Última vez
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Após uma extenuante reunião com os Engenheiros e Técnicos da Mineradora, tudo que Radamanthys desejava era poder sair daquelas roupas pesadas, tirar as botinas com bicos de ferro, chegar a sua casa, tomar um banho relaxante, bebericar uma cerveja ou duas, forrar o estômago e cama. Nada mais simples do que isso. Consultou o relógio, ainda faltavam exatamente uma hora e meia para completar sua carga horária no serviço. Verificou alguns relatórios, divagando sobre assuntos triviais. O dia havia sido tranquilo e em poucos minutos o sol iria se pôr, trazendo consigo a noite amena.
Tudo estava indo bem.
Claro, até receber um telefonema de alguém nada agradável.
Verificou o visor do aparelho e sem pensar duas vezes encerrou a ligação, sem ao menos atendê-la. Radamanthys sabia de quem era a ligação e sabia perfeitamente que, se atendesse, ele não ia ter sossego o resto de sua preciosa noite. Afinal, ele também tinha planos.
Andou pelos corredores do escritório da mineradora, logo chegando ao estacionamento. Um pouco mais a frente à picape 4x4 estava estacionada, assim como havia deixado três horas antes, com exceção do homem de beleza marcante, pele levemente bronzeada devido aos anos expostos ao sol grego e a cabeleira loira, tão dourada quanto o ouro que a mineradora procurava naquelas regiões.
Parou de andar, olhando analítico para a razão de seus problemas, sejam eles presentes ou futuros.
Kanon Vikélas, seu companheiro de trabalho, consultor e superior imediato. E associado a todos os seus problemas, Kanon também tinha a alcunha de Ex-namorado e parceiro de cama, nos dias solitários de Radamanthys, como próprio geminiano dizia.
— Eu pensei que estivesse evitando-me?
— Pensou? – estava a poucos metros do outro, que o fitava, com uma expressão que beirava a seriedade e a petulância. – Esse maldito sorriso matreiro nos lábios.
— Sabe que dentro da empresa, me ignorar, é praticamente impossível, não é? – arqueou a sobrancelha, desencostando da caminhonete. – Pensei que já tivéssemos superado essa fase de Ex?
Radamanthys não respondeu, continuou a andar, desviando o olhar que o outro lhe direcionava. Deu a volta no carro e abriu a porta traseira da picape, colocando sua pasta e material de trabalho fechando-a em seguida, com mais força que o habitual. Kanon viu quando a caminhonete sacolejou, com o impacto da batida, desviando sua a atenção da porta antes fechada para o homem loiro de olhar aristocrático, que andava em sua direção, desencostando da lataria da caminhonete e dando passagem ao escorpiano.
— Não estou evitando, não dentro da empresa, afinal, pelo que bem sei, você é o meu superior. E a propósito, o que faz aqui fora? – abriu a porta do motorista e estava prestes a entrar, quando direcionou toda a sua atenção ao grego, que o encarava com um sorriso ladino nos lábios.
— Vou precisar dos seus serviços Radamanthys, por isso, após a avaliação de terreno na mina, volte para a central, tenho assuntos a tratar com você. – Kanon disse com um breve aceno e virou-se, indo em direção à portaria, local de onde o inglês viera.
Com raiva Radamanthys bateu a porta da caminhonete e durante longos minutos, o escorpiano acompanhou Kanon com o olhar, vendo a silhueta loira sumir pela portaria central. Deu partida no carro e ligou o rádio de comunicação empresarial. – Agora não é hora para pensar nisso, eu tenho trabalho a fazer!
Ao longo do caminho, entre a central e a mina, onde o escorpiano iria fazer vistoria, a viagem demoraria em torno de vinte a trinta minutos, e, Radamanthys se pôs a divagar sobre sua atual situação, em relação à Kanon. Abriu a janela da caminhonete, enquanto a noite fria caia, sentindo a brisa úmida adentrar no carro e o vento bagunçar lhe os grossos fios de seu cabelo. E, em um curto período de tempo, Radamanthys, deixou-se pensar em sua relação com seu superior, Kanon. Uma relação conturbada, repleta de mentiras e promessas vazias.
O inglês ainda lembrava-se de como eles haviam começado, essa relação conturbada, por sinal, e como o grego fora cínico e desavergonhado, sem nenhum um pouco de pudor. A ridícula desculpa de hora extra, seguida por um convite para tomarem umas geladas, e quando o escorpiano deu-se por si, estava em um hotel fuleiro com o geminiano atracado ao seu pescoço lhe dando beijos vorazes e avassaladores, tocando lhe em lugares íntimos e sensíveis.
