É por isso que eu odeio o futuro!

16 Capítulo 16- Lei de Murphy.


Notas iniciais
Se um dia eu pudesse ver Meu passado inteiro E fizesse parar de chover Nos primeiros erros Meu corpo viraria sol Minha mente viraria sol Mas só chove... (Primeiros Erros - Capital Inicial) Eu virei a noite fazendo esse capítulo. De verdade. Não dormi nada, de segunda pra terça

Sabe aquela bendita lei de Murphy?

“Se alguma coisa pode dar errado, dará. E mais, dará errado da pior maneira, no pior momento e de forma que cause o maior dano possível.”. Mais conhecido também como: Minha vida.

Ok. Confesso que estou dramatizando um pouco. Mas parte disso realmente é verdade.

Eu nunca aprendo. E é por isso que a situação acabou essa bagunça. Se eu conseguisse usar mais a razão do que a emoção, nada disso teria acontecido. Mas não. Eu tenho que agir por impulso. Arrumar uma confusão digna dos deuses e deixar Beto fulo da vida comigo. Sendo que em menos de vinte e quatro horas estávamos nos amando perfeitamente bem.

Depois de ter contado tudo a ele, achei que talvez eu fosse me sentir melhor. Ledo engano. O remorso e a culpa apareceram logo em seguida para tomar um lanchinho e não me largaram mais.

Beto, provavelmente, achou um meio de dar um fim em todos aqueles papeis, sem sequer me dar a oportunidade de ver o conteúdo deles. E isso de certa forma me deixou frustrado. Por outro lado, havia algo que me dizia que talvez eu não quisesse tanto assim sabe o que estava escrito ali. Mas isso era o menor dos meus problemas.

O pior mesmo era que clima entre a gente não estava apenas tenso. Estava frio. Nevando. Eu estava me sentindo nas montanhas do Himalaia. E de quebra, um silencio ensurdecedor pairava sobre nós.

Ainda naquela segunda fatídica, Beto estava deitado ao meu lado. Virado, pela primeira vez, para o lado oposto ao meu. Ele permanecia sem dizer uma palavra sobre o que eu havia falado. E me chame de louco se quiser, mas eu prefiro mil vezes que berrem comigo, do que simplesmente o silêncio.

O silencio é cruel. Ele diz tudo e nada ao mesmo tempo. Faz você remoer a culpa até pelo que você não sabe que fez. Sempre que uma pessoa prefere manter silencio ao invés de desabafar... A coisa tá muito feia pro seu lado.

—Você está com raiva? – Me arrisquei.

Ok. Foi uma pergunta extremamente idiota, mas pelo menos foi um jeito de iniciar um diálogo. E meio que funcionou, pois ele se voltou para mim. Não que a cara dele me deixasse melhor...

— Sim... Alex. Eu estou com raiva. Você queria o que? Que eu estivesse soltando fogos? –... Ok. Péssima ideia essa de diálogo.

—Sinto muito; eu não sabia... –Comecei em um fio de voz. Mas dizer o que? Eu fiz uma cagada mostro. Ponto. Estava apenas arcando com as consequências dela.

— Não sabia o que? Que Vitor é um parasita que ia se aproveitar de você na primeira oportunidade? – Ele ralhou.

Apertei os lábios. Porque na real, eu sabia. Sempre soube. O cara simplesmente exala “problema”. Impossível não notar. Mas o que fazer? Eu até tento me afastar dos problemas, mas eles sempre acabam vindo até mim!

A feição carrancuda dele pareceu se dissolver. Ele soltou o ar, como se estivesse o prendendo há muito tempo.

— Ele quis tirar vantagem da sua faceta ingênua, e você deixou. Ele jogou a isca, e você caiu direitinho.

— Pode parecer irônico, mas eu não sou tão idiota assim. Vitor não me beijou por luxúria. Ele me beijou porque queria provocar. Aliás, me desestabilizar.

— E ele teve sucesso?

Nos primeiros quinze minutos, com toda certeza. Nunca me senti tão mal em toda a minha vida. Mas depois de andar por um longo tempo, acredite, você passa a pensar com clareza. E acredito que no final ele ficou pior do que eu.

