Óculos Quebrado

1 O Óculos Quebrado


Notas iniciais
Edição final em 04/07/21

O dia prometia ser difícil. Tinha quase uma semana que chegara à capital e não tinha nenhuma notícia de seu contratante. Normalmente era contatado logo no primeiro dia e tudo o que precisava era o nome do alvo, então se dirigia ao endereço e o exterminava rapidamente, sem dor ou sofrimento. Mas aquela demora o estava cansando e pensava seriamente em abandonar aquele trabalho. Era um assassino, gente para matar não lhe faltava e infelizmente tempo também não.

A Capital do Tempo era praticamente o centro do universo. Dimensões e eras se concentravam naquele lugar, mesclando povos e coisas tão distintos de maneira tão harmoniosa que jamais entenderia como o Imperador conseguira tal façanha. O velho e o novo, o futuro e o passado dançavam pelas ruas e vielas da cidade de pedra, em sua valsa alegre e singela em pleno calor do verão. Muito diferente do frio e da neve que cercava sua vila natal no seio das montanhas gélidas, onde os bárbaros e os nômades ainda se arriscavam a viver.

O verão era o maior desafio desde que deixara para trás a neve e o gelo. Depois que o conhecera, o calor não mais lhe apetecia e tinha certeza de que demoraria muito para se acostumar. Dias claros também dificultavam seu trabalho, forçando-o a usar mais energia do que necessitava. Odiava ser um assassino, mas era muito bom nisso para abandonar simplesmente.

Recostou-se às sombras de um toldo, permitindo-se observar o movimento daquelas pessoas. Vidas simples e despreocupadas, calmas, monótonas e normais. Às vezes queria algo do tipo: sair todos os dias para trabalhar, voltar quase à noite, beijar sua esposa — ou marido — e brincar com os filhos antes do jantar. Sempre quisera uma vida assim, simples, totalmente diferente de suas complicações. Não fora abençoado com uma família quando criança e agora, depois de adulto, perdera a esperança de ter uma.

Uma confusão de cabelos prateados e vestes róseas se fez notar da multidão, quando se atirou para o meio da rua. Era jovem e pequena, delicada em sua juventude e bela em suas cores incomuns. Os longos cabelos prateados refletiam o sol em cores brilhantes, a pele clara exalava um perfume floral tão intenso que mesmo de longe, podia senti-lo. Era uma nobre, com toda certeza, alguém que era cuidada com todo o cuidado de amas e criadas.

O tipo de pessoa que lhe pediam para matar. Sempre.

— Cuidado, menina! — ouviu de uma senhora em meio a uma turba estranha.

Um portal de transporte se abriu sem nenhum aviso, jogando na direção da menina um grande caminhão antigo, rápido e carregado. Normalmente, só se fincaria em seu lugar e apreciaria a ação do destino acontecer. Mas sua reação não demorou mais que alguns segundos. Antes mesmo de perceber o que fazia ou do que se tratava, já se jogara em direção à rua e agarrava a menina pela cintura, arremessando-se de costas na outra calçada e rolando sobre a grama verde do parque, com ela segura em seus braços, arfando assustada.

Apesar de toda a calmaria e alegria das ruas da cidade, devia sempre ficar atento quando fosse atravessar de um lado a outro. Portais dimensionais se abriam no meio daquelas vias, ás vezes sem aviso, trazendo veículos de todos os gêneros, carregados e mortais para qualquer desavisado que passasse por ali. Não era raro acontecerem acidentes do tipo, mas nunca salvara ninguém de um.

Aliás, desde que fora recrutado, nunca mais salvara alguém.

— Vocês estão bem?! — a velha gritou do outro lado.

— Estamos! Não se preocupe! — ele respondeu indiferente, mesmo com ela segura em seu abraço, ainda deitado de costas na grama. — você está bem, criança?

— Estou... — ela gaguejou assustada. — obrigada.

— Tome mais cuidado na próxima. — ele se levantou após soltá-la, batendo o pó da roupa.

— Me desculpe... — ela balbuciou, virando-se para vê-lo. — moço, seus óculos...