No dia seguinte, após a transa no hotel, entre inglês e o loiro, não aconteceu nada mais que conversas corriqueiras, assuntos derivados e destinados ao serviço. E, assim prosseguiu por dias, até que em uma reunião de última hora, com os demais engenheiros da mina, após a reunião, Radamanthys se viu encurralado pelo grego. Kanon era ardiloso, o escorpiano sabia. Não que Radamanthys estivesse fugindo. Não, ele não estava. Mas, Radamanthys tinha um senso comum, que Kanon aparentava não ter. Aliás, Radamanthys tinha a ligeira sensação de que Kanon não media suas próprias ações, como no dia em que eles transaram como dois animais selvagens, na área da Mina, após uma ronda.
E, por mais que o escorpiano negasse ao geminiano, aquela transa foi completamente diferente e excepcional, algo que ia guardar com bom grado na memória. Afinal, não é sempre que seu parceiro tem a ideia insana de uma rapidinha ao ar livre, certo?
Radamanthys não pode deixar de rir, ao lembrar-se, daquele momento tórrido de sexo ao ar livre.
No entanto, como toda boa relação amorosa, à realidade veio à tona e depois a decepção. O filho da puta estava noivo de uma grega. No início não fora um choque, mas depois veio à confirmação: para Kanon, Radamanthys era o cara da foda; uma rapidinha durante e depois do trabalho.
Em uma noite após o serviço, Radamanthys saiu com uma morena, uma bela morena alemã e para seu puro deleite, ele transou com ela, no mesmo quarto de hotel, na cama onde dividiu os primeiros e bons momentos daquela complicada relação, que havia iniciado com Kanon.
Obviamente Kanon ficou irado quando soube, sobre Pandora, e única justificativa que Radamanthys deu ao grego foi: Se você pode ter uma esposa, eu também irei ter uma namorada!
Então, veio à notícia boa, Kanon terminará o noivado e com cara mais lavada e de cachorro sem dono, Kanon foi para os braços do escorpiano. E foi bom. Bom enquanto durou. Dois anos e seis meses depois de sexos, brigas, felicidades e vários outros momentos bons e ruins, daquela complicada e tempestuosa relação, em uma noite exaustiva, após o trabalho, Radamanthys tem o desprazer de pegar seu namorado com a ex-noiva em seu apartamento, na sua cama em um momento bem quente!
E aquela foi à gota.
O Radamanthys podia ser tudo, desde o mais sem vergonha dos homens, ao mais galante de todos. Não negava. Tinha certa fama de farrear, entrava em hotéis baratos com uma companhia de uma noite só, tendo uma boa transa com alguém que havia conhecido entre goles e garrafas, dividindo suas mais prazerosas experiências com um completo estranho. Sexo anonimo. Mas, se tinha uma coisa que Radamanthys desprezava era a traição. Traição era um ato que ele jamais poderia aceitar.
Seu passado não era o dos mais limpos. E Radamanthys sabia que não era a pessoa mais perfeita do mundo. Ele tinha seus defeitos, como qualquer outra pessoa, e Kanon tinha total consciência disso, porém, nunca em seus trinta e três anos de vida, Radamanthys havia traído um amante, fosse homem ou mulher, o escorpiano prezava aquele senso de respeito, em uma relação.
Um respeito que Kanon havia quebrado, destruído.
— Kanon você é a pior coisa que existe no mundo! Você é o lixo dos lixos. A escória da sociedade! Some da minha frente, desaparece. Pessoas como você, não merecem nem ao menos viver!
E assim foi a briga. E as palavras não foram aceitas e engolidas pelo geminiano. Kanon revidou a ferro e fogo, com palavras ainda mais duras e pesadas.
— Ora, por favor! Seu passado não é o dos mais limpos, não venha me dizer, que se importa com uma simples traição? Você fode com o primeiro que te dá o rabo, em um hotel de quinta categoria! Não venha me passar sermão...
— Simples traição? Kanon você é retardado ou tem algum parafuso a menos na sua cabeça?! Você estava transando com a sua noiva, no meu apartamento, na minha cama! Acha que isso não é uma traição? Se isso não é uma traição o que raios era aquilo que estavam fazendo? Com ela atracada na sua boca! Vá pro inferno, Kanon! E, eu tenho princípios, coisa que aparentemente você não tem!
