É por isso que eu odeio o futuro!
17 Capítulo 17- Untitled
Notas iniciais
Tentar adivinhar o futuro pode ser uma grande perda de tempo. Mas viver relembrando o passado pode ser muito mais. Afinal, a única constante da vida é a mudança...
Todo castigo pra pobre é pouco. E eu concordo em gênero, número e grau. E não só porque o meu calvário começou ainda na faculdade. Mas sim porque eu não sou capaz de chegar aqui e dizer que eu aprendi com os meus erros. Porque não aprendi nem uma vírgula.
Na verdade, por incrível que possa parecer, a minha vida foi bastante monótona até os meus dezoito anos. Claro que depois disso eu não montei em um dinossauro verde e entrei numa guerra apocalíptica ou algo do tipo. Mas foi nos meados do meu primeiro semestre de comunicação social que as coisas começaram a mudar.
O meu pai se recusou a me ajudar com qualquer assunto em ralação à faculdade, pelo fato de eu não ter feito o curso de direito como ele queria. E por conta dessa bronca, eu precisei me virar completamente sozinho com tudo. Não é que tenha sido impossível fazer isso, visto que a minha dependência por ele já era mínima, mas digamos que eu acabei em um ponto onde a única diferença entre eu e um zumbi, era que o zumbi pelo menos parava para comer.
E pra completar, eu já havia me dado conta de que eu não sentia qualquer atração pelo sexo oposto. Mas as coisas entre eu e meu pai já estava uma grande porcaria, então eu não queria e nem pretendia comentar o assunto com ele. Só que, como eu disse, todo castigo é pouco. E foi em uma mistura de burrice e azar que eu acabei complicando a minha vida.
Gustavo havia resolvido me contar sobre ele e Camila. Não que eu tenha me importado muito. Afinal, Camila o perseguia a mais de dez anos, e se a guria teve determinação o suficiente para convencê-lo a sair com ela, ela merecia um final feliz. Por isso a minha gloriosa resposta foi:
— Legal.
Embora Gustavo não tenha gostado dela. Ele achou que eu estava fazendo pouco caso ou sei lá. Mas eu juro que não foi isso.
— Isso é tudo que você tem a dizer?
Levantei o olhar e o fitei.
— Gustavo, não há o que dizer. Você está namorando a Camila. Legal! Parabéns. Felicidades. A propósito, esteja ciente de que vai se casar com ela.
Ele esboçou um pequeno sorriso, mas que não chegou a se formar completamente.
— Você pode prever o futuro agora? Joga búzios e cartas também? – Ele brincou com sarcasmo.
— Não posso prever o futuro. Posso prever a minha irmã. E... O meu pai. – Respondi. – Ele vai fazer você casar com ela assim que souber. Porque ele te considera o filho que ele nunca teve.– Fiz as aspas com os dedos e entoei a voz para imitá-lo.
Gustavo apenas balançou a cabeça.
— Ainda estão brigados? Pensei que isso teria passado há meses...
— Eu também. E se ele soubesse como esta foi só a pontinha do iceberg...
Gustavo examinou meu rosto atentamente por alguns segundos.
— O que você aprontou agora, Alex?– Ele inquiriu, apertando os olhos.
— Nada que necessite de seus serviços, senhor advogado.– Revirei os olhos. – É uma coisa pessoal. Bem pessoal, diga-se de passagem. – Suspirei.
— É tão ruim assim?
— Digamos que... É provável que até você, não me apoie muito nessa...– Sorri torto para ele.
Gustavo revirou os olhos.
— Poupe-me dos seus dramas, Alexander. Te apoiei até quando você teve a brilhante ideia de colocar uma bomba no banheiro dos professores. Não pode ser tão ruim quanto aquilo.
— Eu não sabia que era ilegal! – Me defendi.
E foi aqui que entra a burrice.
Em um refeitório de faculdade, eu, estressado e precisando conversar com alguém, resolvi contar todos os meus problemas para Gustavo. Incluindo a minha sexualidade. E ele ficou completamente estupefato, por falar nisso. E nem disfarçou. Não que eu o culpe. Mas pelo menos ele me escutou como um bom amigo.
—Eu entendo que isso esteja te afligindo. – Ele disse após um suspiro. mas não encare dessa forma, Alex. Isso não muda de nenhuma forma a pessoa que você é...
Olhei cansado para ele.
— Não me acha estranho?
