Últimas Palavras de um Homem Morto
1 Últimas Palavras de um Homem Morto
Eu poderia começar isso de diversas outras maneiras, mas acho importante escrever sobre os meus últimos dias antes de partir. Mais do que apenas pôr em palavras o que estes momentos significaram, eu escolho mencioná-los porque foram os dias nos quais a dor finalmente se omitiu, e o pessimismo não era mais dono dos meus pensamentos — e seria um desperdício imensurável não compartilhar esses dias com você.
Talvez tenha sido a perspectiva de que o grande e misterioso “FIM” estava prestes a surgir na tela que fizeram os meus últimos momentos em vida tornarem-se os únicos nos quais eu realmente vivi. Eles mostraram o verdadeiro “eu” por debaixo das grossas camadas de vergonha e angústia — não o “eu” humorado e carregado de sarcasmo que surgia repentinamente após momentos de crise, muito menos o “eu” deprimido que enxergava o mundo sob lentes derrotistas. Não, era alguma coisa diferente, mais genuína, fresca, e ainda assim complexa demais para simplesmente ser descrita em algumas poucas linhas.
Os livros lidos nos meus últimos momentos tornaram-se as melhores obras que eu já me aventurei a conhecer, e o que eu escrevi metamorfoseou-se, de forma esplendorosa, nos melhores textos já escritos por mim. Pela primeira vez, eu caminhei sem pensar em algum destino, e respirei pela simples razão de precisar do oxigênio nos meus pulmões. Era a vida, pura e transparente, cumprindo seu sentido de não apresentar qualquer sentido.
Pense, agora, o quão assustador e iluminador foi perceber que a experiência de viver só poderia ser alcançada perto do ponto final de minha história! A vida, ironicamente cruel por natureza, só me deu o contentamento quando eu não tinha mais o tempo para aproveitá-lo.
Sim, a força de pôr um fim à minha vida partiu de mim, e eu lamento por você quando digo que não há um pingo sequer de arrependimento acerca desta minha decisão. Por que haveria remorso, quando a simples consciência do meu vindouro fim deu-me os mais esplêndidos momentos que eu já pude vivenciar? Por que negar a minha necessidade deste remédio? Ele, que irá curar toda a dor, e arrancar todas as máscaras que eu já vesti?
E finalmente chega o momento em que os meus pensamentos apontam para você, e eu finalmente projeto, com uma perfeição absurda, toda a tortura que irá abater-lhe quando souber o que eu fiz. Eu não espero seu perdão, e certamente não anseio por sua aceitação. Todavia, eu ainda preciso que você guarde minhas últimas palavras, pois elas são as únicas pendências que ainda insistem em atormentar meu cérebro pré-desligado.
Você, o mar de imprevisibilidade que é, não permite que eu imagine com qualquer certeza tenaz como irá lidar com a minha falta, mas eu ainda posso tentar.
No futuro que eu profetizo, eu quase posso sentir a dor e o conflito que irão circundar seu âmago, dia e noite. Será uma confusão mental absurda, e a raiva será tão condutora de seus pensamentos quanto a culpa. A culpa! Será o mais maligno dos sentimentos negativos que vão te domar. As memórias vão chegar sem avisar; mas não memórias de meus tristes momentos, pois elas justificariam, com um pesado sentido, o meu suicídio. Serão memórias de épocas douradas, de abraços, risos e conversas desenfreadas, aquelas nas quais você se perguntará como seria possível que alguém com tanta energia e espírito pudesse renegar o próprio direito de viver.
Mas agora eu te conto o pungente segredo dessas memórias, e te esclareço como o sentido que você atribuiu a elas diferiu tão fortemente do meu. Agora eu te deixo saber que cada alto riso dado por mim abafava o meu clamor por ajuda; que cada abraço dado por mim também escondia as rachaduras que se formavam sobre a minha alma. Por fim, confesso que mesmo nos momentos nos quais a agonia parecia não estar lá, ainda me martirizava o medo pelo seu retorno, pois a dor é uma acompanhante traiçoeira — afasta-se por dias apenas para que sua presença seja mais intensa quando regressar.
Por favor, não se engane quanto ao seu valor e à sua importância para mim. Você foi a mais pura faísca de esperança e sentido no meu firmamento de melancolia, e o calor que impediu que eu congelasse: mesmo quando o peso do mundo caía sobre os meus ombros, não haveria problema em carregá-lo se eu soubesse que você estaria por perto. Mas não há conserto para alguém tão quebrado, e nem mesmo a forte ideia de esperança pôde reconstituir os milhares de cacos do meu interior. A angústia encontrou seu caminho em mim e agiu como um câncer, sem piedade, destruindo o que conseguia tocar.
Eu admito que você é a única pessoa a quem eu ouso deixar minhas confissões finais — não porque é a mais merecedora, mas porque é aquela capaz de compreender o puro significado do que aqui escrevo, e saberá encontrar um sentido íntimo em cada frase, cada memória subentendida, cada gesto nas entrelinhas. Não consigo expressar o pânico que me traz a consciência de que a natureza do que eu escrevo poderia ser resumida a simplórias “últimas palavras de um homem morto”.
Eu lhe imploro para que não deixe a minha morte amargar as suas melhores recordações, ou manchar aqueles pensamentos gloriosos que põem um sorriso em seu rosto. Em vez disso, use-me como uma arma contra o sofrimento — uma existência já tocada tantas vezes pela dor, e agora usada contra ela. Torne-me o seu farol e deixe a luz de minha ideia permanecer acesa em vida, mesmo após eu já ter partido.
Não ouse acreditar que a morte me trouxe mais padecimento que a vida.
Não apenas leia estas palavras, faça-as importantes.
E eu finalmente terei ido em paz.
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