Óculos, Aparelho e Rock and Roll
2 Aparelho
Notas iniciais
Dizem que não se sabe o que é a real dor até que a sinta. Pois bem, eu estava no lugar mais tenebroso, amedrontador e palco de muito sofrimento. Não, eu não estava no cemitério. Quer dizer, não ainda, porque eu ainda não consigo confiar naquele dentista e a sua broca, aquela coisa infernal que suga a saliva da sua boca.
E como se não bastasse, eu ainda não estou sozinha. Acertou quem disse que eu estou com os dois meninos mais insuportáveis do mundo. Qual é?! Quem traria dois filhos de Hermes pra um dentista, sendo que correm altos riscos daqueles equipamentos de tortura me causarem um verdadeiro estrago no meu rosto lindo e sedutor.
Só que, bem, eu sou “menor de idade e preciso da proteção de alguém de um nível mais elevado de poder místico. E, claro, não vale ser um filho bonitão de Apolo, mas sim aquele ser acéfalo de Travis Stoll: a combinação perfeita de problemas, idiotice e um leve teor de beleza e charme.
É exatamente por isso que eu odeio essas coisas desses humanos estúpidos. Por que eu tenho que enfiar essa espécie inovadora de aparelho de tortura pra concordar com os estereótipos de quem mal sabe como é ser filho de Afrodite. Não que eu seja uma, muito menos tenha uma benção da beleza, mas é que, bem, eu conheci a Silena e a Piper.
Estamos na sala de espera, o que nos reserva a outra sala mais conhecida pelas suas diversas formas de tortura dentária. E, claro, a forma em que os meninos estavam não ajudava em muita coisa.
— Travis, dá pra parar de batucar essa merda de mesa? Sabia que está me matando de agonia?
— É que ele está nervosinho de ficar sem beijar a namoradinha dele. — brincou Connor.
— Rá rá. Morri de rir. — indaguei.
— O meu problema é como vai ficar essa menina. Ela já me agride sem armas, imagina com milhares de faquinhas no dente?
— Bem pensado, Stoll. Assim que eu sair desse inferno, eu vou tentar essa coisa pra ver se corta mesmo. Assim que você dormir eu invado o seu quarto e arranco suas tripas, cara.
— Olha, ficar aqui com Connor não está ajudando merda nenhuma também. Cara, esse menino é mais irritante do que se é possível para um ser normal.
— Irmão, só porque eu sou uma pessoa com altos riscos de roubar a sua paquera não significa que você tenha que me odiar também. Olha, faz assim, eu tenho que ir embora. Fique aqui com a sua namoradinha porque eu vou ter diabetes com esse amor de vocês.
E assim que ele se foi, mesmo sabendo que nós nunca teríamos um caso. Quer dizer, acho que nunca seria algo que realmente passasse de um beijo ou outro de vez em nunca. Sério, não temos mais ligações do que algumas recaídas.
Só que, cara, como essas recaídas podiam ser mais constantes. É sério que o charme de um filho de Hermes nunca passa despercebido, porque só assim pra poder suportar esse escrúpulo.
Começando um assunto aleatório para ver se o medo acaba, alguém aí já viu os filhos de Hermes? Não que eles sejam os mais bonitos ou inteligentes, só que nunca passam despercebido. Estão sempre animados, felizes e, mesmo com as pegadinhas, ninguém resistia quando eles vinham com aqueles sorrisinhos fofos pedindo desculpa.
Só que, bem, acho que é assim apenas entre eu e Travis, o cara que sempre me importunava, fazia da minha vida um saco e, de bônus, ainda me matava de ódio, porém ainda fazia meu coração bater no ritmo da ratatanga.
— Senhorita Gardner?
— Ai meu santos de qualquer mundo! Me tira daqui, Travis Stoll! — gritei e comecei a correr para a porta que nem uma louca desvairada com cara de bunda e cabelo emaranhado.
Só que, bem, dois pares de braços fortes impediram a minha corrida para o acampamento. Acho que não era muito romântico, porque ele me segurava na mesma posição que ele usava pra nocautear seus adversários no Caça-a-Bandeira.
Eu só sei que ele estava me colocando na cadeira e me apoiando com os braços enquanto se sentava na cadeira ao lado com cara de bosta enquanto passava os nós dos dedos no meu cabelo.
— Abra a boca, senhorita Gardner.
— Hey, quem o senhor pensa que é pra falar com ela assim?! Se estiver pensando em chegar essa sua boca imunda a mais um centímetro da dela, eu juro que vou quebrar esses seus dentes branquelos.
— Senhor Stoll, caso não se importe, eu tenho que fixar um aparelho nos dentes dessa senhorita, e, infelizmente, não conseguirei fazer tal processo com ela de boca fechada.
— Perdão, senhor.
Quando senti a famosa broca na minha boca, já comecei a espernear pra valer, o que fez com que Travis usasse a outra mão para segurar as minhas pernas para que eu não chutasse a assistente. É sério que eu parecia um bebezinho grande que estava cheio de água na boca que estava sendo inutilmente sugada por uma assistente.
