É dessa vez!
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Respirei profundamente aquele ar novo ao descer do ônibus na pequena estação rodoviária daquela pacata — ou não tanto, cidadezinha do interior. Mesmo havendo um pouco de cheiro de local público, vulgo sujeira, eu conseguia sentir o cheiro de café recém passado que provavelmente vinha da única lancheria disponível ali e, considerando o fato de ser manhã cedo, imaginei que vendessem bastante. Mas ainda assim, eu conseguia sentir aquele cheiro de ar puro, de ar do campo, de um local onde as indústrias ainda não haviam conseguido deixar sua marca registrada. E, pela primeira vez na vida, admito que gostei bastante daquilo.
Avistei um táxi, isso mesmo, um único táxi encostado em seu ponto. E, mais surpreendente ainda, ele não era disputado por ninguém, o que me fez perceber que a maioria das pessoas estavam indo de carona com outras ou, até mesmo,a pé. Parei de analisar ao meu redor quando um vento forte bagunçou minha cabeleira negra, fazendo com que eu ficasse momentaneamente sem enxergar nada além de meus próprios cabelos.
Caminhei arrastando minhas duas pesadas malas e com mais uma mochila nos ombros e uma bolsinha tiracolo até o carro. Quando parei na janela do motorista percebi que se tratava de um senhor já de uma certa idade, que estava lendo um jornal enquanto bebericava num copo de café. Bati duas vezes no vidro, o que fez com que ele se virasse em minha direção com uma olhar quase surpreso, por um segundo pensei que ele tivesse me reconhecido, mas dai pensei que provavelmente eu era sua primeira clienta naquele dia.
—Pois não? — Perguntou ele, com a típica voz de gente velha, que me fazia desejar dormir e acordar apenas em outra vida, abaixando o vidro.
—Eu gostaria de uma corrida até o hotel onde ficarei hospedada. — Falei, entregando-lhe uma folha com o nome e endereço do hotel, que ele não pegou e sequer se deu ao trabalho de ler.
—Sim, sim. Este é o único da cidade. Posso levá-la até lá, de carro levaremos uns 15 minutos para chegar, é mais afastado e teremos de passar pelo centro antes de chegar lá.
—Ótimo. — Me limitei a responder. — O senhor teria como abrir o porta malas? — Perguntei, enquanto gesticulava em direção as minhas bagagens que estavam no chão ao meu lado. Ouvi um “clic” do porta malas se abrindo e apenas acenei a cabeça em agradecimento indo guardar as malas.
Ajeitei tudo o mais rápido que consegui, tendo a impressão que se levasse mais tempo que o necessário seria deixada para trás pelo taxista impaciente e não muito simpático a minha primeira impressão. Voltei esbaforida, e sentei-me no banco traseiro, atrás do banco do carona. Sempre preferia andar daquele lado, sem nenhum motivo aparente — a menos que eu tivesse TOC e não soubesse.
O homem deu partida no veículo e eu me pus a olhar pela janela. Adorava observar ambientes novos em minhas viagens. Naquela em particular estava ávida por mais visões, afinal tudo que pudesse me inspirar seria válido.
—E então, o que a traz até esta cidade? — Perguntou o homem, interrompendo meus devaneios. Olhei seu crachá que estava pendurado no espelho retrovisor e descobri que o mesmo se chama Arlindo. — Você claramente não é daqui, e por estar indo ao hotel em vez de pedir para ir a uma residência suponho que não tem parentes por essas bandas também.
—Eu vim...A trabalho. — Respondi. — Ou na verdade vim buscar inspiração pro meu trabalho.
O taxista apenas deu de ombros e dirigiu por mais uns 5 minutos em silêncio. Há esta altura já estávamos no centro da cidade. Não era nada demais, mas parecia ter tudo o necessário: Um mercado, uma farmácia, dois bancos e uma delegacia chamaram minha atenção.
—E no que você trabalha? — Perguntou ele, voltando a puxar assunto.
—Eu escrevo. — Falei, sem entrar em maiores detalhes.
Aquele pareceu ser o fim da conversa, então pude me dedicar em olhar pela janela do carro enquanto tentava formar um roteiro misterioso em minha mente. Como sempre me vinham mil ideias e, também como sempre, eu não fazia ideia de como poderia desenvolvê-las.
—É uma profissão diferente. -Falou ele. — Coisa de cidade grande! — concluiu, gargalhando levemente depois. Apenas dei uma leve risada, agradecendo quando estacionamos na frente do prédio que trazia na faixada o nome do hotel em que eu me hospedaria.
O homem parou o táxi e eu abri a porta, descendo do mesmo.
—Obrigada, Arlindo. Você teria um cartão? Caso eu precise de carona enquanto estiver pela cidade. — Falei, afinal não pareciam haver muitos táxis naquele lugar.
—Ta aqui, eu trabalho das 8 as 18, depois disso não adianta ligar. — Respondeu ele, entregando-me um cartão impresso em folha de ofício branca, onde havia apenas o seu nome e número de celular.
Apenas aquiesci com a cabeça, indo até o porta malas e retirando minhas malas, com um pouco — ou bastante — dificuldade. Pelo visto o hotel não tinha muitas regalias, vulgo ninguém para me ajudar com as malas.
Arlindo saiu com seu veículo assim que fechei o porta malas, me deixando com a incrível e difícil tarefa de arrastar minha mala pelo caminho de pedrinhas que levava a porta do hotel. As rodinhas das malas faziam um som esquisito que eu pude associar a “ossos se partindo”. É, talvez meu talento como escritora de suspense estivesse começando a aflorar.
Eu até já conseguia imaginar uma história onde um motorista de táxi tenta assassinar a passageira para ficar com suas joias e o mocinho a salva e ambos vivem felizes para sempre. Suspirei me repreendendo mentalmente, enquanto subia as escadas até o quarto que eu ficaria, após me registrar no hotel (Ainda estava em dúvidas se a mulher da recepção estava mascando chiclete ou remexendo sua dentadura dentro da boca enquanto me olhava com cara de tédio).
Eu realmente parecia não ter jeito. Porque eu não podia simplesmente deixar a principal ser assassinada pelo taxista? Qual é, ela nem era uma pessoa de verdade...e nem todos tem seu felizes para sempre. Eu sou a prova viva disso...quem mais aos 23 anos não tinha um marido — nem sequer um namorado, um longo (Talvez nem tanto) histórico de romances fracassados e mesmo assim teimava em escrever sobre casais felizes? Tudo bem que talvez Jane Austen tenha feito isso, mas não posso nem me comparar. Eu já deveria ter acordado para a vida.
Me joguei na cama antes mesmo de desfazer as malas. Em vez de minha chegada na cidade ser inspiradora eu sentia que cairia no choro a qualquer segundo, então melhor que fosse com estilo, deitada, fitando o teto branco de um hotel no meio do nada.
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