Última noite de inverno

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Já disse nas notas da fic, mas não custa avisar de novo. Contém SPOILERS do filme The Last e do fim de Naruto. (bem implícitos, mas dá pra pegar uma dica mesmo assim)

O vazio já era cômodo, quase confortável, mas aparecia nas horas mais inoportunas. Quando ia dormir no frio e não tinha ninguém para esquentá-la, ou quando voltava pra casa e via sua sala apenas com a companhia da luz da lua. Era impossível para Sakura apontar o exato momento em que ela parou de esperar que essa sensação fosse realmente embora. Que não adiantava sorrir e esperar pelo melhor. Não importava o quão otimista ou esperançosa fosse, o vazio sempre encontrava um jeito de abusar de suas fraquezas, afetando-a como nada mais conseguia. Em cada missão que ela recebia, em cada caminhada pela vila, em cada suspiro derrotado.

Foi na última noite de inverno que Sasuke apareceu pela terceira vez. Lá estava ele, perfeitamente indiferente, com sua postura irrefutavelmente rígida e seus cabelos negros brilhando sob a luz fraca da lua que entrava furtivamente pelas frestas da janela semi-aberta. Sakura soltou a kunai que agarrou institivamente e se aproximou da figura alta que não virou-se para cumprimentá-la.


— O que você está fazendo aqui? – ela se forçou a perguntar, tentando ignorar a leve falha em sua voz.

Ele não respondeu e nem se mexeu, parecia estar hesitando em fazer qualquer coisa e ela percebeu que se aproximar dele era como seguir alguém em um labirinto sem fim, no qual qualquer passo errado resultaria na perdição eterna de ambos. Sakura parou e ficou encarando o manto negro que cobria as costas de Sasuke, parte dele que ela já conhecia tão bem que podia traçar todos os ângulos por memória.

O silêncio formou uma camada densa de expectativa e Sakura suspirou alto para quebrá-la. Ela estava tão cansada da espera. Da esperança e da decepção.

— Eu soube que Naruto se casou. – foi o que ele escolheu dizer.

De tudo o que ele poderia ter dito, Sasuke quis falar sobre um mero acontecimento, o qual ele nem esteve presente para apreciar. Imediatamente, Sakura deixou de lado toda a cautela que estava meticulosamente alimentando e franziu a testa.

— E você nem apareceu no casamento dele. – ela soltou, não querendo parecer tão rancorosa quanto soou.

Finalmente, Sasuke pareceu reagir. Ela viu suas costas subirem e descerem, ao acompanhar um longo suspiro e ele murmurou:

— Eu não sabia.

— Bom, claro que não, você estava perambulando por ai. – Sakura retrucou imediatamente. Ela não sabia de onde estava vindo tanta raiva, tanto rancor, tanta mágoa. Normalmente seus sentimentos eram de esperança, amor, euforia. Não conseguia dizer o que exatamente fez ela ficar simplesmente tão frustrada. Brava com ele por estar ali e agir de forma tão taciturna, decepcionada com si mesma por se deixar afetar tanto por sua mera presença e raiva do mundo por fazer daquela situação tão injusta.

Então Sasuke se virou e ela esqueceu qualquer coisa que tinha sentido até então. Como ela pôde esquecer o quão lindo ele era? Imediatamente ela quis odiá-lo. Quis gritar com ele e dizer que ele não podia simplesmente aparecer de meses em meses e depois deixá-la sozinha novamente, mas as palavras ficaram em sua garganta quando seus olhos encontraram os dele. Sasuke a encarava de uma forma que ela desconhecia, ela ainda não tinha adquirido a capacidade de lê-lo tão bem, já que ele tinha se reconstruído tantas vezes.

— Eu viria se soubesse. – sua boca se moveu levemente e ela teve que repassar a conversa em sua mente para lembrar do que estavam falando.

— Você saberia se estivesse aqui. – Sakura respondeu, dessa vez com a sua armadura baixa, com suavidade na voz, suplicando indiretamente. Fica, ela quis dizer, lembrando-se involuntariamente das vezes que ele visitou. E que ela tocou aquele rosto, traçou aquelas cicatrizes com os seus dedos e o amou como nunca amara antes. Por que aquilo não era suficiente?

Sasuke baixou o olhar e ela quis chorar, estava entrando no labirinto novamente, não podia perdê-lo.


— Sakura, você sabe que... – o jeito que ele falava seu nome ainda a desarmava. Ele pronunciava todas as letras com precisão e as dizia como se fosse muito importante dizê-las. – Você sabe o que eu estou fazendo, o que eu preciso fazer para...

Ela resgatou todas as suas forças para responder, sem conseguir encará-lo:

— Então vai. Por que você volta? Por que você tem que me dar esperanças toda vez que entra na minha casa e me encara dessa forma? – ela se abraçou ao sentir seus braços tremendo e seus olhos lacrimejando. – De todas as coisas horríveis que você fez, Sasuke-kun... Essa... Isso é a pior.

Sasuke se sobressaiu. Ele tinha matado, chantageado, manipulado e aqui estava ela falando que a pior coisa que ele fez foi dar-lhe esperança.

— Ou.. Ou vai de uma vez ou fica. – ela conseguiu terminar, já não mais ligando para as lágrimas que caiam no seu rosto.

Então ele foi. Ele sumiu como apenas um ninja muito habilidoso conseguiria, deixando apenas aqueles filetes de luz da lua em seu lugar. Sakura sentiu o vazio adentrar em suas partes mais vulneráveis e deixou seus joelhos cederem, caindo no chão, agora sem ligar em parecer forte ou cautelosa. O silêncio que se restabeleceu foi logo rompido por seus soluços. E tão rapidamente quanto entrou, o vazio ficou. E, ao contrário de Sasuke, nunca foi embora.

Notas finais
Oie, e ai o que acharam?

Eu tenho uma impressão que o Sasuke ia tropeçar mto até ele voltar de vez pra Vila, sabe? E acho que isso ia deixar uma marca permanente na Sakura, mesmo quando ele eventualmente volta pra ficar (pq sabemos que isso acontece, já que a Sarada existe *-*). Enfim, quis demonstrar essa dificuldade nessa shot, espero que tenham gostado S2

Beijocas :*
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!