Ok. Tudo bem que eu não precisava ter deixado o cara estéril. Mas na hora, foi o que me ocorreu. E acredite, apesar de ser uma técnica bem covarde, ela é muito eficaz. Vitor provavelmente xingou até a minha ultima geração, mas eu posso lidar com isso.

Não que eu tenha dito tudo isso a Beto.

— Não. – Foi o que eu realmente respondi. – Porque eu não sinto nada por ele. Acredite. Eu jamais teria feito isso de propósito. Ok foi burrice da minha parte, mas... – Curiosidade matou o gato.

— Sim. Foi burrice. Esconder de mim foi pior ainda. Você precisa pensar melhor nas suas ações.

Beto tinha uma coisa que eu realmente gostava: Ele nuca passava a mão na minha cabeça. Não quando eu estava errado.

Mas às vezes ele acabava fazendo com que eu me sentisse ainda pior.

No fundo, eu não havia mudado em nada. Eu podia ter a vida de um adulto, parecer com um, falar como um... Mas não era um. Eu ainda precisava de alguém para apontar os meus erros. E que me ensinasse a fazer o certo.

É realmente complicado quando você olha para os lados esperando que alguém faça isso por você, e não há ninguém lá. Porque agora você é o adulto. E todos esperam que você saiba a diferença do certo e errado. Mas você não sabe.

Eu sabia reconhecer os meus erros. Mas ainda não havia aprendido a não os cometer.

—Desculpa. – Conseguir murmurar, mas minha voz acabou embargando.

Ele não disse nada. Mas se aproximou. Não sei que tipo de expressão eu havia mostrado, mas pareceu derreter qualquer raiva que ele estivesse sentindo naquele momento.

Beto acariciou meu cabelo, meu rosto e parou nos meus lábios e seus dedos os delinearam.

— Não deixe que outra pessoa te toque de maneira tão leviana. – Ele murmurou.

— Eu não deixei que... – Comecei, mas seus dedos que ainda passeavam pelos meus lábios me calaram.

—Não gosto que toquem no que é meu, Alex. – Ele continuou argumentando. – E você é completamente meu. Não pense que pode facilmente escapar por entre meus dedos. Eu disse a você. No momento em que decidisse ficar comigo, eu jamais deixaria você ir embora novamente...

Meu corpo ficou tenso. Sejamos sinceros... Aquilo havia sido muito estranho! Quase que assustador.

—O que havia naquelas cartas? – Perguntei. Afinal, para ele está agindo daquela forma, algo muito sério deveria está escrito nelas.

Mas ele não me respondeu. Ao invés disso, ele me beijou veemente. Seus lábios eram tão afoitos sobre os meus, que eu sequer conseguia acompanhar.

Quando ele me soltou, fiquei um bom tempo parado em torpor.

— O que... Exatamente foi isso agora? – Indaguei, depois de uma longa pausa.

— Estou purificando os seus lábios.

— Não faça isso para mudar de assunto! – Repreendi.

— Eu não fiz nada. – Ele rebateu inocentemente.

— O que fez com as cartas?

— Já disse que você não precisava delas. – Seus lábios desceram ao meu pescoço.

— É sério! Precisa parar com isso... – Mas não havia nada em minha voz que o intimidasse. – Preciso... Saber sobre... Elas.

Cada pausa era um maldito gemido. E eu praguejava por isso.

Suas mãos desceram habilmente até as minhas pernas.

— Você não parece estar querendo que eu pare...

Mas eu queria. Juro que queria. O problema é que a cabeça de cima pensa uma coisa e a de baixo outra, aí ficava muito difícil de raciocinar. E dessa vez, a culpa não era só minha. Era do meu corpo. Há certas coisas que não importa quanto você tente, não há como ter controle! E que droga! Ele estava fazendo de proposito!

— Responde logo o que fez com as cartas... – Implorei, enquanto sua mão provocava meu membro semirrígido ainda sob o tecido.

Ele não me respondeu de imediato. Primeiro Beto levantou minha camiseta, e espalhou beijos longos e demorados pelo meu peito, descendo até minha barriga. Seus dedos pararam pouco mais que abaixo do cós da minha calça.