Ele não respondeu. Olhou para o chão embaçado, procurando os vestígios do aro negro e o brilho fosco das lentes de grau. Não usava óculos por sua vista ruim (na verdade seu olho verde esquerdo era levemente míope, mas nada grave quando usava os dois) e sim para conter a consciência que residia em seu olho vermelho.

Nem sempre teve heterocromia. Seus olhos sempre foram verdes, apesar de nascer em meio a um povo de olhos e cabelos escuros. Aquele olho era a marca de sua maldição e o monstro que vivia nele o atormentava todos os dias de sua vida, desde que abandonara sua antiga vida para se tornar uma peça de guerra. E só Deus sabia o que aconteceu com aqueles a quem conhecia depois que se alistou.

— Me desculpe! — ela pediu novamente, já em pé ao seu lado, entregando-lhe o que parecia ser o que restou de seu lacre. — me desculpe mesmo!

— Não se preocupe. — respondeu indiferente, virando-se para se afastar. — se cuida.

— Espera! — ela o pegou pelo braço, obrigando-o a parar. — vou pagar por eles!

— Já disse... Ei! – cedeu aos puxões dela, acompanhando-a pelas ruas até uma vitrine escura onde somente um nome em verde podia ser visto. — não preciso de agradecimentos. Só peço que me deixe em paz e siga sua vida.

— Não teria uma vida se você não tivesse me salvado. E você parece que não enxerga bem. Por favor, aceite. — ela falou e o puxou para dentro da casa, deixando-o de frente a um senhor calvo, concentrado em seu trabalho. — tem um minuto, Sr. Oldf?

— Oh! Que prazer em revê-la! — ele sorriu simpático, movendo de leve as orelhas pontudas, de certo, atento à energia que o homem de preto emanava. – o que posso fazer pela senhorita hoje?

— Acabei quebrando os óculos dele. — ela lhe entregou a armação arruinada. — Pode fazer outro?

— Para você, qualquer coisa. – o senhor sorriu e mostrou o caminho para uma sala escura. — me acompanhem. Farei alguns testes antes.

Ela o conduziu para a sala e obrigou-o a sentar-se num banco. O homem suspirava derrotado, movendo-se em obediência aos caprichos da garota. Pelos deuses! Já deveria ter saído daquele lugar e deixado ambos falando sozinhos. Porque, diabos, estava ali sendo examinado por aquele homem e respondendo às perguntas daquela menina?

— O que você faz? — ela perguntou novamente, olhando-o com curiosidade. — você não é daqui, é? Está a trabalho ou vai ficar?

— Estou de passagem. — respondeu enquanto encarava as lentes que o velho lhe aplicava. — não ficarei muito tempo.

— Você é muito rápido! Já esteve no exército? Pelo seu porte, deve ser de uma divisão especial.

— Todos são rápidos de onde venho. Só isso.

— Você poderia ter me deixado. Por que me salvou?

— Estava entediado.

— Ok... Muito nobre de sua parte. – ela sorriu. – Seu nome?

— Mikhil.

— Nômade das geleiras! – ela se animou. – por isso está desconfortável! Vocês não estão acostumados com o calor. Deve estar a pouco tempo por aqui para ficar tão fatigado.

— Sabe muito para seu tamanho.

— Estudei bastante, mas sou mais velha do que pensa. – ela sorriu. – quando vai ficar pronto, Oldf?

— Até o fim dessa tarde. – o velho sorriu, recolhendo-se para seu trabalho.

— Não tenho tanto tempo para esperar... – ela suspirou por um momento. E sorrindo malandra, agarrando-se em seu braço e puxou-o para fora. – vem. Vou leva-lo para comer.

— Escute-me, menina...

— Kira. – ela o puxou para fora. – e dada sua força que está pacientemente ocultando, já poderia ter fugido de mim há horas, se quisesse. Estava tão entediado assim?

— Posso ter salvado sua vida, mas não vou me tornar seu bichinho de estimação...

— Não é isso. – ela parou um momento, sem soltar-lhe o braço. – não tenho muito tempo para ficar aqui fora e queria aproveitá-lo com alguém. Calhou de ser você meu companheiro por esta tarde.

— Péssima escolha. – ele sorriu um pouco, entendendo a carência que ela sentia, enquanto balançava a cabeça, rendido.

— Ah, ele sabe sorrir! – ela o levou para uma lanchonete próxima, obrigando-o a sentar-se em uma das mesas. – estava gostando da sua face séria, mas essa também é legal.

