Ônix Negro - O início

3 - Capítulo 2 – Desabafos estranhos


Notas iniciais
Comentários no final :*

“ Querido Diário,

A minha vida anda de pernas pro ar. Eu não consigo me concentrar em mais nada. Parece que nada faz sentido. Como eu queria não ser eu. Sei que é estranho, mas é isso que eu sinto. Se pudesse eu fugiria e largaria tudo pra não ter que viver naquela casa. Meu pai trabalha tanto que acho que nem sei mais quem ele é, e minha mãe continua a mesma, sempre aceitando tudo...”

–- Laura, para de escrever um pouco! – Amanda chegou fechando o diário que estava na mão de Laura.

–- Você sabe que eu gosto de escrever. – Encarou a garota de cabelos cacheados e pele morena que estava a sua frente.

–- Mas não precisa ficar o recreio todo com a cara nesse seu caderno – Ela se sentou a sua frente à mesa.

–- Vou tentar – Amanda jogou um olhar que não estava acreditando então ouviu o que queria – Prometo.

–- Isso que eu queria ouvir. – Laura riu.

O silêncio durou muito pouco até que Amanda começou a tagarelar. Falava sem parar sobre o seu novo namorado, o João. Isso se estendeu por pouco tempo, pois percebeu que Laura não estava nem um pouco interessada no assunto.

No fundo Amanda queria mesmo era perguntar como ela estava, mas já sabia o motivo dela estar assim e também sabia que se tocasse no assunto seria fuzilada. Porém sua vontade era tanta que não aguentou:

–- Como estão as coisas na sua casa? Seu pai já voltou de viagem? – Fez a pergunta tremendo.

–- Não – Fechou a cara ficando bem emburrada.

Quando viu Laura ficando daquele jeito começou a se sentir culpada por ter deixado sua curiosidade falar mais alto e tentou concertar:

–- Laura eu vou ser sincera com você. – Posicionou- se firme -- Nunca te vi tão mal na minha vida. – Apoiou o cotovelo na mesa jogando seu corpo sobre ela -- Laura te conheço desde pequena e sei que você não é assim.

–- Esse assunto de novo? – Os sentimentos afloraram em sua pele fazendo que acabasse sendo grossa ao falar.

–- Sim. Sou sua única amiga desde que me lembre. Você nunca foi muito boa em fazer amizade – Amanda disse indignada pela postura que estava vendo -- Se eu me lembro bem, se você não tivesse no primeiro dia de aula tropeçado, jogado aquele suco todo em cima de mim e não tivéssemos parado na direção, eu não seria sua amiga hoje.

–- Isso é uma péssima recordação.

–- Com certeza. – Amanda concordou agora de braços cruzados.

–- Então por que você tá jogando na minha cara que sou mal em fazer amizades? – Cruzou os braços ficando de igual para igual -- Por acaso sou mal amiga?

–- Não é isso. Só estou dizendo que nunca te vi assim. Eu quero que você volte ser a Laura de antes, sorridente . – Abriu um sorriso mostrando os dentes brancos e sinalizou com o dedo.

Laura continuou com sua postura, mas não resistiu vendo a cara engraçada que a garota alta a sua frente tinha acabado de fazer. Já Amanda, por sua vez, sentiu que sua amiga amoleceu com a brincadeira que tinha acabado de fazer e resolveu tentar um pedido de desculpas.

– Desculpa, eu não devia ter tocado no assunto e a gente acabou brigando por burrice minha. – Ela esticou o braço e tentou colocar sua mão sobre a de Laura.

Ela olhou para o gesto e ficou em silêncio pensando no que estava fazendo. A mente dela pedia que não tocasse no assunto, pois não queria mais se machucar, já o seu coração queria pedir perdão de joelhos para Amanda e falar que estava completamente errada em querer fugir sempre do assunto. Sua cabeça estava a mil seu coração parecia que estava quase pulando para fora de tanto que batia. Sua consciência ficara cada vez mais pesada se não pedisse desculpas a Amanda que sempre foi sua melhor e única amiga e que sempre esteve ao seu lado nos momentos difíceis como na morte da sua vó, que por sinal foi um completo mistério. Depois de tanta luta dentro de si, sentiu que devia se desculpar. No inicio pareceu difícil para ele mais se esforçou e o som saiu:

–- Não pense assim. Eu que fui infantil de mais. Deixei um problema meu interferir na nossa amizade – Laura disse tão baixo que Amanda, não entendendo nada pediu que repetisse. Ela ficou irritada, pois foi difícil para ela falar aquilo, mas acabou repetindo.