— Eu as queimei. Todas elas. Agora esqueça sobre isso. – Ele proferiu por fim, antes de abaixar todas minhas peças de roupa.

Senti minhas pupilas dilatarem.

— Você fez o que?– Vozeei, no mesmo instante que Beto envolveu meu membro com os lábios.

Arquejei e o som ficou preso em minha garganta.

— Você gostou disso? – Ele perguntou perversamente. E acredite, eu tive que usar todo o pouco de sanidade que me restou depois daquilo para conseguir responder qualquer coisa que não fosse despudorada.

— Não. Não faça esse tipo de coisa! Eu... – Acabei me atrapalhando nas palavras quando ele voltou a encostar seus lábios.

Ele me escutou, mas ignorou completamente. E começou com uma vagarosa sucção.

Eu provavelmente perdi todos os meus neurônios com aquilo. Aliás, eu não sabia nem qual era mais o meu nome. Se você me perguntasse naquele momento se eu era um rinoceronte xadrez eu responderia, feliz, que sim.

Agarrei seu cabelo em uma tentativa, muito falha por sinal, de que ele parasse. Triste ilusão essa minha. Acabei foi incentivando-o a aumentar o ritmo.

Sua boca subia e descia, enquanto eu podia sentir sua língua ondeando e seus dentes tocando levemente a pele sensível.

Eu só conseguia pedir ajuda mentalmente ao céu. Alguma coisa na minha mente me falava que aquilo estava errado. Completamente errado. Que não era nada daquilo que deveríamos estar fazendo. Mas estávamos. Eu sentia isso em cada músculo dormente do meu corpo.

Suas mãos desciam ainda mais para exatamente o meio das minhas pernas. E seus dedos me provocavam de uma maneira impudica.

Minha mente ficou completamente branca, meu corpo se contraiu, meus dedos se fecharam com força nos cabelos de Beto... Tudo isso apenas para sentir aquela ligeira sensação de êxtase.

Não que a coisa tenha parado por aí...

Eu era patético. Eu sei. Um caso completamente perdido. Deixei minha mente vagar e me vi completamente exposto a tudo aquilo. Aceitando de bom grado cada toque, beijo e o que mais me era oferecido. Apenas para sentir aquela sensação de novo e de novo.

Claro que não foi ruim. Não vou ser hipócrita. Mas aquilo foi maldade pura! E não vou mentir, eu me senti completamente usado. Ele fez tudo àquilo apenas para que eu esquecesse sobre Vitor e as cartas. O que me fazia imaginar que as coisas eram piores do que eu imaginava.

Foi uma forma bem... Efetiva, de me fazer esquecer sobre o assunto. E eu não sabia se ficava zangando por aquilo, ou aliviado por não termos discutido feio. Optei pela segunda opção.

Quando a razão finalmente bateu na porta, eu já nem sabia que horas eram. Apenas que estávamos nus e minha cabeça estava deitada em seu peito.

— Ainda está acordado? – A voz dele soou gravemente ao meu ouvido.

— De alguma forma... Estou. – Respondi arrastadamente, completamente exausto.

— Eu queria... Você poderia me prometer uma coisa?

— Que coisa? – Meus olhos pesavam, mas eu estava atento a suas palavras.

— Nunca mais chegue perto do Vitor. Nem que ele diga que pode te devolver toda sua memória. Não faça mais coisas desnecessárias achando que é um grande feito. Estamos bem do jeito que estamos. E principalmente, pare de esconder coisas de mim. Não importa se a coisa é boa ou ruim, apenas conte. Promete?

Escutei tudo atentamente e processei as palavras em minha mente antes de responder.

— Prometo. – Eu já estava com meus olhos fechados.

— Todas elas?– Ele insistiu.

— Cada uma delas. – Reafirmei. – Juro até de dedinho, se quiser.

Levantei o dedo mindinho. Só não esperava que ele entrelaçasse o dele com o meu.

— Você deve ser eternamente leal as suas promessas, Alex. Há punições para quem quebra promessas.