— Peça logo. – ele suspirou quando a garçonete os atendeu.

A conversa se seguiu leve e praticamente monologa e silábica. Mikhil surpreendeu-se por permitir-se relaxar e conversar com ela abertamente, mesmo que só respondesse curta e brevemente. Lógico que não revelaria mais que o necessário, mas era apaziguador conversar com aquela garota, vê-la rir e se divertir como se nunca tivesse feito tal coisa antes.

Se bem que, nem ele já havia feito nada do tipo.

— Você disse que não sai muito... – ele comentou, bebericando seu café enquanto ela comia seu bolo.

— Seria muito otimismo dizer isso. – ela suspirou. – Não tenho permissão para sair então, de vez em quando, fujo de casa para pegar um ar. Sinto-me sufocada lá.

— Não deveria fazer mais isso. Veja o que quase aconteceu.

— Eu sei, mas...

— Nada é mais importante que sua vida e o amor de quem você ama. Se se sente aprisionada, fale com seus pais e eles te ouvirão. Não precisa fugir.

— Minha situação é mais complicada do que pensa, Mikhil.

— Ser nobre tem suas desvantagens, suponho. – ela suspirou.

— Já teve a sensação de que seu destino é muito maior do que a vida que leva hoje? Que se não fizer algo agora, perderá as melhores coisas que virão?

— O tempo todo.

— Então, o que fazer para seguir seu destino sem desrespeitar aqueles que te amam?

— Faça seu melhor. Estude mais e treine. Mostre que é forte e pode se cuidar aqui fora. Tome as rédeas de sua vida. – ele parou um minuto e riu sob o fôlego. – dar conselhos para alguém que está tão preso quanto você... Meio surreal isso.

— Mas são bons conselhos. – ela sorriu e pegou-lhe a mão. – Obrigada Mikhil. Não sabe o quanto me ajudou.

— Kira! – alguém entrou no local, chamando-a um tanto alarmada e aliviada. – onde esteve? Te procurei por toda parte! Está uma loucura em casa!

— Desculpe Taiga, estava ajudando e perdi a hora. – Kira respondeu ao se levantar. – já vou, me espera lá fora, por favor.

— Um minuto. – A moça saiu deixando os dois sozinhos novamente.

— Meu tempo acabou, Mikhil. Obrigada pela companhia e por me salvar. – ela sorriu tristonha. – vá até o senhor Oldf logo mais. Ele sabe do que você precisa.

— E depois de tudo, voltarei ao tédio. Você é má.

— Vai sobreviver. – ela sorriu e baixou-se para beijá-lo no rosto. – Adeus.

Nem Kira nem Mikhil disseram nada após aquele beijo singelo. Com um suspiro ela deixou o local, encontrando-se com um grupo grande demais para uma simples escolta de uma garota rica. A curiosidade se apossou dele, mas a conteve antes que pudesse se levantar e a seguir, para saber mais sobre sua vidinha.

Pagou a conta com dificuldade e se dirigiu à loja em que ela o levara, meio aos tropeços. Quanto mais tentava não usar seu olho amaldiçoado, menos enxergava com o outro. A paisagem se mostrava nebulosa a sua frente e vultos passavam abrindo caminho para sua passagem sôfrega. Sua cabeça doía pela claridade e pelo esforço. Se continuasse daquele jeito, teria sequelas irreparáveis.

— Ah, senhor! – ouviu do velhinho que parara a sua frente. – que bom que o encontrei. Temi que não pudesse me achar sem seus óculos.

O velho pegou-lhe as mãos e depositou-lhe uma pequena e reluzente caixinha negra, um pouco menos que um relógio de bolso. Apalpou o objeto e abriu-o, com intriga. Era pequeno demais para ser seus óculos. Pequeno demais.

— O que é isso? – perguntou ao apalpar o único aro redondo preso à corrente prateada.

— Seus olhos não são ruins, mas você os sacrifica demais para manter-se no controle. – o velho respondeu. – isso vai ajudar. Experimente, moldei de acordo com seu rosto.

