Índigo

5 Capítulo 5


Mal consegui dormir.
A ideia de descobrir que um dos meus pacientes era índigo... Ainda mais sendo meu paciente favorito. Logo agora que eu o havia liberado, depois de três semanas de tratamento. Fiquei ansiosa por saber como estaria a situação na casa dos Hall-Ether, mas eu tinha sérias dúvidas de que os pais de THE realmente haviam me levado a sério.
Quando amanheceu, fui direto para o meu escritório, e do telefone fixo liguei para Thomas. Enquanto isso, chequei o meu celular, e constatei sete chamadas perdidas de THE na noite anterior.
– Oi, Angel – ele atendeu.
– Oi, Thomas. Liguei para saber se o Sr. e a Sra. Hall-Ether marcaram a consulta.
– Ah, estava mesmo querendo falar com você sobre isso.
THE também tinha deixado várias mensagens.
“Angel, por que não atende? Preciso falar com você”.
“Angel, precisamos conversar. AGORA”.
“Por favor, será que pode me atender? As coisas estão complicadas aqui”.
– O casal nem deu sinal de vida, Angel. Eles nem ligaram para dizer que vão ficar de marcar, ou algo assim.
“Eu preciso de ajuda. RÁPIDO!”.
– Se eles são como você diz e não fizeram contato, é melhor falar com o menino. Acho que algo ruim pode ter acontecido.
“S.O.S.”
– Ai, THE...
– Angel? Você está bem?
– Depois eu falo com você, Thomas.
Desliguei o telefone com rapidez. Minha mãos tremiam de nervoso ao ligar para THE do meu celular.

– Atende, atende, atende.
O estalo do telefone sendo atendido se fez ouvir, mas não havia voz.

– THE?

– Angel. — Sua voz fez meu pânico aumentar. Eu nunca tinha ouvido ele falar com uma voz tão ruim. Seu tom era grave e baixo. Parecia altamente depressivo e ligeiramente doloroso.
– THE, onde você está? O que FIZERAM com você?

– Eles me bateram, Angel. Foi o que eu achei que aconteceria.
– Ai, meu Deus. — Levei a mão livre à cabeça enquanto começava a chorar. — Não era pra isso ter acontecido. Não era... THE, onde você está?
– Eu fugi. Estou na praça perto da minha casa.
– Eu sei onde é. Não saia daí, eu estou indo.

Corri pela casa em desespero, vestindo as primeiras roupas que encontrei pela frente. Só peguei meu celular e minha bolsa, arrumando o cabelo de qualquer jeito pelo caminho. Meu carro acelerou pelas ruas de San Francisco enquanto eu enxugava minhas lágrimas com as costas das mãos trêmulas e tentava conter meu desespero.
Quando cheguei à praça, rodei todo seu perímetro até avistar THE sentado debaixo de uma árvore. Por sorte, achei uma vaga ali perto. Quase esqueci de trancar o carro no desespero. Corri até ele, e conforme me aproximava, notava as marcas vermelhas e roxas por todo o corpo do menino. Chorei desesperadamente ao meu abaixar perto dele.
– Meu Deus do céu, THE... O que é isso? Aqueles dois malucos... Aqueles monstros.
– Esqueça os meus pais, Angel.
– Sem essa de “esqueça”! Nós precisamos denunciar...
– Denunciar? E de quê isso vai adiantar? Eles vão brigar na justiça até conseguir minha guarda definitiva...

– Eles não vão ganhar essa briga, THE. Você tem marcas no seu corpo para provar a violência que sofreu. E eu fui sua psicóloga, posso testemunhar contra eles. Eles não vão continuar com sua guarda.

– E aí eu vou para onde? Para um centro de adoção qualquer? Sendo obrigado a passar o resto da minha vida seguindo aquele monte de regras e comendo aquela comida horrível.
– Comida de orfanato não é horrível, mas você não vai pra lá. Eu vou adotar você, THE.
O menino erguei os olhos obscurecidos pela dor, mas que naquele instante apresentaram um brilho de esperança.
– Está falando sério?
– É claro que estou. Você sabe que é muito especial para mim, THE. Você é o filho que eu nunca tive. Eu me orgulharia muito se fosse a sua mãe. Te daria o melhor do mundo!
THE sorriu, olhando para o chão. Seus olhos estavam enxarcados.
– Eu queria que fosse fácil assim. Mas eu sei que é complicado. Eu tenho só doze anos. Você não pode me levar para sua casa sem a autorização dos meus pais.
– Posso, se alegar que estou fazendo isso para sua proteção. Eu conheço os melhores advogados de San Francisco, amigos meus que abandonaram a Faculdade de Psicologia. Eu vou abrir um processo contra eles. Vou pedir sua guarda. E nós vamos vencer.
Eu dei um abraço leve em THE, para não machucá-lo.
– E eu vou te contar uma coisa garoto. Se minhas hipóteses estiverem certas, você é muito mais especial do que pensa.

– Rosalyn, desmarque minhas consultas antes das dez. Tenho outro compromisso.
– Mas doutora, os Silverston já estão aqui.
– Desculpe-se com eles. Não tem como eu chegar aí a tempo. Diga que tive um problema. Diga que meu filho ficou doente.
– Mas a senhora não tem filhos doutora.

– Eles não sabem disso, Rosalyn.

– Mas doutora...
– Obrigada, Rosalyn. Vai receber um aumento por isso.
Desliguei o telefone antes que a Srta. Muylaert argumentasse novamente.
– Pronto, THE. — Disse para o menino no banco de trás. — Agora temos a manhã quase toda.
– Não precisava disso tudo, Angel. Eu estou bem...
– Está bem? Você está tudo, menos bem, querido. Nós vamos para minha casa cuidar desses machucados e...
– Ah, Angel, qual é...
– Ei, nada de reclamar, mocinho. Se quer fazer isso, vamos fazer isso direito. Eu não vou deixar você largado por aí como seus pais, eu vou cuidar de você.
– Não precisa cuidar dos meus machucados. Acho que não tem nada para cuidar aqui.

– Chega de teimosia. Não vai demorar nada. Enquanto estiver comigo, você vai ser bem tratado. Vai ser medicado, vai almoçar direito, vai ter que ir para a escola.
– Ei, eu estava achando que seria legal ser seu filho...
– Nossa, magoou hein...
– Desculpe. Mas é que... Estamos tão acostumados a brincar juntos.
– Ei, isso não vai se perder. Vamos dedicar todo nosso tempo livre a isso. A aproveitar que estamos juntos. Mas você não vai simplesmente parar de ir à escola porque eu sou legal.
– Escola é para crianças.
– Qualquer adulto que se preze um dia frequentou a escola.
– Eu já frequentei a escola. Já sei que dois mais dois é quatro, que seis ao quadrado é trinta e seis, que quatro vezes cinco é vinte e que catorze mil, seiscentos e oitenta e oito dividido por mil, duzentos e vinte e quatro é doze...
– Nossa. Você decorou isso?
– Só pensei aleatoriamente. Mas o que quero dizer é que a escola é tão... Desnecessária.
– Na verdade, eu também acho — menti. — Para mim, é só um meio de conseguir um diploma. Mas esse é o tipo de sacrifício que precisamos fazer para ser alguém importante na vida.
– Você não disse que eu era especial?

– Ao que tudo indica. Mas isso não quer dizer que está isento da escola. Ei, estamos juntos nessa, ok? Eu vou fazer tudo ficar melhor a partir de agora. Só... Confie em mim um pouco, THE. — O menino fez silêncio, o que eu entendi como um “tudo bem”. — Agora chega de moleza e vamos para casa.