Senti mãos fortes se entrelaçarem na minha, e um grupo de beijos nos nós dos meus dedos, o que pra mim foi super acalentador. Na verdade era um pequeno toque que podia significar muita coisa pra mim, uma pessoa que era apaixonada pelo cara que ficou umas três vezes na vida em longos intervalos de tempo.
O colocar das pedrinhas foi fácil porque já havia me acostumado com a coisa que ele colocou pra abrir a minha boca, que, apesar, doía muito. Só que, claro, como uma grande frangona, eu comecei a dar espasmos, onde a cada um eu recebia mais um beijo leve na palma da mão.
Só que, quando ele colocou as duas últimas pedrinhas, eu sabia que o escândalo inicial era coisa passageira. Agora que a coisa ia ficar séria.
Ao passar a cordinha, eu realmente comecei a chorar, sem nenhuma brincadeira. Sentia meus dentes sendo repuxados com uma dor imensurável enquanto Travis repousava a cabeça na minha barriga com as nossas mãos sempre entrelaçadas.
— Acalme-se senhor Stoll. Já vi muitos caras fortões virem com as namoradas e sofrerem muito mais que elas. É tipo aqueles caras super tatuados que sofrem um ataque do coração quando a sua garota resolve fazer nem que seja uma pequena assinatura.
Abri mais a boca pra falar que, na verdade, não éramos nada mais do que bons amigos, escondendo a parte em que tínhamos as típicas recaídas de uma amizade colorida, que obviamente seria melhor que um amor preto e branco.
— Nenus nãum nnihalhe — bem, o que vale é a intenção, né? Pelo menos eu tentei avisar.
— Sabe, eu acho que essa doida não está conseguindo falar nesse momento. Poderia fazer uma coisa que sempre quis, mas não podia porque ela não calava a boca.
— Bem, o senhor esperou demais. Só tem cinco minutos pra fazer... o quer que seja.
— Caríssima senhorita Gardner, lembra-se de quando eu fiz a minha primeira pegadinha com você? Glacé na pasta dental, típico. Só que depois as coisas evoluíram e eu passei a colocar chocolates no teto do seu chalé e até trocar a cor de todas as suas roupas pra verde musgo, a cor que você jurou mais odiar no mundo. — riu. — Bem, você sabe como eu amo aquela cor, então eu entendi rapidamente o que a senhorita quis dizer. Só que depois, eu vi que essas pegadinhas chamavam a sua atenção, mas de um jeito que ao invés do que eu queria, sempre ganhava tapas e chutes. E foi aí que eu decidi que roubar de você o que eu desejava era bem melhor que tentar conquistar, afinal eu sou um filho de Hermes mais do que exemplar. E assim foram milhares de perfumes seus que eu coloquei no meu guarda roupa e até alguns beijos, por mais que 97% das vezes eu nunca conseguisse. E, bem, eu queria te pedir pra me deixar parar com esses roubos. Você roubou a coisa mais importante minha: o meu coração. Estamos quites, porque eu coloquei todas as suas coisas junto com as minhas apenas para poder fingir que um dia seria real, agora você tem todos os meus sentimentos e ainda continua na minha mente, com o seu nome em letras garrafais escritas na minha alma. É, pirralha, eu te amo. Agora já está acabando meu tempo, mas não suportaria a tua resposta. Até mais.
E assim ele seguiu para fora com as mãos no casaco. Tentei porque tentei gritá-lo, mas apenas consegui engasgar com a minha própria saliva.
Os momentos para a finalização da colocação do aparelho eram as coisas mais torturantes, não mais pelo desespero de colocar, e sim pelo de perder o cara que eu amo.
E, assim que ele colocou a última gominha, arranquei o tufo de dinheiro do bolso e joguei pra ele, tirando o equipamento da minha boca. Precisava alcançá-lo por mais que ele fosse um filho do deus da velocidade, eu ainda tinha a vantagem de amar aquele escrúpulo.
Assim feito: o vi andando nas ruas com o seu típico suéter azul escuro, as calças jeans e os tênis. Corri para trás dele e o abracei daquele jeito mesmo, apertando as minhas bochechas nas costas dele, esquecendo completamente a dor.
Ele se virou para o meu lado e retribuiu levemente o meu abraço, respirando sobre a minha cabeça.
— Não me faça fazer isso, porque não ia conseguir não te ter como minha namorada amanhã.
— Idiota, burro e lesado. Cala a boca.
E assim eu o beijei tipo naqueles filmes. Passei meus braços em seu pescoço respirando sua essência de loção de barbear a qual eu me acostumei. A sua respiração sobre a minha pele era algo que eu não poderia comparar com exatamente nada, logo pelo fato de ser mais do que perfeita.
Quer dizer, foi mais do que perfeito enquanto durou, porque logo Travis se afastou com uma cara meio estranha e a boca sangrando.
— Cara, Travis, me desculpa. Eu não sabia que ia...
— Deixa isso pra lá, Kitty. Dá um beijinho que sara, okay?
Bem, e isso já explica como passamos o resto da tarde e, hoje em dia, o resto de nosso namoro, e um pedaço do nosso casamento, porque eu fui retirá-lo apenas um dia antes.
E, bem, é assim que aparelhos interferem na minha relação com Travis.
E é por isso que a gente não terminou.
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