— Te acho estranho desde o primário, quando você me jogou de cima do escorregador.– Ele comentou com bom humor.
Já contei que Gustavo possui uma memória excelente?
Mas preciso confessa que as palavras dele foram de imensa importância na minha vida. Por isso não hesitei em sorrir e dizer um sincero obrigado.
O problema é que, se hoje em dia ainda existe diversos preconceitos, não queira sequer imaginar como as coisas eram no início do século. Porque era mil vezes pior.
E aí entra o azar.
Eu não sabia como, mas de alguma forma, na segunda feira até a Bélgica estava sabendo sobre a aquela conversa. E é claro que os boatos que surgiram a meu respeito não foram muito gentis. É engraçado como um simples calouro desconhecido pode acabar sendo motivo de fofoca de toda uma universidade apenas por "não ser como os outros".
Na hora eu fiquei meio indeciso entre ir lamber uma cerca elétrica ou afogar Gustavo em um poço. Mas me decidi pela segunda opção.
Não foi tão difícil encontrá-lo. Até porque ele também estava me procurando. E esse foi o motivo para qual assim que me viu, Gustavo levantou as mãos em paz e gritou:
— Eu juro que não contei a ninguém.
— Tem razão. O foi a fada da fofoca que contou.– Bradei de volta. – Muito obrigado por fazer isso comigo!
— Eu não fiz! Alex, eu jamais teria feito algo desse tipo. Ele falou quase que em desespero. O refeitório não estava vazio. Alguém escutou e espalhou. Mas não fui eu. Juro.
Respirei fundo e contei até dez para me acalmar. Certo. Gustavo era meu amigo há anos. Não era do tipo que faria essas coisas.
— Tá. Tá, eu acredito. – Assenti. – Mas isso não melhora a minha situação. Acredita que estão dizendo que eu tenho um noivo e que vamos fugir parar nos casar? Que ideia estúpida é essa?
— Alex, eu descubro quem foi se quiser...– Gustavo se apressou em dizer, mas dispensei a ajuda.
— Esquece. Lido com isso sozinho. Um problema de cada vez.– Bufei.
E no final, não foi tão difícil assim achar quem começou. Não que eu me lembre do nome da beltrana que resolveu fuxicar a conversa a alheia, mas pelo menos ela teve a dignidade de me pedir desculpas e dizer que não teve intenção de fazer toda aquela balburdia. E que apenas havia comentado com umas amigas. Que comentaram com outras amigas, que comentaram com os namorados...
A verdade é que eu estava pouco me ferrado para o pessoal da universidade. Por mim, eles poderiam achar que eu era uma vaca alemã que em nada mudaria a minha vida. O real motivo de preocupação é que era apenas uma questão de tempo até isso chegar aos ouvidos dos meus pais. E aí sim, as coisas tomariam proporções gigantescas.
Usando a teoria de quem não deve, não teme, achei que o melhor a fazer seria eu mesmo contar, antes que os dois soubessem por terceiros. E do jeito que os boatos estavam, eu não queria nem imaginar qual seria a história que contariam a eles.
Agora... O problema nem de longe era a minha mãe. Conhecia-a o suficiente para saber que nada mudaria entre nós, mas sentia meu estômago embrulhar só de pensar no meu pai. Ele sempre foi um homem ditador, e eu, ao ver dele, era o filho rebelde que não seguia suas ordens. Meu pai nunca entendeu que eu também sou uma pessoa, e não um algo que poderia ser moldado de acordo com as vontades dele.
Eu, que não sou besta nem nada, resolvi contar pra minha mãe primeiro. Então cheguei de mansinho na cozinha e me encostei perto do armário.
— O que você fez agora, Alexander? – Ela questionou assim que me viu, colocado as mãos na cintura.
Acabei sorrindo da reação.
— Por que todos vocês me perguntam isso?
— Sempre que o mocinho entra desse jeito é porque andou aprontando novamente. O que foi agora?
— Só queria conversar com você...
Continuei sorrindo para ela e então suspirei. E comecei a falar.
Sempre que fico muito nervoso nada de bom sai da minha boca, então eu particularmente não sei se contei a ela ou se simplesmente disse que gostava de bodes dourados. Mas seja lá o que eu realmente tenha dito, minha mãe apenas me abraçou e murmurou pra mim "está tudo bem", porém eu senti que até mesmo ela estava temendo por mim.
