Éramos só nós dois

3 A primeira vez que saímos


A primeira vez que saímos. Eu me lembro até hoje, até porque não faz tanto tempo assim. Estávamos conversando há aproximadamente um mês pela internet, então decidi contar que estava afim pra caramba dela. Eu estava passando o fim de semana com meu pai e ela estava na casa dela. Era uma noite de domingo e o dia seguinte era feriado. Sentia-me bem. Eu e ela estávamos conversando pela internet.

—Loba, preciso te falar uma coisa. É importante. – eu disse, digitando no meu pequeno teclado de celular.

—Pode falar! – respondeu ela, 5 minutos depois.

—Não sei se devo, acho que você não está preparada. – comecei a brincar com ela.

—Olha, fala logo, eu to ficando curiosa.

—Você tem certeza que quer saber?

—Sim, fala logo!

Decidi que iria falar de uma vez. Era importante mesmo e eu não aguentava mais. Estava morrendo de sono.

— Então tá, lá vai: estou indo dormir, boa noite! – queria zoar mais um pouco.

—Ah não, não era isso que você queria me falar! Mas tá, boa noite! – respondeu ela. Será que ela estava esperando alguma coisa já?

— Na verdade eu queria falar que estou te curtindo, estou bem afim de você! – finalmente consegui dizer.

Logo em seguida, veio a resposta mais aconchegante da minha vida. Acho que nunca me senti mais aliviado e feliz.

—Mas isso não pode acontecer, pois sou eu quem está afim de você! – disse ela.

“Caralho. É isso ai, caramba. Está dando tudo certo, pela primeira vez na minha vida” lembro-me de ter pensado isso. Despedimo-nos, pois eu realmente estava com sono. No dia seguinte, conversei de novo com ela e marcamos um dia para sairmos. Ela falou que ia comprar um vinho para nós. Todo rolê adolescente possuí a sua bebida. A nossa era um vinho barato, que não deixava de ser bom. Eu voltava de viagem nesse mesmo dia, então combinamos de sair na quarta-feira, perto do final da tarde.

Nessas situações eu geralmente me planejo todo. Penso em cada brincadeira que vou fazer, em cada momento que vou criar. Mal sabia eu que não precisaria de nenhum tipo de preparação. Era só seguir o caminho que a vida havia colocado diante de minha pessoa.

Chegou o tão esperando dia e nós nos combinamos de nos encontrarmos na frente de uma igreja que fica no centro da cidade. Botei um jeans e uma camiseta qualquer e fui até lá. Quando cheguei, ela já estava me esperando. Ela estava com uma mochila nas costas, usava roupas completamente casuais e estava com uma garrafa de vinho em uma das mãos. Quando cheguei, percebi que ela era meio diferente das fotos da internet, ela tinha mais espinhas e etc. Mas não me importei. Eu estava a mil naquele momento. Pela primeira vez, não dei importância para a aparência de uma pessoa. Eu havia me apaixonado por sua personalidade e não por sua aparência.

— Oi! – disse ela, toda tímida e me dando um breve abraço.

— E aí, tudo bem? – eu estava meio nervoso, mas estava tentando fazer o maior esforço possível para me controlar.

— Tudo bem sim. Quer um pouco? – disse ela enquanto estendia a garrafa de vinho para mim. Peguei ela e dei uma boa golada. Devolvi a garrafa e então começamos a andar.

Não tínhamos ideia do que íamos fazer naquele final de tarde. Só pensamos em nos encontrar mesmo. Sempre que eu saia com alguma garota com a intenção de ficar com ela, eu ia no cinema. Mas com essa garota eu não queria. Era bom andar e conversar com ela. Dar umas boas risadas. Mostrar pra ela quem eu sou e descobrir quem ela é. Sendo assim, fomos caminhando pelo centro da cidade, bebendo vinho e conversando. Quando ela ria, meu deus. Eu me sentia o homem mais sortudo da face da terra. Eu queria encher ela de beijo, mas não havíamos chegado nessa parte ainda.

Fomos andando até uma pequena praça, cercada por ruas (sim, aquela praça). Sentamos em um dos bancos de pedra e ficamos lá conversando. Ela foi beber o vinho e sem querer deixou escorrer pela sua boca. Nós dois rimos juntos. Então o vinho acabou.

— Tá se sentindo alegre já? – perguntei, querendo saber se ela estava meio alterada por causa do vinho.

— Só um pouco, mas não muito. Não dá pra ficar bêbada com um vinho só.

Eu e o Jon viramos 4 vinhos num dia desses. Não foi uma experiência muito boa, acabei falando uma grande quantidade de bobagens para a Loba. Peguem essa dica: se beber, desligue o celular.