— Radamanthys, foi algo que não deu pra evitar, ela veio aqui e eu... – respirou fundo tentando controlar toda a raiva que sentia. – Nada aconteceu, eu posso te garantir isso!
O inglês observou atentamente a feição do grego, a sua frente, com um olhar sério. A mesma expressão séria em seu rosto. A seriedade fazia parte de sua personalidade, sempre fez. Seus olhos fecharam-se e em sua boca, uma fina linha formou-se, ao reabri-los, Radamanthys passou por Kanon indo em direção ao quarto e tirando uma mochila, enfiando peças aleatórias de roupa do guarda-roupa.
— Espero não vê-lo mais aqui quando voltar... – disse fechando a mochila e jogando nos ombros.
E depois de sair da sua casa, do seu conforto, o Radamanthys foi se reconfortar em um quartinho de hotel barato, sentando em uma poltrona nada confortável com uma garrafa de whisky. Radamanthys achou que aquela fora a noite mais longa de sua vida. Todos os momentos com Kanon passaram diante de seus olhos e, quando o dia nasceu, o moreno tomou banho, trocou-se e seguiu para o trabalho.
Quando Radamanthys deu por si, a curta viagem até a mineradora havia sido feita e ele tinha chegado ao seu destino. Desceu da picape, ainda com a cabeça em seu problema ambulante. Ao erguer os olhos deparou-se com uma cena um pouco intrigante e muito complicada, para não dizer irritante.
— Ótimo! Protestantes! – murmurou, batendo com força a porta do carro. Sua ronda não seria tão simples e fácil como ele havia pensado.
Depois de quase ter horas em discussão e argumentos com vários protestantes, Radamanthys finalmente havia chegado a sede principal. Ainda que a polícia tenha chegado rapidamente, após ter sido acionada, Radamanthys teve que permanecer no local, por mais duas horas, para certificar-se de que nenhum imbecil estivesse no perímetro da Mineradora.
Consultou o relógio, já passava das 19hrs. O escorpiano estava esgotado devido à semana de trabalho. Ao chegar à portaria, Radamanthys apenas acenou com a cabeça para o porteiro noturno, que o saudou um baixo “boa noite”. Entrou no elevador e apertou o botão. Quando o veículo finalmente parou, o loiro sentiu o peculiar frio na barriga, sensação que não era de temor por seu superior, mas sim algo natural. Seu corpo automaticamente reagiu ao momento. A porta abriu-se e Radamanthys pôs se a vagar-se pelas salas vazias do escritório, vendo ao fundo uma luz fraca e parcial. Pelo vidro lateral da porta, o inglês viu a silhueta do homem, que fora o principal foco de seus pensamentos nos últimos três meses.
Três batidas. Três leves toques na porta. Em seguida, pôs a mão na maçaneta ao escutar um abafado entre.
Kanon estava encostado na confortável cadeira, com um dos cotovelos apoiados no braço da cadeira e em outra mão um papel.
— Não se preocupe, fui avisado sobre o pequeno inconveniente desta tarde, por isso eu o perdoo pelo atraso de duas horas. – disse sem tirar os olhos do papel em sua mão.
Radamanthys nada disse, apenas ficou parado no batente da porta, vendo o grego suspirar fundo e relaxado na cadeira.
— O lado positivo de ter ficado duas horas esperando, é que pude adiantar boa parte do meu trabalho, dás próximas semanas. – retirou os olhos da papelada para fitar o homem alto, que o encarava com uma expressão séria. – Mas, vamos ao que realmente interessa! Eu preciso de você essa noite, Radamanthys, e por isso lhe chamei.
Kanon quase, quase riu ao ver a expressão carrancuda e fechada que o loiro lhe lançou. O grego teve que segurar muito, mas ter muita força de vontade para não rir do ex-amante. Com um meio sorriso nos lábios, Kanon pegou seu paletó, desligou a lâmpada na mesa e foi em direção ao homem, o encarando, parando na sua frente.
— Vamos?
— Vamos? Como assim, vamos? O que diabos quer dizer com vamos? – exaltou-se ao ver o grego por a mão em seu peito e com gentileza o empurrar para trás. – Kanon...
— Embora. Onde mais pensa em ir?
Radamanthys não conseguia acreditar no que havia acabado de ouvir. Kanon passou por pelo homem, fechando a porta atrás de si e acenando com a cabeça, em um pedido mudo para que o inglês o seguisse. E assim o loiro o fez, em passadas largas e apressadas Radamanthys alcançou Kanon na porta do elevador e antes que pudesse pôr a mão naquele geminiano cara de pau, o loiro virou-se o encarando.