Mas só de ter a minha mãe ao meu lado, eu realmente não me importei. Enfrentar o meu pai era algo que eu realmente vinha fazendo há muito tempo. E quem tá na chuva é pra se molhar. Então o quanto mais rápido aquilo acabasse, melhor seria.
Lembro que ele estava sentado no sofá lendo um jornal com cara de poucos amigos. Eu já trocava poucas palavras com ele, e quando trocávamos era briga. Então, dá pra imaginar como foi parar na frente dele e dizer com todas as letrinhas a frase: "eu sou gay". Na verdade, não foi nada legal. E a reação dele também não foi nada que realmente valha a pena ser lembrada. Mas digamos que eu ouvi muita coisa, aguentei muita coisa e senti muita coisa naquele dia.
Para ter uma ideia, a coisa mais sutil que ele me disse foi:
— Você por acaso sabe quem eu sou ou o cargo que exerço? Claro que sabe. Mas não podia perder a oportunidade de envergonhar toda a sua família, como sempre.
Mas a pessoa que mereceu todo o crédito de coragem aquele dia, com toda certeza, foi a senhora minha mãe.
— Não fale assim com o meu filho! – Ela gritou exasperada. – Você não tem qualquer direito de dizer metade dessas coisas a ele. Alex não é uma nova versão de você, Leon. Ele tem total direito de viver a vida dele e de ser feliz como bem quiser. E com quem quiser!
— Então ele que não se considere mais o meu filho...
Para resumir... Acabou em um grande barraco, que eu aposto que a vizinhança inteira escutou. Não que eu tenha tido vontade de discutir com meu pai, porque eu não tive. Mas mãe encarnou a mamãe ursa ou sei lá o que, e não perdoou o pobre do meu velho.
Mas foi Camila, que entrou no meu quarto poucas horas depois e me abraçou.
Contar a verdade aos meus pais não mudou em nada a minha vida universitária. Embora eu ainda estivesse esperando algum nerd entrar em coma alcoólico para que os boatos mudassem de foco, mas até então, nada de muito interessante havia acontecido. Bom, desde que não considerem a chegada dos exames. Porque é claro que a maioria estava mais ocupada estudando, do que falando da vida alheia.
Eu, como pobre mortal que sou, também tive que me submeter aos livros e anotações, visto que a minha matemática ainda era uma bosta e que era muito provável que eu me ferrasse em economia.
Eu estava sentado na grama olhando para o caderno, mas pensando na morte da bezerra, quando alguém resolveu parar na minha frente e fazer sombra sobre mim. E isso fez com que eu saísse dos meus devaneios.
Levantei o olhar e tentei ver quem era que estava atrapalhando meu momento de meditação, mas por conta da claridade tudo que eu consegui distinguir foi a sombra de um cara muito alto. Apertei os olhos e coloquei a mão sobre a testa.
— Oi! – Ele disse, antes que eu me pronunciasse.
— Oi.– Respondi de volta, não tão cortês.
Ele se abaixou, sentando na minha frente e me encarou...
E foi a primeira vez que eu o vi. Os cabelos escuros estavam um pouco mais compridos na época, mas desde sempre mostrava aquele sorriso de escárnio como se o mundo o divertisse.
— Eu estava curioso para saber que tipo de pessoa era você. – Ele proferiu depois de um tempo. – Preciso dizer que estou surpreso...
Levantei as sobrancelhas.
— Eu te conheço?
— Não. – Ele riu.– Mas eu te conheço. Assim como a maioria das pessoas por aqui.
— Eu não sou uma atração de circo! – Vociferei.
— É claro que não. – Ele disse calmamente. – Mas eu quis muito ver com meus próprios olhos o rosto do garoto que depois de virar protagonista de diversos boatos, continuou desfilando de nariz em pé pelos corredores...
— E então? Quer tirar uma foto? Um autógrafo talvez? – Ironizei.
— Não precisa entrar em modo de defesa, gatinho. Eu não quero te domesticar.
— Você está aqui pra tirar sarro da minha cara ou algo do tipo? Porque se for, será que poderia ficar pra depois dos exames? – Balancei a cabeça e voltei meus olhos para as anotações.
Ele nem se mexeu.
— Não estou aqui pra isso. Eu já disse. Apenas queria te conhecer pessoalmente.
Levantei a minha cabeça novamente.
— Por quê?