–- Ah, que isso. Só acho que não devemos mais ficar discutindo por uma coisa que é melhor deixar quieto e que nunca deveríamos ter falado. – deslizou os braços pelo corpo parando nos joelhos.

–- É verdade. Acho que daqui por diante devíamos só falar quando a outra pedir, sabe? – Descruzou os braços e os apoiou na mesa.

Ficaram por ali até bater o sinal. Laura passou o resto do tempo na escola pensando em chegar logo em casa. Já não via a hora de o relógio dar meio dia. Ao sair da escola comeu em uma lanchonete rapidamente, pois tinha curso há alguns minutos e não podia demorar.

Parecia que as horas não passavam naquele dia. Finalmente quando a aula do curso acabou, pegou suas coisas e saiu do local. Andou mais ou menos duas quadras até avistar a casa de madeira que ficava nos fundos de um terreno. Ao chegar, não pensou muito. Subiu as escadas chegando a um corredor azul cheios de quadros pendurados nas paredes e com quatro portas marrons.

Andou um pouco chagando a última porta do lado esquerdo que ao abrir, viu Violeta arrumando o quarto que parecia mais de um menino do que de uma menina. Aquele quarto era um caos. As roupas espalhadas pelo chão, toalha molhada na cama, tênis jogado para tudo o que era lado.

–- Oi, mãe – Deixou sua mochila no canto do quarto verde.

–- Oi, Laura. Como foi a aula hoje? – Disse terminando de ajeitar a cama.

–- Normal.

–- Que bom – Deu um leve tapinha no travesseiro e olhou para Laura – Vou descer e arrumar a mesa pro jantar. Vê se não esquece de colocar a roupa suja no cesto. – Saiu fechando a porta do quarto que já estava todo arrumado com tudo em seu devido lugar.

–- Já sei mãe. Não precisa falar. – Gritou para ver se ainda Violeta escutava.

Laura ficou por um tempo como uma boba olhando para o tempo, deu uma risada e jogou-se na cama. Abraçou fortemente seu travesseiro e acabou adormecendo ali mesmo.

“ Onde eu tô? Ah! Sim, no meu mundo. Que chato não tem nada pra fazer aqui.”

Laura estava deitada em um banco todo branco que ficava em um lindo jardim. Seu pensamento foi interrompido por uma voz. Nesse exato momento viu uma senhora bonita de cabelos grisalhos presos em um coque com um longo vestido branco que parecia de uma deusa grega:

“ – Laura! — Uma voz baixa a chamou.

–- Oi, vovô. – Laura se levantou apoiando seu braço no banco de um modo que conseguisse ficar sentada.

–- Mas então, falou com seu pai?- Perguntou tocando a mão de Laura e em seguida sentando ao seu lado.

–- Não. Ele não aparece em casa a mais de seis meses. A senhora sabe disso — Virou o rosto bruscamente. Sua voz soou com um tom de raiva escondido.

–- Bem como pensei. Ele já está agindo. – Falou em um sussurro. Levou a mão ao queixo fazendo uma cara de quem não estava gostando nada da notícia.

–- O que foi? Disse algo? – Laura girou bruscamente e olhou seriamente para Selena franzindo o cenho.

–- Nada. – Tentou desviar do assunto balançando a cabeça negando.

–- Me conta! – Ordenou mostrando que sabia que ela estava escondendo algo.

–- Você é uma menina teimosa. Não é assim que se fala com os mais velhos. Tenha mais respeito comigo!- Tentou se impor perante a garota.

–- Desculpa, mas é tanta coisa que ta acontecendo que não tenho tempo a perder. Você está enrolando de mais. – Seu tom aumentou de uma forma que Selena se sentiu frustrada com aquilo.

–- Laura se você continuar assim pode se dar muito mal num futuro bem próximo. Tenha mais respeito! – Disse com toda autoridade que ainda lhe tinha.

–- Eu não aguento mais esse mistério!

Selena já não tinha mis forças para gritar. Naquele momento viu um olhar de desespero com algumas lágrimas querendo sair dos olhos da pessoa que já não reconhecia mais. As feições de Laura já não eram mais de uma menina inocente e sim de uma garota que quer mostrar ao mundo o seu valor. Quase uma mulher.

Com o coração apertado no peito, Selena repensa tudo o que estava acontecendo, porém não podia prolongar mais aquela discussão idiota. Para tentar escapar mais uma vez resolveu por como encerrada a conversa, contudo de nada adiantou. Laura era uma garota persistente:

–- Quando eu não te conto algo é para o seu bem. Saiba que de todos, fui eu quem te contou toda a verdade de quem você é -- Deu uma pausa para se controlar, pois estava ficando cada vez mais exaltada – Laura sei que é curiosa e quer saber de tudo, porém esse “tudo” tem o seu tempo. – Afirmou.