— Segurar um superior pelo colarinho é desacato, o que geraria uma justa causa! – deu um meio sorriso, afinando os lábios. – Eu lhe chamei porque meu carro está na oficina e não ficou pronto essa semana. E como hoje, a última ronda é sua, antes da troca de turno, eu pensei em te pedir uma carona.
— Carona? Você não tem um pingo de juízo, não é?
— O caso não é esse.
— Pro inferno! Com mais de dois mil funcionários você veio me dar essa honra? – debochou, socando o interior do elevador.
Quando veículo chegou ao térreo e a portaria foi vista, Radamanthys saiu do pequeno cubículo deixando seu superior para trás. Radamanthys ouviu um suspiro baixo, seguido de palavras que conhecia bem, mas como todas às vezes, preferindo não escutar.
Radamanthys sabia que vindo de Kanon, nada poderia fluir corretamente. O loiro sempre vinha com aquele sorriso ladino, olhar arrogante. E Radamanthys sabia que vindo do grego nada prestava. O escorpiano sabia; sempre soube.
Desde quando os convites de Kanon deveriam ser aceitos? Nunca, ele sabia. Desde quando as conversas sérias de Kanon realmente aconteciam? Nunca, ele sabia. E, desde quando ele, Radamanthys, permitia-se ser enganado daquela maneira? Às vezes, ele sabia.
— A caminhonete é de uso da empresa, não para uso privativo!
— Ótimo, então, me explica: por que raios eu estou aqui fora, parado conversando com você, sobre um ato egoísta e mesquinho?! – vociferou não se importando se estavam na empresa.
Como se atacar verbalmente, ou fisicamente, quem sabe, seu chefe, fosse boa coisa ou não. Ele sabia que provavelmente haveria punições, mas não se importou. Mandou tudo às favas. A verdade era que Radamanthys já estava farto, farto das idiotices do grego. Farto da mediocridade, das ações egoístas e mesquinhas. Da falta de ética e acima de tudo; o caráter. Algo que com o tempo, percebeu que Kanon jamais tivera.
— E, não me venha com o papo de superior, Kanon! Durante todo esse tempo eu segurei, eu engoli suas atitudes, pelo simples fato, de você ser meu superior, mas, isso já tá torrando a porra do saco! Você está se aproveitando da minha paciência, então, pelo amor que tem a si mesmo, dá um maldito tempo!
Levou as mãos nos fios dourados, bagunçando-os, revoltado com as atitudes do outro.
— Não me importa o que você acha, ou deixa de achar! – a voz saiu séria e bem jocosa, em um timbre rouco. – Não estou pedindo como ex-parceiro de cama, ex-amante ou qualquer outro nome que queria dar a nossa antiga relação. Mas, não irei tolerar insultos Radamanthys! Ainda mais vindos de você... – andou em direção ao inglês, com as mãos nos bolsos do paletó. – Como você disse: Eu sou seu superior e peço que me leve até em casa. O carro é propriedade da empresa e eu tenho total liberdade de usufruir dele, como bem quiser, e não se esqueça disso!
Entrou na picape pelo lado do passageiro, deixando o outro para trás. Seu coração acelerava-se e Kanon demorou algum tempo até conseguir restabelecer sua respiração. Levou a mão no rosto, esfregando-o com raiva.
Não era aquilo que queria dizer, não eram aquelas palavras que havia ensaiado.
— Merda! – praguejou baixo, esperando que o outro aparecesse.
E minutos depois, o escorpiano entrou na picape dando partida.
E, durante todo o caminho não houve conversas ou comentários. Kanon olhava a janela, e embora não desse para ver nada, devido à escuridão da noite, a paisagem parecia bem mais atrativa, do que o interior do carro e sua companhia.
— Vai ficar na sua casa ou vai para casa de seu irmão?
Kanon saiu de seus pensamentos ao ouvir a voz grave e séria ao seu lado. Qual foi a última vez, em que havia escutando aquela mesma voz, mas em um timbre mais ameno e rouco?
— Minha casa... – murmurou, deixando de olhar o breu que os cercava para encarar seu parceiro. – Radamanthys... – Sussurrou baixo, tocando o cambio da marcha e inclinando-se ao loiro inglês. – Precisamos conversar.
— Não há nada a ser dito.