— Porque você tem personalidade muito interessante. – Ele colocou a mão sobre a boca como se fosse contar um segredo. – Isto está em falta por aqui.
Acabei deixando um sorriso escapar.
— Olha só! Ele também sabe sorrir. – Ele brincou.
— Eu nunca disse que não sabia. – Respondi. – Só não gosto de pessoa que ficam se metendo na minha vida, como se eu fosse uma celebridade ou uma aberração.
— Eu não penso nada disso... – Ele se acomodou ao meu lado. – Acho que eles falam de você por causa da sua pose.
— Não faço pose! Eu só não devo nada a eles para ficar abaixando a cabeça toda vez que passam por mim. – Ralhei.
— Por isso que é interessante.– Ele fechou os olhos e levantou a cabeça em direção ao sol.
— Agora eu tenho um fã. Que maravilha.– Revirei os olhos.
— Eu não sou seu fã. Sou um admirador.– Ele falou falsamente ofendido.
Acabei sorrindo novamente.
— E vamos ficar trocando conversa á toa sem apresentações?
O meu maior defeito era esse. Me dobrava facilmente por sorrisos e palavras...
— Não está mais de mau-humor?
— Talvez.
— Meu nome é Vitor. Segundo semestre em letras. – Ele esticou a mão e eu a segurei de volta.
— Eu sou...
— Eu sei. – Ele interrompeu. – Alexander, o grande.
É claro que sabia...
— Não seria Alexandre? – Questionei.
— Na versão inglesa se pronuncia Alexander. – Vitor deu de ombros. – O que você estava fazendo? –Ele perguntou olhando para o caderno em meu colo.
— Estudando economia. Eu sou um desastre em matemática. – Respondi sincero.
— Você quer que eu te ajude?
Arquei a sobrancelha para ele.
— Você é bom em cálculos? – Perguntei.
— Em cálculos e em várias outras coisas também.– Ele me mostrou o sorriso debochado.
Desviei os olhos.
— E porque você se ofereceria de bom grado em me ajudar?
— Porque estou tentando ser seu amigo. – Ele respondeu casualmente.
— Amigo? –Indaguei sem muito interesse.
— Decepcionado? Por acaso já estava pensando em algo mais?– Ele piscou.
— Cara, você é patético. – Falei.
— Não vá se apaixonar por mim, Alexander. –Ele avisou, com um sorriso.
— Eu não faria algo tão idiota.
— Claro que não.
E o pior foi que nos tornamos amigos inconscientemente. Não sei se por coincidência ou não, mas Vitor esteve sempre cruzando o meu caminho desde então. E me irritando com os sarcasmos exagerados dele.
As coisas na minha casa estavam o caos. Meu pai já não olhava mais na minha cara, minha mãe não suportava mais aquela situação e eu sabia que isso fazia mal principalmente a Camila. Mas eu me esquecia de tudo isso quando Vitor fazia ou falava alguma coisa idiota, apenas para que eu esboçasse o menor dos sorrisos. E isso se arrastou por três semestres. Os boatos ficaram quase que inexistentes, e ninguém se importava mais com o que eu era ou deixava de ser.
Eu estava me especializando em publicidade e propaganda, e cada vez mais as matérias ocupavam o meu tempo. O que eu achava ótimo. Ter que pensar na confusão que estava a minha vida fora do curso era deprimente. Então eu meio que ficava na universidade mesmo após as minhas aulas.
Vitor sabia das minhas falhas tentativas de fuga da minha família, por isso ele começou a me arrastar para festas meio sem noção que ele arrumava.
Eu realmente não me lembro da primeira que fomos, visto que também foi a primeira vez que eu tomei o maior porre da minha vida. E também experimentei a tão famosa ressaca. Porque a galera fala muita coisa sobre festas, mas ninguém se lembra de comentar sobre a maldita ressaca.
Mas foi em uma dessas festas que eu e o Vitor acabamos ficando juntos. Não que tenha sido algo com sentimento. Nós apenas estávamos meio chapados, olhamos um pra cara do outro e pensamos por que não?. Então quando ele me beijou, eu correspondi de bom grado. Mas foi tão idiota, que quando nos separamos, começamos a rir que nem malucos.
Gente bêbada não se explica. Dica.
O problema foi que acabamos ficando outra, e mais outra e mais outra. E eu comecei a gostar daquilo. A gostar de mais, pra ser sincero. E eu isso foi péssimo. Porque tudo que eu não precisava na minha vida era começar a gostar de um idiota. Mas o coração é tão burro quanto o dono dele, e não deu ouvido.