Mikhil suspirou e posicionou o monóculo em seu olho vermelho. Demorou um pouco para a mágica fazer efeito, mas o resultado foi arrasador. Seus olhos pareciam ver muito além do que podia e a paisagem parecia mais clara e límpida que o céu de primavera. As dores? Desapareceram sem deixar vestígios. Era como ter um universo pacífico crescendo em seu interior, como nos momentos em que conversou com Kira enquanto comiam. Em todos os anos que convivera com a maldição, era a primeira vez que via claramente. Estava quase... Feliz.

— Pe... Pelos Deuses! – ele gaguejou maravilhado. – o que o senhor fez?

— Selei o olho certo. – o velho sorriu com uma reverência, satisfeito pelo trabalho bem feito.

— Muito obrigado! – esqueceu-se por um momento das etiquetas e abraçou o velhinho, quase emocionado. — Não... Não vejo tão claramente há anos! Muito obrigado, Sr. Oldf.

— Agradeça a ela por trazê-lo a tempo.

— Quem... Quem é ela? – perguntou esperançoso, se espantando por não lembrar mais do nome que ela lhe dera. – onde mora?

— Não temos permissão para dizer seu nome. Entre nós, plebeus, chamamos de A Rosa do Reino. – e com isso, o velho elfo se retirou, voltando à sua loja a passos leves.

Aquela revelação o pegou de surpresa. Como não notara que estava diante da princesa durante todo esse tempo? Como não notara uma das possíveis criaturas mais poderosas da atualidade? Devia ter parecido um tolo ao salvá-la do caminhão, ela não morreria só com aquilo e ainda seria capaz de retorcer aquela coisa com uma das mãos se quisesse. Isso também explicava por sua lembrança dela ser uma massa nebulosa e indistinta agora que estavam separados. Muitos nobres protegiam os herdeiros com feitiços de camuflagem, então não era de se estranhar que não conseguisse falar seu nome até que se reencontrem.

Mas, ainda que lhe parecesse um tolo, tinha que revê-la, enxergá-la nitidamente com os novos olhos que recebera e agradecer por se importar com alguém como ele.

Alvo confirmado...— ouviu em sua mente, acompanhado da imagem de sua vítima. Seu alvo era a princesa e teria que matá-la em seu quarto naquela noite.

Cara... Realmente odiava seu trabalho.

***

O castelo estava silencioso quando o adentrou, apesar da movimentação dos servos e dos guardas. Entrar no castelo foi trabalhoso, mas não impossível. Suas habilidades de infiltração eram provenientes do antigo exército e, apesar de proibidas, ainda se mostravam eficazes para adentrar espaços protegidos com magia e barreiras quase impenetráveis.

Quase. Pois foi treinado exatamente para encontrar brechas e fazer seu trabalho.

Caminhou pelo espaçoso quarto, observando cada detalhe do mundo dela. Mas por alguma razão aquele quarto de boneca, cheio de delicadezas e feminilidades, parecia vazio de sentimentos, como se nada ali fosse de sua vontade, como se fosse uma gaiola de ouro para um pássaro selvagem. A grande cama de dossel ficava bem em frente à janela, recostada à parede da porta. Duas garotas dormiam tranquilas, segurando a mão uma da outra. Os cabelos longos, a pele clara e as feições delicadas de ambas o teriam confundido se não fossem pelas cores distintas de suas madeixas e a ferocidade que uma emanava. A morena devia ser Taiga, a sombra que protege a princesa e que a buscara na lanchonete naquela tarde. Se pudesse enxergar naquela ocasião, teria se espantando com a semelhança entre ambas, mas se tratando daquele mundo, não era raro haver doppelgangers a serviço do reino.

A de cabelos prateados era Kira, a Princesa de Prata, a Rosa do Reino, sua salvadora, seu alvo e sua vítima... Dormia tão tranquilamente, alheia a tudo e todos... Céus! Salvara a vida dela há poucas horas e já teria que estrangula-la até a morte? Por que o destino pregara aquela peça nele? Por que tinha que aniquilar aquela que lhe dera novos olhos?

Mate-a logo, Mikki. Nós dois sabemos o quanto você quer isso.— a voz em sua cabeça o atiçou.

Cale-se.

Faça Mikki. Faça logo!

Calado!— gritou para si mesmo, banindo o assassino de sua mente.

