porque o resultado será inesquecível — ele rebateu com um sorriso bobo.
Hisui se aproximou dele.
— Pai, olha isso...
E começou a explicar algo que Rin não acompanhou completamente. Ela só observou.
Por um instante.
A troca.
A presença.
O modo como tudo se encaixava tão bem sem esforço aparente, sem explicação. Simplesmente estava tudo ali.
Rin abaixou o olhar e, dessa vez, não tentou continuar o pensamento.
— Eu já volto — disse.
Sango assentiu.
— Volte logo, Rin.
— Queremos que jante conosco! — disse Miroku, ainda que sem olhar diretamente para a garota.
Rin fez uma leve reverência e saiu. O ar do lado de fora parecia mais leve. Mas também, mais vazio. Ela caminhou sem pressa pela trilha, deixando que os sons da vila voltassem aos poucos.
E então...
— KAGOME!!
A voz infantil cortou o ar.
Familiar.
Impossível.
Rin parou.
— INUYASHA!!
Outro grito.
Mais próximo.
Um vulto pequeno atravessou a trilha.
— Ei! Espera!!
Rin piscou. E então...
— RIN?!
Ele parou, os olhos arregalados.
— Aah, você é mesmo a Rin!!
E o mundo ficou mais leve de repente...
— S-Shippou…?!
Ele abriu um sorriso largo.
— Eu mesmo!
Pela primeira vez naquele dia, Rin sorriu de verdade. Não foi grande, nem exagerado, mas foi muito real.
— Você voltou! — disse ela.
— Claro que voltei! — respondeu ele, estufando o peito. — Eu disse que voltaria!
Pausa.
— Demorei um pouco, é verdade... Mas isso não é importante!
Rin observou melhor. Ele estava diferente, embora ainda parecesse criança. Mais alto. Não muito, mas o suficiente. O rosto ainda era praticamente o mesmo — expressivo, animado — mas havia algo mais firme na postura. E...
— Sua cauda… — disse ela, sem pensar.
Shippou virou-se rapidamente.
— Ah! Você percebeu!
Ele girou no lugar, claramente satisfeito, e continuou:
— Está mudada, não? Eu mesmo custei a perceber!
Rin inclinou levemente a cabeça.
— Sim... Era mais curtinha. Mais felpuda.
— Agora é uma cauda de raposa de verdade! — disse ele, orgulhoso. — E isso é só o começo!
Rin deixou escapar um pequeno sorriso:
— Parabéns, Shippou.
— Eu venho treinando muito! — continuou ele, já falando rápido demais. — Conheci outros youkai raposas, aprendi técnicas novas, controle de ilusão, transformação... Aah, eu consigo fazer isso agora!
Ele levantou a mão. Por um instante, sua forma oscilou. E então... Um pequeno Shippou, versão reduzida. Exatamente como era antes. Ele piscou.
— Ainda não está perfeito…
A forma voltou ao normal. Ao “presente”. Rin assentiu.
— Mas está muito bom!
Ele sorriu.
— Vai ficar ainda melhor.
E... Ele parou de repente. Por um segundo.
— Você está bem, Rin...?
A pergunta veio mais simples do que o resto. Mais direta. Rin hesitou, mas só por um instante.
— Estou.
Shippou a observou por um segundo a mais, como se estivesse tentando decidir se acreditava ou não. Mas então assentiu.
— Ótimo! Porque eu tenho muita coisa pra contar!
Shippou começou assim que conseguiu reunir a todos. Kagome-sama. Inuyasha-sama. Miroku-sama. Sango-sama. As gêmeas Gin’u-chan e Gyokuto-chan. Hisui-kun. Kaede-obaa-sama.
Sem pausa e sem filtro, ele falou sobre os lugares por onde passou. Sobre os youkai que conheceu. Sobre as técnicas novas que aprendeu. Sobre as caudas. Principalmente as caudas. Segundo ele, raposas podiam ter até nove caudas, viver centenas e centenas de anos até atingir a senioridade de mil anos e até mesmo obter poderes semidivinos, que podiam até mesmo acessar os limites entre a vida e a morte.
Rin só ouviu. Aos poucos, o peso dos últimos dias pareceu diminuir.
As vozes. Os olhares. Os cochichos. Todos eles ficaram mais distantes, como se pertencessem a outro lugar, outro tempo, outro mundo.
— Ah! — disse Shippou de repente, como se tivesse lembrado de algo importante. — Tem mais uma coisa!
O tom mudou levemente. Não completamente sério, mas menos leve.
— Eu ouvi uma história… — continuou.
Rin ergueu o olhar.
— Que tipo de história?
— De youkai — respondeu ele, naturalmente. — Mas não é só isso. Era tipo… Uma coisa muito antiga!
Ele coçou a cabeça.
— Não sei explicar direito...
Ninguém disse nada. Só esperaram.
— Eles estavam falando sobre… — ele fez uma careta — Uma “noiva do cão”.
De repente, o mundo pareceu… Parar por um instante. Rin se sentiu petrificada.
— Eu achei estranho... — continuou Shippou. — Porque não é exatamente uma história de casamento.
— E o que é? — perguntou Kagome, antes mesmo de perceber — O cão que você diz... É um cão youkai?
Ele deu de ombros.