Como não sou do tipo que consegue guardar um sentimento por muito tempo, acabei falando para ele. Porém eu achei que se ele fosse me dispensar. Então eu ficaria triste por um tempinho e depois seguiria minha vida normalmente. Aliás, essa teria sido a melhor coisa a acontecer. Teria evitado uma penca de problema futuros.
Mas não. Por incrível que pareça, Vitor me disse que também queria que as coisas entre a gente ficassem sérias.
E eu, bobo apaixonado... Acreditei.
Pode parecer brincadeira, mas eu realmente gostava dele. E não me importo de confessar. Apesar de ver o quão idiota isso me parece agora. Porque no começo tudo são flores, confete e purpurina. Ele é perfeito. Você é perfeito. O mundo é perfeito e vocês dois se amam. Mas com o passar do tempo, não é bem assim que a banda toca.
Quase no final da faculdade eu precisei começar o meu estágio.
Estágio no vago sentido da coisa, diga-se de passagem. Porque eu me tornei muito mais um escravo, que um estagiário. E tudo porque eu encontrei a penitencia dos meus pecados.
Quando vi Roberto pela primeira vez, confesso que eu fiquei abismado. Até porque quando me falaram sobre o diretor do setor eu jamais teria imaginando que seria um homem daqueles. Ok, confesso que imaginei que ele seria mais velho. Bem mais velho. E não um cara com uma aparência demasiadamente acima da média e apenas cinco anos mais velho que eu.
Mas depois eu descobri que a aparência era para compensar a personalidade terrível. Não precisamos ficar um do lado do outro por mais do que trinta minutos para perceber o quanto éramos opostos. Ele era quase perfeito. Impecável, beirando a maravilha. E eu, bom...
Pra resumir, ele era gelo e eu era o fogo.
E enquanto a minha carta de alforria não chegava, eu me submetia às ordens do diretor do mal, que me mandava fazer desde as coisas mais estupidas até as mais impossíveis. Era toda hora: Alex tire copias disto, revise as planilhas, reorganize os arquivos, faça um feedback dos últimos planos de ação de marketing da empresa, encontre hipopótamos que saibam cantar o hino nacional em mandarim e os vista de bailarinas até as cinco, e por aí vai...
Embora meu estágio tenha durado apenas um ano, Roberto conseguia fazer com que eu tivesse vontade de me jogar das escadas todos os dias. Ele foi o meu inferno pessoal por todo aquele período. Sem contar que eu podia jurar que ele gostava tanto de mim, quanto gatos gostam de tomar banho, e estava só esperando o estágio chegar ao fim para que eu vazasse e nunca mais aparecesse na frente dele. E acredite, o desejo era mutuo.
Mas eu não o odiava. Por incrível que pareça. Até porque eu já estava bastante acostumado a lidar com caras egocêntricos. Eu namorava um. E as pessoas me diziam que isso era comum. Que ele estava testando a minha capacidade e blábláblá...
Porém, assim que eu terminei o estágio e me formei, não tenho nem cara para dizer o quanto meu queixo despencou quando ele me disse que gostaria de me efetivar. E eu aceitei. Pois é. Mas fazer o que? Um recém-formado, com uma proposta de emprego tão boa assim, do nada? Eu seria retardado se recusasse.
— Eu quero você na gerencia. – Foi o que ele me pediu e eu pasmei.
— Eu acabei de me formar! – Rebati. – Não posso entrar em um cargo tão alto, de cara! – Quando a esmola é muita, o santo desconfia. E o meu santo era quase um Sherlock Holmes.
— Irei abrir o jogo com você. –Ele cruzou as mãos sobre a mesa.– Marco recebeu uma proposta de emprego em uma filial em Nova York...
— Legal. Meus parabéns ao Marco. –Respondi confuso. – E onde eu entro nessa história comovente?
Ele revirou os olhos.
— Marco é quem está atualmente no cargo de gerente.– Ele falou devagar, como se eu fosse idiota.
— Eu sei!
— Você esteve trabalhado aqui por um ano. Sabe muito bem como trabalhamos e também já sabe quais são os projetos de prioridade do semestre. Seria um desperdício de tempo procurar por outro funcionário e treina-lo. Vamos juntar o útil ao agradável, sim?– Ele sorriu.