Ela remexeu-se na cama, ficando de peito aberto e rosto voltado em sua direção, como se fosse um convite para o assassino dentro de ele saciar sua sede. Tão bonita... Como uma criança podia ser tão bonita mesmo adormecida? Como teria coragem de destruir aquele lindo botão prateado?

Kira suspirou sonolenta e abriu os olhos com preguiça, piscou algumas vezes e encarou-o com um misto de surpresa e confusão. De certo não o reconhecera na penumbra do quarto, ou ainda estava adormecida demais para pensar com clareza. Sentou-se suavemente, pousando os pés delicados no chão e o encarou com os olhos meio cerrados, tentando vê-lo nitidamente. Seus movimentos eram certeiros, mas não bruscos, talvez quisesse ter certeza de que não corria perigo antes de acordar sua gêmea protetora.

Mikhil sorriu e se ajoelhou em seu respeito, pousando a mão no coração e realizando a reverência de lealdade. Somente os deuses saberiam o que lhe aconteceria se quebrasse aquele juramento. Ela ainda o encarava com curiosidade quando lhe estendeu a armação. Por um momento, aquele gesto não lhe fizera sentido, mas o brilho da lembrança iluminou seu rosto, estampando lhe um sorriso.

— Obrigado. – sussurrou-lhe o mais baixo que pode, quando ela tocou sua mão.

— Kira...? – a outra chamou sonolenta, levantando o corpo para ver melhor.

Tudo aconteceu mais rápido do que podia prever. No segundo em que Taiga pousara seus olhos amarelos em sua figura, ela saltara da cama e o atacara, transforando-se numa poderosa tigresa em pleno ar. Sua força felina e a ferocidade que o atacava acabou por despertar o resto do palácio.

A luta se deu feroz enquanto tentava não machucar a atacante ou quebrar nada. Sabia que devia dizer algo, mas naquela altura dos fatos, não adiantaria explicar porque estava no quarto da princesa, armado, de madrugada. Os guardas do palácio se posicionaram na porta e começaram a arromba-la. As batidas bruscas completavam a sinfonia de sua catastrófica visita.

Livrou-se de sua oponente com o máximo de cuidado que podia e atirou-se janela afora, fugindo das luzes e mesclando-se com a noite. Talvez tivesse sido um erro, mas não se arrependeria de tê-la visto novamente. Podia mudar agora, podia ser outra coisa, podia ajudar outras pessoas assim como a ajudara. Mas tinha que encontrar um caminho seguro antes.

Pare. – uma sombra se interpôs em seu caminho e sentiu uma lâmina tocar-lhe o pescoço.

— Não fiz mal a elas. – explicou-se à ceifeira que o afrontava. – deixe-me ir.

Um assassino como você é um perigo a todos, mesmo que não tenha completado sua missão.

— Não sou... Mais... um assassino. – retrucou com sinceridade, fazendo-a afrouxar o aperto da lâmina, mas ainda desconfiada de suas intenções. – mas pagarei por meus crimes agora, se preferir.

Não é? E o que fazia no palácio, no quarto da princesa?

— Apenas... — suspirou, realmente não tinha desculpas pelo que estava fazendo ali, sem coloca-la em mais apuros. — Apenas saiba que eu nunca a machucaria... Jamais. Queria que ela soubesse disso.

A ceifeira continuava imóvel sob seu manto escuro que ocultava seu corpo, mas ainda se podia ver o relance de seu cabelo escuro e as curvas de seu corpo. Devia ser muito bonita quando não estava trabalhando. Nunca conhecera uma que não fosse. Talvez levar almas requeresse uma boa aparência para não ter problemas de insubordinação.

Toque na lâmina, nômade.— ela pediu seriamente, enquanto mudava a posição das mãos.

Mikhil não tinha medo de morrer ali, mas pensar no que aquele toque lhe faria causava-lhe arrepios. Levantou uma mão e tocou a lâmina da foice por alguns segundos, antes de deixa-la cair ao lado do corpo, sem acontecer nada. Sempre ouvira estórias de catástrofes que aconteciam com quem tocava as lâminas dos ceifeiros e sempre soube que uma hora ou outra seria o próximo criminoso a cair em suas mãos. Mas não sentir absolutamente nada era novidade.

