— Você fez quimioterapia recentemente?

Tava demorando, Greg pensou. Era bom demais pra ser verdade, a forma que o tal do Tom Wambsgans só acenou com a cabeça quando Greg se ofereceu para pagar o almoço deles. E o garoto quase deu bênção no decorrer do caminho até o restaurante, e os dois em silêncio enquanto arrumavam seus pratos e desfilavam uma mesa de canto para se sentar.

Mas Tom era assim, um tubarão nadando tranquilamente até que seu focinho bate na perna de um mergulhador desprevenido, sangue escorrendo pela sua canela, sujando a água e pronto.

— Eu gosto de mingau de aveia. E qual o problema em pedir filé mignon? – Disse, sabendo inconscientemente sobre o que se tratava a injúria no tom de seu amigo ao fazer aquela pergunta. Greg já estava craque em decifrar os discursos sem escrúpulos dele.

— Ainda bem que era a parmegiana.

Greg não responde de imediato e se põe a encarar o prato de seu acompanhante e não consegue segurar um suspiro, mais rabugento que nunca.

As pessoas sentadas nas outras mesas jogam conversa fora, um total desperdício na sua não tão humilde opinião, mas Greg pergunta a si mesmo se elas podem ouvir o borbulhar da água fervente no bule imaginário que apitava toda vez que Tom abria a boca pra caçoar dele.

É realmente inacreditável que uma pessoa consiga aturar esse tipo de atitude cara de pau e ter a decência de convidá-lo para almoçar. Greg achou que com os passos largos que eles deram nessa relação havia espaço para Tom ser menos canalha, mas o rapaz se livrou de uma dor de cabeça aceitando que não mudaria o jeitão do homem. Estragaria tudo que Greg admirava nele, era uma questão de comprar o pacote completo ou cancelar a assinatura. O que ajudou foi andar de cavalinho nas costas dele enquanto os dois subiram de cargo na sequência do jogo da família Roy, realmente, mas Tom não mentiu quando disse que os dois tinham uma conexão.

Então seus cabelos poderiam embranquecer nessa altura do campeonato, deveria pintar logo e esconder a influência do estresse que seu chefe/melhor amigo/ficante estava proporcionando após um turno bem maciço nas costas dele, pobre funcionário da ATN, com um salário mais alto que qualquer preço de apartamento que um síndico possa oferecer na cidade. Mas não deu nem tempo de Greg respirar que o sistema começou a dar piti e muitos horários de reunião tiveram que ser mudados, e-mails não foram enviados, por causa da má administração em checar os sistemas de coleta de dados no setor que estavam.

Foi uma manhã corriqueira, e os dois passaram horas no escritório tentando arrumar a bagunça no planejamento daquela semana. Brincaram de jogar bolinhas de papel na lata de lixo e tudo, enquanto os técnicos de informática tentavam solucionar o pane na rede.

Por isso ele tenta se conformar com as pequenas coisas: bajular a família do tio de Greg é o que mantém eles empregados. Foi um up na sua vida, né? De vestido de cachorro mascote para brinquedo para cachorro morder.

Porém, às vezes Greg tinha prazer em usar a água quente para passar o café de Tom. Pegá-lo desprevenido com uma retórica certeira, ou ser eficiente em cumprir certa tarefa. A afeição vinda dele não era exatamente como encontrar agulha no palheiro, deve ser por isso que eles se davam tão bem.

Mas Greg sabia que era exigir demais do homem passar alguns minutos sentado num estabelecimento mais estreito a pessoas que gostam de beliscar um calzone com caldo de cana e montar marmita pra viagem. Era perigo de Tom se sentir exposto a todo aquele ambiente que lhe lembrava de uma vida antes de se mandar de Minnesota. Pelo menos é isso que ele interpreta depois que Tom contou sua história. Mas aí de Greg comentar isso com ele.

Não queria pensar que Tom aceitou porque queria agradar o rapaz, até porque ele nunca sentiu que precisava na verdade, depois de tudo que ele fez. Acolheu Greg e o levou a um costureiro para comprar roupas que coubesse nele nessa sua nova vida.

Mas talvez esticar as pernas um pouco, algo que Greg reclamava constantemente para o nada por ter que se dobrar inteiro para caber na mesa pequena do seu escritório, dos restaurantes chiques que Tom gostava de usar como esconderijo.

— E vai pular a sobremesa, viu. A gente descola um sushizinho lá no teu cafofo. Mas eu vou escolher o lugar dessa vez, o que tu pediu tava com gosto geriátrico, da vontade de peidar só de pensar.