Foi a última coisa que escutei antes de mergulhar em um sono profundo.

E as horas passaram. E essas horas viraram dias... Mas eu não quebrei minha promessa. Não procurei por Vitor. E não toquei mais no assunto com Beto. O que parece tê-lo deixado mais aliviado.

Conviver com Beto era fácil até demais. Afinal, quem não gosta de acordar aos beijos e com o leve aroma de café?

Eu estava feliz. Isso era inegável. Apesar de tudo que havia acontecido na minha vida no último mês, estava vivendo coisas que eu jamais sequer imaginei passar um dia.

Beto estava com uma ideia engraçada de que precisávamos recuperar o nosso tempo perdido. Depois do insano salto de penhasco, ele me chamou para outro encontro. O que me fez ficar com um pé atrás, claro. Vai que dessa vez o plano era se jogar na frente de um tornado, ou quem sabe bungee jumping no Everest...

Mas não. Ele me levou a um parque. Não aqueles parques com brinquedos extravagantes que te dão vontade de vomitar. Digo aqueles parques bonitinhos, onde tem lagos e patinhos para alimentar. Ok, não tinha patinhos no lago, e a gente teve que se contentar com os pombos, porque cidade grande tem dessas coisas... Mas achei muito legal mesmo assim.

Beto gostava de me ver falando coisas insanas. Ele até riu do pequeno incidente da quinta série, que envolvia uma mesinha de centro, corante verde, uma panela de pressão e chicletes. O resultado foi que eu acabei verde por quase uma semana, mas isso não vem ao caso.

— Mas e você? – Depois de muito tempo me arrisquei a perguntar.

— O que tem?

— Me fala sobre você. Eu só sei que você teve babás e um cachorro chamado “Jujuba”. Mas não sei mais nada...

Ele sorriu.

—Não fui um garoto tão ativo quanto você. Nunca levei uma advertência sequer. Também nunca me meti em algo ilegal. Não há nada muito interessante para se saber.

— É claro que há! Sempre há. Faculdade, ensino médio... Aceito até prézinho.

—Hum... Eu deixei meu cabelo crescer no segundo ano... E foi uma péssima ideia. Os garotos disseram que eu fiquei parecendo uma garota. Foi um ano bem complicado.

Olhei para ele. Beto não se pareceria com uma garota nem que vestisse uma saia e usasse maquiagem.

— Puberdade, Alex. – Ele respondeu como se lesse minha mente. – Ela muda a nossa vida.

— Eu sei. Sou um exemplo. – Comentei. – E as garotas?

— Que garotas? — Ele perguntou, franzindo a testa.

— O que as garotas achavam de você?

— Eu... não sei. – Ele respondeu parecendo confuso. – Acho que elas não ligavam muito. Nunca prestei muita atenção.

— Você nunca... Namorou uma mulher? – Me ouvi perguntando.

Seus olhos me sondaram inquisitivamente. Então ele suspirou.

— Sim... Namorei. Quase cheguei a me casar com ela.

Meu queixo caiu. E eu nem disfarcei.

— Casar? Quase se casou? – Sibilei.

— Eu era muito jovem. Foi a primeira pessoa com que eu me envolvi. Durou pouco mais que três anos.

— O que aconteceu? Mudou de ideia na hora H?

Ele riu e balançou a cabeça.

— Eu cheguei a pedi-la em casamento. Mas ela disse não.

—E ela era louca? – Eu estava completamente pasmo.

— Não. Ela era ambiciosa. E eu era um simples universitário. Ela escolheu a carreira... Mas acho que hoje em dia ela está casada e já é mãe.

— Quem poderia imaginar. – Sussurrei. – Você deve tê-la amado muito.

— Não cheguei nem perto... – Ele tocou meu rosto. – Depois que você apareceu, tudo virou de pernas para o ar. O que era errado virou certo. Você fez toda a minha ideologia ruir da noite para o dia. Sentir coisa que eu nem imaginava ser possível. Passou a ocupar o meu pensamento, até que eu já não conseguisse te tirar da minha cabeça. Não sei o que você faz comigo... Acho que eu te amo só por ser você...