— Ao menos uma vez na vida dá para engolir esse seu maldito orgulho e olhar para mim, inferno!
— Kanon, não sei se percebeu, mas, estou em uma estrada de terra e dirigindo! Então, fica calado!
— Radamanthys...
— ...
— Radamanthys...
Kanon sabia que, como das outras vezes, o inglês não iria lhe escutar. Mas, se o escorpiano não o queria escutar, então, Kanon ia fazer com que, ao menos, Radamanthys prestasse atenção em sua presença.
O silêncio que seguiu chamou a atenção do escorpiano. Seu rosto virou-se, recebendo dois olhos azuis semicerrados e um sorriso maldoso. Radamanthys sentiu um arrepio percorrer seu corpo, sensação que sempre aparecia, quando ele sabia que Kanon estava prestes a fazer algo, que não deveria. Kanon inclinou-se para o lado, fazendo menção de beijar Radamanthys, porém, os lábios nunca se encontraram. O inglês apertou o volante com mais força, trincando os dentes e erguendo uma sobrancelha.
— O que está fazendo? – sua a voz saiu séria. Ele sabia que seu amante era totalmente além da realidade, mas aquilo era simplesmente o ápice do autocontrole escorpiano. Radamanthys sabia que era uma provocação, só não sabia se conseguiria suportar a tal ato.
— O que parece que estou fazendo? – provocou, tocando o membro por cima da calça.
— Eu estou dirigindo!
— Eu sei...
— Kanon... Estou dirigindo! – murmurou baixo. Radamanthys percebeu que seria difícil pensar, dirigir e tentar não se concentrar na maneira como a mão direita de seu amante apalpava seu membro, por cima da sua calça.
O loiro apenas soltou uma falha gargalhada, no mesmo instante em que seus dedos colocaram um pouco mais de empenho no gesto. Radamanthys respirou fundo, retirando uma das mãos do volante e segurando o pulso de Kanon.
— Antes, você não se importava em fazer isso... – provocou em timbre baixo e olhar ferino.
— O carro é da empresa, não quero sujar-lo. – retrucou, com um brilho no olhar.
Kanon sorriu matreiro e abaixou-se, colocando uma mecha do cabelo atrás da orelha, enquanto abria rapidamente a calça do outro.
— Acredite, seu chefe não irá importar-se de você receber um boquete no carro! – murmurou, olhando discretamente para cima e vendo o loiro lhe retribuir o olhar. Tão jocoso e desejoso. – Mas, ele vai se importar se bater o carro, então, preste atenção no que realmente importa!
— Kanon, você fala demais...
Radamanthys voltou a olhar para frente, mas isso durou pouco tempo. Era impossível não observar o que estava para acontecer em seu baixo ventre. O grego abaixou metade do corpo, abrindo os botões da calça e levando o membro diretamente para os lábios, sem nenhum tipo de resguardo, iniciando o ato.
A voz do inglês soava baixa e contida dentro do carro. Suas mãos seguravam o volante de maneira incerta e seus olhos viam a estrada embaçada.
Era bom, o Radamanthys não podia negar! Kanon sabia como satisfazê-lo, fosse na cama ou em qualquer outro lugar. O grego tinha uma libido que Radamanthys nunca havia encontrado em mulher nenhuma. E o loiro inglês gemeu mais alto quando o grego passou a estimular seu membro, passando a língua de maneira ousada e de um jeito bem erótico e prazeroso, dando leve mordidas.
Radamanthys não notou que diminuía a velocidade do veículo conforme seu clímax aproximava-se. Os sons do ato em si o incitavam e quando o orgasmo chegou, de alguma forma e inconscientemente, seu pé pisou no freio fazendo a picape derrapar e parar de maneira subida. Kanon não esperando o breque bateu a cabeça no volante e soltou o membro do outro, engasgando-se com o gozo em sua boca.
— Mas, que merda... – praguejou, tocando o lugar dolorido, com a mão direita, enquanto com a mão esquerda, tentava limpar-se da lambança em seus lábios.
Radamanthys tentava recuperar o fôlego, pressionando a mão contra as têmporas, respirando fundo. O carr após a parada brusca havia morrido e os faróis foram desligados.
— Ah cala a boca! – resmungou pedindo silêncio. – Isso, em parte, é culpa sua. Aliás, a culpa é somente sua! Como sempre, você nunca toma juízo por suas ações.
— Na hora que fiz o serviço aí embaixo, você pareceu gostar das minhas ações. – deu um olhar atravessado ao companheiro ao seu lado, passando as mãos nos cabelos os ajeitando.
