Éramos só nós dois

4 A nossa primeira briga


A nossa primeira briga aconteceu quando eu estava bêbado. Foi uma briga de dois dias. Não que isso signifique que a gente ficou brigando por 48 horas. Quero dizer que a briga começou em uma noite e terminou no dia seguinte. Aliás, essa briga aconteceu alguns dias depois do primeiro capítulo. Sim, o primeiro capítulo é o dia mais recente na ordem cronológica. Bom, agora é este. Porém ainda são dias passados, um pouco longe do presente.

Eu estava indo para a minha primeira festa com meus colegas da faculdade. 25 reais o ingresso. Combinamos de nos encontrar no apartamento de um dos colegas para fazer um esquenta. Era ali perto da faculdade, o que significava que eu teria que pegar um ônibus. Depois do esquenta, pegaríamos um ônibus e iríamos para essa festa, onde teria luz negra e tinta fluorescente e essas merdas. Eu não sou muito chegado em festas, mas decidi abrir uma exceção, pois queria fazer esse ano valer alguma coisa.

Sai da minha casa e fui até o mercado. Não conheço muito álcool, então decidi comprar o vinho que eu sempre levava em algum rolê. O vinho da garotada. Comprei o vinho e fui até o tubo do ônibus. Entrei lá com um vinho dentro de uma sacola e sob muitos olhares. O ônibus chegou. Consegui um lugar, milagrosamente. Era noite já, perto das 20h30min e estava garoando. Que dia perfeito para uma festa. Quando cheguei lá no terminal do bairro da faculdade, desci e fui para uma esquina qualquer. Encostei-me no prédio atrás de mim e acendi um cigarro, ao mesmo tempo que digitava umas mensagens no celular, para meu colega me dizer onde que ficava o maldito prédio dele. A noite estava bacana. Eu olhava para o céu enquanto dava umas tragadas no meu cigarro. Responderam a minha mensagem, me dando pontos de referência. Alguns instantes depois, eu estava esperando na frente do prédio do meu colega. Nesse prédio moravam três colegas meus, uma puta coincidência. Antes mesmo deles se conhecerem na sala de aula, já moravam no mesmo prédio. A minha colega, Fernanda, desceu para me receber. Ela disse que tinha uma galera na casa do nosso terceiro colega e que logo eles estariam indo para o apartamento do Tiago (onde faríamos o esquenta). Subimos até o apartamento de Tiago. Ela bateu na porta algumas vezes.

— Tá aberta, pode entrar! – disse o Tiago do lado de dentro do apartamento.

Virei a maçaneta e empurrei a porta para frente. Ao entrar no apartamento, me deparei com Fernando deitado abraçado com outro colega nosso que chamávamos de Maringá. Percebi imediatamente o que estava acontecendo e levei numa boa. Só fiquei surpreso, pois sempre achei que Maringá fosse heterossexual. Dias depois, descobriria que os dois estavam em um relacionamento sério. A vida surpreende!

— E aí, cara. To muito feliz que tú tenha vindo! – disse Tiago, me cumprimentando com um aperto de mãos. Me virei para Maringá e cumprimentei-o também – Olha, pode ficar a vontade, a casa é sua!

Entreguei o vinho para Tiago, que o guardou na geladeira. Os dois haviam tentado fazer caipirinha, mas não tinha dado certo. Falei que ia tentar fazer também, catei os ingredientes e busquei no Google como preparar. Assisti a um vídeo de um cara qualquer e fui seguindo os comandos. Quando terminei, estava péssimo. Apesar do limão e do açúcar, o gosto da cachaça ainda era bastante evidente. Tomamos mesmo assim porque, bem, somos jovens e queremos fazer cagada. Não façam cagada. Vivam tranquilamente, por favor. Terminamos de beber a caipirinha. Maringá queria tomar uns shots. Servi o resto de tequila que tinha nós dois copinhos de vidro. Respirei fundo e virei. Por alguns segundos, achei que minha garganta nunca mais funcionaria normalmente. Mas depois voltou ao normal. Não demorou muito para eu começar a sentir o álcool fazer efeito. Logo, já estava dançando com meus dois amigos, na frente da televisão, acompanhando o clipe do Justin Bieber. Pedi uma pausa e perguntei para Tiago se eu poderia fumar na sacada dele. Ele disse para eu pegar algum copo e usar de cinzeiro. O fiz e me dirigi para fora.