Apertei os olhos para ele.
Foi quase como fazer um pacto demoníaco. Nada que vem tão fácil seria sem custo algum. E aquele cargo me custou muito caro...
Após a separação, eu posso contar nos dedos às vezes que eu encontrei meu pai pessoalmente. E só houve uma única vez que em que ele não me tacou pedras: Quando me viu indo trabalhar. É claro que ele soltou um comentário desagradável, mas isso era de praxe. Porém o que realmente me chocou foi quando ele disse: vendo você vestido dessa forma, talvez eu possa sentir o mínimo de orgulho por você. Choveu por uma semana após essa pérola.
Por outro lado, mamãe havia reencontrado David Burk em um supermercado, e o velho professor não perdeu a chances de dar em cima da minha mãe assim que soube da separação. Minha mãe é uma mulher bonita, cá entre nós. Mas ele também não precisava ter sobrevoado a coitada como um abutre. E tudo começou com um poderíamos jantar qualquer dia desses... Enfim, não dá pra ficar contando a história do novo romance da minha mãe.
Até porque foi mais ou menos por aí que as coisas com Vitor foram de maravilhosas para decadentes. Ele, que também havia se formado, estava trabalhando em uma editora, e nós quase não nos encontrávamos mais. Mas eu ainda sentia falta dele.
Nos primeiros seis meses no meu novo cargo, eu acabei responsável por gerenciar um portfólio de uma empresa de cosméticos, de cem milhões de reais! Não que eu tivesse qualquer tempo para comemorar qualquer sucesso pessoal. Roberto não deixava e Vitor muito menos. E com os dois, atravancado meu caminho, eu estava cada vez mais sob stress.
— Eu vejo mais o carteiro, do que você...–Vitor falava.
Eu estava com o telefone apoiado no ombro enquanto tentava digitar.
— Eu sei! As coisas estão particularmente estressantes para mim também. Eu tenho uma pilha de contratos pra revisar e uma lista telefônica de gente para convocar. Acha mesmo que eu não daria tudo para está curtindo com você? –Ralhei, em tons baixos.
— Você é quem não sabe conciliar a sua vida! –Ele rosnou.
— E você só pensa em si mesmo.
Escutei Vitor suspirar.
— Vai ficar aí até mais tarde de novo? – Ele perguntou.
Olhei para a pilha de contratos. E talvez desse para terminar antes do fim do expediente.
— Hum...Não. Provavelmente não. Posso te ver hoje?
— Acho que...
Antes que pudesse entender o que ele iria falar, Roberto se materializou ao meu lado com uma carranca que se eu já não estivesse acostumado teria dado um salto da cadeira.
— Você já terminou os slides de reunião de sexta? – Ele inquiriu alto.
— Anhã! – Respondi sem prestar atenção, visto que eu ainda estava tentando digitar.
— Ótimo!–Escutei Vitor triunfante do outro lado.
Espera... Ótimo oque?
— Só um minuto... – Pedi a Roberto, parando também de digitar. –Ótimo o que? – Perguntei no telefone.
— Passarei aí umas sete e meia.
— O que?
Mas ele havia desligado. Aliás, ele não havia desligado. Roberto havia.
— Eu não pago seu salário para você ficar resolvendo sua vida pessoal no escritório!– Ele falou entredentes.
— E eu não trabalho pra aguentar sua falta de educação! – Espinafrei.
Acredite, esse tipo de coisa era bem comum. Eu jogava coisas na cara dele e ele jogava na minha. Brigávamos o tempo todo por divergência de opinião. Mas no dia seguinte, voltava os dois com a maior cara de pau, fingindo que nada havia acontecido. Era uma relação de eu preciso de você e você precisa de mim, então cale a boca.
Não que ele perdesse a chance de se vingar depois. Por isso que não demorou muito para jogar uma segunda pilha sobre a minha mesa.
— Refaça o relatório da última campanha e me entregue ainda hoje.
Meu queixo caiu. Eu havia passado três noites fazendo a merda daquele relatório.
— Você quer o quê?
— E os contratos precisam ser enviados para o comex até amanhã de manhã.– Fiquei parado o encarando.
Na minha mente, uma voz falava calma e lenta: Não o enforque, Alex. Não vale a pena passar o resto da sua vida na cadeia por causa dele... Não o mate!
