Éramos só nós dois
2 Fui na casa de um amigo meu
Notas iniciais
Fui pra casa de um amigo meu, Jon D. Sempre que seus pais estavam fora, eu lhe fazia uma visita para tomarmos umas cervejas e fumarmos uns cigarros. E conversar sobre a vida como se não houvesse amanhã. Mas infelizmente havia um amanhã. Seus pais eram músicos e ele também era: tocava vários instrumentos e sempre era muito criativo, tendo suas próprias composições em mente. Estacionei o carro na frente da sua casa, tranquei-o e andei em direção ao portão. Conseguia ouvi-lo tocando piano no fundo de sua casa. Pelo som, concluí que ele estava “solando loucamente” em seu piano antigo. Toquei a campainha algumas vezes, porém não houve resposta. Comecei a chamar pelo seu nome e a bater palmas. Alguns segundos mais tarde, o som do piano parou e pude ver Jon saindo de um pequeno cômodo lá no fundo. O cômodo era separado de sua casa, era seu quartinho de instrumentos.
— Ah chegou esse bosta! – disse ele ao me ver parado em pé do outro lado do portão.
— To esperando você aqui, seu lixo! – respondi em tom sarcástico. Eram brincadeiras de moleque mesmo, esses xingamentos.
Ele puxou uma chave dos seus bolsos e abriu o pequeno cadeado que segurava uma corrente em volta do portão. Quando ele abriu e me convidou para entrar, cumprimentei-o com um aperto de mão e um rápido abraço. Seguimos para dentro da casa.
— Então, como vai essa desgraça que nós insistimos em chamar de vida? – disse ele, enquanto eu me sentava na mesa da cozinha e ele pegava duas garrafas de cerveja na geladeira.
— Você sabe, do mesmo jeito de sempre. – respondi, pegando a cerveja que ele me oferecia com uma das mãos. Abri a garrafa e tomei um gole.
— E a Loba, como que tá?
— Vai bem, você sabe como ela é, cara. Meu refúgio e meu nêmesis. – Loba era a garota. Aquela especial.
Jon havia me enviado uma foto dela, na qual ela estava com os olhos esbugalhados. Na hora, já me apaixonei. Fiquei perguntando o nome, mas ele não sabia me responder. Quando ele terminou com sua namorada, Loba criou um perfil nas redes sociais e ele começou a falar com ela. Fiquei puto porque ele sabia que eu já estava procurando ela. Mas perdoei. Ele voltou com a namorada e então eu passei a conversar com Loba.
— To ligado. Vamos sair lá fora – ele disse já saindo da cozinha, indo para o quintal.
Eu o segui até o lado de fora e puxei meu maço de cigarro do bolso. Tirei um cigarro e acendi. Ofereci o isqueiro. Ele aceitou, tirou um cigarro do bolso e o acendeu. Ficamos lá fumando um pouco. Fumávamos e soltávamos a fumava. Nossas vidas estavam extremamente bizarras naquele momento. Ainda estão. Ele havia terminado com a namorada novamente, prometendo ser permanente dessa vez. Mas dava pra ver que ele ainda gostava dela. Eu havia encontrado sentido na minha vida, graças à Loba. Minhas “crises” diminuíram e, quando eu a via, eu era um dos caras mais felizes do mundo. Mas ainda tinha muito medo.
— É, eu não sei. Ela parece gostar de mim, mas também parece querer se manter afastada. Só não sei se isso é medo de se apaixonar ou ela simplesmente não busca isso. – eu disse, finalmente quebrando o silêncio.
— Cara, é certeza que ela gosta de você! Ela só não diz, não gosta de falar disso. Acho que tá mais nos gestos. – nisso talvez ele tivesse razão. Talvez Loba dissesse mais através dos gestos do que através da fala. Em casa, quando eu mandava mensagens dizendo que estava com saudades dela e essas bobagens, ela simplesmente evadia totalmente. Apenas em algumas raras ocasiões tive o sentimento retribuído.
— Ah cara, é tão abstrato. Eu não sei o que tá acontecendo. Não sei se tá tudo dando certo, se a gente tá sério, ou se então ela apenas quer dar uns beijos e só isso. Talvez eu tenha mergulhado muito fundo nisso. Não deveria ter me envolvido tanto. – dei mais uma tragada no cigarro e soltei a fumaça lentamente.
— Mano, relaxa! Ela com certeza gosta de você. – como eu disse, Jon começou a conversar com Loba antes de mim. Eu queria saber se ela iria ficar com ele ou não, então no primeiro dia, eu perguntei se ela teria ficado com ele. Ela disse que não, mas não sei. Alguns dias atrás, fui procurar uma mensagem importante em uma conversa com Jon, no Facebook. Acabei me deparando com as primeiras imagens que ele me mandou da conversa que ele tinha com Loba. Pelo que eu vi, ela agia da mesma forma que agiu comigo nos primeiros dias. Talvez ainda mais interessada. Isso me preocupa pois diz até que ponto o mérito por eu estar com ela é meu. Talvez eu não tenha chance alguma se algum outro cara aparecer ai. Acho que posso perde-la facilmente.