A sacada era bem pequena, só cabia umas duas pessoas em pé, já coladas uma na outra. Tirei um cigarro do maço e o acendi. Enquanto fumava, comecei a mexer no meu celular. Loba havia me respondido alguma coisa. Chequei a mensagem, mas não era nada demais. Mandei alguma coisa para ela, mas não me lembro o que. Fiquei lá fora por alguns minutos enquanto fumava, depois entrei e decidi abrir o meu vinho. A galera começou a chegar, trazendo mais bebida e dançando e eu lá, bebendo meu vinho e mexendo no celular. O tempo foi passando e eu fui ficando cada vez mais alterado. Percebi que já não era mais o mesmo que entrou por aquela porta do apartamento. Sai na sacada para mais um cigarro. Peguei meu celular, vi uma mensagem da Loba e respondi. Decidi ligar para ela. Eu estava morrendo de saudades dela e eu queria muito que ela soubesse disso. Mas eu tinha medo de falar, pois eu achava que isso só iria pressionar ainda mais ela, e acabar afastando a gente um do outro. Disquei o número dela no meu celular.

— Alô? – disse ela ao atender o telefone.

— Oi Loba! Sou eu!

— Oi! Tudo bem contigo?

— Tudo sim, eu tô num esquenta aqui, com uns colegas da faculdade. Daqui a pouco a gente vai para uma festa.

— Porra, que maneiro!

— E eu queria te falar uma coisa. Mas não se se devo.

— Ai, vai começar com isso! – não era a primeira vez que eu queria falar uma coisa para ela, mas tinha medo. Além de eu não falar o que tinha que falar, dizia que estava com medo de afastá-la. Ela sempre dizia que eu era inseguro e, como visto no primeiro capítulo, que eu deveria parar de me preocupar com algo que não aconteceu ainda.

— Ah, eu tenho medo de falar essas coisas pra você.

— Fala de uma vez, poxa!

— Eu queria dizer que sinto a sua falta, só isso.

— Não era isso que você queria falar. Pode falar logo!

— Eu juro, era isso mesmo! Eu tô com saudades de você.

— Ah, beleza.

— O que? Só...só isso?

— Desculpa. – ela disse isso quase como se lamentasse de verdade.

— Ah, então tá.

Tivemos um momento silencioso ao telefone. Só podia escutar a música dentro do apartamento e as risadas dos meus colegas.

— Eu também sinto a sua falta. Quando você não tá desse jeito. – disse ela, finalmente.

— Desse jeito como?

— Assim, todo inseguro e desconfiado, poxa! Já falei pra não se preocupar!

— Mas eu não consigo não me preocupar, é que eu me importo muito com-

— Ah, cara, vai pra sua festa. Amanhã a gente conversa. – dito isso, Loba desligou o telefone.

Fiquei me perguntando o que será que eu havia feito de errado. Talvez a minha preocupação com ela fizesse parecer que eu não confiava nela. E também o meu medo de falar essas coisas para ela. Ou então, talvez fosse o fato de eu estar bêbado no momento da ligação. De qualquer maneira, desliguei meu celular e entrei para dentro. A galera decidiu ir pra festa de uma vez, então fomos.

Saímos do prédio do Tiago e seguimos para o terminal. Entramos em um ônibus e assim seguimos para a festa. Ao chegarmos lá, ficamos um pouco do lado de fora, então acendi mais um cigarro. O lugar estava bem movimentado, cheio de gente do lado de fora. Já me perguntava como seria lá dentro. Eu nunca havia dançado pra valer antes. Ou chegado em garotas numa festa. Não sabia que porra eu ia fazer naquele lugar. Mas mesmo assim, ali estava eu. Seguimos para entrada, fomos revistados e enfim entramos. A música estava alta (mas era uma música muito boa) e uma luz negra permeava o lugar. A maioria das pessoas estava vestida de branco para a tinta poder brilhar mais. Era um festival de cores dançantes. Eram desenhos e frases. A maioria das frases escritas nas camisetas era bem cômica, do tipo “me beije” e coisas assim. Era uma festa indie, então as músicas eram realmente boas. Não era aquela baboseira eletrônica ou sertaneja de sempre. Andamos em direção a uma mesa que continha vários potinhos de tinta e alguns marcadores de texto. Começamos a nos pintar e a nos contagiar com o clima do lugar. Quando me dei conta, já estava dançando no meio daquela gente. Dançamos por 4 horas seguidas e eu estava me divertindo para caralho. Ai a noite terminou.