— Eu acho que sim. É tipo: “Quando um cão escolhe alguém”... Mas, não uma escolha normal.
Rin teve a impressão de que a expressão de Kaede-obaa-sama se abriu por um instante, como em um susto ou em surpresa, mas rapidamente se fechou e endureceu. A sacerdotisa, no entanto, não se manifestou.
— E quando isso acontece… — Shippou continuou, tentando lembrar — A pessoa muda.
— Muda… Como?
— Não sei — ele admitiu. — Não me explicaram direito. Só falaram que… Ela deixa de ser humana. E não tem como voltar atrás.
O vento passou entre as árvores.
— E… — ele continuou, mais devagar agora — Que isso já acontece há gerações.
Algo apertou no peito da garota, mas ela não soube dizer o quê.
— Eu achei bem esquisito, mas como falava de “cão”... — disse ele, mais baixo agora. — Pensei que deveria vir aqui contar isso pra vocês.
Shippou olhou ao redor, como se esperasse alguma reação imediata, mas ninguém respondeu. O silêncio que se seguiu não era o mesmo de antes. Não era leve, nem curioso. Era… Denso.
Kagome foi a primeira a reagir, ainda que com cuidado:
— Parece mais uma daquelas histórias exageradas sobre youkai… — disse, tentando manter o tom leve, mas sem muita convicção.
— Keh. — Inuyasha cruzou os braços. — Coisa de humanos entediados. Ficam inventando essas besteiras pra assustar as crianças.
— Não parecia ser uma história de fantasma… — murmurou Shippou, coçando a cabeça novamente. — Parecia sério.
— Contadores de história sempre parecem sérios quando querem parecer verídicos — retrucou Inuyasha, sem dar muita atenção.
Miroku não comentou. Sango também não. Mas ambos trocaram um breve olhar. Rápido, sutil. O suficiente para não passar despercebido por quem estivesse atento ou por quem estivesse procurando.
O olhar de Rin deslizou até Kaede. A sacerdotisa não havia se movido ainda ou reagido de qualquer outra forma, mas algo nela havia ficado diferente. Muito sutil, quase imperceptível. O tipo de mudança que não se via, mas se sentia.
Ela apoiava as mãos sobre o cajado que usava para apoia-se, o olhar distante por um breve instante — como se estivesse olhando para algo que não estava mais ali ou que nunca deixou de estar. Então, como se percebesse que estava sendo observada, ela piscou e voltou.
— Histórias antigas costumam carregar fragmentos de verdade — disse, por fim.
A voz firme. Controlada. Mas não totalmente tranquila.
— Mas também carregam exageros — acrescentou, logo em seguida, como se quisesse equilibrar as próprias palavras.
Kagome assentiu, ainda pensativa.
— Mesmo assim… — começou, hesitando — isso parece específico demais pra ser só coincidência.
— Não é coincidência — respondeu Inuyasha, direto. — É gente inventando coisa!
— Inuyasha…
— O quê? — ele rebateu, impaciente. — Você acha mesmo que o Sesshoumaru...
Ele parou. Não terminou a frase. Mas não precisava. O nome ficou no ar. Pesado. Presente. Rin não se moveu. Mas ouviu.
Cada parte.
Cada palavra não dita.
Shippou piscou.
— Sesshoumaru? — repetiu, olhando entre eles. — O que ele tem a ver com isso?
Ninguém respondeu imediatamente e, naquele pequeno intervalo… Rin sentiu. Não como um pensamento, mas como uma sensação. Algo que ligava as palavras de Shippou àquelas que ela ouvira antes. Àquelas que vinham sendo ditas pelas pessoas na vila. Àquelas que ninguém dizia diretamente.
— Nada — respondeu Kagome, por fim, rápido demais. — Não tem nada a ver.
Shippou inclinou a cabeça, claramente não convencido, mas não insistiu.
— De qualquer forma… — disse, tentando retomar o tom anterior — Eu só achei que vocês deveriam saber.
— Fez bem em contar, Shippou — respondeu Miroku, com um leve sorriso — Estávamos com saudades de você, também.
Ele forjou um sorriso, mas não convenceu, pelo menos não à Rin.
O grupo começou a se dispersar aos poucos. A conversa perdeu força. Outros assuntos surgiram. Mais leves. Mais seguros. Mas o peso… Este não foi embora.
Rin permaneceu onde estava por mais alguns instantes em silêncio, observando o movimento das pessoas, as vozes, a tentativa coletiva de seguir adiante como se nada tivesse sido dito, como se nada tivesse mudado. Mas algo tinha. Ela sabia mesmo sem entender.
Seu olhar caiu, quase automaticamente, sobre o próprio quimono. Branco com flores azuis. Parecido demais com o de quem o dera. Ela passou os dedos pelo tecido distraidamente, como já havia feito outras vezes. Só que, agora… Não era o mesmo gesto.
Ela não sabia exatamente o que aquela história significava, nem sabia de onde vinha, ou por que tinha sido trazida até Shippou. Mas, agora, não conseguia mais tratá-la como algo distante. Como algo que pertence a outra pessoa ou a outro tempo, a outro mundo. E, pela primeira vez, a ideia de que aquilo não tinha nada a ver com ela não parecia mais tão segura.
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