Queria mesmo era pular lá do alto do prédio da Waystar. Boa, anotou essa pra repassar ao seu primo mais tarde, sabendo que provavelmente teria que ficar de olho nele depois de entregar o bagulho que o mesmo ordenou a Greg ir buscar. Teve que arranjar outro contato, aqueles que tem clientes de alto escalão. Mas a vida tem seu jeitinho de arrumar tempo livre para planejar perfeitamente a sua derrota, sabia que Kendall era outro que ia colocar defeito no produto.

E Tom nem terminou de dar satisfação para o seu escondidinho de carne moída, pra ficar falando abobrinha. Deve ser por isso que os tais restaurantes servem porções tão pequenas, mas Greg tinha que estranhar, Tom sempre comia pra caralho.

Greg comentou isso para ele e o desgraçado riu? Bem, foi mais um arfar de desdém.

— Você acabou de descer pra dentro uma batata assada inteira em um minuto, eu posso ver ela engarrafada no seu esôfago. – Disse o homem, apontando um canudo de plástico para Greg antes de mergulhar no seu suco de morango.

— Mas que porra? Eu dei metade pra você!

— Ou só está acostumado a ter coisas entaladas aí que nem percebeu.

Gaguejou, escondendo o sorriso que ameaçou levantar os cantos do seu lábio bebericando o caldo de cana que pediu, era desagradável ter esse tipo de reação aos comentários de Tom, só servia de lenha pra fogueira. Mas talvez Greg faça por merecer, afinal.

— Só achei que ia ser divertido, sabe? Não ter expectativas sobre a comida uma vez na vida.

— Ah, sério? Quer se entreter, Greg? Se eu plantar bananeira na sua frente agora, você bateria palminha?

Greg estremeceu e tentou conter seu agito arrumando a franja que descia sob a testa suada. Tom parecia se deleitar no nervosismo dele, não pela primeira vez, claro.

— Foi mal.

— Você é bem transparente, Santo Gregório. Deve ser ótimo pra você, me ver provando da carne da plebe enquanto você senta aí no seu trono se sentindo magnânimo a tudo. O mestre dos dois mundos.

— Você, uh, parece um post dramático do Facebook, Tom?

— Surpreendentemente, essa é a coisa mais estúpida que você já disse pra mim. Esse lugar inteiro é um algoritmo.

— Na verdade eu meio que tenho que concordar. O que é exatamente? Um boteco, uma lanchonete? Porra. – Perguntou, rindo meio sem graça.

— Você que escolheu, seu ácaro de calcinha de idosa. – Respondeu a meia pergunta que Greg faz de vez em quando precisa colocar palavras nas suas frases, terminando seu suco e fazendo barulho de propósito com o canudo sugando o resto do conteúdo no copo.

— É que havia muitas opções, eu… Uh, tipo, sabe quando você entra na primeira loja que diz "promoção de calçados" mas não tem nenhum do seu tamanho?

Tom levantou a mão, como se quisessem que Greg fechasse a boca para deixar ele falar.

— Amanhã me lembre de remunerar os rapazes da TI, talvez a gente tenha que expandir o setor e seria uma boa ter uma equipe pronta quando chegar a hora.

— Não tem que falar com a Cyd primeiro?

— Que se foda – Falou, mas fez questão de olhar para os lados como se a conversa deles estava sendo monitorada – Mando uma mensagem pra ela depois.

Greg terminou de limpar o prato com movimentos rápidos, passando três guardanapos pelo rosto, enquanto Tom já se levantava da mesa e ajeitava o paletó azul marinho que ficou meio amassado por causa da cadeira.

— Anda logo, boca de caçapa, chama nosso Uber.

Greg fez o mesmo com o seu casaco, e tentou uma investida – Você já pisou numa estação de metrô antes?

— Eu vou pisar no seu saco com meu novo par de Oxfords, Greg, que tal isso?

Chegando no quartel general da ATN, os dois homens foram recebidos por uma recepção calorosa dos famigerados TI's, a princípio a falha na rede foi mesmo da parte do pessoal que não fazia uma revisão periódica do sistema. Greg abriu sua caixa de entrada e viu 12 mensagens de Tom, todas daquela manhã que não foram enviadas: “Não se pode preparar um Tomelete sem quebrar alguns Gregovos”.

