Éramos só nós dois

1 Um dia entre tantos outros


Notas iniciais
Um dos dias que eu tive com essa garota, a Loba.

Éramos só nós dois. A praça, como sempre, estava vazia. A única movimentação vinha das ruas e do bar da esquina. Aquela era nossa praça. Sempre nós encontrávamos lá, simplesmente para passarmos uma tarde juntos. Era só disso que precisávamos. Não queríamos ir ao shopping, almoçar juntos ou ir ao cinema. Queríamos ficar juntos. Queríamos nos conhecer, na verdade. Estava tudo apenas começando.

Quando cheguei, ela já estava lá sentada, olhando para frente. Meu lado cômico me disse para inventar alguma brincadeira, faze-la rir para começar o dia bem. Mas evitei estes pensamentos, sabendo que iria apenas me fazer de bobo. Inseguro do jeito que sou, imaginei a cena se desenrolando várias vezes na minha cabeça. Ela rindo, ela me achando estranho, ela odiando. Por conta da imprevisibilidade, desisti. Cheguei ao seu lado (seu lado direito) e sentei no “banco”, que era apenas um monte de paralelepípedos unidos por cimento.

— Oi! – foram as palavras proferidas por ela, enquanto me olhava disfarçadamente por debaixo dos cabelos soltos. Eu não sabia se era vergonha, insegurança ou se ela estava evitando um romance, mas ela não gostava que eu a olhasse nos olhos. Eu achava isso charmoso demais.

— E ai, como você tá? – era sempre assim. No começo um simples ‘’oi’’. No final um longo abraço apertado do qual nenhum dos dois conseguia se desvencilhar.

— Eu estou bem e você? – já esperava por essa resposta. Era uma resposta automática. Ela era uma garota muito fechada, pelo que eu entendi no final. Mas nem isso ela admitia. Um dia, perguntei-lhe como foi a semana (uma semana na qual brigamos, inclusive). “Foi bem ruim”, disse ela rapidamente. Quando eu, surpreso, exclamei um “que?”, ela logo voltou atrás e mudou para “foi tranquila”.

— Estou bem! – após dizer isso, mergulhamos naquele primeiro momento silencioso.

Encarei os arredores por alguns momentos e, então, ela se aproximou e deitou no meu ombro. Pude sentir o cheiro do xampu de seus cabelos. Achei charmoso pra caramba também. Passei minha perna para o outro lado do banco, como se eu estivesse montando um cavalo. Puxei-a entre as minhas pernas e dei um abraço apertado nela. Ficamos assim por um tempo, e logo afrouxei o abraço. Mas ficamos ali, juntos. Como sempre fazíamos naquela praça. Desde o primeiro dia.

A nossa relação é esquisita. Não é uma relação séria, mas ao mesmo tempo é. O problema é que ela não queria decidir se era uma coisa séria. Ela queria viver o momento sem querer rotular nada. Era um conceito engraçado. Arrisco-me a dizer que ela queria deixar que as coisas se tornassem sérias naturalmente. Mas acredito que já ficou sério. É aquela coisa que todo mundo sabe, mas ninguém quer dizer, sabe?

Fiquei sabendo que ela só tinha ficado com apenas um cara antes de mim. Assim sendo, eu era o segundo cara com quem ela tinha alguma coisa. O primeiro só durou uma semana, então acredito que eu já tinha feito alguma coisa certa. Mas ainda sim era muita pressão. Muitas coisas que ela não havia feito. Ou que eu, pelo menos, achava que não havia feito. Tive que ir descobrindo, e isso tornou tudo mais gostoso ainda.

Fui caçando sua boca com a minha (ela ficava com a cabeça virada pra baixo). Dei uns beijos em sua bochecha. Cheguei na boca e lhe dei um beijo. Senti que alguma coisa aconteceu no seu corpo. Começamos a dar uns amassos. Quando terminamos, percebi que ela soltou a respiração rapidamente. Fui dando beijos em sua bochecha até chegar no seu pescoço. Dei alguns leves beijos e ai dei uma mordida. O corpo dela se remexeu inteiro e ela me abraçou forte. Senti que estava apertando minhas costas com as unhas. Que garota charmosa, cara. Como que eu fui parar com ela? Sou um zé ninguém. Acho que estou apaixonado. Parei de morder seu pescoço e dei mais alguns beijos para terminar.

— Como você tá? – perguntei mais uma vez, já esperando aquela resposta de sempre.

— Eu to bem – respondeu ela, só que dessa vez em um tom mais baixo e calmo. Parecia uma entonação mais sincera. Gostei.

— Como foi a semana?