— Kanon... – ligou o carro, acendendo os faróis. Embora estivessem no escuro, as luzes do painel iluminava parcialmente o interior do carro. – Está bem? – Tocou de leve o local, onde o grego havia batido no volante e acariciou o lugar.
— Sim...
— Não faça mais isso, estava falando sério, em relação ao que disse antes.
— E, eu fui sincero com você, quando disse que nada aconteceu.
— Acho melhor encerramos esse assunto, vou te levar para casa. – respirou fundo, colocando a mão na ignição, quando Kanon o segurou pelo pulso, saindo de seu banco e sentando-se em seu colo.
— Nossa relação começou de maneira conturbada, complexa e maluca! Eu te embebedei para ter uma noite com você e mesmo após o sexo, nós continuamos a nos encontrar. Radamanthys foram dois anos...
— Dois anos que você jogou no limbo. E caso queira saber, eu não estava bêbado naquela noite! – sussurrou fixando seu olhar nas íris lápis lazulli, que o outro possuía em seus olhos. – Tenho uma alta tolerância alcoólica. Não estava bêbado. – passou as costas da mão na bochecha bronzeada.
— Eu tive péssimas intenções, mas nada foi mentira, depois do meu noivado. Confesso que eu fui sagaz, dissimulado e joguei sujo. Não vou negar, mas naquela época eu estava confuso, eu não sabia exatamente o que fazer.
— E, você, naquela época estava noivo, qual foi à parte em que você havia me dito isso, porque acho que a perdi?
— Eu terminei o noivado com a Tétis por você, eu fui atrás de você! E, para a minha surpresa eu fico sabendo que estava com Pandora?
— E, então, para revidar você vai se atracar com a Tétis no meu apartamento? Ótimo!
Kanon apoiou a cabeça no ombro do inglês, escondendo o olhar magoado. Radamanthys ainda não havia o perdoado por completo.
— Eu não fiz nada com ela, mas vou deixar pensar como quiser... – ergueu os olhos semicerrados, dando um leve beijo nos lábios do escorpiano.
Radamanthys aceitou aquele singelo contato, o selar dos lábios aprofundando-se em um beijo mais profundo e erótico. Kanon ajeitou-se melhor no colo do outro, enquanto sorrateiramente abria a blusa que Radamanthys usava, deslizando seus dedos delgados pela pele inglesa, sentindo os poucos, mais grossos fios dourados que o escorpiano possuía no peito. Subindo as mãos, tocando os mamilos, os acariciando, chegando até o pescoço o entrelaçando.
Mordidas, chupadas, lambidas, gemidos, afagos, soluços, arfadas!
Tudo o que os dois queriam, era sentir mais e mais, um do outro e vice versa.
Radamanthys sem paciência tratou de abrir logo a blusa que o Kanon usava, sem consideração com o tecido caro e de marca. Botões voavam pelo interior do carro, dando estalos e mais estalos. Kanon apertou a alavanca de ajuste, inclinando o do banco do motorista para trás, permitindo-o a Radamanthys ver os contornos do corpo de Kanon. Radamanthys desceu as mãos pela cintura grega, apertando com força fazendo Kanon gemer alto.
O desejo e luxúria por aquele homem não haviam diminuído, e qualquer oportunidade que ele tivesse seria usada para ter o Ex-amante próximo a si, possuindo-o, provocando-o e ouvindo os gemidos roucos e que somente Radamanthys poderia lhe oferecer.
Ao ver o grego sentar-se em seu membro, movimentando-se em um ritmo lento e provocativo, Radamanthys jogou para o alto todo o seu autocontrole, puxando Kanon de brusquidão e sem carinho algum, jogando-o no banco ao lado.
Kanon soltou um palavrão com o jeito brusco em que Radamanthys o envolveu. E, como uma besta selvagem, que permanece dormindo por anos o inglês, devorou os lábios do grego. Dando mordidas e lambidas, abandonando aqueles lábios tão quentes e convidativos, descendo aos poucos, mordendo e sugando a pele bronzeada grega, beijando com fome e desejo o maxilar, depois a volta do pescoço até chegar aos ombros, para em seguida morder aquela parte com força e vontade, sentindo um gosto metálico e salgado durante sua exploração. Kanon arfou, resmungando alguma coisa inaudível.