Eu, provavelmente, estava parado, piscando igual a uma coruja, com a boca ainda aberta, parecendo uma besta.

— Alex, você está ficando rosa... – Ele comentou depois do meu longo silêncio.

— Eu... Queria dizer a minha primeira impressão sobre você, mas... – Respondi debilmente.

—Você me odiava! – Ele riu, como se aquilo realmente o divertisse. – Perdi as contas das vezes que eu ficava observando seu rosto irritado quando estava comigo... Mas quando você desmanchava sua pose carrancuda, era uma pessoa tão simples, com um humor sarcástico e irreal. E eu diria até que solitário.

— Solitário?

Beto entrelaçou nossos dedos

— Sempre perdido em devaneios...

— Ah...Eu sempre fiz isso. A minha mente é um lugar bem interessante... – Pena que nem mesmo eu, tenho acesso a toda ela.

Beto se aproximou e tocou nossos lábios. Aquilo já havia se tornado trivial para nós dois. Mas não para as pessoas ao nosso redor.

Coloquei a palma da mão sobre seu peito e o empurrei levemente.

— As pessoas... Estão olhando... – Minhas bochechas estavam quentes, não sei se pelo sol ou de vergonha.

Beto deu uma olhada ao redor com uma expressão de total indiferença.

— Estou pouco me lixando. Nenhuma delas paga nossas contas.

Não reprimi um sorriso.

— Uau. Isso parece muito mais com algo que eu diria...

Ele me fitou e sorriu.

— Estou aprendendo com você, talvez?

Levantei minhas pernas e abracei meus joelhos.

— Aquela Luiza gosta de você. – Comentei. – Ela esteva tentando te seduzir aquele dia. Sabe? Com as pernas de fora e tudo mais...

— Quem é Luiza? – Beto fez uma cara de que realmente não fazia ideia sobre o que eu estava falando.

— Aquela que foi te visitar quando ficou doente. E depois tomou banho com o molho.

— Não seria Letícia? – Foi o que eu disse!

— Exatamente ela.

— Ela sabe que eu te amo. E você também sabe. E não fui eu quem ficou olhado para as pernas dela. – Ele censurou.

— Mas ela tinha belas pernas, convenhamos. Eu perdi a memória, Beto. Eu não fiquei cego. – Dei ombros. – Mas eu também gosto muito das suas!

Beto balançou a cabeça e riu do comentário.

Ele não sorria apenas com os lábios. Mas com os olhos. Eu diria com quase certeza, que aquilo também era experiências que ele nunca havia tido. Nada de conversas sobre a vida, ou cinco minutos de loucura, ou apenas jogar conversa fora... Nada.

O que exatamente eu havia tido com ele, ainda era uma pergunta sem resposta.

Em menos de uma semana, completariam dois meses desde que eu acordei naquele hospital. E toda noite eu revivia aquelas imagens. Era até inacreditável tudo que havia acontecido neste curto período de tempo.

Mesmo que de repente eu tenha me visto morando com um completo estranho, sem mãe ou pai e mesmo que cada membro da minha família já tivesse sua própria vida para cuidar, eu ainda tentava manter contato. Menos com meu pai. Ele se tornou algo não comentado por ninguém...

Camila sempre me ligava. Ela gostava de desabafar sobre como era cuidar de dois bebês ao mesmo tempo. Como se eu entendesse TUDO sobre o assunto.

Gustavo também me ligava. Mas para desabafar sobre os surtos da Camila por causa dos bebês. Ele chegou a me pedir socorro uma vez.

E eu e Beto parecíamos viver em uma lua de mel interminável.

Aos poucos eu recuperava minha independência. Beto já confiava em mim para que eu saísse sozinho, embora nos primeiros dias ele tenha me feito andar com nome e número de telefone, como se eu fosse uma criancinha. Depois acabamos comprando um celular. Apesar de ele ter um monte de parafernália, eu só uso para falar.

Eu também comecei a estudar antigas apostilas de administração e publicidade. E mesmo que eu não estivesse entendendo patavinas de nada, Beto sempre se dispunha a me ajudar. Só que de alguma forma, sempre acabávamos na cama.

... Notaram algo?