— Ah, foi tranquila! E a sua?

— Foi bem chata.

Ficamos em silêncio novamente. Eu gostava daquilo. Quanto menos eu falasse melhor. Em outros momentos, eu falava demais. Não sei como ela aguentava. A minha vida estava bem bosta antes dela aparecer. Tinha acabado de terminar meu primeiro ano de faculdade. Estava sem amigos, morando sozinho em um quarto minúsculo em uma pensão. Passava vários momentos questionando se o meu lugar era mesmo naquele curso, com aquelas pessoas. Tinha algumas crises no meu quartinho. Mas isso começou a mudar quando comecei a fumar e a beber sozinho. Saia pra fumar um cigarro, na madrugada, e logo ia para um posto comprar uma cerveja. Era bom, me relaxava. E ai apareceu ela. Tudo ficou lindo novamente.

— Minha mãe viu aquela foto sua, eu mostrei pra ela – ela não conhecia minha mãe, mas a achava linda e exótica pelas fotos do Facebook.

— Não acredito, que vergonha! Eu tava feia demais naquela foto! – adoro o jeito dela.

— Que? Nada a ver! Depois daquela foto, minha mãe foi te procurar na internet. Ela te achou gata demais. Meus irmãos viram também. Nem acreditaram que eu tava contigo. – ninguém tinha fé em mim, nessa família. Mas se nem eu tinha, quem que teria?

— Parece que eu estou oficialmente entrando na sua vida.

— Você já estava nela, muito antes disso. E, aliás, nem era para eles saberem da sua existência. Falar para os outros da azar. Todas as garotas que eu perdi, acabei percebendo que eu falava demais delas. Não quero perder você.

— Como você é inseguro! Não adianta ter medo de algo que não aconteceu ainda.

Ficamos em silêncio de novo. Na minha mente, deliberava sobre aquela frase dela. “algo que não aconteceu ainda”. O que isso significaria? Não adianta ter medo de algo que não aconteceu, por que não existiria o risco de acontecer ou por que simplesmente não chegou ainda? Como se o nosso fim fosse inevitável, mas por ele não ter chegado, eu não deveria me preocupar? Não sei. Acho que sou inseguro mesmo.

E assim se seguiu o dia. Beijos, abraços, mão aqui, mão ali, mordidas e muito amor implícito. Ela era uma garota complicada. Não saberia explicar ela por aqui. Até porque eu ainda não a compreendi totalmente. E acho que nunca irei. No final do dia (ela sempre ia embora as 18:00) ficamos no mesmo impasse de sempre. Ela tinha que ir embora, mas não queria. Nós levantamos para nos despedir. Dei um abraço nela, que durou muito mais do que o planejado. Dei um beijo de língua nela. A soltei. Ela se afastou um pouco.

— Ai meu deus, que difícil! – disse ela, ao mesmo tempo em que me envolvia em mais um abraço apertado. Meu coração saltava nessas horas. Alguém me ajuda, estou apaixonado. E tenho medo do fim. Do inevitável fim. Coldplay me ajude nesses momentos.

Comecei a dar mais um beijo nela. Ela ficou na ponta dos pés (era baixinha, caramba, que charmosa!). Ficamos lá, envolvidos naquele abraço. A praça estava vazia, como sempre. Eu amava aquele lugar. Não era muito privado, mas era um lugar bacana. Era o nosso lugar. Sempre que passar por lá, vou me lembrar dessa garota.

Depois de uns 20 minutos, ela reuniu forças para ir embora. Soltei-a dos meus braços e fui me afastando. Ela se virou e foi embora. Observei-a andando para longe. Virei-me para trás e puxei um cigarro do maço que estava no meu bolso. Já estava com saudades. Minha vida era feita de refúgios. Eu fugia da faculdade, fugia da falta de habilidades sociais, fugia da depressão. Corria para meus cigarros, videogames. Corria para ela. Mas o problema é que ela também representava um perigo. Naquele momento, eu fugi dela em direção ao cigarro. Mas ao mesmo tempo, queria que ela estivesse lá comigo. Queria que ela substituísse aquele cigarro. Queria poder dizer a ela que ela era uma das poucas coisas boas que eu tinha naquela vida. Ela provavelmente ignoraria, desconversaria. Por que faria isso? Não sei. Vergonha, medo, ou talvez não gostasse de romances. Mas eu não me importo.

Com a cabeça cheia de pensamentos, afastei-me daquela praça. Atravessei a rua e, assim, estava oficialmente deixando aquele lugar. Encerrando aquele dia. Aquela garota tornava o meu dia especial. E eu queria que todos os meus dias fossem especiais.