Radamanthys tocou as duas ereções e Kanon estremeceu no banco, ao sentir-se tocado de uma forma tão rápida e indelicada. O beijo continuou e os restos das poucas peças de roupa, que ainda os incomodavam, foram rasgados, amarrotadas e jogadas em algum lugar do carro. O beijo não parou em momento algum, tornando-se mais intenso a cada toque, arranhão, puxão. Os gemidos tomavam conta do lugar, os vidros já estavam embaçados, pelo atrito e o calor emanado daqueles atos sádicos, impuros e vorazes trocados, entre Radamanthys e Kanon.
O inglês inclinou o banco do passageiro, o deitando, para em seguida o empurrar para trás, assim lhe dando mais espaço. Os lábios foram separados e quando o inglês fez menção de enfiar os dedos na boca do geminiano, Kanon o olhou seriamente.
— Sem enrolação. – pediu baixo, segurando os ombros de Radamanthys com força, enquanto com a outra mão livre arranhava as costas do parceiro, deixando o louco.
— Vou machucá-lo se... – suas palavras morreram ao sentir-se beijado. – Kanon?
— Não tem problema, eu dou conta! Na minha pasta tem camisinha, você está mais próximo, pegue no bolso interno.
Radamanthys viu a pasta em seus pés no chão do carro, abrindo-a e procurando o objeto. Olhou para o loiro que arfava, o encarando de maneira tão erótica e sensual. Abriu o preservativo com os dentes, colocando o objeto em seu membro. Viu quando grego relaxou o corpo, soltando o ar de seus pulmões, fechando os olhos em seguida. Querendo ou não, Radamanthys sabia que podia machucar Kanon.
— Trocamos de posição uma vez... – lembrou-se da vez que fora guiado pelo grego.
— Radamanthys seis meses sem uma boa trepada o fizeram dá pra trás? É isso? — a voz preencheu sua mente o tirando do devaneio. – Faça logo!
O membro não entrou com facilidade, como Radamanthys havia previsto, fazendo Kanon gritar e contorcer de dor. O inglês soltou um baixo palavrão, ao sentir-se rejeitado pelo corpo do grego, sentindo um incômodo. Com raiva, Radamanthys saiu de dentro do geminiano, e sem aviso prévio enfiou um dedo no orifício apertado, enquanto sua mão direita subia automaticamente para o membro de Kanon, iniciando movimentos leves e rítmicos.
O escorpiano sabia todas as artimanhas imagináveis quando o assunto era sexo, e Kanon sempre estava em desvantagem. A carícia tornou-se mais intensa, porém, os lábios se afastaram quando os gemidos do grego se tornaram mais altos. A mão que o masturbava movia-se com força e rapidez, sua ereção havia reaparecido.
Kanon, em pura provocação, abriu mais as pernas dando um largo sorriso. Radamanthys respirou fundo, juntando o resto de autocontrole que ainda existia dentro dele, quando colocou o segundo dígito. Kanon gemeu alto, contorcendo-se no banco e pedindo que Radamanthys fosse mais fundo. O pedido foi concedido, o escorpiano enfiou o terceiro dedo, movendo seus três dedos com mais força além do habitual. Kanon arfou alto, trincando os dentes, passando os dedos em uma singela carícia pelo corpo alvo, vezes ou outras arranhando as costas de Radamanthys, deixando marcas e vergões.
Kanon estremeceu, sentindo os espasmos atingirem seu corpo. Passou a língua sobre os lábios e fazendo um gesto com a cabeça, demonstrando que desejava outra coisa.
— Quando é que você vai tomar jeito, Kanon?
— Irei tomar jeito quando você calar a boca e continuar o que estava fazendo! – gemeu ao ser tocado em um lugar profundo de seu corpo. – R-Radamanthys, vamos... Humm, agora! Rápido e forte. – respondeu com a voz rouca, ansiando pelo que estava por vir.
Radamanthysinclinou-se para frente movendo-se e Kanon entreabriu um pouco as pernas, mostrando que queria muito mais. A ereção deslizou com facilidade fazendo o grego gemer deliciosamente e Radamanthys começou a mover-se dentro daquele corpo quente, úmido e extremamente apertado. Quando o Radamanthys finalmente estabeleceu um ritmo, Kanon não se importou se o carro estava ou não balançando, a medida em que o homem em cima do seu corpo o estocava forte, com brutalidade e rapidamente, fazendo suas costas arquearem do banco de couro. Saindo e entrando mais e mais fundo.