No fim do turno, Tom surpreendeu Greg mais uma vez e disse que queria passear de trem. Ele se sentiu meio poderoso, então. Certas coisas ele consegue dizer para deixar Tom encucado e o mesmo segue o fluxo, diferente de quando o homem pede pra ele guardar segredo sobre crimes corporativos.

Os dois aproveitaram e tomaram o caminho mais longo, Greg ficou grato por não desperdiçar nenhum segundo na presença de Tom. O homem envolveu o pescoço com um cachecol verde, enquanto Greg quase se passava por um picolé humano, esfregando as mãos freneticamente para manter o calor, culpa dele por achar que um moletom medíocre forneceria aquecimento para seus braços magros. Todavia, a tarde terminava num ardor por conta da movimentação de Nova York, cada prédio ganhando vida no mar da multidão que passava pelas vitrines e outdoors coloridos.

Eventualmente os sons rotineiros do metrô consumiram a mente de Greg, levando seu corpo numa maré zen, tanto que ele sentiu a sua cabeça cair no ombro do homem. Foi aí que ele não teve o menor ânimo de retornar para o mundo terreno. Mas Tom cutucou seu ombro levemente quando chegaram à parada final.

Tom insistiu em acompanhá-lo, mesmo com os protestos de Greg, que estava pronto para cair na cama quando chegasse.

O apartamento de Greg era tudo que ele queria preservar na sua nova vida, apesar dos luxos. Cômodos minimalistas com uma arquitetura moderna o bastante para passar despercebido os pôsteres de filmes dos anos 90 e bandas que Greg sabia que Tom faria uma cara de frango com o cu azedo. Tudo nela não tinha medo de clamar seu status de cafofo.

— Hoje foi divertido, né? – Perguntou Tom, e não havia segundas intenções na sua voz, como quando os dois compartilhavam uma de suas piadas internas. Greg assentiu, todavia.

Eles estavam parados na entrada, Greg com o peso de várias agulhas enfiadas na sua coluna o motivando a entrar e se consolar com sua TV a cabo até que ele esquecesse que tinha que voltar amanhã no horário de sempre, mas repartir adeus com Tom provocava uma melancolia diferente em Greg que ele julgava ser nenhum um pouco afeiçoado.

— Foi menos divertido do que misturar cachaça na Pepsi do meu tio no dia de ação de graças.

Tom arregala os olhos, como se Greg cresceu um terceiro olho bem na sua frente, e gesticula “Do Logan? Sério?” o que Greg respondeu dando de ônibus, história pra outra hora. Tom então soltou um riso meio afogado, acenando negativamente e estalando a língua nos dentes: – É nessa hora que você convida a garota pra beber alguma coisa romântica, Greg.

— Pepsi é muito boa para encontros, todo mundo adora.

— Sim, porque você tem um gosto impecável.

Greg olha de cima a baixo para o homem, na pequena brecha de sair por cima de uma lavada dessa: – Pelo visto não.

— Vai com calma, Gregory Rasputin, mal comeu e já quer jogar fora? – Tom respondeu, praticamente ronronando.

— Eu acredito que, uh, você prometeu sushi? E tais promessas não devem, tipo, serem distribuídas em vão.

Tom mordeu o lábio, pensativo de certo, observando todos os ângulos que formavam o rosto de Greg, como quando estamos na fase REM do sono e nossos olhos se movem frenéticos, sem tempo para parar num lugar só. Deve ser porque o homem tem dificuldade em entender o conceito de permanência de objeto, o que faria sentido para Greg, um cara desse tamanho mas que era muito fácil de esquecer que ele está na sala.

No entanto, Tom sempre se certifica que ele está visível, a um nível desconfortável, seja pegando no pé dele ou dando ordens toscas para o rapaz se mover. Para Tom devia ser como brincar com uma bolinha numa raquete, o deleite de vê-la bater, se afastar e voltar pro mesmo lugar.

Greg levou seus dedos para apertar o nariz rechonchudo de Tom: – Fón. Vai pensar muito ainda? Eu tô congelando aqui

— Idiota – Disse, sorrindo sem mostrar os dentes. Greg aproveitou que destrancou a porta e foi trazendo o homem pelo cachecol até adentrar seu apê. – Tem como eu te devolver pra loja?

– Foi mal, não tem garantia. – Beijou a retórica dos lábios do homem, que fez um estardalhaço dos cabelos de Greg por birra.

Notas finais
Obrigado a quem leu até aqui, fique a vontade para comentar qualquer coisa :)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!