Bom, se não notaram, eu explico.

Não houve problemas. Por semanas. Zero. Neca. Não brigamos, nem discutimos, nada. Estava tudo na santa paz.

Então era quarta feira outra vez...

Minha mãe havia me convidado para almoçar com ela. E havia ficado mais do que satisfeita quando contei sobre meu progresso. Senti até que ela estava aliviada por saber que as coisas com Beto estavam dando certo. Contei tudo a ela, que por sinal não aprovou nenhum pouco a história do penhasco.

Mamãe também me parecia feliz. Ela não era exatamente como era antes. Mas quem pode culpá-la? Eu também não era. Nem Camila. Ou Gustavo. Mas me parecia está muito bem. E isso já bastava.

Eu tive que aprender a pegar ônibus também. Não que eu nunca tenha pegado um em toda a minha vida, mas era engraçado. Beto não quer que eu me aproxime mais de um volante. Na mente dele, eu vou meter o carro num poste na primeira oportunidade. Então não pude prestar aos exames para revalidar minha carteira.

Eu passei boa parte daquele dia na biblioteca. Era o que eu fazia agora no meu tempo livre. Nada de TV e desenhos. Até porque eu já havia engordado mais três quilos com essa brincadeira.

Eu havia perdido completamente a noção do tempo. O relógio marcava mais de cinco da tarde e estava excessivamente frio naquele dia. Não de forma chuvoso, apenas frio.

Entrei em uma pequena cafeteria e me direcionei ao atendente. Que por algum motivo, fechou a cara ao me vez. Era um garoto que deveria ter pouco mais de dezoito anos, mas ele me olhava como se eu fosse pular aquele balcão só pra enfiar a cara dele no forno.

— Cappuccino com muito leite? – Ele perguntou em uma voz entediada.

— O que?– Fiquei parado, piscando para ele sem entender.

O Garoto bufou.

— O senhor vai querer o de sempre?

— E eu tenho um de sempre? – Perguntei debilmente.

—Senhor, Qual pedido? Há outros clientes querendo comprar.

Olhei para trás e não havia nem uma alma atrás de mim. Mas acabei me virando e murmurando um:

— Pode ser o de sempre... Seja lá o que o de sempre for. – Ele informou o valor e eu entreguei o dinheiro, vendo o preparar agilmente o copo de alguma coisa.

Quando o recebi, dei uma golada generosa. E pisquei.

— Café com leite e canela? – Do outro lado, escutei o mesmo garoto que havia me atendido grunhir.

— O café não está do seu agrado? – Ouvir aquela voz, me fez realmente querer pular o balcão. Mas não por causa do garoto, mas para me enfiar dentro do forno.

Não me virei. Não respondi. Apenas sai calmamente do local. Ok, calmamente não é o certo, visto que eu saí correndo igual a um condenado.

Mas lembra de quando eu disse que havia engordando três quilos? Então... E eu também nunca fui muito atlético. Duas quadras depois, eu já estava quase tendo um ataque de asma.

O que foi triste, porque ele havia me seguido.

— O que foi isso, Alex? Vai tirar ou pai da forca ou o que?

Rezei aos querubins para que me transformassem em uma caçamba de lixo ou até em um semáforo. Qualquer coisa que o mandasse para o raio que o parta.

Mas nada rolou, e eu tive que me virar.

— Qual a probabilidade de eu te encontrar nesta cidade com mais de dois milhões de habitantes? – Prantei.

Dois milhões de pessoa em toda essa cidade. Mas eu tenho que dar de cara com Vitor. Maldita seja a lei de Murphy!

— Você está me evitando agora?

—Estou te evitando desde que eu te conheci, caso não tenha reparado. – Voltei a andar rapidamente. Ele continuou ao meu lado.

— É por causa da ultima vez? – Ele riu debochado.

— Quer saber? É por causa da ultima vez. Não me importa o que eu tive ou deixei de ter, eu não vou cometer o mesmo erro do passado.

Tentei voltar a andar, mas Vitor colocou a mão na frente impedindo minha passagem.

— Do que está falando? Que erro do passado?