Loba era uma pessoa super gentil. Ela era vegetariana (ainda é) e possuía um espírito libertário. Me disse que nunca havia procurado ter uma relação séria, não era algo que ela priorizava (como já disse no primeiro texto). Então, quando chegou um morador de rua falando com a gente, ela ficou tranquila.

— Boa tarde, desculpa interromper o casal – disse o morador de rua. Nessa hora eu olhei pra Loba e ela deu uma risadinha discreta. – mas eu queria saber se posso sentar aqui com vocês e contar um pouco da minha vida. Posso?

— Claro! – respondeu rapidamente Loba em um tom gentil e convidativo.

O mendigo se sentou no chão a nossa frente e se apresentou. Seu nome era Jefferson e sua mulher o havia traído. Um dia ele estava andando na rua e a encontrou com esse outro cara. Ele estava armado nessa hora e pensou em mata-la. Mas não o fez e resolveu ir pra casa. Ele contou sobre toda a sua família, falou sobre quem trabalhava onde e contou que precisava levar comida para seus filhos. Eu e Loba lhe oferecemos um pouco de dinheiro. Ele aceitou, levantou e começou a ir embora.

— Olha, desculpa pela interrupção. Meu amigo – disse ele, se dirigindo a mim – não larga dessa mulher. Já pensou daqui um tempo, você andando de mãos dadas com seus filhos? E depois com seus netos? É o sonho de qualquer pai. – ele se afastou e foi embora. Olhei para Loba e soltei uma risada.

— Aparentemente somos um casal já, olha só! – eu disse, zoando com ela.

— Pois é! Tá tudo indo rápido demais! – respondeu ela, sorrindo para mim.

— A partir de hoje, esta praça deixa de ser apenas uma praça. Agora ela se torna a Praça do Jefferson! – eu disse, enquanto fingia estar levantando uma taça invisível. Loba riu e sem querer encostamos nossos braços. Percebi que ela não se mexeu, simplesmente deixou o braço encostado em mim. Gostei.

Levantamos e começamos a percorrer o mesmo caminho só que ao contrário. Voltamos ao ponto de encontro inicial, ainda conversando, e sentamos ali perto. O dia foi passando rápido, então já eram umas 21:00. O meu tempo estava acabando e eu ainda não tinha dado nenhuma investida. Perto de onde estávamos sentados, havia uma fonte e outros bancos. O lugar estava vazio. Então, do além, surgiu outro morador de rua. Ele chegou perto e colocou as mãos nos nossos ombros. Elas estavam molhadas, assim como seu rosto.

— Fala ae galera! Eu acho que depois vocês deviam tomar um banho na fonte. A água tá geladinha e to vendo que ceis tão fervendo aqui! Valeu! – disse ele com as mãos molhadas em nossos ombros. Ele foi se afastando, rindo alegremente. Eu olhei para a Loba e sorri.

— Então quer dizer que nós somos um casal e estamos fervendo? – eu disse, tentando criar o momento para beija-la.

— Estamos sim – disse ela, sorrindo timidamente por baixo de seus cabelos. Meu coração começou a acelerar enquanto eu me aproximava dela. Esperei ela perceber o que eu estava fazendo. Então ela virou seu rosto, encontrando o meu já na metade do caminho. Meus lábios tocaram os dela. O tempo congelou.

Aquele momento ficaria gravado para sempre em minha mente. Cheguei mais perto dela, enquanto a beijava. Quando afastamos nossas bocas, eu a dei um abraço. Depois do abraço, ela deitou sua cabeça no meu ombro. Parecia tranquila.

— Demorei demais, não foi? – eu disse após olhar no celular e perceber que faltava meia hora para ela ir embora (ela ia às 22:00).

— Foi no momento certo, não se preocupa. – ela se ajeitou enquanto falava isso. Colocou seu braço por cima da minha nuca, enquanto o outro descansava em seu colo.

O tempo foi passando e nós nos beijamos mais um pouco, até que chegou a hora dela ir embora. Nos levantamos. Ela olhou pra mim, deu um sorriso e depois fez um som de infelicidade (um grunhido, talvez) e rapidamente me abraçou. Ficamos abraçados por mais um tempinho e nós demos mais um beijo. Os beijos eram meio desajeitados, praticamente sem selinhos, pois, como eu disse, eu era o segundo cara com quem ela ficava. Mas com o tempo, ela foi se soltando. Observei-a indo embora logo depois de nos soltarmos. Virei-me para o caminho para minha casa e comecei a andar, sorrindo igual um besta. Uma nova fase havia começado em minha vida.