Você é bom, Mikhil, só fez as escolhas erradas.— ela revelou condescendente, baixando a arma. – vejo várias possibilidades para seu futuro, mas limitarei suas escolhas em troca de deixa-lo vivo.

— Vai me deixar ir, com a condição de decidir meu futuro? – ele pensou um pouco. Não era das piores escolhas. – quais são minhas opções?

São duas coisas que lhe proponho, para que consiga viver até encontrar seu destino. — o assassino se arrepiou, assentindo com cuidado. — A primeira é: Deverás desaparecer. Todos que o conhecem hoje como um assassino não poderão se lembrar de você. O que vai te ajudar muito com seus contratantes.

— Isso quer dizer que ela não se lembrará de mim quando nos reencontrarmos.

Para esse futuro, será o melhor. Tens um dom natural escondido dentro de você, Mikhil. Se desenvolvê-lo, poderá ajudá-la de verdade quando precisar. E essa lembrança pode atrapalhar o momento em que se virem.

— Entendo...

A segunda é que não poderá trair ninguém a partir de hoje. Nunca. Se o fizer, deverá acompanhar a pessoa traída até quitar sua dívida. Se ela morrer, retornarei para tomar sua vida. — Mikhil a olhou sem entender. Como assim, traição? — Concorda com minhas condições ou morrerá aqui, aos meus pés? Faça sua escolha, Mikhil.

***

— O castelo está agitado hoje. – o garçom comentou quando guardas passaram em frente à loja, armados e atentos, aparentemente caçando alguém. – parece que tentaram assassinar a princesa em pleno sono. Acredita?

— Difícil de acreditar. – concordou o homem heterocrômico. – ela está bem?

— Sim. Sua protetora acordou a tempo e o afugentou. Agora o imperador está redobrando a segurança até esse criminoso ser pego pelos ceifeiros.

O homem não respondeu. Com um suspiro entornou seu copo nos lábios e se permitiu desfrutar dos efeitos que a bebida lhe causaria. Precisava de um rumo, um novo caminho, um jeito melhor de agradecer a gentileza que recebera da princesa. Queria mudar a vida dela do mesmo jeito que ela mudara a sua. Mas para isso, precisava ser outra pessoa.

Até por que, o antigo Mikhil morreu naquele telhado.

— Então... O que faz por aqui, senhor? – o garçom continuou.

— Só de passagem. Aproveitando um pouco antes de me focar nos estudos.

— O que quer fazer?

— Algo que ajude o corpo e a alma de alguém que me é muito querida. – respondeu com sinceridade, exteriorizando suas dúvidas.

— Ah, entendo. Há poucos que exercem a arte da cura nesse mundo. É uma causa nobre.

— Sim... Um dia, quero cuidar dela do mesmo jeito que ela cuidou de mim.

— Então boa sorte e que esse dia chegue logo.

— Que as flores do inverno não manchem a primavera. – concordou com um brinde antes de entornar copo. – até um dia, Princesa. Te vejo em breve.

***

O palácio continuava agitado, mesmo depois de tudo se acalmar. Taiga fora designada para caçar o criminoso, e ninguém mais na casa se permitia uma conversa. Seu avô surtara de tal maneira que ordenara que ficasse mantida no quarto. Não fora forte para parar Taiga e muito menos tomou controle da situação, agora aquela pessoa poderia estar com problemas.

Agora era hora de se tornar forte e capaz de cuidar de si mesma, de ter voz para ajudar aqueles que precisarem. Precisaria estudar e treinar. A princesa ignorante que era acabara de morrer naquele acidente que nunca aconteceu. Seria digna de seu reino e do destino que a esperava.

Olhou pela última vez e guardou em um pequeno baú a armação quebrada, trancando a chave o segredo da promessa feita naquela noite. Um dia ele a reencontraria, sentira isso em sua alma. Um dia... E que as brisas do outono lhe tragam seu destino antes que o sol dos tempos se ponha para sempre.

Notas finais
Olá! Fico feliz que tenha achado meu conto! Espero que tenha gostado, pois tenho muito carinho pelos personagens. Ele faz parte do universo de Destinados, um livro que finalmente estou terminando, apesar de tanto tempo. Confira a continuação dessa história que me é muito querida e obrigada por estar aqui!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!