NADAVAM. A navegar por entre as ondas calmas e aquelas marés que iam e vinham beijar-lhes o busto. Chegaram na orla há tempo pouco, saltando do boogie como crianças a correr para o Sol. Despiram-se até restarem apenas roupas de banho. A água jorrava morna por todos os lados, mesmo tendo a radialista prometida uma aterradora tempestade àquela manhã, ainda que acontecesse não iam de se importar. Tudo tem seu tempo, tudo tem seu preço. Ergueu-se e emergiu a cabeça, tomou um longo fôlego, a brisa intensa acometia com um vento gélido de verão traiçoeiro, a maresia perfumava, violenta e agridoce, narinas displicentes, umedecendo-as. Ela erguera o rosto logo após o suspiro do companheiro, embora seus cabelos permaneceram imersos, aproximou-se, os longos fios douravam perante os raios de luz como ouro naufragado de outras eras. Ele tocou-lhe um beijou no cenho, e os lábios em seus lábios, tudo a parecer um sonho tinha de apavorar. Ele, um perdedor, ao dar por si em raros momentos, fragmentos de felicidade como este, ludibria-se no esquecimento que a vida é grilhões a deixar coração e alma drenando até morrer... o pus da saudade.

— A medida que vai-se o tempo sinto que isto não poderia ter fim, pelo modo como caminha o tempo, tão lento — Gabriel divagou, e aos ouvidos de Iara foram sussurros íntimos. — Poderia vive-los pela eternidade!

Os lábios dela alargaram formando um sorriso entre as bochechas coradas, ela o segurou pelo rosto com suas palmas macias, traçando com os olhos uma linha das nuvens até as pupilas de Gabriel.

— As nuvens estão esparsas e pálidas... Diz-me, por que em ti eu só vejo apenas silêncio e lágrima? — inquiriu, preocupada com o tom contemplado no rosto do namorado.

— Porque os tropeços me fizeram assim. São os calos cicatrizados da trilha.

— Às vezes, isto me arrepia a espinha. Dá-me calafrios! És único e mais do que ninguém deveria saber o quanto custa pontear sem nó!

— Iara. Calma! Isso vai passar, você verá... Nem dói.

— Viver por você, sei que um dia doerá. Tu se deu pra mim e toda sua sou, atire a primeira pedra quem nunca pecou. Ao cais do Náutilos esta noite beberemos!

Um sorriso desabrochou o outro. Então, como um fino pontear de uma agulha no calcanhar aliciou-o uma linha de dramatismo, ele sentiu o corpo enrijecer e esfriar, toda água ao seu redor fervendo como num bule, pesou consideravelmente rápido e sobre as costas um cansaço o alcançou, não pode gritar, não disse uma palavra, seus olhos alarmavam o óbvio, o invisível, mas o faziam já adormecidos e ele escorregou, submergiu por completo, abandonando Iara sobre as ondas. Desceu, desceu e desceu mais um pouco, uma queda vagarosa interminável, não respirava, só de água se enchiam seus pulmões e sentiu a aflição de perder-se outra vez, entre o véu da realidade e o passadiço do além.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.