Me lembrei da minha primeira conversa com ela. Cheguei e mandei um “dae” bem informal. Conversar com garotas na internet sempre foi uma porcaria. São todas chatas demais, nunca querem conversar, se acham superiores. Não sei o que acontece. A minha sorte foi que Loba respondeu com um “então você que é o famoso Sr.ninguém?” A partir daí, a conversa se desenrolou descontraidamente. 20 dias depois, estávamos saindo pela primeira vez.
— Ah, cara, a Effy não me deixa em paz. Ela quis terminar, mas continua me mandando mensagem. Fica me mandando foto dela e sei lá o que. – disse ele, dando uma tragada no cigarro. Essa ex-namorada dele era pirada. Uma hora gostava dele, outra hora só queria amizade. Acho que foi uma coisa boa eles terem terminado.
— Porra, essa garota tem problema, cara. Não entendo. Ela termina contigo, mas fica de conversa ainda, sendo carinhosa e essas coisas. Parece muita manipulação. Na cara de pau. – eu disse em um tom levemente raivoso. Odiava essas injustiças postas em ação pelo universo.
— Não sei o que eu faço, cara. Eu gosto dela ainda, mas eu sei que é melhor se eu me afastar. – Jon deu uma última tragada no cigarro e o jogou em um lixo perto da porta.
— Acho que você deveria continuar ignorando essa menina. Esquece ela. – eu dizia isso me sentindo meio mal por fazê-lo. Eu acho que se a paixão é certa, devemos persegui-la até termos certeza de que usamos todos os nossos recursos. Mas nessa situação, a menina simplesmente esnobava o cara. Eu odiava ver meu amigo fazendo dramas por causa dessa garota. Ela não ia fazer bem pra ele, daqui em diante.
— Eu não sei. No nosso primeiro término, eu fiquei um lixo. Foi desesperador. Mas agora eu até que to bem. Acho que nossa relação era puramente sexual. De uns 2 meses pra cá, não fizemos sexo. E isso era o que eu mais queria, apesar da gente estar juntos e ser um casalzinho feliz ainda. No final, acho que me preocupava mais o sexo mesmo. – isso era verdade. Eles terminaram por uns 5 meses e quando voltaram, fizeram sexo apenas uma vez e depois nunca mais. Ela inventava algumas desculpas para tal, afirmando perda de libido e etc. Não sei o que acontecia.
— Mas cara, sexo é importante pra uma relação. Digo, para uma relação na qual já houve relação sexual. Depois da primeira vez, ele se torna uma parte essencial da relação. Mas também não adianta endeusar essa parada.
Eu não fazia sexo. Não faço. Fiz uma vez. Pior experiência da minha vida. Se eu pudesse, eu voltaria atrás. Mas agora já é tarde.
Voltamos para dentro da casa. Ficamos lá tomando cervejas e conversando. Nesses momentos eu esquecia todos os meus problemas. As faltas na faculdade, os trabalhos atrasados, a falta de dinheiro. Tudo isso desaparecia no meio de um momento de pura descontração, onde todas as minhas preocupações davam lugar à nostalgia, risadas e esperança. Ano passado foi um dos piores anos da minha vida. Esse ano começou diferente. Jon entrou na faculdade, eu consegui ir em algumas festas, fazer algumas poucas amizades e me soltar mais. Loba apareceu em minha vida e tudo estava, pela primeira vez, bem. Me espantava esse início de ano. Achei bem bizarro. Minha vida parecia estar mudando conforme o tempo passava. Mas não era uma mudança que partia de mim, era algo que acontecia sozinho. Algo que eu não conseguia controlar, algo inevitável. Eu parecia estar caminhando para um destino que nunca havia imaginado para mim, levando em conta que o único fim que eu imaginava para a minha pessoa era suicídio. Não que eu quisesse me matar, mas eu tinha esse sentimento, essa impressão de que eu mesmo daria um fim a minha vida. Aliás, esse dia retratado aqui aconteceu antes do meu primeiro capítulo. Uns 4 ou 5 dias antes.
— Eu queria um verdinho pra fumar agora – disse Jon enquanto ajeitava uma caixa de som na mesa da cozinha, para podermos escutar música pelo notebook dele.
— Ué, vai lá comprar – eu só havia fumado algumas vezes.
— Vou comprar onde? Lá na praça? Tá loco, os caras me matam lá – a praça era, na verdade, uma pista de skate onde vendiam drogas. Todo mundo sabia disso. A polícia sabia disso. Ninguém ia preso.
E assim se seguiu o dia. Nada demais, nada especial. Só estabelecendo o universo a ser retratado nos próximos contos. Vida sem graça até mesmo nos momentos com graça. Alguém me ajuda.
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