Radamanthys fechou os olhos, tentando se concentrar, para simplesmente não colocar tudo a perder, puxando a cintura de seu parceiro com firmeza, imerso naquele ritmo intenso. Escutando as palavras sórdidas, murmúrios e gemidos que Kanon deixava escapar de seus lábios.
Aquele sexo sem pudor e sádico era uma constante entre eles, eram raras às vezes em que eles faziam um amorzinho; calmo, dengoso e gostoso. Não que Kanon achasse ruim aquele tipo de sexo, mas de todos os atos, ele nunca se cansava da maneira bruta em que o membro do inglês o penetrava, com o dobro de força a cada vez que saia de dentro de seu corpo. Radamanthys era carinhoso e extremamente possessivo, com uma estranha e quase doentia necessidade por monopólio. Kanon não parecia se importar, pelo contrário. O grego divertia-se com os momentos do escorpiano, achando sempre um jeito de tornar a situação perigosa, sufocante e prazerosa, mas o grego preferia o lado selvagem e bruto.
Era muito mais excitante!
Kanon sentiu todo seu corpo tremer com uma incrível sensação. Sua voz rouca ecoou pelo carro, alta e transbordando erotismo, como sempre acontecia. Radamanthys não era contido ou tímido para sexo. Sua voz soava alta, seguida por alguns palavrões e comentários excitantes sobre como ele gostava de ser possuído e o quão bom aquilo o fazia sentir.
— Kanon... – puxou o grego para mais perto, unido seus corpos em um só, iniciando um profundo e intenso beijo.
O grego chegou ao orgasmo primeiro, gritando alto apoiando as mãos nos ombros largos e suados do amante. Radamanthys o acompanhou no segundo seguinte, preenchendo-o totalmente. Os gemidos cessaram e a carro parou de balançar. O geminiano respirou fundo, o peito ofegante e os lábios entreabertos a procura de qualquer quantidade de ar que pudesse conseguir, pendendo a cabeça para trás deixando seu corpo cair no banco, relaxando e fechando os olhos em seguida.
Radamanthys fechou os olhos, arfando, pendendo a cabeça para frente e tentando manter seu corpo controlado, quando sentiu uma gota de suor descer por sua nuca e costas, arrepiando-o. Seu membro deslizou de dentro de seu amante e ele deixou-se deitar sobre corpo suado do grego abaixo de si. Ao abrir os olhos viu que Kanon o observava com uma notória expressão de contentamento.
— É a última vez. – murmurou baixo e sério, tentando em vão controlar seu corpo.
— Radamanthys... – lambeu os lábios. – Eu quero uma segunda vez.
— Kanon não, nós não podemos!
— Não podemos ou você não quer?
— O que eu faço com você?
— Tudo? – provocou, beijando os lábios do outro em um cálido beijo.
— Não, melhor não. – afastou-se limpando o rosto suado.
Kanon ajeitou-se melhor no banco e tocou o pulso do amado, subindo as mãos até os ombros, respirando fundo e aninhando-se ao corpo do maior.
— Perdoe-me, perdoe-me por todas as besteiras e idiotices. – longos e delgados dedos tocaram os cabelos dourados.
— Eu e você... Será a última vez, Kanon!
— Será a nossa última vez no carro, ou será como todas as outras últimas vezes? – murmurou, depositando um casto beijo no cangote do outro.
Radamanthys não disse nada, empurrou o loiro para trás querendo ver aquele rosto tão sem vergonha. Kanon estava suado e totalmente desalinhado. Os fios loiros grudados em seu rosto e ombros. Os lábios inchados e vermelhos.
— Você realmente não toma jeito... – murmurou antes de envolver-se em um profundo e erótico beijo, esquecendo-se de todos os seus problemas. Esquecendo-se que naquele exato momento eles estavam no carro, na beira da estrada e completamente nus. O cheiro de sexo ainda impregnava o carro e o escorpiano sabia que naquele final de semana, sua única preocupação, seria em como fazer Kanon pagar, por todos aqueles dias em que esteve solitário. Ia deixar o grego louco e zonzo de prazer. A ponto de não conseguir sair da cama.
Radamanthys sabia, que aquela não seria a última vez. Assim como todas as outras vezes desde que se separaram, Kanon sempre vinha com uma desculpa. No entanto, por mais que odiasse ter que engolir seu orgulho, sua ética moral, Radamanthys tinha que admitir: amava aquele homem mesquinho, promíscuo, fútil e ordinário.
Mas, Kanon não precisava saber, porque entre eles sempre haveria uma última vez
Fim!
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