— Aquelas cartas... Eram sobre a gente, não é? – Perguntei entredentes, de modo que minha voz não oscilasse tanto.

— Sobre a gente? – Pela primeira vez Vitor não estava com sua típica cara sarcástica. – Espera! Você não leu os e-mails?

—Não... – Falei em um fio de voz.

— O que fez com ele? Não mostrou para o seu namorado, não é? – Não respondi. Apenas apertei meus lábios e tentei passar novamente. – É claro que mostrou. Você é burro por um acaso?

O sangue subiu.

— É! Exatamente. Eu sou completamente burro. Burro por ter aberto aporta para você. Burro por ter atendido aquele telefonema, burro por ter ido te encontrar aquele dia e mais burro ainda por está aqui falando com você. Agora tire esse braço da minha frente. Estou com um café quente na mão e para ele virar encima de você não custa nada!

Ao fim das minhas palavras, senti uma pontada aguda em minha cabeça e minha visão ficou turva, minha respiração falhou e senti uma sensação fortíssima de enjoou. Meu corpo perdeu o equilíbrio e só não cheguei completamente a desabar igual jaca madura porque Vitor me segurou pelos ombros, chamando meu nome repetidas vezes, até que eu tivesse o mínimo de força para responder.

Ele me arrastou até um banco de cimento e me fez sentar.

— O que aconteceu? Está melhor? Alguma coisa dói?

— Menos. Para de fazer perguntas. Estou bem. Foi só uma sensação de vertigem. Me senti tonto e enjoado.

Vitor ficou com feições sérias.

— Meu Deus, Alex! – Ele exclamou com completo horror, o que fez com que eu levantasse meu rosto para fitá-lo. – Você está gravido?

Mostrei meu belíssimo dedo do meio ao Vitor em resposta.

— Já te chutei uma vez. A segunda vai ser ainda mais fácil...

Vitor continuou a rir, e então se sentou ao meu lado.

— Alex, você já ouviu a lenda das sereias? – Ele estava quase deitado no banco, com o olhar voltado para o céu, que começava a escurecer.

— Claro que sim. Eu assisti “a pequena sereia” com a minha irmã um bilhão de vezes. – Assim como todos os outros clássicos da Disney...

—Não dessas sereias. A outra lenda. – neguei. – A sereia é o símbolo da sedução mortal. Elas atraiam marinheiros, através do seu cântico, e quando enfeitiçados por elas, eles se jogavam ao mar. Alguns dizem que elas os afogavam ali mesmo, outros contam que os levava até seus palácios nas profundezas e lá, propunham a eles uma vida de comodidade e luxo, em troca de amor eterno. Mas eles sempre acabavam trancados. Atados em cadeado de ouro. Até a morte.

Arqueei as sobrancelhas.

— Espero que não esteja treinando para ser contador de histórias infantis. Ariel não me parecia tão megera assim!

Vitor desviou o olhar do céu e se voltou para mim, em uma expressão indecifrável.

— Eu não quero se afogue, Alex. – Ele sussurrou. – Não havia nada naqueles e-mails sobre a gente, se quer saber. Não existia “a gente” há muito tempo.

Suspirei e me levantei.

— Não sei o quer de mim, Vitor, mas eu prometi a ele que nunca mais te encontraria... Então...

— Você não acredita em mim. Nem me escuta. Nem confia. E olha, você tem toda razão para fazer isso! Eu fui um completo filho da puta com você, convenhamos. Mas você está traindo a si mesmo quando escolhe não ver a verdade.

— Eu era uma pessoa terrível! Fiz tudo errado. Não dei uma dentro. Por que eu deveria ser leal a mim? – Vociferei.

— Apenas leia um deles. Depois disso, eu prometo nunca mais aparecer na sua frente.

Suspirei...

— Não posso. Prometi de dedinho!

Vitor fechou os olhos e respirou fundo, apenas para começar a andar a passos largos até mim.

—Você não me da escolha. – Ele agarrou meu pulso e começou a me puxar.

— Você quer tanto assim que eu quebre minha promessa? – Gritei!

— Não quero. Por isso estou te sequestrando. Não precisa nem subir. Só leia.