Peguei um táxi com Tiago e Maringá. Paramos em um McDonald’s às 4 horas da manhã e comemos uns hambúrgueres. Fui dormir no apartamento de Tiago. Dormi na cama dele, após tomar um banho para limpar toda a tinta do meu rosto. No dia seguinte, de manhã, tomei um café e dei tchau para os dois. Fui para o terminal e peguei um ônibus. Desci na minha casa e fui para meu quartinho minúsculo. Mandei alguma mensagem descontraída para Loba e fui dormir. Acordei no meio da tarde. Decidi ligar para a Loba novamente, pedir desculpas ou sei lá que porra eu ia fazer. Disquei o número.

— Oi! Como você tá? – perguntou ela toda gentil, ao atender o telefone.

— Estou bem e você?

— Também! Como foi a festa?

— Foi bizarro. Me senti estranho e bem ao mesmo tempo. Mas, ein...

— O que foi?

— Só pra você não pensar que eu falei aquilo pois estava bêbado, mas eu realmente sinto a sua falta, gosto muito de você.

— Beleza! – o momento estava se repetindo. Puta que pariu.

— Ah, então tá.

— Foi mal. – ela se desculpou de novo. Novamente, um silêncio constrangedor tomou conta da conversa. Comecei a ficar meio tenso e desconfortável. Minha cabeça estava a mil por hora e eu não sabia o que falar.

— Tá...tchau. – eu disse, quebrando o silêncio. Desliguei o celular antes dela poder responder.

O dia foi chegando ao seu fim e eu já havia fumado uns 4 cigarros de tão nervoso que estava com a situação toda. Eu estava tomado por um turbilhão de sentimentos. Estava inseguro, não sabia mais se aquilo daria certo. Em alguns momentos era tudo lindo e em outros, eu me colocava em uma posição ridícula, cuspindo meus sentimentos e levando um chute no saco como resposta. Por essas e outras, fiquei surpresa quando Loba me ligou.

— O que foi? – eu disse, indo direto ao ponto

— Ah, não! Não vamos ficar assim! Eu sinto a sua falta, mas como eu disse ontem, não quando você começa com esse seu medo de me afastar! Se você não quer me falar, tudo bem. Mas, pelo amor de deus, não joga o assunto no ar e deixa sem explicação! Já sou naturalmente ansiosa com as minhas incertezas! – ela falou isso de um jeito que me pegou de surpresa.

— Mas o que você quer que eu faça? Eu falei o que eu queria e você reagiu mal! Essas suas incertezas me preocupam! Agora você fala que sente a minha falta, mas se eu falo que gosto muito de você, eu sou destroçado! Não sei se você faz isso de propósito, mas eu não aguento isso. Eu quero falar o que sinto pra você. Só que você não colabora!

— Você não tá entendendo. O problema não é o assunto, o problema é essa sua preocupação! Esse seu medo de me afastar! Você é muito inseguro. Mas tá, faça o que te faz bem. Eu também não sei como lidar com isso.

— Tá bom, então vou anotar aqui: nunca mais falar o que eu sinto. Assim não tem problema para ninguém, tá bom assim?

— Você não tá entendendo. Mas de boa, se essa é a solução. Vou indo aqui, até mais. — então ela desligou na minha cara. Eu fiquei puto com a situação toda. Não sabia o que pensar.

Sabe, talvez ela até tivesse razão. Eu deveria falar as coisas sem medo. Ser sincero mesmo. Mas como eu faria isso, sabendo que ela não gostava? Como eu poderia me abrir, sabendo que não seria correspondido? Ou então eu sou correspondido e ela simplesmente não admite. Sei lá. Enfim, naquela mesma noite eu acabei mandando uma mensagem para ela. “Vou comentar o Oscar mesmo sem você aqui”. E ai comecei a dizer o que eu pensava dos ganhadores e da premiação no geral. Ela voltou a me responder e nós agimos como se nada tivesse acontecido. Então ela me chamou para sair. Em uma segunda feira. Ela trabalha à tarde, então só conseguiríamos sair a noite, assim como foi na primeira vez que nos vimos.

Quando cheguei na praça, estava bem frio. Acendi um cigarro enquanto esperava ela. Ela chegou. Estava usando roupas bem descontraídas. Uma calça jeans, um moletom com um capuz. Estava frio para caralho. Ela sentou lá e enfiou os braços dela por debaixo do meu casaco, me envolvendo em um abraço. Nunca mais falamos sobre a briga. Nunca mais falamos sobre sentimentos.