–- Sou mesmo. Me conta. O que você sabe? — O tom de autoridade continuava na voz Laura, fazendo que Selena se sentisse desconfortável com a situação novamente.

Respirou fundo e pensou brevemente no que mais diria a ela. Não podia dizer mais nada. Mesmo que ela não aparentasse mais ser uma criança, ainda não compreendia o que realmente tudo aquilo significava. Laura ainda não estendia que existiam coisas muito maiores que uma vidinha qualquer na cidade grande. Ela ainda não estava preparada para saber o real motivo pelo qual podia fazer coisas que as outras garotas de sua idade nem imaginavam. Laura era mais poderosa que nem ela mesma tinha noção do que podia fazer.

Não demorou muito para que a garota lhe lançasse um olhar mortal com expressões bravas. Selena já não conseguindo mais segurar a curiosidade de Laura resolveu abrir um pouco o jogo enrolando o máximo que podia:

–- Como já disse uma vez, sou um espírito sobrenatural. Por isso eu vago pelo mundo ao lado das pessoas em que sou ligada. No caso, sou ligada a você e ao seu pai, mas ele não me deixa chegar perto.

–- Por que ele faz isso? Ele é seu filho – Disse um pouco indignada com que acabara de escutar.

–- Ele me deixa longe, porque sabe que eu mantenho contato com você. E conhecendo seu gênio, sabe que você descobria tudo o que está planejando. – Levantou-se e começou a dar voltas em tordo do baco que por sinal só dava para sentar duas pessoas nele.– Ele quer te manter o mais longe possível de Galampéia. Já tem mais de anos que não falo com ele.

–- Não entendo porque ele não quer que eu saiba. Já sei de tudo.

Laura fechou a cara de vez e cruzou os braços mostrando um pouco de infantilidade que fez que Selena desse um pequeno sorriso pensando sobre a reação que acabara de ver.

–- Sabe, pois eu te contei tudo. Se esperasse por outra pessoa, você nunca saberia de nada. Ele não quer porque... – Parou na mesma hora em que viu que já ia dizer coisa de mais. Selena sentiu que ainda não era o memento de dizer o resto a ela. Parou de falar e se sentou novamente.

–- Porque, o que? – Ela descruzou os maços e se apoiou olhando para Selena.

–- Deixa isso para outra hora. – Pousou sua mão no ombro de Laura dando um breve sorriso no fim.

No mesmo momento Laura despertou de seu transe. Levantou por instinto e ficou sentada por um momento. Depois que voltou a si, se jogou novamente na cama a fazendo balançar.

Havia muita coisa que ainda não estava esclarecida, e pelo visto não iria ser revelada tão cedo. Tinha tanta coisa que Laura queria perguntar que se conseguisse ficaria em transe no mínimo por um ano.

“Não sei onde isso vai me levar, mas sinto que estou indo pelo caminho certo. Ela sabe de tudo, só não quer me contar porquê?”

Em quanto estava pensando escutou batidas na porta.

–- O que foi? – Perguntou revirando se na cama.

–- Não fala assim Laura. O jantar já está na mesa. Vem comer.

–- Já tô indo.

–- Não demora! -- Violeta gritou.

–- Tá — Deu outro berro.

Sua preguiça era tanta que foi um dificuldade para esticar o braço para poder pegar o relógio que ficava no criado mudo ao lado de sua cama. Ao perceber que já estava realmente tarde, Laura levantou- se em um pulo e trocou-se o mais rápido que pode, pois ainda estava com a roupa de colégio. Depois de pronta andou pelo corredor azul até a escada.

Descendo a escada distraída, não percebeu logo, mas tinha alguém lá. Sua presença até então não importava, porém quando mais degraus descia via claramente o rosto que era familiar. Ela não estava acreditando no que estava diante de seus olhos. Só podia ser mais um sonho.

–- Pai?! – Ficou parada olhado para os olhos tão conhecidos: Os do seu próprio pai.

Notas finais
Eu sei que demorei, mas ta ai. Esse capítulo pode parecer estranho, que não faz sentido nenhum, mas com o decorrer da história vcs vão entender o que esse capítulo revela uma coisa que vai ajudar muito a Laura depois. Bom, acho que vou fazer mais mistério kkkkkkkkkkkk. Por favor leitores anônimos, se revelem! Bjussssssssssssss