Vitor me arrastou por pouco mais que uma quadra, até parar em frente a um prédio.

— Pode esperar aqui. Mas prometa que não vai embora.

— Você me fez virar um quebrador de promessas... – Vitor apertou o olhar para mim. – Tá, eu vou esperar...

Lei de Murphy.

Lei de Murphy.

Lei de Murphy.

Vitor subiu, e eu fiquei girando no saguão, aguardando impacientemente. Eu me sentia um criminoso desovando um corpo no rio Tiete! Estava com aquela sensação de “você está fazendo uma coisa errada.”. “Volte, Alex. Não há nada para você”.

Virei os calcanhares em direção à saída e realmente ia vazar o mais rápido possível...

— Pego no flagra, Alexander? – Mas Vitor chamou.

Virei-me de volta para ele e mostrei um sorriso amarelo.

— Ia cumprimentar o porteiro...

— Acredito que sim. – Ele estendeu uma folha de papel que por uns segundos eu imaginava que estivesse em branco, para depois notar as pequenas letras do outro lado.

— Você vai ler. E nada de entregar pro seu namorado. – Ele falou pausadamente, como se eu fosse algum tipo de demente.

— Certo. Mas isso quer dizer que você vai parar de me perseguir, não é?

Ele assentiu. E eu dobrei o papel.

Vitor apenas me observava, enquanto eu começava me afastar.

Subi no primeiro ônibus que vi pela frente. O caminho sempre acabava no mesmo lugar, então dava no mesmo pegar o ônibus do sul, como o do oeste...

Estava razoavelmente cheio, mas ainda havia lugar para sentar. E assim que encontrei um, abri o pedaço de papel e comecei a ler.

“ Essa relação nunca passou de um amor inventado. Não sei qual de nós dois é o mais louco. Eu ou ele. Talvez até nós dois. Mas eu já estou tão cansado... Não suporto mais.

Ainda essa semana, estarei colocando um ponto em tudo isso. Preciso me afastar. Incluindo, já assinei minha carta de demissão. Gostaria de saber se... Sua proposta ainda está de pé... E se estiver, quando poderei ir? Preciso que seja o mais breve possível.

Eu não CONSIGO amá-lo. Não desse jeito.

Quatro anos se passaram, e as coisas foram de mal a pior. E agora me vejo completamente amarrado a um manipulador.”

O ônibus freou bruscamente, e por pouco não bati minha cara no banco da frente.

— O que houve? – Escuto alguém dizendo.

—Parece que foi um acidente. A pista está interditada... – Responde outro.

Desviei meus olhos do papel e olhei para janela, onde carros da polícia e do bombeiro cercavam ou outro carro em estado lamentável.

Eu só não queria ser a pessoa dentro daquele carro...

A sensação de vertigem voltou, mais forte do que antes. As pontadas na minha cabeça vinham uma após a outra. Eu mal tive tempo de pedir para o motorista abrir a porta, antes de vomitar, o pouco que tinha no meu estômago.

Ainda com a respiração ofegante, consegui ficar de pé. Mas eu não sabia onde estava. E não parei para pensar no assunto. Eu apenas andava debilmente em direção ás hipnotizantes luzes vermelhas e azuis dos carros de polícia.

Pisquei completamente atônito, enquanto os bombeiros faziam seu trabalho. Pisquei e olhei para o papel que tinha em minhas mãos. As frases ecoadas na minha mente. As luzes oscilando na minha mente. Uma silhueta conhecida, mas inidentificável.

E ali, parado, observando aquela cena grotesca, eu me lembrava de absolutamente tudo...

Notas finais
Ufa; E é isso. Agora, talvez eu vá dormir. Estou tentando, E MUITO, posta o outro capítulo ainda amanhã, mas vai depender do meu tempo disponível. Já que eu continuo enrolando com as resposta dos comentário: Eu agradeço a todos que me mandaram um cometário lindo fofo, também vou tentar colocar os comentários em dias. Mas fiquem de boa! Todo mundo vai receber um xero meu . Sério gente, eu agradeço muito a todos vocês, principalmente pela paciência de anjo que tiveram comigo !!!