Roberto simplesmente virou as costas e marchou para sua sala. Como se eu tivesse alguma culpa pelo terrível mau humor dele.
Marta, a secretária do diretor demoníaco, se aproximava lentamente da minha mesa, enquanto eu tentava não entrar naquela sala e o assassinar com o teclado.
—Dia ruim, querido?– Ela perguntou com sua voz macia.
— Não, Marta. – Falei cansado.– Pro meu dia ficar ruim, ele precisa melhorar mais da metade. Mas obrigado por perguntar.
Visto que isto estava bem em falta na minha vida. Minha mãe estava curtindo sua lua de mel. Meu pai estava querendo me linchar. Camila e Gustavo estavam pensando em se casar e preocupados com a vida deles. E Vitor jogava toda a culpa dos problemas em cima de mim.
Suspirei.
— Ele me odeia. Só pode.
Marta soltou um sorrisinho.
— Não odeia. De todas as pessoas por aqui, você é a que ele mais presta atenção.
— É por isso que ele me enche tanto o saco. – Sussurrei para ninguém em particular, e comecei a trabalhar.
As pessoas ao meu redor começavam a sair e a se despedir, enquanto eu continuava colado a minha mesa. Marta passou por mim antes de sair e moveu os lábios dizendo: “Parece que ele também vai ficar” apontando para a sala de Roberto. Revirei os olhos.
Nos últimos meses eu estava passando mais noites com o meu chefe, do que com meu namorado. Ignore a ironia.
As correções do relatório eram ridículas e foram só pra me irritar, e ele havia tido muito sucesso nisso.
O relógio marcava pouco mais que oito da noite, quando o celular tocou.
— Onde você está agora? – Vitor perguntou.
Merda. Eu havia esquecido.
— No mesmo lugar que estive nas últimas horas.– Respondi e apertei o nariz. Meus olhos pesavam, e eu já não dormia bem há séculos.
— O que é que você faz tanto aí?
— Jogo futebol! – Me irritei. – Aproposito, quando me ligou eu estava quase marcando um pênalti.
Vitor emitiu algo que acredito ser uma risada.
— Uns caras aqui me chamaram para sair hoje. Que ir?
Ainda havia mil coisas mais quatorze a serem feitas, então nem sonhando ia dar pra fazer isso. Sem falar que eu particularmente não ia muito com a cara dos amigos do Vitor.
— Ainda tenho coisa por aqui.
— Ah. Mas você não vai se importar seu eu for, não é? – Vou sim. – Você sabe... Eu tenho a minha vida também...
Muito legal da parte dele dizer isso para mim...
— Anhã. Tem razão. A vida é toda sua. Faça o que bem entender com ela.
Não esperei resposta. Não precisava. Ele provavelmente ia entender como oh, claro que eu não me importo em você sair com um monte de caras, que eu não conheço, para uma boate com um monte de gente que vai dar em cima de você, enquanto estou aqui nesta merda com um maluco que me escraviza.
Peguei um copo de café em uma daquelas maquinas e voltei à minha mesa. Apenas para levar um susto ao perceber a figura sentada na beirada dela, folheando calmamente um dos arquivos.
— Jesus! –Exclamei.
— Não. Ainda sou só eu. – Ele respondeu sem desviar os olhos dos papéis. – Brigou com a sua namorada?
Não é da sua conta, minha mente gritava.
— Nada que vá prejudicar o trabalho. – Puxei a cadeira e me sentei.
— Terminou o relatório?
Assenti.
— Os contratos?
— Só falta enviar por fax para o pessoal do Comex. – Respondi.
Ele suspirou.
— Parece que você terminou.– Então começou a me encarar. E eu odiava quando ele fazia isso. Era a mesma sensação de quando você vai a um lugar público e fica imaginando que alguém pode ler seus pensamentos.
— Então eu vou pra casa. – Me levantei ainda sentindo o olhar dele.
— Compre flores.– Ele falou simplesmente.
— Não gosto de flores. – Comentei e ele sorriu.
— Não pra você. Pra ela.
— Que "ela"? – Ele era maluco?
— Sua namorada.
Ah... Droga... Pois é...
Não respondi. Recolhi calmamente minhas coisas e caminhei até o elevador, até que ele parecesse no andar. Olhei para Roberto uma última vez e dei o meu melhor sorriso cínico.
— Bem... Eu nunca disse que era uma mulher.
Não fiquei para ver a reação.
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